Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.
Mostrando postagens com marcador terminologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador terminologia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Traduttore, traditore: silício e silicone

Há cerca de 25 anos, era um erro muito comum nas notícias sobre o Silicon Valley, a região da Baía de São Francisco que concentra empresas de alta tecnologia ser referida como Vale do Silicone. Hoje em dia muito raramente isso ocorre, especialmente no noticiário.

Buscando no acervo da Folha de São Paulo, há 5 registros para "Vale do Silicone" para os anos de 1980 (um em texto da coluna do jornalista econômico Joelmir Beting - Figura 1a); 3 dos anos de 1990 (duas que corrige o mau uso da expressão na TV - Figura 1b e c); e um nos anos 2000 (um uso jocoso do termo em coluna da jornalista Barbara Gancia em 2008). Para os períodos respectivos, "Vale do Silício" aparece 64; 70 e 80 vezes.


a) b)  
c)   
Figura 1. Folha de São Paulo, a) 20/10/1982, pág. 21; b) 16/05/1993, TV Folha pág. 5

No acervo de O Estado de São Paulo, há 5 menções para os anos de 1980, 2 para os anos de 1990 e 1 para os anos 2000. (Nenhum uso é jocoso ou como correção. A ocorrência mais recente é de 2005.) Para "Vale do Silício", há 1 menção para os anos de 1970, 20 para 1980, 139 para 1990 e 399 para 2000.

Mas a troca de 'silício' por 'silicone' ainda ocorre. Principalmente em documentários traduzidos.

Não sei se há restrições orçamentárias que impedem a contratação de um revisor técnico ou talvez o tempo entre o recebimento do material original e a entrega da versão em português seja extremamente curto. Porém, há algumas dicas que permitem ao tradutor não especializado rapidamente saber qual expressão usar.

Em inglês, 'silicon' se refere ao 'silício' (o elemento químico); 'silicone' é 'silicone' (composto polimérico à base de silício, carbono, hidrogênio e oxigênio). A diferença é de apenas uma letra, mas é fácil de se identificar. Se for um material em áudio, é preciso prestar atenção nas diferenças do modo como são pronunciados: 'silicon' é lido como algo entre '/síliquem/' e '/sílican/'; 'silicone' é pronunciado como 'silicôn'.

Nos dois casos, escrito ou falado, o contexto também costuma ajudar. No mais das vezes em que se estiver falando de chip de computador - e semicondutores em geral (como em células fotovoltaicas) -, é silício; para formas de vida alternativa, normalmente também é silício - vida baseada em silício (como alternativa a vida baseada em carbono). Para materiais semelhantes a borracha ou plástico ou a líquidos e géis, tende a ser silicone: espátula de silicone, implante mamário de silicone, silicone automotivo.

Um caso que pode confundir bem é de chips flexíveis de silício. Chips ultrafinos sanfonados são montados sobre plataformas flexíveis como borrachas, permitindo aplicação em superfícies dobráveis ou sujeitas à torção. É preciso prestar atenção se está se referindo ao material do chip ou da base flexível. Por exemplo, em: "Active electrode arrays by chip embedding in a flexible silicone carrier", 'silicone' está bem usado referindo-se ao material flexível feito de silicone.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

It's alive, it's alive! 2

ResearchBlogging.orgO espinhoso e tortuoso tema da definição de 'vida' já foi abordado antes neste blogue. Volto ao tema por causa da postagem de Carl Zimmer.

Por meio dela fiquei sabendo do artigo de Edward Trifonov, biólogo molecular da Universidade de Haifa, Israel, e Masaryk, República Tcheca, publicado em outubro do ano passado. Ele juntou duas compilações anteriores de definições de vida, eliminou as repetições e, a partir, delas criou uma lista de frequência de palavras utilizadas (eliminando artigos, preposições e outros conectores). A seguir, agrupou essas palavras por proximidade semântica (p.e. na categoria LIFE, inclui, além de 'life', 'living', 'alive', 'being', 'biological'...) no que ele chamou de 'definientia', termos definidores - nove no total: 'life', 'system', 'matter', 'chemical', 'complexity', 'reproduction', 'evolution', 'environment', 'energy' e 'ability'*.

Trifonov considerou, então, que vários termos implicitamente incluiem a ação de outros, como 'metabolism' implica 'energy' e 'matter', que implicam em um 'environment'. Para ele, apenas dois termos são independentes: 'reproduction' e 'evolution'. Assim chegou ao conjunto mínimo de termos para uma definição concisa e abrangente: 'Life is self-reproduction with variations'. ['Vida é autorreplicação com variações.']

O artigo mexeu com a comunidade de leitores da publicação. O que levou os editores a dedicarem a edição de fevereiro deste ano ao tema. Dos 34 textos, 21 são sobre a definição proposta: um editorial, 19 artigos comentando o trabalho de Trifonov e um artigo de resposta do próprio Trifonov.

Falhas e limitações da metodologia empregada, claro, são apontadas. Radu Popa, biólogo da Universidade Estadual de Portland, autor de uma das compilações em que se baseou o trabalho de Trifonov, diz que o processo de análise de frequência de palavras para medir a importância do termo aplica-se melhor a campos em que a pesquisa básica já está praticamente completa e consolidada, além disso, o método acaba sendo uma aferição de popularidade dentro de uma comunidade científica e, diz Popa, "if we promote a scientific model based on popularity, then Alfred Wegener was correctly ignored in 1912, when he promoted the concept of continental drift". ["se formos promover um modelo científico baseado na popularidade, então Alfred Wegner foi corretamente ignorado em 1912, quando ele promovia o conceito de deriva continental".] E, no campo da definição de vida, Popa cita o trabalho de Victor Kunin (do Instituto Europeu de Bioinformática) que propõe o início da vida como uma simbiose entre duas redes moleculares (de proteínas polimerase de ARN cooperando com ARNs que codificavam as polimerases proteicas): é uma visão ainda pouco citada entre os modelos de origem da vida e ficaria fora do radar da análise de frequência de palavras.

Referências
Popa, B. (2012). Merits and Caveats of Using A Vocabulary Approach to Define Life Journal of Biomolecular Structure & Dynamics, 29(4), 607-608
Trifonov, E.N. (2011). Vocabulary of Definitions of Life Suggests a Definition Journal of Biomolecular Structure & Dynamics, 29 (2), 259-266

*Upideite(13/jan/2011): sim, a lista tem 10 elementos, mas 'life' é o termo que se quer definir, não sendo, assim, ele mesmo um 'definientium' 'definiens'.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Evolutivo, evolucionário, evolucionista

Uma sugestão aos tradutores e autores de ciência.

Como há uma certa variação na tradução do termo 'evolutionary' e há tanto polissemia quanto sobreposição dos termos 'evolutivo', 'evolucionário' e 'evolucionista', proponho que se organizem os termos do seguinte modo:

a) evolutivo - adjetivo correspondente a fenômenos e processos de evolução biológica: biologia evolutiva, processos evolutivos (= processos relacionados à evolução como causa ou consequência), biólogo evolutivo (= biólogo que estuda a evolução), teoria evolutiva (= teoria que explica a evolução dos seres vivos)...

b) evolucionário - adjetivo correspondente a algo que *cause* ou *provoque* a evolução biológica: processos evolucionários (= processos que levam à evolução), Alto Evolucionário (personagem Marvel, geneticista que altera os seres vivos), causas evolucionárias...

c) evolucionista - adjetivo referente à corrente filosófica do Evolucionismo: filósofo evolucionista (= filósofo defensor da teoria evolutiva), livro evolucionista, biólogo evolucionista (= biólogo que defende a teoria evolutiva)...


sábado, 15 de maio de 2010

Patrulha purista vocabular 7

Arqueologia x Paleontologia

A Arqueologia é um ramo das ciências ligado à História, ela lida com restos materiais (designados artefatos quando produzidos pelos seres humanos) de civilizações antigas (embora o ramo da Arqueologia Histórica lide também com civilizações modernas, utilizando as técnicas arqueológicas - como estudar o comportamento do homem moderno a partir de escavações em aterros e lixões). Saiba mais aqui. (Não há uma divisão exata, mas o tempo remoto com que ela lida é de milênios ou algumas dezenas de milênios.)

A Paleontologia é um ramo das ciências ligado à Biologia e à Geologia, ela lida com restos de organismos pré-históricos: fósseis quando se trata de restos do próprio organismos (ossos, folhas, sementes, impressões do corpo, organismos em âmbar...) e icnofósseis quando se trata de vestígios da ação dos organismos (tubos escavados, pegadas e, tradicionalmente, ovos, entre outros). Saiba mais aqui. (Tipicamente, a paleontologia lida com o tempo de centenas de milhares de anos a bilhões de anos.)

Encontre o erro
Notícia da Associated Press: "Recent fossil discoveries that showed feathers on some of the early flying animals, like the well-known Archaeopteryx, created a bit of a flap in the archaeological world." (O trecho também dá a impressão de que a descoberta do Archeopteryx seja recente, mas o primeiro espécime - vide abaixo - foi descrito em 1861, pouco depois da publicação original de "A Origem das Espécies", de Darwin.)

Espécie x Espécime

Espécie é o nome que se dá a um grupo de organismos parecidos entre si - pelo Conceito Biológico de Espécies, refere-se a membros de populações que podem cruzar-se livremente entre si, produzindo descendentes viáveis (naturalmente aplicando-se a grupos de reprodução sexuada).

Espécime ou espécimen é um exemplar. Quando se trata de espécime biológico, geralmente é um indivíduo, ou parte dele, catalogado em coleção de museu.

Encontre o erro
Notícia (triste) da Folha Online*: "Incêndio pode ter destruído acervo de 70 mil espécies de répteis do Instituto Butantan./O balanço de prejuízos ainda não foi concluído, mas o curador Francisco Franco afirmou em entrevista à TV Globo que podem ter sido destruídas mais de 70 mil espécies de serpentes." (Detalhe, no mundo existem cerca de 1,2 milhão de espécies - considerando-se animais, plantas, fungos, microorganismos... - descritas. De répteis são cerca de 6.300 espécies.)

*Upideite(18/mai/2010): Felizmente, corrigiram o erro. Mas no G1 há o mesmo problema.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Patrulha purista vocabular 5

Certa vez propus ao pessoal da editoria de Ciências da Folha a criação de um catálogo interno de termos a serem evitados a todo custo nas reportagens. A sugestão foi bem recebida. (Não sei como está a implementação.)

Um termo que deveria ser banido - seria para ser usado com muuuuuuito cuidado, mas o melhor é evitar por completo, já que os casos especiais em que seria justificável o uso não compensam os riscos do mau uso - é "primitivo" para se referir a organismos atuais (e muitos antropólogos também gostariam que fosse vetado o uso para se referir a povos atuais que não apresentam uma cultura tecnológica tão desenvolvida como a nossa).

Vou usar como exemplo uma reportagem recente da própria Folha a respeito da capacidade de abstração matemática de macacos resos. Vai no próprio título da matéria: "Macaco primitivo aprende conceitos de matemática".

Em seu mais recente livro: "The greastest show on Earth" (editado no Brasil pela Cia. das Letras: "O maior espetáculo da Terra"), Dawkins lista 5 concepções errôneas por trás das expressões "superior" e "inferior", que se ajusta à noção de "avançado/evoluído" e "primitivo". Em relação, p.e., à frase: "Macacos são superiores às minhocas", poderíamos ter as seguintes interpretações, todas equivocadas:

1. 'Macacos evoluíram de minhocas'. Errado. Macacos e minhocas partilham um ancestral em comum - juntamente com muitos outros organismos. Macacos e minhocas não evoluíram um do outro, mas cada um evoluiu a partir desse ancestral em comum. (Em uma comparação familiar, dizer que João é parente de Pedro, digamos são irmãos, não implica que João seja descendente de Pedro ou vice-versa, mas sim que ambos partilham um ancestral em comum, no caso, a mãe - e ambos foram gerados pela mesma mãe. Se compararmos primos, ambos terão a mesma avó e/ou o mesmo avô.)

2. 'O ancestral em comum entre macacos e minhocas era mais parecido com uma minhoca'. Para esse uso Dawkins faz uma conceçãoconcessão. Em alguns casos, um dos ramos sofre mesmo uma menor modificação morfológica em relação ao ancestral em comum - mas isso não é necessariamente verdadeiro.

3. 'Macacos são mais espertos (ou mais bonitos, um genoma maior, um plano corporal mais complexo, etc.)'. Para Dawkins (e para mim) isso é uma visão esnobe. Dar importância a uma dada característica em detrimento a outra não tem nada de objetivo. Protozoários possuem cérebros menores (na verdade não possuem) do que mamíferos, mas alguns protozoários possuem um genoma muito maior (essa dissociação entre tamanho do genoma e complexidade morfológica é chamado de paradoxo ou enigma do valor de C - em que C representa o conteúdo genômico nuclear da célula).

4. 'Macacos são mais parecidos com humanos do que as minhocas'. Antropocentrismo insustentável. Por que os humanos seriam o padrão de julgamento a respeito da evolução? Humanos possuem cinco dedos, sendo nesse aspecto, mais parecidos com os ancestrais dos tetrápodos atuais (tirando os muito mais antigos que tinham seis, oito ou mais dedos em cada 'mão'), do que, por exemplo, cavalos, que possuem apenas um dedo funcional em cada pata.

5. 'Macacos (e outros animais 'superiores') são mais capazes de sobreviver do que as minhocas (e outros animais 'inferiores'). Bem, todas as espécies atuais são sobreviventes. Além disso, várias espécies de macacos encontram-se ameçadas de extinção.

(Outras interpretações igualmente equivocadas poderiam ser acrescentadas.)

Veja que o título da manchete não perderia nada em informação se fosse simplesmente: 'Macaco aprende conceitos de matemática', se quiser ser mais específico: 'Macaco reso aprende conceitos de matemática'. O termo 'primitivo' é inútil e, pior, desinformativo. Nos 25 milhões de anos que separam as nossas linhagens, os macacos resos não ficaram parados evolutivamente. A figura abaixo representa uma filogenia molecular dos primatas. Repare que a distância horizontal de Macaca mulatta (a espécie do macaco reso) até o ponto de ramificação em relação à linhagem que daria origem aos humanos é a mesma distância que separa os humanos desse ancestral - como a distância está calibrada para refletir as alterações do gene considerado, isso significa que houve o mesmo grau de mudança a partir do ancestral em comum nas duas linhagens. (Veja que em outros organismos o comprimento é maior - e poderia ser menor, como é nosem certos ramos omitidos da figura original.) Se o macaco reso tivesse se congelado no tempo, seu ramo seria muito mais curto.

Figura 1. Filogenia molecular de primatas símios (catarrinos + platirrinos). O triângulo indica o ponto de divergência entre as linhagens que deram origem ao macaco reso e aos humanos. Filogenia com gene nuclear IRBP. Fonte: Poux & Douzery 2004.

Referência
Poux, C & Douzery, E.J.P. 2004 - Primate phylogeny, evolutionary rate variations, and divergence times: A contribution from the nuclear gene IRBP. AJPA 124(1): 1-16. Disponível em: http://www3.interscience.wiley.com/journal/104549040/abstract

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Patrulha purista vocabular 3

Manchete da seção de ciências do G1.com:
Rinoceronte de Sumatra ameaçada de extinção morre aos 21 anos nos EUA
"Emi teve papel importante em programa de reprodução em cativeiro.
Ela morava havia 14 anos no zoológico de Cincinatti."

Aqui eles misturaram espécie com indivíduo: quem se extingue ou pode se extinguir são espécies (ou populações) - um conjunto de indivíduos; quem morre ou pode morrer são indivíduos.

Emi morreu, ela mesma não estava ameaçada de extinção, mas sim a espécie dos rinocerontes de Sumatra, a qual pertencia. Claro, sua (da Emi) morte pode aproximar ainda mais a espécie da extinção, porém não são a mesma coisa.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails