Lives de Ciência

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 30

Minhas anotações de Winter et al. 2015 sobre o efeito de apresentações de incertezas em textos sobre estudos científicos nas atitudes dos leitores. 
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Winter, S.; Krämer, N.C.; Rösner, L. & Neubaum, G. 2015. Don’t Keep It (Too) Simple: How Textual Representations of Scientific Uncertainty Affect Laypersons’ Attitudes. Journal of Language and Social Psychology 34(3): 251-72. doi: doi.org/10.1177/0261927X14555872.

Amostra: 78 adultos falantes de alemão (65 mulheres; 13 homens; idade: 40,27±6,04 anos), pais de filhos de ate 18 anos, recrutados via lista de emails e fóruns de discussão online para pais (incentivo de participação: sorteio quatro prêmios de 125 EUR em créditos para uso em site de e-commerce para os que fornecessem email válido em formulário à parte). Escolaridade: 32, nível superior; 26, ensino médio completo; 20, nível de escolaridade inferior ao ensino médio completo.

Textos: Os participantes foram designados aleatoriamente para lerem artigos científicos online, em forma de publicação de blog, sobre os efeitos de video games violentos sobre crianças e adolescentes de um de quatro diferentes níveis de expressões sobre incerteza científica.
.Unilateral/básico: Texto básico unilateral sobre os perigos dos jogos de computador em estilo relativamente neutro sem intensificadores ou palavras vagas ('hedges'): (p.e. 'Um estudo experimental mostrou que jogos realistas com conteúdos violentos podem aumentar o nível de agressão dos jogadores');
.Unilateral/taxativo('assertive'): Versão unilateral sobre os perigos dos jogos de computador com expressões assertivas (p.e. 'sem dúvida', 'Estudos recentes claramente demonstram que...') e intensificadores como 'definitivamente' ou 'altamente (perigosos)';
.Unilateral/vago('hedge'): Versão unilateral sobre os perigos dos jogos de computador com imprecisões lexicais 'lexicals hedges' (p.e. 'em parte', '[perigo] potencial' ou 'poderia') referindo-se a afirmações interpretativas bem como a sentenças curtas sobre as limitações (p.e. 'Foi mencionado que este estudo compara apenas três jogos específicos, significando que ainda há questões em aberto');
.Dois lados: Um outro argumento sobre os efeitos positivos dos jogos de computador foi incluído à versão unilateral vaga de modo que esta versão representa uma argumentação com ambos os lados. Para controlar o efeito da ordem de apresentação, metade dos participantes nesta condição recebeu o argumento pró no começo do texto e a outra metade recebeu o parágrafo adicional ao fim do texto.
.O conteúdo básico (introdução sobre o crescimento dos jogos de computador e três argumentos/parágrafos sobre os efeitos negativos) e os argumentos principais foram os mesmos em todas as condições.
.Estudo piloto prévio testou as forças dos argumentos para que não houvesse um desbalanço entre as versões.

Características dos leitores
.Necessidade de cognição ('need for cognition'): A tendência dos leitores em gostar de pensamentos complexos e se engajar neles foi medida com a escala NC de Cacioppo e Petty (1982): 16 itens como 'Eu somente penso tão profundamente quanto preciso' ('I only think as hard as I have to') (código-revertido) ou 'Eu realmente gosto de tarefa que envolve trazer novas soluções para os problemas', com respostas de 1 a 5. A média dos itens foi usada para produzir um escore NC (α de Cronbach = 0,82; M = 3,76±0,51).
.Crenças epistemológicas ('epistemological beliefs'): Para medir as visões sobre a natureza da ciência e do conhecimento dos participantes, foi usado o questionário de Hofer (2000) de crenças epistemológicas. Os participantes deveriam responder com o grau de concordância (1 = discorda totalmente; 5 = concorda totalmente). 8 itens da dimensão 'Certeza do conhecimento' (p.e. 'A verdade é imutável neste tema' ['Truth is unchanging in this subject'] Outras dimensões foram de justificação do conhecimento (4 items: p.e. 'Respostas corretas neste área são mais uma questão de opinião do que de fato'), fonte doconhecimento (4 itens: p.e. 'Às vezes você deve aceitar as respostas dos especialistas nesta área, mesmo se você não as entender') e se a verdade pode ser atingida (2 itens, p.e 'Os especialistas nesta área podem, no final, atingir a verdade').
.Nota: a consistência interna dessas subdimensões foram questionáveis.

Medidas das variáveis dependentes
.Avaliação dos textos pelos leitores
.8 itens de diferenciações semânticas ('semantic differentials'): não confiável-confiável ('credible'), baixa qualidade-alta qualidade; mal escrito-bem escrito; não útil-útil; desagradável-agradável ('likeable'), não compreensível-compreensível; ruim-bom; não recomendável-recomendável - em escala de 7 pontos).
.Os itens mostraram alta consistência interna:  α de Cronbach = 0,95.
.Não houve diferenças significativas na avaliação dos textos pelos leitores entre os tratamentos: todos consideraram-nos bons. Média = 5,53±1,12.
.Atitudes dos leitores em relação ao tópico
.Jogos de computador: 5 itens em escala de 7 pontos de grau de concordância: 'jogos de tiro em primeira pessoa como Counter-Strike deveriam ser proibidos', 'Jogos de computador têm efeitos negativos sobre crianças e adolescentes', 'Jogos de computador violentos treinam crianças e adolescentes para a violência', 'Jogos de computador violentos não são um probelma para o desenvolvimento dos adolescentes' (codificação reversa) e 'Gastar muito tempo no computador tem efeitos negativos no desempenho escolar das crianças'.
.α de Cronbach =0,71. Média = 5,01±1,15.
.Mídia violenta: 6 itens: 'Levando tudo em conta, penso que conteúdos violentas de mídia têm uma influência negativa sobre crianças e adolestentes', 'Conteúdos violentos de mídia aumentam a probabilidade de comportamento agressivo em crianças e adolescentes', 'Para mim, o consumo de conteúdos violentos de mídia é inofensivo' (codificação reversa), 'O consumo de conteúdos de mídia podem ter efeitos negativos sobre o desenvolvimento de crianças e adolescentes', 'Crianças e adolescentes não devem consumir conteúdos violentos de mídia' e 'O consumo de representações de violência na mídia pode ser razoável para crianças e adolescentes aliviarem a agressão' (codificação reversa).
.α de Cronbach =0,84. Média = 5,73±1,11.
.Consumo geral de mídia por crianças e adolescentes: 4 itens em escala de 7 pontos de diferenciais semânticos: não perigoso-perigoso, positivo-negativo, inofensivo-danoso ('harmless-harmful'), razoável-não razoável.
.α de Cronbach =0,91. Média = 3,98±1,09.

Resultados
.Os homens apresentaram uma visão menos negativa em relação aos jogos de computador do que as mulheres. No entanto, o tamanho amostral de homens foi relativamente baixo.
.Em indivíduos com maior necessidade por cognição, a apresentação de mais de um lado dos efeitos de jogos de computador levou a uma atitude menos negativa em relação a esses jogos. (b = −1,33±0,47, t = 2,85, p = 0,006). (Fig. 1.)
 
Figura 1. Efeito da apresentação unilateral (one-sided) ou dos dois lados (two-sided) dos efeitos de jogos de computadores violentos no comportamento de crianças e adolescentes em pessoas com baixa (low NC) e alta (high NC) necessidade por cognição. Fonte: Winter et al. 2015.

.Efeito similar foi observado entre os leitores com crenças epistemológicas mais sofisticadas. (b = −1,49±0,44, t = 3,41, p = 0,001). (Fig. 2.)
 
Figura 2. Efeito da apresentação unilateral (one-sided) ou dos dois lados (two-sided) dos efeitos de jogos de computadores violentos no comportamento de crianças e adolescentes em pessoas com crenças epistemológicas complexas ('sophisticated') e simples ('naive'). Fonte: Winter et al. 2015.


.Não se observou efeito significativo do uso de 'imprecisões lexicais' ('hedges') na atitude dos leitores.
.O texto unilateral assertivo apresentou um efeito negativo: diminuindo a atitude negativa dos leitores a respeito dos jogos violentos em relação ao controle. (β = -0,269; p = 0,049 - deve-se notar, no entanto, que os autores não parecem ter feito nenhuma correção do nível de significância em função das múltiplas comparações.)

domingo, 21 de agosto de 2016

Bibbidi-Bobbidi-Boo: vaias como varinhas de condão?

As vaias dirigidas pelo público ao atleta francês do salto com vara, Renaud Lavillenie, - tanto durante a prova, quanto na cerimônia de entrega de medalhas - repercutiram tanto nacional quanto internacionalmente. Certamente há considerações éticas que podem ser tecidas - embora a situação tenda a ser um tanto mais complexa do que o quadro traçado em algumas análises (especialmente as que operam em quadros de heróis e vilões bem definidos) -, mas não é o objetivo desta postagem.

As vaias são um elemento bastante comum e destacado no cenário esportivo. Torcedores, especialmente em modalidades de equipes e as disputadas um contra um, valem-se de aplausos, gritos e sonorizações de desaprovação.Curiosamente, a despeito de sua frequência e relevo, parece haver poucos estudos a analisar mais especificamente os efeitos dessas manifestações vocais negativas da plateia sobre o desempenho desportivo.

O único específico sobre a vaia que encontrei no Google Scholar foi Greer 1983 (pode haver mais e seja apenas falha minha em achar estudos sobre os efeitos da vaia nos atletas). Ele analisou alguns parâmetros de equipes de basquete - times da casa e times visitantes - logo após episódios de vaia (geralmente contra marcações da arbitragem). O time visitante tende a ter um aumento significativo da taxa de faltas nos 5 minutos seguintes aos apupos. Outros parâmetros considerados não apresentaram alterações significativas, embora a tendência tenha sido sempre de melhor desempenho da equipe da casa e um pior da visitante.

Clayman 1993 analisou a vaia em outro contexto: em reação a discursos. Como manifestação coletiva, a varia difere do aplauso em seus padrões de manifestação. O aplauso tende a surgir logo após trechos proeminentes do discurso e, de início, com os manifestantes atuando de modo independente. Já a vaia tende a ocorrer após um intervalo em que os membros avaliam a reação dos demais (verificando sinais de desaprovação - como balançar de cabeças, expressões.faciais de contrariedade, murmúrios...).

Nevill et al. 2002 estudaram não especificamente a vaia, mas o barulho das torcidas de futebol (o que inclui cânticos, xingamentos, gritos) sobre a decisão dos árbitros. A conclusão é que torcida barulhenta faz com que os juízes se tornem caseiros. Myers 2014 chega à mesma conclusão - e de modo generalizado para todos os esportes - em sua revisão sobre a influência do barulho da torcida na decisão dos árbitros esportivos. Thirer & Rampsey 1979 observaram o desempenho de equipes universitárias de basquete após manifestações negativas da torcida e obtiveram um resultado oposto ao que seria obtido por Greer 1983 para as vaias: após os episódios de comportamentos antissociais, o time da casa apresentou um número maior de faltas, enquanto o time visitante não apresentou alteração.

Epting et al. 2011 examinaram os incentivos e as zombarias da torcida sobre a performance individual de atletas. O efeito parece variar de esporte para esporte. Jogadores universitários de basquete não têm o desempenho nos lances livres afetado seja pela torcida contra seja pela torcida contra; jogadores de beisebol são afetados negativas em seus lançamentos por zombarias da torcida; já jogadores de golfe tendem a errar suas tacadas tanto por manifestações de apoio quanto por troças.

Lavillenie pode ter, assim, razão em sua reclamação de que as varias afetaram seu desempenho, mas barulhos - incluindo varias (e até para o time da casa) - estiveram e estão presentes em várias outras modalidades. Por outro lado, há variação nos ethos admitidos em cada esporte: no tênis espera-se silêncio da torcida entre o saque e a definição do ponto; no golfe, o silêncio absoluto durante preparação e execução da tacada... No futebol, o barulho é esperado o tempo todo - a menos do minuto de silêncio antes do início de algumas partidas, ou o silêncio sepulcral diante uma derrota inesperada e sentida do time da casa; basquete, beisebol, andebol, futsal, vôlei e outros são também jogados diante de torcidas barulhentas o tempo todo. Mas em nenhuma dessas há um regulamento (mesmo que não escrito) de que apenas sons de incentivo possam ser emitidos. Haveria que se fazer exceção ao atletismo? Bem, mas isso dificilmente pode ser respondido por números, quantificações de desempenho e análises estatísticas.

domingo, 7 de agosto de 2016

Especulando: revisitando o efeito Dunning-Kruger

Em 1999, os pesquisadores Justin Kruger e David Dunning, da Universidade de Cornell, publicaram um trabalho seminal (com 2.872 citações até o momento em que escrevo este texto, segundo o Google Scholar) em que descrevem o fenômeno em que pessoas que se saem pior em um teste tendem a superestimar seu desempenho - enquanto os com melhores resultados tendem a subestimar (Fig. 1). Essa relação passou a ser conhecida como efeito Dunning-Kruger.

Figura 1. Efeito Dunning-Kruger. Quanto pior o desempenho real (linha tracejada), maior a superestimativa da própria habilidade (linha contínua). Fonte: Kruger & Dunning 1999.


Para os autores do achado, o efeito seria dado em boa parte por um déficit metacognitivo (isto é, habilidades mentais de perceber o próprio grau de conhecimento): quando uma pessoa não tem conhecimento suficiente sobre um tema, também não tem as ferramentas mentais para avaliar o grau de conhecimento nesse tema. (Também formulado como "ignorância a respeito da própria ignorância".)

Mas (devo salientar que psicologia *não* é minha área de formação), para mim, esse mecanismo deveria levar também - e principalmente - a uma maior *variação* da própria percepção do desempenho: a falta de ferramentas cognitivas faria com que errassem o resultado tanto para mais quanto para menos. Em uma analogia, uma pessoa com pouca habilidade em tiro ao alvo, após uma série de tiros, acertaria vários pontos espalhados em torno da mosca.

Por outro lado, a diferença entre os valores de autoavaliação dos grupos com melhor e pior desempenho é menor do que a diferença entre os desempenhos reais. E, como dito, os com melhor desempenho tendem a subestimar seu próprio resultado. Pode ser que um mecanismo que faça com que as pessoas tendam a se equiparar à média esteja agindo.

Infelizmente, no artigo original, K&D não apresentam dados de dispersão dos valores em torno dos pontos, apenas valores de medida de tendência central. (Vários outros estudos, e não apenas do grupo de Krueger e Dunning, também deixam de reportar medidas de dispersão.)

Mas Pazicni & Bauer (2014) reproduziram o estudo de K&D com estudantes de química em 9 turmas (Fig 2). A distribuição das médias de desempenho percebido parece bem homogênea entre os estudos para os diferentes quartis de desempenho real.

Figura 2. Efeito Dunning-Kruger em 9 turmas de Introdução à Química. Linhas coloridas: previsões de desempenho; linha preta: desempenho real. Fonte: Pazcini & Bauer 2014.

Essa variação homogênea das médias das estimativas para diferentes quartis de desempenho não é muito compatível com um efeito predominante da falha metacognitiva.

Vale notar também que o efeito pode variar de acordo com a área do conhecimento (Fig. 3). O que indica que não seria um mecanismo geral de metacognição.

Figura 3. Variação do efeito Dunning-Kruger de acordo com as disciplinas. Linhas coloridas: previsões; linha preta tracejada: desempenho real. Fonte: Erickson & Heit 2015.



Reproduções independentes (residentes de medicina Hodges et al. 2001, estudantes de aviação Pavel et al.2012) parecem indicar que o efeito é real. Mas há divergência em relação ao mecanismo gerador do padrão. P.e. Krueger & Mueller (2002) acham que o efeito pode resultar de um artefato estatístico; para Krajc & Ortmann (2007), há uma diferença no nível de dificuldade de inferência, sendo mais difícil para os de menor desempenho; Simons (2013) considera que o efeito DK ou "incompetente e inconsciente" ("unskilled and unaware") é em função de um otimismo irracional por parte dos menos habilitados; segundo Kim et al. (2015), os menos capazes ativamente rejeitam essa condição por autopreservação da imagem.

*Um estudo de Jansen et al. (2021) com cerca de 3.500 participantes respondendo a testes de gramática e de lógica indica que o efeito parece se dever mesmo a fatores de metacognição. A distribuição dos valores e a dispersão das previsões em relação a níveis de desempenho é mais compatível com a discrepância das previsões dependerem da capacidade medida dos respondentes.

Figura 5. Variação da estimativa pelo desempenho real em teste de gramática (painéis superiores) e lógica (painéis inferiores), por pontuação real (painéis a) e por quartis (painéis b).

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Agradeço a @EliVieira pela ajuda na bibliografia.

*Upideite(02/05/2022): adido a esta data. HT Carlos Orsi via twitter.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A persistência do mito da tortura funcional

Felizmente, a maioria dos brasileiros (71%) acham que a tortura não se justifica sob nenhuma circunstância. Infelizmente, uma minoria nada desprezível (21%) acreditam que a tortura se justifique para obter provas (ao menos se for a única maneira de obtê-las) e punir criminosos. Isso segundo os dados do Datafolha de 2014.

Mas, deixando de lado (de modo mais do que imprudente - e até impudente) por um instante a questão ética, a tortura é um meio eficaz de se combater a criminalidade? Os dados indicam que não.

"It is commonly believed that torture is an effective tool for combating an insurgent threat. Yet while torture is practiced in nearly all counterinsurgency campaigns, the evidence documenting torture’s effects remains severely limited. This study provides the first micro-level statistical analysis of torture’s relation to subsequent killings committed by insurgent and counterinsurgent forces. The theoretical arguments contend that torture is ineffective for reducing killings perpetrated by insurgents both because it fails to reduce insurgent capacities for violence and because it can increase the incentives for insurgents to commit future killings. The theory also links torture to other forms of state violence. Specifically, engaging in torture is expected to be associated with increased killings perpetrated by counterinsurgents. Monthly municipal-level data on political violence are used to analyze torture committed by counterinsurgents during the Guatemalan civil war (1977–94). Using a matched-sample, difference-in-difference identification strategy and data compiled from 22 different press and NGO sources as well as thousands of interviews, the study estimates how torture is related to short-term changes in killings perpetrated by both insurgents and counterinsurgents. Killings by counterinsurgents are shown to increase significantly following torture. However, torture appears to have no robust correlation with subsequent killings by insurgents. Based on this evidence the study concludes that torture is ineffective for reducing insurgent perpetrated killings." (Sullivan 2014)
["Acredita-se comumente que a tortura seja uma ferramenta eficaz no combate à ameaça insurgente. No entanto, embora a tortura seja pratica em quase todas as campanhas de contra-insurgência, os indícios documentando os efeitos da tortura permanecem seriamente limitados. Este estudo fornece a primeira análise estatística em micronível da relação entre a tortura e as mortes subsequentes cometidas por forças insurgentes e contra-insurgentes. Os argumentos teóricos defendem que a tortura é ineficaz na redução de mortes perpetradas por insurgentes tanto porque ela falha em reduzir a capacidade dos insurgentes para a violência quanto porque ela pode aumentar os incentivos para os insurgentes cometerem futuras mortes. A teoria também liga a tortura a outras formas de violência de Estado. Especificamente, ao engajamento na tortura é esperado associar-se um aumento nas mortes perpetradas por contra-insurgentes. Dados mensais em nível municipal de violência policial são usados para analisar a tortura cometida por contra-insurgentes durante a Guerra Civil Guatemalteca (1977-94). Com o uso de amostras-pareadas, estratégia de identificação por diferença em diferença e dados compilados por 22 diferentes fontes da imprensa e ONGs, bem como milhares de entrevistas, o estudo estima como a tortura é relacionada a mudanças de curto prazo nas mortes perpetradas tanto por insurgentes quanto por contra-insurgentes. É demonstrado que mortes por contra-insurgentes aumenta significativamente após tortura. No entanto, a tortura parece não ter nenhuma correlação robusta com mortes subsequentes por insurgentes. Baseado nesses indícios, o estudo conclui que a tortura é um meio ineficaz na redução de mortes perpetradas por insurgentes."]

Hajja (2009) em uma revisão intitulada "Does torture work? A sociolegal assessment of the practice in historical and global perspective" conclui: "At a very high cost, the U.S. case confirms that torture does not work by any measure. No modern regime or society is more secure as a result of torture. Its use spreads, its harms multiply, and its corrosive consequences boost rather than diminish the threat of terrorism. Nunca más, indeed." ["A um custo muito alto, os casos americanos [como a tortura em Abu Ghraib e outras na chamada 'guerra ao terror'] confirmam que a tortura não funciona em nenhuma medida. Nenhum regime ou sociedade modernos estão mais seguros em função da tortura. Seu uso espalha, seu dano multiplica e suas consequências corrosivas impulsionam em vez de diminuir a ameaça do terrorismo. Nunca más, de fato." - grifo no original]

Houck et al (2014) obtiveram em um conjunto de dois experimentos um resultado não surpreendente de que a crença na eficácia da tortura tende a aumentar quando, em avaliações de cenários hipotéticos, as vítimas são mais próximas aos sujeitos experimentais.

Janoff-Bulman (2007) apresenta (4) quatro causas principais para a persistência do mito de eficácia da tortura na obtenção de informações úteis no combate ao crime.

1) Confusão entre conformidade (compliance) e exatidão (accuracy): métodos de intimidação e tortura geram medo e necessidade de autoproteção, o que induz o interrogado a rapidamente concordar com tudo o que o interrogador/torturador disser. A investigação, no entanto, não deve ser uma ação de obtenção de submissão pré-especificada, mas, sim, a obtenção de novas informações confiáveis. (Aqui me vêm à mente a piada do campeonato mundial de investigação. A Scotland Yard, o FBI e uma força policial estadual de um certo país tropical abençoado por deus - FPEPTAD - disputaram para ver quem tinha os melhores métodos de solução de casos. Para cada um deles foi liberado um coelho que deveriam rastrear e trazer de volta à comissão julgadora. A Scotland Yard foi a primeira. Seus agentes saíram distribuindo panfletos com foto do coelho, analisando pegadas, fazendo exame de ADN nos pelos encontrados e, em 4 dias, voltaram com o leporídeo. O FBI foi em seguida. Usando equipamento de termografia e rastreamento por satélite, voltaram com lagomorfo em 3 dias. A PM FPEPTAD, na sua vez, saiu em disparada mato adentro e, em duas horas, voltou com um animal ensanguentado e cheio de lacerações e marcas de queimadura por toco de cigarro pelo corpo. O bicho grunhia. Seu focinho de tomada e o rabicó em saca-rolhas não deixavam dúvidas para a comissão julgadora. "Mas isso é um porco!", exclamou um dos jurados. "Não, não, é um coelho. Quer ver só?", insistiu um dos membros da FPEPTAD. Dando uma cacetada na cabeça do porco animal: "Diz pro senhor aí o que você é?". "Eu sou um coelho, eu sou um coelho", respondia o porco coelho.)

2) Achar que aplicação de influência social deve ser apenas para "humanos", a tortura pode ser aplicada para os "desumanizados". O bom interrogatório pouco mais é do que a psicologia social aplicada. Há vários métodos de estabelecimento de influência social, baseados no correto entendimento dos motivos, necessidades e autopercepções do suspeito, com a criação de vínculo de confiança mútua entre interrogador e interrogado. Muitas pessoas imaginam que isso só funciona para pessoas "de bem", para pessoas cruéis como terroristas técnicas igualmente cruéis devem, para elas, ser utilizadas. (Uma frase que vêm à mente é o mantra conservador: "direitos humanos para humanos direitos".)

3) Subestimação da resistência. Ao imaginar cenas de dor excruciantes, as pessoas tendem a imaginar que elas logo cederiam e, projetando-se para os interrogados, eles também rapidamente acederiam para parar a dor. Porém, ao dar atenção apenas para o aspecto mais saliente - a dor física -, deixamos de lado a existência de elementos mais sutis que permitem ao interrogado resistir ao suplício sem entregar nenhuma informação - nem mesmo uma falsa. Processos dissociativos - em que a pessoa deixa de associar o corpo a estados mentais - podem proteger psicologicamente o torturado minimizando a dor sentida. Outro processo de resistência é o torturado desenvolver um significado de alto valor ao sofrimento. (A imagem do suplício da personagem bíblica Jó e mesmo de Josué de Nazaré dão conta do segundo caso. Inspirando diversos mártires ao longo do tempo. Outra imagem associada são das autoimolações em atos de protestos e de expressão de fé.)

4) Mudança de objetivo para a vingança pura e simples. Quanto mais danosa é a imagem que se faz da pessoa a ser interrogada: sujeito frio, cruel, assassino, sádico, psicopata... maior a propensão das pessoas a se desviarem do objetivo da obtenção de informações úteis. Esse parece ser o caso de parte dos 21% de brasileiros que dizem que a tortura pode ser usada para punir um criminoso.

Janoff-Bulman reforça que depoimentos de interrogadores militares mais experientes e os anos de pesquisa apontam para a eficácia dos métodos de influência social por trabalhos de inteligência. Nesse caso, o uso continuado de técnicas de tortura no processo investigatório não é a prova de que elas funcionam, mas sim de que as pessoas continuam *achando* que funcionam.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Como é que é? - Pratos azuis diminuem o apetite?

Já havia me manifestado antes contra esses perfis de fatos curiosos, pouco conhecidos, etc. que com frequência maior do que o limite da confiabilidade recomendaria publicam informações falsas e errôneas - principalmente porque raramente corrigem suas publicações depois de alertas sobre os erros.

Há um mito bastante disseminado relacionando cores e apetites. Não que não haja nenhuma relação, mas com frequência as cores relacionadas e seus efeitos são invertidos ou têm seus efeitos exagerados.

Um desses perfis de fatos curiosos diz que a cor azul desestimula o apetite por ser uma cor incomum para alimentos humanos, o que causaria uma resposta de evitação pelo cérebro.

Figura 1. Postagem desinformativa (esquerda). Real valor (direita). (Sim, piada repetida. mas os erros se repetem também.)

Parece fazer sentido, mas...

Antes do "mas", cabe observar que é algo que vemos e ouvimos não apenas na imprensa leiga como até na especializada de divulgação científica. O sítio web M de Mulher de agosto de 2012 traz em uma matéria com dicas para emagrecer: "A cromoterapia garante: a cor azul é supressora de apetite. Hora de investir em porcelanas, guardanapos e jogos americanos azuis. A cor calmante faz você comer mais devagar, o que ajuda a perceber quando está satisfeita." A ligação com a cromoterapia, prática dentro da chamada "medicina alternativa complementar", considerada por muitos (inclusive o autor do GR) como sem base científica apropriada, é suspeita.

A revista Superinteressante, no início, antes de se perder em bobagens pseudocientíficas descaradas, publicava em sua edição de fevereiro de 1988: "Imagine quatro fotografias de um mesmo prato. Toda a diferença está no fundo. Sobre o branco, parece uma insossa refeição de hospital. O verde também corta a fome, porque chama mais a atenção que a própria comida. O violeta esfria o prato. Sobre o vermelho, porém, o filé parece suculento, os legumes mais tenros — sem dúvida, esta é a foto que mais impressiona. Ao vê-la, alguém é bem capaz de correr à geladeira ou dar um pulo à lanchonete mais próxima."

No segundo episódio do programa Crowd Control exibido pela National Geographic em dezembro de 2014 (no Brasil é conhecido como "Repense sua Rotina"): "Food for Thought" é apresentado a mesma história sobre a cor azul ser inibidora de apetite. "Blue is an appetite suppressant, other than blueberries, there’s hardly any naturally occurring blue food, so we don’t have a hunger response to that color." ["O azul é um inibidor de apetite, além de mirtilos, dificilmente encontramos alimentos azuis na natureza, assim não temos nenhuma resposta a essa cor."]

Afora haver diferença entre ser inibidor (uma resposta negativa) e não haver nenhuma resposta (ausência de resposta), parece fazer sentido, mas...

Ok, acho que esses exemplos são o suficientes para demonstrar a disseminação e a continuidade do mito. Mas... mas isso é mito.

Na realidade há poucos estudos publicados a respeito da relação entre cores do ambiente (ou dos alimentos) e o apetite ou a quantidade ingerida. Os poucos que existem, porém, contam uma história bem diferente.

Piqueras-Fiszman & Spence 2014 fizeram uma revisão desses estudos: "Regarding the effect of certain colours of the extrinsic elements of food on people’s intake, it is worth considering the fact that the colour red has been shown to elicit avoidance motivation across a variety of behavioural contexts (e.g., Birren, 1963; Mehta & Zhu, 2009; though Singh, 2006, once reported that red stimulates appetite). Several studies have investigated the effect that the colour red has on the consumption of both snack foods and soft drinks (e.g., Genschow, Reutner, & Wanke, 2012). For instance, the participants in Genschow et al.’s study drank less from a cup with a red label than from a cup with a blue label. They also ate less snack food from a red plate than from a blue or white one. The authors concluded that red might function as a subtle stop signal that works even outside of a person’s focused awareness and may thereby reduce incidental food and drink intake (cf. Kulman, 2001, for a possible environment in which to apply such findings). Meanwhile, Bruno, Martani, Corsini, and Oleari (2013) extended this line of research by looking further into this intriguing phenomenon, demonstrating that red plates reduced the consumption of food (and the use of hand cream), while, interestingly, the samples from all the plates were rated as being similarly liked. In addition, Bruno et al. also demonstrated that their results were not dependent on the Michelson (luminance) contrast nor on the colour contrast either, leaving them to suggest that it might simply be the meaning of avoidance associated with the colour red (of the plate) that was influencing people in those conditions." ["A respeito do efeito de certas cores de elementos extrínsecos dos alimentos - i.e., pratos, talheres, ambientes e outras coisas em volta que não os alimentos em si - sobre a ingestão pelas pessoas, vale considerar o fato que se demonstrou que a cor vermelha ativa a motivação de evitação em uma variedade de contextos comportamentais (e.g., Birren, 1963; Mehta & Zhu, 2009; embora Singh, 2006, tenha reportado uma vez que o vermelho estimula o apetite). Vários estudos investigaram o efeito da cor vermelha sobre o consumo tanto de petiscos quanto de refrescos (e.g., Genschow et al. 2012). Por exemplo, os participantes no estudo de Genschow et al. beberam menos de uma xícara marcada com etiqueta vermelha do que de uma xícara com etiqueta azul. Eles também comeram menos petiscos de um prato vermelho do que de um prato azul ou branco. Os autores concluíram que o vermelho pode funcionar como um sinal sutil de parada que funciona mesmo fora da consciência focada da pessoa e pode, assim, reduzir a ingestão incidental de alimentos e bebidas (cf. Kulman, 2001, por um possível ambiente no qual se aplicar esses achados). Enquanto isso, Bruno et al. 2014, estenderam essa linha de pesquisa observando mais atentamente esse intrigante fenômeno, demonstraram que pratos vermelhos reduzem o consumo de alimentos (e o uso de cremes para mãos), enquanto, interessante, amostras de todos os pratos foram classificados como sendo similarmente apreciados. Além disso, Bruno et al., demonstraram também que seus resultados não dependiam do contraste de luminância de Michelson, nem do contraste de cores, fazendo-os sugerirem que isso pode ser simplesmente o significado da evitação associada com a cor vermelha (do prato) a influenciar as pessoas nessas condições."]

Qual o tamanho do efeito inibidor do vermelho?

No estudo de Genschow et al. 2012, a 41 estudantes universitários (todos do sexo masculino) foram oferecidos refrescos de chá (três sabores) em copos de 300 ml. A média de consumo dos copos azuis foi de 57,24±41.74 ml; dos vermelhos: 33,59±22,21 ml. Durante um encontro público na universidade, ao qual compareceram 130 pessoas (52 homens, 72 mulheres, 6 sem sexo informado), foram oferecidos pretzels em pratos azuis, vermelhos e brancos. Dos pratos azuis, a média de consumo foi de: 3,00±3,08 pretzels, dos brancos 2,91±2,98 e dos vermelhos: 1,57±2,29.

No estudo de Bruno et al. 2013, os voluntários eram divididos em três grupos e após experimentarem os produtos, deveriam preencher um questionário com sua avaliação sensória. 90 alunos (45 mulheres) - 30 em cada grupo - comeram uma média de  6,7±0,7 pipocas do prato azul; 7,3±0,7 do prato branco e 4,8±0,7 do vermelho. 75 alunos (45 mulheres) - 25 em cada grupo - consumiram 4,3±0,5 g de chocolate no prato azul; 3,3±0,5 g do branco e  2,3±0,4 g do vermelho. 75 alunos (39 mulheres) - 25 em cada grupo - usaram uma média de 1,9±0,2 g de creme para as mãos do prato azul; 1,8±0,2 g do branco e 1,0±0,1 g do vermelho.

Há uma redução de 30 a 50% no consumo com pratos ou copos vermelhos em relação a pratos e copos azuis ou brancos.

Então, aparentemente, há um aefeito da cor no consumo de bebidas e alimentos. Mas *não* parece haver efeito inibidor pela cor azul, nem estimulante pela cor vermelha: ao contrário, a cor vermelha parece inibir o consumo. O azul parece não ser diferente em relação ao branco.

Se for isso mesmo, (bom frisar novamente: os estudos ainda são esparsos, mesmo que consistentes) é uma má notícia para aquela rede de lanchonetes de arcos dourados.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Triunidos erraremos: como NÃO evoluiu o cérebro humano

A Folha Online fez uma resenha do novo livro do físico Leonard Mlodinow: "Subliminar", que destaca o papel do inconsciente e subconsciente nas decisões e escolhas humanas.

Não li o livro. E não contesto a tese (discutida, aliás, na entrevista da Suzana Herculano-Houzel ao Roda Viva).

Acho estranho é o infográfico que acompanha a reportagem-resenha, cujo texto reproduzo abaixo:

"Os três cérebros: Cada parte do órgão tem funções específicas.

1. Reptiliano: Região primitiva presente em vertebrados (aves, répteis, anfíbis, peixes e mamíferos). É responsável por funções de sobrevivência: atividade de órgãos ou reflexos como fugir

2. Sistema límbico. Áreas relacionadas à percepção social inconsciente, à regulação de emoções, aos relacionamentos e ao impulso sexual. Comum a todos os mamíferos.

3. Neocórtex. Massa cinzenta que diferencia os humanos de outros seres vivos. É o lugar relacionado à consciência e ao raciocínio lógico.

Fonte: Leonardo Mlodinow, físico autor de 'Subliminar'"

É basicamente a Teoria do Cérebro Triuno de Paul D. MacLean. Pela teoria, o cérebro humano reflete as relações de ancestralidades carregando estruturas formadas sequencialmente durante sua evolução, com três estágios de estabilidade relativamente longa da evolução do cérebro vertebrado refletindo-se na estruturação do cérebro humano.

A teoria de MacLean tem seus (sérios) problemas, mas o texto acima do infográfico tem mais.

Há questões quase semânticas como o uso do termo primitivo; outras mais graves envolvem erros factuais: o sistema límbico é, de fato, comum a todos os mamíferos, mas não quer dizer que *apenas* mamíferos os tenha, répteis têm também sistema límbico. De fato, Bruce e Neary (1995) concluem que o ancestral em comum dos mamíferos e répteis teria já um sistema límbico bem desenvolvido.

Tampouco o neocórtex é exclusivo de seres humanos, como é dado a entender do texto. Um neocórtex com 6 camadas de células já estaria presente nos primeiros mamíferos (Northcutt e Kaas, 1995). De fato, em humanos é uma camada bem desenvolvida e convoluta. Mas o de golfinhos também é bem desenvolvido (vide, p.e., Figura 2 de Krubitzer e Kahn, 2003).

Mesmo que dividamos o cérebro de humanos nessas três grandes estruturas, elas estava presentes já nos primeiros mamíferos (na verdade já no ancestral em comum entre répteis e mamíferos) - a diferença do cérebro humano, então, reside, não na estruturação, mas na organização e tamanho.

O infográfico credita as informações ao texto de Mlodinow. Se assim for, é um ponto fortemente negativo para o físico. Seu "O Andar do Bêbado" é muito bom e recomendo. Mas, embora não tenha lido "Subliminar", se ele se baseia na teoria do cérebro triuno, torço mesmo o nariz que não tenho.

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