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domingo, 6 de março de 2011

Nasa strikes again... Strikeout!

ResearchBlogging.orgAcaba de ser publicado um artigo de Richard B. Hoover sobre estruturas minerais no interior de um meteorito. A conclusão do cientista é estampada logo no título, sem rodeios: "Fossils of Cyanobacteria in CI1 Carbonaceous Meteorites".

Não queria comentar agora, mas também não é a primeira nem a segunda vez que faço aqui uma postagem a respeito de algo em plena hype.

Não é também uma tradição que nunca foi rompida aqui fazer uma afirmação mais forte.

Então eu escrevo com todas as letras: Nasa, 'tá' na hora de fechar as pesquisas de astrobiologia pra balanço. (Phil Plait, do Bad Astronomy, tem também uma opinião bastante cética, mas é mais comedido do que eu nesta história.)

Junte um tema pulsante: vida extraterrestre, a uma instituição renomada: a Nasa; e pronto, quem segura a onda?

Há pouco tivemos uma hype do gênero com as tais bactérias que usariam arsênio. Na ocasião, o erro maior foi a divulgação para o público e a imprensa, o artigo em si era bem mais cuidadoso. Agora os cuidados foram - não resisto ao trocadilho - jogados para o espaço.

O Yahoo!News vai na onda e anuncia: "Cientista da Nasa encontra evidência de vida alienígena". Não irei culpá-los (como não atribuo à imprensa a culpa maior pela onda das bactérias arseniófilas), mas botaram de ilustração, não o fóssil, e sim a foto de uma cianobactéria de verdade - terrestre e atual (não alienígena e fóssil) - que está presente no artigo. O fóssil é bem mais decepcionante. Reproduzo abaixo (Figura 1) lado a lado as imagens.


Figura 1. À esquerda, estrutura mineralizada no meteorito; à direita, Titanospirillum velox (bactéria atual terrestre, formadora de biofilmes)

O autor é mais do que ousado em propor não apenas a natureza biogênica das estruturas, mas ainda classificás-la como fósseis de um grupo que encontramos na Terra atualmente (as cianobactérias mencionadas no título do artigo). Como a idade do meteorito remonta à formação do Sistema Solar e da Terra (uns 4,5 bilhões de anos), obviamente está implicando que a vida na Terra é exógena. É uma possibilidade, mas seria preciso bem mais do que formações minerais superficialmente similares às formas de vida atuais (desconte-se o conservadorismo morfológico implicado - isso, conservação da forma ao longo da evolução, é perfeitamente possível e há casos confirmados para pelo menos algumas centenas de milhões de anos).

Para afastar a hipótese de contaminação por micróbios terrestres, Hoover argumenta que muitas das estruturas aparecem parcialmente incrustradas na matriz e que a composição química delas é diferente da de minerais terrestres - indicando, assim, que os fósseis putativos formaram-se fora da Terra.

Em 1996 também foram-nos apresentadas estruturas minerais no interior de um meteorito (ALH84001) interpretadas como fósseis de bactérias (McKay et al. 1996) - à parte o tamanho diminuto (de nanômetros), posteriormente argumentou-se que processos abióticos poderiam produzir as estruturas e explicar a co-ocorrência de outros sinais (como compostos orgânicos e certas deposições minerais, como a magnetita). Aliás, no trabalho de Hoover é digno de nota a *ausência* da citação desse trabalho.

Estranho ainda o artigo ser monoautoral. Hoover realmente teve muito trabalho de preparar as amostras, micrografá-las, analisar a morfologia e a composição química sozinho. ONo de McKay et al. 1996 foram 9 autores, no de Wolfe-Simon et al. 2010 (das bactérias arseniófilas), 12 autores.

O artigo foi publicado em um periódico bastante suspeito. Seu quadro conta com pessoas que, embora tenham contribuições importantes em suas áreas, têm lá suas hipóteses de estimação bastante estranhas: Chandra Wickramasinghe, defensor entusiasmado da panespermia; e Roger Penrose, e sua esquisita teoria da consciência quântica; já publicaram artigos muitos estranhos e estão para encerrar suas atividades. A Nasa também anda enfrentando severos cortes de verba.

O Journal of Cosmology apresentou o artigo para 100 especialistas e convidou outros 5.000 para analisá-lo; irá publicar os comentários entre os dias 7 e 10/mar/2011. Estou curioso para ver se a revista levou em conta as opiniões dadas para publicar o artigo: terão mesmo os revisores dado o aceite?

Usando de bastante eufemismo, é um trabalho *muito* estranho. (Não que não devesse ser publicado, mas deveria haver muito mais cuidado do que parece que foi tomado.)

Referências
Hoover, R.B. 2001. Fossils of Cyanobacteria in CI1 Carbonaceous Meteorites. Journal of Cosmology 13.

McKay, D., Gibson, E., Thomas-Keprta, K., Vali, H., Romanek, C., Clemett, S., Chillier, X., Maechling, C., & Zare, R. (1996). Search for Past Life on Mars: Possible Relic Biogenic Activity in Martian Meteorite ALH84001 Science, 273 (5277), 924-930 DOI: 10.1126/science.273.5277.924

Wolfe-Simon, F., Blum, J., Kulp, T., Gordon, G., Hoeft, S., Pett-Ridge, J., Stolz, J., Webb, S., Weber, P., Davies, P., Anbar, A., & Oremland, R. (2010). A Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus Science DOI: 10.1126/science.1197258

Upideite(06/mar/2011): Outras análises.
Rosie Redfield, no RRResearch, observa que o tamanho dos filamentos varia bastante.
PZ Meyers, no Pharyngula, claro, é ainda mais ácido do que eu: "This isn't science, it's pareidolia".

Upideite(07/mar/2011):
Charlie Petit no Knight Science Journalism Tracker: "This will be hard for any serious science journalists to cover – even to debunk it."

A Nasa, escaldada, parece não endossar a opinião de Hoover. (Dica da @alesscar)

Upideite(08/mar/2011):
Aqui tem mais algumas informações.

O Journal of Cosmology publicou alguns comentários (21 até esta data). A maioria estranhamente favorável; continuando na esquisitice, incluíram comentário de um dos editores da própria revista, além de outros autores que publicaram também na própria revista. Será que ninguém com objeções mais fortes se dignou a apresentá-las? O que me faz questionar a respeito dos tais 100 especialistas (e, sinceramente, enviar convites gerais para mais de 5.000 outros caracterizaria spam - duvido que tenham assinado newsletter da revista).

Upideite(09/mar/2011): Phil Plait volta à carga . PZ Meyers também. A história na New Scientist. David Dobbs na Neuron Culture.

6 comentários:

Mário César Mancinelli de Araújo disse...

Concordo que se deva tomar muito cuidado ao se publicar algo assim, mas o cuidado foi tomado. Foram convidados cerca de 5000 cientistas para rever a publicação, fazer críticas e propor novas hipóteses, experimentos, etc, para próximos papers.

Então, sinceramente, não vejo qual o "drama" a respeito do paper. Nem quanto à bactéria que supostamente substitui fósforo por arsênio (o que, aliás, já se propunha ser possível desde a década de 90, só não havia sido observado).

A vida fora da Terra é, no mínimo, inevitável. Mesmo que não exista, pode se formar a qualquer momento, basta ter um local com as condições adequadas e os elementos químicos necessários. Não há nada "milagroso" na vida, é só uma consequência do geologismo.

none disse...

Salve, Araújo,

Valeu pela visita e comentário.

O drama é que a despeito do número de pessoas para quem foi mostrado o artigo, ele apresenta indícios muito fracos para o que pretende defender.

Vamos supor que as tais condições adequadas sejam suficientemente abundantes. É *muito* suspeito que isso implique em surgir formas de vida não apenas similares à vida da Terra, mas efetivamente vida idêntica à da Terra à ponto de ser classificada dentro de um mesmo *gênero* de uma espécie *atual*.

Aí temos um problema bem grave no enraizamento da árvore da vida... Ou então teremos que supor que veio toda uma diversidade de formas de vida para a Terra - provavelmente incluindo os primeiros eucariotos...

[]s,

Roberto Takata

André Rabelo disse...

Olá Roberto, não conhecia teu blog, muito bom!

Depois de ler o q vc falou sobre o histórico de publicações desse journal e da relação desse resultado com o que sabemos sobre a árvore da evolução, estou com a expectativa de que o artigo vá receber muitas críticas negativas dos convidados a revisá-lo.

Eu publiquei essa notícia no meu blog, mas não tinha o background q vc demonstrou ter sobre o tema. recebi de um amigo, vi que era um pesquisador da NASA, e acabei sendo vítima da notícia qnd a li no site do dawkins.

Como vc explorou bem, existem umas improbabilidades e dificuldades em sair afirmando o que o Hoover afirmou. Vamos aguardar as críticas sairem esses dias.

um abraço,
André

none disse...

Salve, Rabelo,

Bem-vindo ao blogue.

Vamos ver também a composição dessa "banca" de especialistas...

[]s,

Roberto Takata

Fernando Ariel Genta disse...

Salve Takata! Mais um post pra lá de oportuno.

O artigo realmente não é grande coisa. As estruturas podem ser abióticas, as moléculas descritas também...na verdade ele não tem nada que já não tenha sido descrito, com o agravante da provável contaminação das amostras. Mas aí entra a questão da não detecção de nitrogênio, o que faz supor que a coisa toda é mesmo um grande artefato. Acho que o caso do arsênio foi pior, por que saiu numa revista muito conceituada...

Saudações!

none disse...

Salve, Mig,

É, essa história toda é muito estranha.

Até os melhores cientistas tem lá suas hipóteses de estimação esquisitas.

[]s,

Roberto Takata

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