Lives de Ciência

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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Jogos dos erros 2

O Estadão reproduz reportagem da AFP: "Cientistas identificam microrganismo que pode esclarecer vida primitiva"

Sobre o uso do termo primitivo já comentei aqui no GR.

Aspas para o responsável do grupo de pesquisadores: "Descobrimos no lago um ramo desconhecido na árvore da vida. É única". O que essa frase quer dizer exatamente? Tecnicamente, uma espécie ou subespécie nova também é um novo ramo da árvore da vida - e, por definição, único. É um domínio novo ao lado de arqueas, eubactérias e eucariotos? Não há nenhuma informação a respeito na reportagem.

Mais aspas: "Para nós, nenhum outro grupo de microrganismos é descendente de tão perto das raízes da árvore da vida". Isso não faz o menor sentido. *Todos* os organismos atuais são descendentes exatamente da mesma raiz e estão à mesma distância temporal dela: cerca de 4 bilhões de anos.

Continua a reportagem: "O microrganismo 'se desenvolveu há cerca de um bilhão de anos, com uma margem de erro de cem milhões de anos', acrescentou." 1 bilhão de anos... Vejamos, o tempo de divergência entre os domínios atuais é estimado em algo como 3,5 bilhões de anos - 1 bilhão está bem distante desse ponto de separação das linhagens. E mais, cianobactérias devem existir há pelo menos 2,6 bilhões de anos (e talvez 3,5 bilhões de anos se a interpretação Schopf dos Sílex de Apex se mostrar correta).

Celenterados e demais eumetazoários têm um tempo de divergência estimado em alguns estudos em cerca de 1,2 a 1,5 bilhão de anos. Nemátodos e bilatérios em cerca de 1,2 bilhão de anos. Porém, outros estudos indicam um tempo de divergência bem mais recente para os eucariotos: o LECA (o último ancestral em comum dos eucariotos) teria vivido entre 1 e 1,4 bilhão de anos atrás.

E mais: "Para o cientista, o organismo microscópico 'pode servir de telescópio para observar o microcosmo original' e assim conseguir 'entender melhor como foi a vida primitiva na Terra'." Até pode, mas não mais do que muitos outros organismos.

A reportagem não dá nenhuma contextualização mais aprofundada - só que a descoberta foi feita originalmente há 20 anos e aparentemente foi feita uma nova análise. Mas não nos informa se é um estudo publicado, submetido, se foi anunciado em um congresso científico ou se é apenas um press release. Não nos informa que tipo de micro-organismo é: uma bactéria, uma arquea, uma alga, um fungo, um protozoário...

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Só alhures encontramos a menção de que é um eucarioto. E acrescentam uma afirmação sensacionalista do tipo "mankind's furthest relative". Só será se arbitrariamente se definir o limite do parentesco com a linhagem que deu origem aos humanos no nó em que se encontra o ancestral em comum mais recente desse micro-organismo e os humanos. De todo modo, o organismo teria uma divergência mais próxima da base dos *eucariotos* e não da árvore da *vida* - se considerarmos um LECA mais recente (outras estimativas ficam na ordem de 2 bilhões de anos).

O estudo foi publicado na Molecular Biology Evolution, ainda em versão eletrônica: Zhao et al. 2012. Collodictyon – an ancient lineage in the tree of eukaryotes. Mol. Biol. Evol.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Supernova dá pistas sobre como surge o sensacionalismo

Sites noticiosos brasileiro reproduzem notícia da BBC Brasil.

Explosão de supernova dá pistas sobre formação da vida
"A explosão de uma estrela supernova em uma galáxia a 21 milhões de anos-luz deu a cientistas um raro vislumbre de como a explosão de estrelas pode gerar vida no universo. Astrônomos capturaram as imagens da explosão da supernova SN2011fe, na galáxia Cata-vento na constelação de Ursa Maior, apenas 11 horas depois do evento."

Quem lê a manchete e o primeiro parágrafo vai imaginar que a vida surgiu por algum processo relacionado à explosão de uma estrela de modo mais direto. Seria que a energia liberada catalisaria as reações químicas que levaram à emergência da vida?

Nada disso. Na verdade não tem nada a ver com a vida. Tem a ver com a *dispersão* de *elementos químicos* mais pesados do que carbono: oxigênio, magnésio, silício, cálcio e ferro. Não se trata nem ao menos da formação de monômeros (como aminoácidos, nucleotídeos e açúcares) que formam as macromoléculas orgânicas.

Sim, oxigênio e ferro são fundamentais para a vida como a conhecemos aqui na Terra. Mas sua simples presença, pelo que sabemos, passa longe de ser o suficiente para a formação de seres vivos.

O site do jornal inglês The Guardian foi mais comedido:

Supernova explosion gives a glimpse of how ingredients for life are created ["Explosão de supernova dá pistas sobre como ingredientes da vida foram formados."]

Mas também poderiam ter dito: "pistas sobre como ingredientes da ferrugem foram formados". Menos chamativo, mas menos errado - e se optam pelo que é mais chamativo em detrimento da correção podemos chamar de sensacionalismo, não? (Menos errado porque ainda assim estaria errado: o trabalho não diz como os elementos se formam, mas como se espalham. A formação dos elementos ocorre no intervalo de fração de segundos após o início da explosão. 11 horas depois - que são o tempo a que se referem os dados analisados - os elementos já estão formados há... 11 horas.) O que podemos dizer então da versão do título da matéria da BBC Brasil?

Vejamos o contraste entre o que é sugerido (ou afirmado) no título com o que é reportado de fato: "Com o tempo estes elementos vão se transformar nos blocos de construção de novos sistemas solares e, possivelmente, de seus habitantes vivos." ("Possivelmente"? Bem menos assertivos.)

O achado não dá pista nenhuma sobre a formação da vida. Já se sabia que supernovas eram a fonte de átomos mais pesados. E que átomos mais pesados são necessários para a construção de formas de vida como a nossa. A novidade é que se detalha mais como esses elementos (formados durante a própria explosão) espalham-se - já que se pôde obter dados pouco tempo após a explosão: 11 horas de intervalo (atenção! não quer dizer que a estrela observada explodiu há apenas 11 horas do início da coleta dos dados - quer dizer que foram capturadas ondas eletromagnéticas geradas 11 horas após a explosão, que se deu uns 21 milhões de anos atrás). E saber como ferro e oxigênio se espalham não nos esclarece em nada (ou quase nada) como a vida surge da combinação dos elementos químicos - a vida poderia ter surgido a partir desses elementos independentemente da origem de tais elementos. Se carbono, oxigênio, etc. sintetizados, digamos pela decomposição térmica de madeira, fossem dispostos nas condições (ainda desconhecidas) que levaram à origem da vida na Terra, isso deveria levar ao surgimento da vida com a mesma probabilidade de que carbono, oxigênio, etc. liberados e sintetizados na explosão da supernova nessas condições levariam (salvo talvez pela composição isotópica original).

Este blogue começou com uma postagem sobre o sensacionalismo que se faz nesses anúncios de resultados referentes à astrobiologia, e desde então diversas outras vezes o mesmo erro tem sido cometido - muitas vezes por indução dos próprios cientistas, mas com colaboração dos jornalistas que parecem ávidos por esse tipo de declaração e não costumam questioná-los.

domingo, 6 de março de 2011

Mais sobre os "fósseis" em meteoritos

Algumas considerações extras a respeito da interpretação de Hoover de que estruturas mineralizadas em meteoritos CI1 seriam fósseis de cianobactérias.

Veja abaixo uma representação simplificada da "árvore da vida" - as relações evolutivas de membros dos três grandes grupos de organismos vivos inferidas por análise genética.


Figura 1. Árvore da vida.

O balão vermelho indica a posição das cianobactérias. A seta vermelha indica a posição inferida da raiz da árvore - a posição do último ancestral em comum de todos os organismos atuais da Terra.

Segundo a interpretação de Hoover, as estruturas seriam de organismos que estariam em algum ponto dentro do balão. Se aceitarmos isso, há duas interpretações possíveis: 1) A raiz verdadeira estaria em algum ponto dentro do balão ou 2) a Terra foi 'semeada' também com ancestrais das arqueas, de outras bactérias e também de eucariotos.

O deslocamento da posição da raiz tornaria completamente estranho o padrão genético encontrado. Há certos genes que estão duplicados no genoma de bactérias, arqueas e eucariotos. Esses genes surgiram de uma mesma cópia ancestral e divergiram a partir disso. Analisando-se a sequência, pode-se inferir a sequência da cópia ancestral - e comparando-se com isso, podemos posicionar a raiz da árvore. Esse esquema elegante é bagunçado se a verdadeira raiz estiver longe da posição inferida por essa técnica. Um padrão altamente improvável de evolução das sequências haveria de ocorrer - a partir das cianobactérias, os dois genes iriam *convergir* suas sequências e voltariam a divergir rumo às arqueas e aos eucariotos.

Consideremos então que toda uma diversidade ancestral aportou na Terra, incluindo nossos ancestrais protoeucariotos. Ocorre que o meteorito tem idade que remonta às origens do Sistema Solar. Essa diversidade teria surgido em um intervalo de não muito mais do que alguns milhões de anos. E ficado oculta por bilhões de anos no registro fóssil de nosso planeta. Se as cianobactérias já estavam presentes praticamente desde o início na Terra, por que a crise ou a revolução do oxigênio (ou ainda o Grande Evento da Oxigenação) ocorreria só há uns 2,4 bilhões de anos atrás?

Outra coisa. Os meteoritos CI1 devem ser restos ou de cometas ou de asteroides - não de corpos como planetas ou protoplanetas. Os organismos apontados como parentes próximos dos supostos fósseis como o Titanospirillum velox são móveis - deveria haver água líquida. Cometas são formados basicamente de gelo; quando se aproximam do Sol, o gelo não se liquefaz, mas sublima. Asteroides não são também bons locais em que esperaríamos água líquida em abundância. #comofaz?

Nasa strikes again... Strikeout!

ResearchBlogging.orgAcaba de ser publicado um artigo de Richard B. Hoover sobre estruturas minerais no interior de um meteorito. A conclusão do cientista é estampada logo no título, sem rodeios: "Fossils of Cyanobacteria in CI1 Carbonaceous Meteorites".

Não queria comentar agora, mas também não é a primeira nem a segunda vez que faço aqui uma postagem a respeito de algo em plena hype.

Não é também uma tradição que nunca foi rompida aqui fazer uma afirmação mais forte.

Então eu escrevo com todas as letras: Nasa, 'tá' na hora de fechar as pesquisas de astrobiologia pra balanço. (Phil Plait, do Bad Astronomy, tem também uma opinião bastante cética, mas é mais comedido do que eu nesta história.)

Junte um tema pulsante: vida extraterrestre, a uma instituição renomada: a Nasa; e pronto, quem segura a onda?

Há pouco tivemos uma hype do gênero com as tais bactérias que usariam arsênio. Na ocasião, o erro maior foi a divulgação para o público e a imprensa, o artigo em si era bem mais cuidadoso. Agora os cuidados foram - não resisto ao trocadilho - jogados para o espaço.

O Yahoo!News vai na onda e anuncia: "Cientista da Nasa encontra evidência de vida alienígena". Não irei culpá-los (como não atribuo à imprensa a culpa maior pela onda das bactérias arseniófilas), mas botaram de ilustração, não o fóssil, e sim a foto de uma cianobactéria de verdade - terrestre e atual (não alienígena e fóssil) - que está presente no artigo. O fóssil é bem mais decepcionante. Reproduzo abaixo (Figura 1) lado a lado as imagens.


Figura 1. À esquerda, estrutura mineralizada no meteorito; à direita, Titanospirillum velox (bactéria atual terrestre, formadora de biofilmes)

O autor é mais do que ousado em propor não apenas a natureza biogênica das estruturas, mas ainda classificás-la como fósseis de um grupo que encontramos na Terra atualmente (as cianobactérias mencionadas no título do artigo). Como a idade do meteorito remonta à formação do Sistema Solar e da Terra (uns 4,5 bilhões de anos), obviamente está implicando que a vida na Terra é exógena. É uma possibilidade, mas seria preciso bem mais do que formações minerais superficialmente similares às formas de vida atuais (desconte-se o conservadorismo morfológico implicado - isso, conservação da forma ao longo da evolução, é perfeitamente possível e há casos confirmados para pelo menos algumas centenas de milhões de anos).

Para afastar a hipótese de contaminação por micróbios terrestres, Hoover argumenta que muitas das estruturas aparecem parcialmente incrustradas na matriz e que a composição química delas é diferente da de minerais terrestres - indicando, assim, que os fósseis putativos formaram-se fora da Terra.

Em 1996 também foram-nos apresentadas estruturas minerais no interior de um meteorito (ALH84001) interpretadas como fósseis de bactérias (McKay et al. 1996) - à parte o tamanho diminuto (de nanômetros), posteriormente argumentou-se que processos abióticos poderiam produzir as estruturas e explicar a co-ocorrência de outros sinais (como compostos orgânicos e certas deposições minerais, como a magnetita). Aliás, no trabalho de Hoover é digno de nota a *ausência* da citação desse trabalho.

Estranho ainda o artigo ser monoautoral. Hoover realmente teve muito trabalho de preparar as amostras, micrografá-las, analisar a morfologia e a composição química sozinho. ONo de McKay et al. 1996 foram 9 autores, no de Wolfe-Simon et al. 2010 (das bactérias arseniófilas), 12 autores.

O artigo foi publicado em um periódico bastante suspeito. Seu quadro conta com pessoas que, embora tenham contribuições importantes em suas áreas, têm lá suas hipóteses de estimação bastante estranhas: Chandra Wickramasinghe, defensor entusiasmado da panespermia; e Roger Penrose, e sua esquisita teoria da consciência quântica; já publicaram artigos muitos estranhos e estão para encerrar suas atividades. A Nasa também anda enfrentando severos cortes de verba.

O Journal of Cosmology apresentou o artigo para 100 especialistas e convidou outros 5.000 para analisá-lo; irá publicar os comentários entre os dias 7 e 10/mar/2011. Estou curioso para ver se a revista levou em conta as opiniões dadas para publicar o artigo: terão mesmo os revisores dado o aceite?

Usando de bastante eufemismo, é um trabalho *muito* estranho. (Não que não devesse ser publicado, mas deveria haver muito mais cuidado do que parece que foi tomado.)

Referências
Hoover, R.B. 2001. Fossils of Cyanobacteria in CI1 Carbonaceous Meteorites. Journal of Cosmology 13.

McKay, D., Gibson, E., Thomas-Keprta, K., Vali, H., Romanek, C., Clemett, S., Chillier, X., Maechling, C., & Zare, R. (1996). Search for Past Life on Mars: Possible Relic Biogenic Activity in Martian Meteorite ALH84001 Science, 273 (5277), 924-930 DOI: 10.1126/science.273.5277.924

Wolfe-Simon, F., Blum, J., Kulp, T., Gordon, G., Hoeft, S., Pett-Ridge, J., Stolz, J., Webb, S., Weber, P., Davies, P., Anbar, A., & Oremland, R. (2010). A Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus Science DOI: 10.1126/science.1197258

Upideite(06/mar/2011): Outras análises.
Rosie Redfield, no RRResearch, observa que o tamanho dos filamentos varia bastante.
PZ Meyers, no Pharyngula, claro, é ainda mais ácido do que eu: "This isn't science, it's pareidolia".

Upideite(07/mar/2011):
Charlie Petit no Knight Science Journalism Tracker: "This will be hard for any serious science journalists to cover – even to debunk it."

A Nasa, escaldada, parece não endossar a opinião de Hoover. (Dica da @alesscar)

Upideite(08/mar/2011):
Aqui tem mais algumas informações.

O Journal of Cosmology publicou alguns comentários (21 até esta data). A maioria estranhamente favorável; continuando na esquisitice, incluíram comentário de um dos editores da própria revista, além de outros autores que publicaram também na própria revista. Será que ninguém com objeções mais fortes se dignou a apresentá-las? O que me faz questionar a respeito dos tais 100 especialistas (e, sinceramente, enviar convites gerais para mais de 5.000 outros caracterizaria spam - duvido que tenham assinado newsletter da revista).

Upideite(09/mar/2011): Phil Plait volta à carga . PZ Meyers também. A história na New Scientist. David Dobbs na Neuron Culture.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Olha a cabeleira do Zezé...

G1: Descoberto aminoácido, elemento fundamental para a vida, em um cometa
Estadão: Descoberto ingrediente da vida em poeira de cometa
Último Segundo: Astrônomos encontram agente "formador da vida" em cometa
Google Notícias: Descoberta em cometa molécula básica à vida
Folha Online: Nasa descobre substância para formação de vida em amostras de cometa
Agência Fapesp: Cometa tem aminoácido

De longe, o mais sóbrio, preciso e correto é o título da Agência Fapesp. Sim, descobriram moléculas de glicina em meio à poeira desprendida por cometas. A pergunta que devemos fazer é: e daí?

Mas antes de prosseguirmos. Agente formador da vida é um termo errôneo - um agente formador é algo que ativamente conduz um processo, glicina - importante o quanto seja para a nossa vida - não tem essa propriedade. Elemento *fundamental*? Molécula *básica* à vida? Substância *para formação*? *Ingrediente* da vida? Com exceção do colágeno, a maioria das proteínas contém apenas uma pequena quantidade de glicina - como seria esperado considerando-se o número de códons correspondente ao aminoácido.

E daí? O achado é interessante, foi a primeira vez que observaram um aminoácido em cometas. Em outras tentativas não se conseguiu detectar tal composto. No entanto, seguem-se afirmações do tipo: "Encontrar glicina em um cometa apoia a ideia de que os blocos básicos da vida são prevalentes no espaço e reforça o argumento de que a vida no Universo pode ser mais comum do que rara" (declaração de Carl Pilcher à Agência Fapesp).

Bem, bom lembrar que já faz 30 anos (isso mesmo, trinta) que descobriram diversos aminoácidos (incluindo glicina, alanina, ácido glutâmico e vários outros) no meteorito Murchison. No espaço interestelar também já foram detectados aminoácidos, ao menos por meio de análise espectrográficas. Então... a novidade é tão grande assim?

A ideia de que compostos orgânicos estão amplamente espalhados no espaço, então, já era muito bem estabelecida e corroborada. Seria como dizer que os ataques talebãs no Afeganistão apoiam a ideia de que explosivos são perigosos. Até apoiam, mas não era preciso isso para saber que explosivos podem matar.

Agora, será que encontrar aminoácidos em cometas apoia a ideia de que a vida é comum no universo?

Comparando muito mal, é como dizer que o fato de ontem um fulano ter morrido atropelado demonstra que todo corintiano é pobre. *Supomos* que fulano era corintiano e tentamos mostrar que o fato dele ter sido atropelado indica que ele era pobre e com isso dizemos que está corroborada a hipótese de que todo corintiano é pobre.

*Supomos* que a vida se originou a partir de aminoácidos, tentamos mostrar que encontrar aminoácidos em cometa indica abundância deles no universo e com isso dizemos que está corroborada a hipótese de que a vida é abundante no universo.

Para que um indício seja factível de ser chamado como apoio a uma hipótese é preciso que, se se provasse que o indício era impossível de existir ou estar correto, então a hipótese teria que ser falsa. Não é o caso do aminoácido no cometa. Digamos que *não* se encontrassem aminoácidos em cometa, em nenhum cometa, ao contrário, se provassse que é impossível que cometas tivessem aminoácidos - vamos supor, cometas fossem muito frios para permitir qualquer reação de produção de aminoácidos ou a reação com a água sólida danificasse a estrutura do aminoácido, qual a impacto disso na idéia de que a vida é ubíqua no universo? Eu diria que teria um impacto zero - ainda mais com o histórico de que em meteoritos e no espaço interestelar há aminoácidos, não haveria impacto nem mesmo na tese de que compostos orgânicos estão espalhados pelo cosmo.

De outro modo, pensemos no problema de Monty Hall. Depois de pensarmos um pouco, fica claro que o fato de uma das portas ter sido revelada vazia *não* aumenta as chances da porta inicialmente escolhida ter o prêmio - continua sendo de 1/3. Em nenhum momento a porta escolhida inicialmente foi testada - o teste ocorreu entre as outras duas portas, a que não foi aberta, portanto, leva sozinha a probabilidade da outra porta: 1/3 + 1/3 = 2/3. A porta escolhida só aumentaria suas chances para 1/2, se ela também pudesse ser aberta e se mostrar vazia - aí, sim, ao não ser aberta, receberia metade da probabilidade de ganho associada à porta aberta: 1/3 + 1/6 = 1/2. A outra metade, naturalmente, iria para a outra porta que não foi aberta.

Não há como aumentar a probabilidade de estar certa a hipótese de que a vida seja abundante no universo com base no achado.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sensacionalismo no laboratório

Na Folha:
"DNA" artificial dá pistas sobre surgimento da vida

A Wired foi ainda menos contida:
Scientists Create a Form of Pre-Life

O que *realmente* foi feito? Yasuyuki Ura e colaboradores conseguiram sintetizar em laboratório uma sequência de uma molécula conhecida como tPNA (ácido de tioéster peptidonucléico): os ácidos nucléicos comuns possuem um esqueleto de açúcar (ribose no caso do RNA e desoxirribose no caso do DNA), os PNA possuem uma molécula derivada da glicina (um aminoácido). Tem uma cara parecida com a figura abaixo:



Mas tem um átomo de enxofre no meio da cadeia, ligado a dois átomos de carbono - que dá o nome de tioéster. A hipótese de que seja um precursor do ARN no processo que deu origem aos seres vivos não é nova como se dá a entender na leitura das reportagens - fica a parecer que a novidade é a descoberta desse tipo de molécula. A novidade mesmo foi que observaram que a polimerização espontânea criava uma molécula curta correspondente à cadeia molde - com a complementação equivalente do pareamento Watson-Crick (A com U, C com G). Já se sabia há muito - mais de 10 anos - que os PNAs hibridizavam seletivamente com ADN e ARN, então o resultado obtido não é exatamente uma surpresa.

Agora, disso vai um *longo* passo para "dar pistas sobre a origem da vida". Embora os PNAs tenham propriedades interessantes em relação ao ARN, ainda não se conhece nenhuma via de síntese prebiótica de seus precursores - enquanto que os precursores de ARN podem ser sintetizados em diversas condições prebióticas. O PNA são totalmente artificiais em mais de um sentido, além desse - de não se conhecer vias espontâneas de formação de seus precursores -, simplesmente não é encontrado em nenhum organismo vivo.

E chute de balde total é o título da Wired, a distância para "pré-vida" é astronômica.

Não que o estudo seja de se jogar fora - se fosse não seria publicado em uma revista como a Science -, mas há *muita* coisa a ser feita para dar mais alento aos tPNAs como candidatos a precursores dos ARNs: seria preciso mostrar a viabilidade da síntese de cadeias mais longas de tPNA, que tais cadeias poderiam ter atividade catalítica e, mais, autocatalítica. São propriedadades bem conhecidas dos ARNs.

De resto, reproduzo as palavras de Leslie Orgel, um dos autores (póstumo) do estudo, em artigo de mais de dez anos atrás:

"Peptide nucleic acid (PNA) is another nucleic acid analog that has been studied extensively. It was synthesized by Nielsen and colleagues during work on antisense RNA. PNA is an uncharged, achiral analog of RNA or DNA; the ribose-phosphate backbone of the nucleic acid is replaced by a backbone held together by amide bonds. PNA forms very stable double helices with complementary RNA or DNA. We have shown that information can be transferred from PNA to RNA, and vice versa, in template-directed reactions and that PNA–DNA chimeras form readily on either DNA or PNA templates. Thus, a transition from a PNA world to an RNA world is possible. Nonetheless, I think it unlikely that PNA was ever important on the early earth, because PNA monomers cyclize when they are activated; this would make oligomer formation very difficult under prebiotic conditions."
http://dx.doi.org/10.1016/S0968-0004(98)01300-0

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Sensacionalismo no espaço

O Estadão dá o seguinte título para a reportagem:
Componente do RNA encontrado junto de estrelas jovens
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Assim, pelo título, dá a impressão de que encontraram nucleotídeos ou bases nitrogenadas no espaço sideral. Não é bem assim. Aliás, muito longe disso.

O que encontraram foi uma molécula orgânica, o glicolaldeído, que tem mais ou menos esta cara:

Sua fórmula molecular é HOCH2CHO. Veja a diferença para um nucleotídeo (aqui, uma adenosina difosfato):


Quanta diferença!

Mas então qual o lance? Sim, há muita onda, muito sensacionalismo no anúncio. E nem devemos aqui culpar o suspeito de sempre, o jornalista. Ele apenas vendeu o peixe que lhe passaram. Astrônomos, astrofísicos e astrobiólogos envolvidos na questão da origem da vida (e na busca de vida extraterrestre) precisam justificar os gastos de suas pesquisas, pesquisa essa realizada com um objeto que virtualmente eles não têm em mãos - os primeiros organismos ou organismos alienígenas. Não que seja algo errado, cientistas precisam prestar contas com a sociedade que os financiam e precisam dar publicidade a seus achados e devem alimentar o interesse das pessoas pela ciência. O porém é que não raras vezes forçam a mão nisso. Em todo caso, onde entra então o glicolaldeído?

Entra como uma *especulação*. Como na origem dos primeiros organismos não haveria toda a maquinaria sofisticada presente nos organismos atuais ou nas fábricas de produtos químicos, a produção dos monômeros biológicos (as unidades básicas que compõem moléculas enormes como proteínas, celulose e ácidos nucléicos) deve se dar por meio de processos inorgânicos espontâneos. Os pesquisadores então tentam adivinhar quais foram esses processos. O glicolaldeído entra na formação hipotética dos açúcares - ribose - presentes nos nucleotídeos que formam os ácidos nucléicos. Dessa feita é um tanto forçado dizer que são "componentes" do ARN - são quase tão componentes quanto o CO2 - é aí que reside o sensacionalismo.

Até porque a descoberta não chega a ser sensacional. O glicolaldeído já havia sido, como é informado na reportagem, detectado anteriormente no espaço. A diferença é agora quanto ao local, supostamente em região mais parecida com o ambiente que gerou a Terra.

Essa notícia é sobre um trabalho que ainda não foi publicado em revista científica - embora certamente já tenha recebido o aceite ou esteja até no prelo. Tem se tornado praxe essa divulgação antecedendo a publicação. Aqui opinião pessoal, sou mais pela tradição de divulgar para a mídia não-científica somente depois de publicado em um periódico científico (ou mesmo em um livro), parece-me menos precipitado.

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