Lives de Ciência

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Como é que é? - Atividade solar causa AVC?

O bom doutor @Karl_MD brindou-nos com a referência de um artigo muito estranho.

Rosebaum & Weil 2014, brincando com dados da National Inpatient Sample entre 1988 e 2010, encontraram uma correlação (defasada) entre atividade solar (número médio mensal de manchas solares) e a incidência de hemorragias subaracnóideas aneurismáticas (SAH) -derramamento de sangue para dentro das meninges (membranas que recobrem o cérebro) por rompimento de vaso sanguíneo enfraquecido (no caso, por aneurisma) - uma forma de acidente vascular cerebral (AVC).
"When using NIS data to model two 10-year periodic cycles, aneurysmal SAH incidence peaks appear to be delayed behind solar activity peaks (both solar flux and sunspots) by 64 months (95% CI; 56–73 months)."

Correlação não é causação e há muita correlação espúria. Os autores reconhecem que o achado é inusitado, mas sugerem que haja, sim, uma relação causal, por meio do efeito no sistema imunológico.
"We admit that the neurosurgeon may find it unusual to draw an association between solar activity and the incidence of aneurysmal SAH. Nevertheless, there exists an association, in which solar activity (solar flux and sunspots) appears to be associated with the incidence of aneurysmal SAH. As solar activity reaches a relative maximum, the incidence of aneurysmal SAH reaches a relative minimum. The causality of this association is uncertain but may reflect the effects of solar activity on immune modulation, Hrushesky et al. (2011) postulated associations based on UVB irradiation, solar protons, heavy charged particles, geomagnetic storminduced gravitational field changes, fluctuations, and resonance signals. Others have noted similar associations between sunspots and cholera incidence (Ohtomo et al., 2010)."

Estranho que os autores não tenham levado em conta um efeito muito mais simples: a temperatura. Peguei os dados das anomalias mensais médias de temperaturas dos EUA - calculei as médias móveis com janela de 5 meses - e corrigi a tendência de aumento para os períodos entre abril de 1971 e março de 2014, e plotei sobre o gráfico de incidência de SAH no artigo (infelizmente não tenho acesso direto aos dados numéricos) com uma defasagem de cerca de 100 meses. (Fig. 1.)

Figura 1. Sobreposição de gráfico de médias móveis de anomalia de temperatura mensal média (abr/1971 a jun/2000) - azul - e incidência de hemorragia subaracnóidea aneurismática nos EUA (jan/1988 a dez/2010).

Infelizmente não tenho como fazer uma análise estatística - pela falta dos dados numéricos da hemorragia. Mas pelo visual a sobreposição parece ser muito boa.

Um eventual efeito da atividade solar sobre as taxas de incidência de SAH pode ser por variação na temperatura ambiente.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Teoria Gaia - nada de misticismo

O blogue Discutindo Ecologia, do Scienceblogs, mantido por dois (bidu!) ecólogos: Breno Alves e Luiz Bento (por que estou explicando isso se é muito mais provável que o improvável leitor desta postagem conheça o blogue deles e, até hoje, não conhecesse este?) publicou uma postagem sobre James Lovelock.

Ali eles cometem é cometido (Upideite 13/ago/2009: o blogue é dos dois, mas o texto é de Luiz Bento) algo que considero uma tremenda injustiça para com este cientista inglês (por que estou explicando que Lovelock é cientista e é inglês? talvez menos conhecida seja a faceta dele como inventor - ele é cientista independente, não está vinculado a nenhuma universidade ou instituto de pesquisa, e sua independência financeira é garantida pelas patentes/royalties sobre seus inventos). Julgam a teoria Gaia pelo que apressados misticóides novevais (ok, esta palavra que inventei precisa de explicação: neologismo "referente ao movimento da Nova Era", do latim novus,a,um 'novo' (dãã) e aevus 'tempo' - como em medievo, longevo) falam: cuidam a metáfora da Terra como um organismo vivo como se fosse dizer que a Terra tem consciência...

Para quem quiser conhecer o trabalho original de Lovelock (em coautoria com Lynn Margulis - bem, já que expliquei que Lovelock é cientista inglês, vou explicar que Margulis é cientista americana, preciso mencionar a teoria endossimbiótica?), aqui. (Esse trabalho é de 1974, a primeira menção a Gaia é de um artigo de 1972, mas não encontrei disponível para acesso aberto. De todo modo, eis a referência: Lovelock, J.E. 1972. Gaia as seen through the atmosphere. Atmospheric Environment 6: 579-80. )

A teoria Gaia, normalmente denominada de hipótese Gaia, de Lovelock diz tão somente que o planeta Terra funciona como um grande sistema homeostático, em que relações de retroalimentação negativa mantêm certos parâmetros ambientais: como a composição atmosférica e a temperatura média global (sim, juro que um dia eu retomo as duas postagens faltantes sobre o aquecimento global), dentro de uma dada faixa de variação - amigável à vida e que a própria biota participa ativamente desse processo.

Teleonômico? Não! Os seres vivos não têm consciência de que precisam regular a temperatura do planeta; do mesmo modo como nossas células não têm consciência de que precisam regular a nossa temperatura corporal. Mas como então tal sistema autorregulado pode surgir? No caso de nossas células é mais ou menos fácil, evolução por seleção natural. Mas e quanto a uma autorregulação em escala planetária? A resposta é um tanto mais complexa, posto que quase certamente a Terra não passou ela mesma por um processo de seleção natural - a Terra essencialmente não se reproduz... No entanto, mesmo se considerarmos apenas uma pequena porção dela, algum ecossitema mais limitado, notaremos que a interação dos organismos com o ambiente faz com que diversos parâmetros ecológicos se mantenham mais ou menos estáveis ao longo do tempo - e o ecossistema, como a Terra, não se reproduz (bem, eu diria que tanto a Terra, quanto um ecossistema poderiam se reproduzir, mas vamos aceitar aqui a visão tradicional de que não o fazem). (Sim, a estabilidade não é absoluta. Em um termo muito mais longo ocorrem alterações sensíveis. Mas Lovelock também prediz que a existência da Terra como Gaia - isto é, um sistema autorregulado - é finita no tempo: demorou um tempo para se estabelecer desde a origem da vida e deverá se extinguir quando alguns limites forem rompidos: se não a própria atividade humana a ferir de morte o sistema, o inevitável desenvolvimento do Sol em uma gigante vermelha.) Não está claro se a seleção dos organismos e da interação entre eles por si mesma pode levar ao surgimento de um sistema como Gaia. De todo modo, a existência de Gaia é algo que pode ser testado: p.e. verificando-se (claro, por indícios indiretos) a flutuação da temperatura global na escala geológica. Uma vez constada é questão de explicar por quê.

Há um considerável número de artigos científicos que procuram testar as predições da teoria Gaia. Aqui alguns exemplos, longe de serem exaustivos ou representativos, apenas ilustrativos:
*Lenton T.M. 2002. Testing Gaia: the effect of life on Earth's habitability and regulation. Climatic Change 52(4): 409-22
*Kirchner, J.W. 2003. The Gaia hypothesis: conjectures and refutations. Climatic Change 58: 21–45. (Sim, este artigo procura refutar a teoria - o papel do cientista, segundo Popper.) Disponível aqui.
*Kleidon, A. 2002. Testing the Effect of Life on Earth's Functioning: How gaian is the Earth system? Climatic Change 52(4): 383-9. (Outro que refuta diversas formulações de Gaia.)

Pode-se até dizer que seja uma teoria atualmente sem validade (eu discordaria, mas seria uma alegação aceitável posto que há tentativas de refutação), no entanto, ao se aceitarem as refutações é preciso, então, reconhecer a cientificidade da teoria - já que se trataria então de uma idéia refutável. Longe, portanto, de conceitos misticóides dos adeptos da Nova Era.

Upideite (12/ago/2009): Acresço algumas palavras do próprio Lovelock em relação às acusações sobre a questão da Terra ser senciente, do uso indiscriminado de linguagem metafórica e da teleonomia.

"Occasionally it is difficult, without excessive circumvolution, to avoid talking of Gaia as if she were known to be sentient. This is meant no more seriously than is the appellation 'she' when given to a ship by those who sail in her, as a recognition that even pieces of wood and metal when specifically designed and assembled may achieve a composite identity with its own characteristic signature, as distinct from being the mere sum of its parts." (prefácio, Gaia: a new look at life on earth, Oxford University Press, 1979)

"I failed to make clear that it was not the biosphere alone that did the regulation but the whole thing, life, the air, the oceans, and the rocks." (prefácio, Gaia: a new look at life on earth, Oxford University Press, 2000)

"When I wrote the preface of the previous edition of this book change was under way but the old attitudes to the Earth persisted. I began by saying '... Let me tell of an exchange that took place recently at at a meeting in Oxford, in 1994, entitled, The Self-Regulating Earth. It was a transdiciplinary meeting of working scientists in fields ranging from climatology to community ecology. It was unusually friendly and ideas and information were freely exchanged accross disciplinary boundaries. Towards the end of my talk at this meeting, a talk in which I tried to show that the ecosystems of the land masses and the ocean are at present failing to achieve thermostasis and would operate more effectively during an ice age, I said, 'Perhaps Gaia likes it cold'. This was intended simply as verbal shorthand for some wordy technical phrase such as: the evidence suggests that the system, comprising the algal ecosystems of the oceans and those of the land plants, taken together with the atmosphere and climate, maintain thermostasis only at global average temperature below about 12oC. In my talk I had spoken like this more than once. I felt the need for metaphor and it seemed to me that 'Gaia likes it cold' might be a neat sentence with which to summarize and conclude my talk. To my amazement a scientist friend came to me afterwards and said 'Jim, you can't say things like that. It take us back to the days of Gaia as an Earth Goddess. The scientists sitting near me were shocked to hear you speak in such terms.' Shocked they may have been but nowhere near as shocked as I was by their response. I was shocked most of all that they were more interested in my choice of words than in the content of my talk. Worse still, the scientists present at the Oxford meeting were selected and self-selected from those few prepared to attend a transdisciplinary meeting on such a unconventional topic as The Self-Regulating Earth. If they thought this way, no wonder Gaia is not considered science by most scientists." (prefácio, The ages of Gaia: a biography our living Earth, Oxford University Press, 2000.)

"When Earth scientists use the word regulation, they usually have in mind a passive process where the input ant output of some component or property are in balance. In geophysiology, by contrast, regulation implies the active process of homeostasis; the preservation of a comfortable Earth by the interaction of life and its environment. The speculations that follow about the regulation of climate, oxygen, salinity, and other properties of the environment are in this geophysiological context, in other words, as if they were speculations about the state of a living organism. In no sense is this intented as a teleology, or meant to imply that the biota use foresight or planning in the regulation of the Earth. What we need to think about is how a global regulatory system can develop from the local activity of organisms. It is by no means far-fetched to imagine a single new bacterium evolving with its environment to form a system that can change the Earth. Indeed the first cyanobacterium, progenitor of the ecosystem that used light energy to make organic matter and oxygen, did just this." (p. 97, The ages of Gaia: a biography our living Earth, Oxford University Press, 2000.)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Xixi no Banho

Mandei há duas semanas o seguinte email para a SOS Mata Atlântica a respeito da campanha Xixi no Banho: -------------- From: rmtakata@xxx.com To: comunicacao@xxx.org.br Subject: Questões sobre a campanha "Xixi no banho" Date: Fri, 15 May 2009 02:29:02 -0300 Prezados Senhores, Meu nome é Roberto Takata, [...] e mantenho um blog de ciências (genereporter.blogspot.com). Pretendo escrever algo a respeito da campanha "Xixi no Banho" da Fundação SOS Mata Atlântica (em outro blogue) e gostaria de obter algumas informações. 1) Como surgiu a idéia para a campanha? Como foi o processo de criação da campanha? Ficou a cargo inteiramente a agência de publicidade (F/Nazca)? 2) Foi realizado algum pré-estudo (qualis, p.e.) para o lançamento nacional da campanha? (Em caso positivo, que pontos interessantes foram levantados?) 3) Há já alguma avaliação por parte da fundação a respeito da repercussão? Consideram que o resultado é positivo, satisfatório? Há algum ponto negativo? 4) Sei que fizeram uma enquete (ainda em andamento) no sítio web da SOS Mata Atlântica sobre a opinião dos visitantes, mas a instituição pretende fazer um levantamento mais sistemático (estatisticamente válido) a respeito do alcance da campanha? E em relação a resultados práticos quanto à economia de água, também pretendem fazer (ou não fazer) algum estudo? 5) No sítio web é dito: "uma informação importante para aqueles que têm dúvida se é uma prática higiênica: o xixi é composto 95% de água e 5% de outras substâncias como uréia e sal." - mas o esgoto doméstico e industrial também é compostos de 95% de água e 5% de outras substâncias, não seria uma informação que por si só não informa tanto assim? 6) Foi feita uma avaliação do risco da campanha ser mal interpretada? Não há um risco da tentativa de descontração levar à irrelevância ou perda de respeitabilidade da SOS Mata Atlântica e das campanhas em geral em prol do meio ambiente? (Não consideram que seja uma banalização ou aviltamento?) 7) A proporção de pessoas que fazem xixi no banho e que não fazem exibida no sítio web da campanha foi feita apenas em cima da resposta dos visitantes do sítio web ou foi feita de outra forma (qual)? 8) No sítio da campanha há um gráfico sobre o desperdício de água pelo ato de fazer xixi em diferentes lugares. Há um valor pequeno, mas aparentemente positivo para "fazer xixi na chuva", por que haveria gasto de água nessa situação? 9) Foi levado em consideração na campanha que o chuveiro gasta energia elétrica? A energia elétrica a mais que se gasta compensa a economia de água? 10) Foi levado em consideração que fazer xixi durante o banho pode prolongar a duração da chuveirada? (As pessoas não param de se ensaboar enquanto estão urinando?) 11) O que significa o gráfico: "trajetória do xixi"? É a altura de um pingo de urina, o volume presente no local de banho? 12) O hotsite da campanha está todo em flash. Isso ajuda a incrementar o visual. Mas não prejudica o acesso da maior parte das pessoas que usam internet discada? 13) O sítio diz que não é nojento. Isso não é uma avaliação subjetiva? 14) O sítio diz que não transmite doenças. Há um número significativo de pessoas com infecção urinária (20 a 30% das mulheres já tiveram em algum momento). Mesmo fazendo xixi no começo do banho, respingos podem parar em outros cantos. E eventuais microorganismos presentes na urina podem se prender ao substrato sem serem lavados pela água - sabe-se que a _Legionella_ pode se espalhar pelo chuveirinho. Quão segura é a informação de que xixi no banho não transmite doenças? No momento são esses os esclarecimentos que gostaria de obter. Grato pela atenção. Cordialmente, Roberto Takata ------------------- (Obs: 1) fiz uma pequenas correções ortográficas no teor original da mensagem. 2) suprimi um trecho indicado por [...] sem prejuízo para a compreensão. 3) reproduzi esta postagem no Brutti, Sporchi e Cattivi. 4) pelas últimas postagens vai parecer que estou apenas seguindo a pauta do Sem Ciência, mas esta postagem, como se pode ver pela data do email, estava em preparação há algum tempo - aliás, a maioria das postagens no Gene Repórter são feitas sobre pauta fria, por opção não sigo muito hypes - o caso da Ruth Aquino é uma exceção -, permite uma melhor avaliação do quadro geral e serve como desculpa para longos períodos sem postagens.) Não me responderam até agora.

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