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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A persistência do mito da tortura funcional

Felizmente, a maioria dos brasileiros (71%) acham que a tortura não se justifica sob nenhuma circunstância. Infelizmente, uma minoria nada desprezível (21%) acreditam que a tortura se justifique para obter provas (ao menos se for a única maneira de obtê-las) e punir criminosos. Isso segundo os dados do Datafolha de 2014.

Mas, deixando de lado (de modo mais do que imprudente - e até impudente) por um instante a questão ética, a tortura é um meio eficaz de se combater a criminalidade? Os dados indicam que não.

"It is commonly believed that torture is an effective tool for combating an insurgent threat. Yet while torture is practiced in nearly all counterinsurgency campaigns, the evidence documenting torture’s effects remains severely limited. This study provides the first micro-level statistical analysis of torture’s relation to subsequent killings committed by insurgent and counterinsurgent forces. The theoretical arguments contend that torture is ineffective for reducing killings perpetrated by insurgents both because it fails to reduce insurgent capacities for violence and because it can increase the incentives for insurgents to commit future killings. The theory also links torture to other forms of state violence. Specifically, engaging in torture is expected to be associated with increased killings perpetrated by counterinsurgents. Monthly municipal-level data on political violence are used to analyze torture committed by counterinsurgents during the Guatemalan civil war (1977–94). Using a matched-sample, difference-in-difference identification strategy and data compiled from 22 different press and NGO sources as well as thousands of interviews, the study estimates how torture is related to short-term changes in killings perpetrated by both insurgents and counterinsurgents. Killings by counterinsurgents are shown to increase significantly following torture. However, torture appears to have no robust correlation with subsequent killings by insurgents. Based on this evidence the study concludes that torture is ineffective for reducing insurgent perpetrated killings." (Sullivan 2014)
["Acredita-se comumente que a tortura seja uma ferramenta eficaz no combate à ameaça insurgente. No entanto, embora a tortura seja pratica em quase todas as campanhas de contra-insurgência, os indícios documentando os efeitos da tortura permanecem seriamente limitados. Este estudo fornece a primeira análise estatística em micronível da relação entre a tortura e as mortes subsequentes cometidas por forças insurgentes e contra-insurgentes. Os argumentos teóricos defendem que a tortura é ineficaz na redução de mortes perpetradas por insurgentes tanto porque ela falha em reduzir a capacidade dos insurgentes para a violência quanto porque ela pode aumentar os incentivos para os insurgentes cometerem futuras mortes. A teoria também liga a tortura a outras formas de violência de Estado. Especificamente, ao engajamento na tortura é esperado associar-se um aumento nas mortes perpetradas por contra-insurgentes. Dados mensais em nível municipal de violência policial são usados para analisar a tortura cometida por contra-insurgentes durante a Guerra Civil Guatemalteca (1977-94). Com o uso de amostras-pareadas, estratégia de identificação por diferença em diferença e dados compilados por 22 diferentes fontes da imprensa e ONGs, bem como milhares de entrevistas, o estudo estima como a tortura é relacionada a mudanças de curto prazo nas mortes perpetradas tanto por insurgentes quanto por contra-insurgentes. É demonstrado que mortes por contra-insurgentes aumenta significativamente após tortura. No entanto, a tortura parece não ter nenhuma correlação robusta com mortes subsequentes por insurgentes. Baseado nesses indícios, o estudo conclui que a tortura é um meio ineficaz na redução de mortes perpetradas por insurgentes."]

Hajja (2009) em uma revisão intitulada "Does torture work? A sociolegal assessment of the practice in historical and global perspective" conclui: "At a very high cost, the U.S. case confirms that torture does not work by any measure. No modern regime or society is more secure as a result of torture. Its use spreads, its harms multiply, and its corrosive consequences boost rather than diminish the threat of terrorism. Nunca más, indeed." ["A um custo muito alto, os casos americanos [como a tortura em Abu Ghraib e outras na chamada 'guerra ao terror'] confirmam que a tortura não funciona em nenhuma medida. Nenhum regime ou sociedade modernos estão mais seguros em função da tortura. Seu uso espalha, seu dano multiplica e suas consequências corrosivas impulsionam em vez de diminuir a ameaça do terrorismo. Nunca más, de fato." - grifo no original]

Houck et al (2014) obtiveram em um conjunto de dois experimentos um resultado não surpreendente de que a crença na eficácia da tortura tende a aumentar quando, em avaliações de cenários hipotéticos, as vítimas são mais próximas aos sujeitos experimentais.

Janoff-Bulman (2007) apresenta (4) quatro causas principais para a persistência do mito de eficácia da tortura na obtenção de informações úteis no combate ao crime.

1) Confusão entre conformidade (compliance) e exatidão (accuracy): métodos de intimidação e tortura geram medo e necessidade de autoproteção, o que induz o interrogado a rapidamente concordar com tudo o que o interrogador/torturador disser. A investigação, no entanto, não deve ser uma ação de obtenção de submissão pré-especificada, mas, sim, a obtenção de novas informações confiáveis. (Aqui me vêm à mente a piada do campeonato mundial de investigação. A Scotland Yard, o FBI e uma força policial estadual de um certo país tropical abençoado por deus - FPEPTAD - disputaram para ver quem tinha os melhores métodos de solução de casos. Para cada um deles foi liberado um coelho que deveriam rastrear e trazer de volta à comissão julgadora. A Scotland Yard foi a primeira. Seus agentes saíram distribuindo panfletos com foto do coelho, analisando pegadas, fazendo exame de ADN nos pelos encontrados e, em 4 dias, voltaram com o leporídeo. O FBI foi em seguida. Usando equipamento de termografia e rastreamento por satélite, voltaram com lagomorfo em 3 dias. A PM FPEPTAD, na sua vez, saiu em disparada mato adentro e, em duas horas, voltou com um animal ensanguentado e cheio de lacerações e marcas de queimadura por toco de cigarro pelo corpo. O bicho grunhia. Seu focinho de tomada e o rabicó em saca-rolhas não deixavam dúvidas para a comissão julgadora. "Mas isso é um porco!", exclamou um dos jurados. "Não, não, é um coelho. Quer ver só?", insistiu um dos membros da FPEPTAD. Dando uma cacetada na cabeça do porco animal: "Diz pro senhor aí o que você é?". "Eu sou um coelho, eu sou um coelho", respondia o porco coelho.)

2) Achar que aplicação de influência social deve ser apenas para "humanos", a tortura pode ser aplicada para os "desumanizados". O bom interrogatório pouco mais é do que a psicologia social aplicada. Há vários métodos de estabelecimento de influência social, baseados no correto entendimento dos motivos, necessidades e autopercepções do suspeito, com a criação de vínculo de confiança mútua entre interrogador e interrogado. Muitas pessoas imaginam que isso só funciona para pessoas "de bem", para pessoas cruéis como terroristas técnicas igualmente cruéis devem, para elas, ser utilizadas. (Uma frase que vêm à mente é o mantra conservador: "direitos humanos para humanos direitos".)

3) Subestimação da resistência. Ao imaginar cenas de dor excruciantes, as pessoas tendem a imaginar que elas logo cederiam e, projetando-se para os interrogados, eles também rapidamente acederiam para parar a dor. Porém, ao dar atenção apenas para o aspecto mais saliente - a dor física -, deixamos de lado a existência de elementos mais sutis que permitem ao interrogado resistir ao suplício sem entregar nenhuma informação - nem mesmo uma falsa. Processos dissociativos - em que a pessoa deixa de associar o corpo a estados mentais - podem proteger psicologicamente o torturado minimizando a dor sentida. Outro processo de resistência é o torturado desenvolver um significado de alto valor ao sofrimento. (A imagem do suplício da personagem bíblica Jó e mesmo de Josué de Nazaré dão conta do segundo caso. Inspirando diversos mártires ao longo do tempo. Outra imagem associada são das autoimolações em atos de protestos e de expressão de fé.)

4) Mudança de objetivo para a vingança pura e simples. Quanto mais danosa é a imagem que se faz da pessoa a ser interrogada: sujeito frio, cruel, assassino, sádico, psicopata... maior a propensão das pessoas a se desviarem do objetivo da obtenção de informações úteis. Esse parece ser o caso de parte dos 21% de brasileiros que dizem que a tortura pode ser usada para punir um criminoso.

Janoff-Bulman reforça que depoimentos de interrogadores militares mais experientes e os anos de pesquisa apontam para a eficácia dos métodos de influência social por trabalhos de inteligência. Nesse caso, o uso continuado de técnicas de tortura no processo investigatório não é a prova de que elas funcionam, mas sim de que as pessoas continuam *achando* que funcionam.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como é que é? - É perigoso voar em 17 de julho?

O portal Terra, em razão da queda (por possível abate) do voo MH17 da Malaysia Airlines (a mesma empresa que teve um avião desaparecido entre Kuala Lumpur e Beijing), que fazia a rota entre Amsterdã e a capital malaia, fez um levantamento de outros acidentes na mesma data de 17 de julho nos registros históricos de acidentes aéreos da base de dados da B3A (Bureau of Aircraft Accidents Archives).

"Depois desta quinta-feira marcada pela queda de um avião de passageiros da Malaysia Airlines, na Ucrânia, a dica da redação do Terra é: evite viajar de avião no dia 17 de julho. Isso porque esse acidente que deixou pelo menos 298 mortos já é o quinto desastre aéreo que acontece nesta data, ao longo dos últimos 70 anos."

Nos registros da B3A, há 21.629 acidentes desde 1918. Em 365,25 (considerando-se o dia extra nos anos bissextos), temos uma média de 59,2 acidentes em qualquer data do ano. Cinco quedas acumuladas parecem indicar até uma data excepcionalmente segura. O número total de quedas registradas na base da B3A para a data é de 57 casos (em 17.312 casos que consegui recuperar - média esperada de 47 acidentes e desvio padrão de 10 eventos). Claro, isso inclui os acidentes sem fatalidades. Considerando-se apenas os casos com mortes, são 33 casos para 17/jul (contra média de 27 e desvio padrão de 6); fazendo um corte de mínimo de 25 fatalidades, a média é de 2,7 com desvio padrão de 1,7 - e, para o dia 17/jul, há 7 casos no banco de dados - de todo modo não é o dia mais acidentado: com 9 acidentes, 11/set é a data com mais registros; outros 9 dias no ano também têm 7 ou mais acidentes acumulados (Fig. 1).

Figura 1. Distribuição de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas fatais por dia do ano. Fonte: B3A.

Na Figura 2, temos a distribuição invertida - número de dias do ano de acordo com o número de acidentes registrados com mais de 24 vítimas.

Figura 2. Distribuição de dias do ano por número acumulados de acidentes com 25 ou mais vítimas fatais. Fonte: B3A.

Cerca de 3% dos dias do ano têm 7 ou mais acidentes acumulados no registro. O dia 17 de julho parece estar bem dentro da variação normal esperada.

Upideite(22/jul/2014): Como se espera uma variação essencialmente ao acaso da relação entre data e acidentes (partido-se de alguns pressupostos como não haver grande variação na operação entre os diferentes dias), espera-se que *não* haja associação entre datas com mais acidentes dentro de um dado período e datas com mais acidentes em outro período. Dividi os 1001 casos de acidentes com 25 ou mais vítimas nos registros da B3A em dois períodos - entre 1935 e 1972 e entre 1973 e 2014 - e plotei em gráfico de correlação os números de acidentes em um período contra os números em outro (Fig. 3). Se houvesse correlação, os pontos deveriam se organizar ao longo de uma reta ascendente. Não é o caso.

Figura 3. Correlação entre números de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas entre 1935 e 1972 e ente 1973 e 2014. Fonte: B3A.

É uma análise similar à feita por FiveThirtyEight em relação a companhias aéreas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Slow like honey, heavy with mood: Dawkins e o mel. Ou: Imagina na Copa

O biólogo britânico Richard Dawkins narrou em seu twitter sua desventura no aeroporto de Edinburgo por causa de um pote de mel.



Irritado com a galhofa que se seguiu por lá sob a hashtag #honeygate (e compilada pela Rebecca Watson no Skepchick) escreveu um artigo no The Guardian. Não tenho os detalhes do incidente. Pelas regras britânicas, qualquer produto de origem vegetal ou animal (incluindo mel) pode transitar livremente entre os países da União Europeia - mas se tiverem origem em países fora da UE, só por meio de importação controlada e certificada. (Segundo Dawkins, o veto foi pelo frasco exceder o volume permitido.)

No Brasil, também produtos de origem vegetal e animal de procedência estrangeira não podem ser admitidos em território nacional. Somente por meio de importação legal seguindo os trâmites estabelecidos por leis e outros regulamentos. Uma cartilha elaborada pelo Mapa lista uma série de produtos agropecuários vetados:
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Quais produtos agropecuários não podem ingressar no Brasil sem autorização?
• Frutas e hortaliças frescas.
• Insetos, caracóis, bactérias e fungos.
• Flores, plantas ou partes delas.
• Bulbos, sementes, mudas e estacas.
• Animais de companhia, como cães e gatos, pois podem transmitir a raiva, entre outras doenças.
• Aves domésticas e silvestres, pois podem albergar o vírus da influenza (gripe aviária).
• Espécies exóticas, pescados, aves ornamentais e abelhas, pois podem transmitir doenças que não existem no Brasil.
• Carnes de qualquer espécie animal, in natura ou industrializadas (embutidos, presuntos, defumados, salgados, enlatados), pois podem conter agentes infecciosos.
• Leite e produtos lácteos, como queijos, manteiga, doce de leite, iogurtes, pois, além de necessitarem de condições especiais de conservação, ainda podem conter agentes infecciosos.
• Produtos apícolas (mel, cera, própolis etc.) porque podem albergar agentes infecciosos.
• Ovos e derivados, pois também requerem condições especiais de conservação e podem conter agentes infecciosos.
• Pescados e derivados, pela mesma razão anterior.
• Sêmen e embriões, considerados materiais de multiplicação animal, potencializando o risco de disseminação de doenças.
• Produtos biológicos, veterinários (soro, vacinas e medicamentos) requerem registro junto ao MAPA.
• Alimentos para animais (ração, biscoitos para cães e gatos, courinhos de morder) requerem registro junto ao MAPA.
• Terras.
• Madeiras brutas não tratadas.
• Agrotóxicos.
• Material biológico para pesquisa científica, entre outros, como amostras de animais, vegetais ou suas partes e kits para diagnóstico laboratorial.
• Comida servida a bordo.
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Em linhas gerais, todos esses produtos podem ser focos de entrada de agentes infecciosos que causem danos seja à saúde humana, seja à saúde animal, seja à saúde vegetal. Mesmo se for produto da Europa, dos EUA, do Japão e outro locais com fiscalização sanitária rígida? Sim, mesmo desses locais.

Isso porque a legislação sanitária de cada país se adéqua à situação local: se um determinado micro-organismo não causa nenhum problema ali, não há razão para que as regras exijam seu controle. Mas o fato de tal agente não causar um problema em um local, não quer dizer que não possa causar problema em outro. Um micro-organismo, em seu local de origem, pode não causar problemas por diversos fatores: seus hospedeiros estarem adaptados evolutiva ou fisiologicamente, contarem com presença de competidores, parasitas, predadores... que controlem sua população. Fatores que muitas vezes estão ausentes fora dali.

Outro problema é que muitas vezes não é possível se ter controle da origem do produto adquirido pelo passageiro: pode ser que o mel (ou o salame ou o queijo ou o pacote de tremoço, etc.) comprado não tenha passado pelos processos exigidos.

Mais um fator é que, estando o agente presente de modo espalhado no país de origem (e não seja causador de doença humana ou não seja alvo de programas de erradicação ou controle mais rígido - p.e., o país se contenta em manter um certo nível de incidência da doença em plantas ou animais, já que os custos para sua erradicação não compensaria), não faz muito sentido uma norma sanitária de produção e trânsito interno tão rigorosa: a circulação interna do produto não vai causar mais prejuízo do que já ocorre. Outra é a história quando o produto é deslocado para fora do país - ou da área de incidência.

A circulação dentro da UE é mais ou menos livre porque o bloco adota protocolos sanitários uniformes. Vários outros blocos de união comercial e/ou econômica também adotam regulamentos uniformizados. Mas a circulação é restrita se um surto de doença ocorre em um dado local dentro do bloco: por exemplo, quando houve casos de mal da vaca louca em países da União Europeia, os países em que houve detecção da doença não podiam exportar carne para outros países da UE. Até dentro de um mesmo país a circulação é restrita: se há foco de aftosa em um município no Brasil, os animais de lá e sua carne não podem circular para outros municípios.

Sim, pessoas também transportam germes de doenças. Mas é mais complicado restringir a circulação de pessoas - a vinda de turistas é uma grande fonte de receita para muitos países, incluindo o Brasil. A restrição se dá quando a pessoa apresenta sintomas de doenças infecciosa ou têm origem em países com surtos ou onde a doença é endêmica. (Claro, falando de países democráticos.)

Agora pensemos no seguinte. O país deve receber somente este ano algo como 6 milhões de turistas. E, entre Copa do Mundo e Olimpíadas, a projeção é de atrair 10 milhões de estrangeiros por ano. Imagine-se a estrutura necessária para examinar as bagagens não apenas atrás de drogas, armas, valores não declarados... mas também todos os produtos da lista acima. Em 2011, somente nos aeroportos de Guarulhos e de Galeão foram apreendidos, 45,5 e 8,5 toneladas de alimentos e cargas proibidas.

Essa lista pode parecer exagerada. "Como? Comida de bordo? Mas a gente come isso, como pode ser perigoso, fora o fato de ser insosso e custar os olhos da cara?" Pois até 1978, restos de comida de bordo de voos vindo de Portugal e de Espanha eram dados como alimentos para porcos aqui no Brasil. O resultado foi a introdução da peste suína africana por estas paragens - doença que seria erradicada daqui em 1984. O vírus pode ser transportado também por embutidos como salame.

"Ah, mas eu sempre levei e nunca me deu problema." Isso exatamente pelo grande volume de passageiros e bagagens que circulam. Com a estrutura atual é impossível de se vistoriar tudo, é preciso atuar por amostragem. Mas isso significa que a maior parte do volume de carga entra e sai sem ser adequadamente vistoriada. É um perigo real. E provavelmente tem introduzido muitas e muitas doenças humanas, animais e vegetais no país - sem falar nas pragas como a Helicoverpa armigera, de introdução recente (identificadoa pela primeira vez no país no primeiro semestre deste ano), com custo atualmente projetado de US$ 5 bilhões/ano entre gastos com controle e perdas de produção.

O caso específico de Dawkins talvez não se encaixe na questão da barreira sanitária - aparentemente era um voo doméstico e não sei se há atualmente algum problema com o mel escocês -, mas parece ser o mesmo caso de desinformação quanto às regras. Quero dizer, pode até estar ciente quanto às regras em si, mas não quanto as bases das regras. Esse é um problema sério que é mais culpa das autoridades do que dos cidadãos. Nos aeroportos eu recebo folhetos dizendo que não posso transportar tubos de pasta de dentes com volume maior do que 100 ml. Mas por quê? O veto a armas de fogo, venenos, explosivos, material inflamável, objetos perfurocortantes ou capazes de contundir, além de sprays de pimenta, tasers e outros imobilizadores (como fitas adesivas) são de fácil entendimento. Agora, pasta de dente? Isso não é explicado nos folhetos.

Bem, em 6 de outubro de 1976, o voo 455 da Cubana de Aviación, que ia de Barbados à Jamaica, foi interrompido por uma explosão. Todos os passageiros a bordo e a tripulação morreram, totalizando 73 vítimas. Explosivo plástico havia sido colocado dentro de um tubo de pasta de dente.

O problema do mel de Dawkins não era o mel. Explosivos plásticos e líquidos podem ser disfarçados sob praticamente qualquer aparência. Explosivo como o C-4 tem uma densidade energética de cerca de 10 kJ/ml. Um tubo de 100 g é o suficiente para causar um belo estrago. É preciso, então, pesar a segurança contra a comodidade.

O evolucionista melífago não é o único a achar, porém, que há exagero. O economista americano Steven Levitt também considera as precauções excessivas.O biólogo PZMyers, no twitter, também reclama que as medidas de segurança são um absurdo.

Talvez haja um zelo demasiado. Talvez esforços e recursos estejam sendo desperdiçados com uma paranoia. Mas como saber? Bem, podemos acompanhar a evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Na Figura 1, plotei os casos cumulativos ao longo dos anos de ataques bem sucedidos (em que ocorreu explosão - com ou sem morte) e os casos de tentativas frustradas (em que o plano foi desbaratado a tempo).

Figura 1. Evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Ataques bem sucedidos: em azul, eixo vertical principal; ataques frustrados: em laranja, eixo vertical secundário. Fontes: Wikipedia e TSA.

As tentativas desbaratadas seguem uma curva exponencial. As tentativas bem sucedidas crescem mais ou menos exponencialmente até o atentado de Lockerbie, Escócia, em 1988; há uma redução no ritmo dos atentados até que, a partir de 2004 ocorre o último caso, um duplo atentado em Moscou. O processo de modificação dos protocolos de segurança é contínuo ao longo da história da segurança da aviação, mas as alterações mais substanciais ocorrem justamente pós-Lockerbie e pós-11 de setembro. Desde 1949, vivemos o mais longo período sem ocorrência de atentados bem sucedidos. Minha interpretação é que atentados continuam a ser planejados - e em número cada vez maior -, mas as medidas de segurança têm evitado que se concretizem em aeronaves despencando dos céus ou realizando pousos de emergência com buracos na fuselagem e passageiros a menos.

Se pegarmos o ritmo dos casos de atentados de 1989 a 2004, algo como 2,34 atentados bem sucedidos foram evitados de lá para cá. Considerando-se uma média de 61,83 mortos por atentado, 144,69 mortes foram evitadas - algo como 16 pessoas deixaram de morrer por ano.

Com cerca de 3 bilhões de passeiros aerotransportados por ano, 16 pode parecer um número pequeno. Por outro lado, será mesmo que abrir mão de um pote de mel, de um tubo maior de pasta de dente, ou ter que passar a bagagem de mão pelo raio-X é um preço tão alto?

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