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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Como é que é? - Molho de soja (shoyu) é feito com milho no Brasil? (Sim, mas...)

Causou alvoroço a notícia sobre um estudo brasileiro da composição isotópica (variantes de um mesmo elemento químico) do carbono em molhos de soja produzidos no Brasil, indicando uma grande presença provavelmente de derivado de milho na mistura.

Ocorre que é absolutamente normal o uso de outros componentes para a produção do molho além da soja (e sal e água). Geralmente é adicionada uma fonte de amido para promover o crescimento do fungo e a produção de suas enzimas - no Japão e outros países orientais é comum a adição de trigo.

O ministério da agricultura do Japão padroniza cinco tipos entre os principais, mas há variantes por todo o país. O tipo mais comum de shoyu comercializado no Japão é koikuchishoyu (濃口醤油), com uma proporção de 1:1 entre soja e trigo. O shiroshoyu (白醤油), shoyu branco, pode ser feito totalmente de trigo, mas o mais comum tem uma proporção de cerca de 75% (1 parte de soja para 3 de trigo). O usukuchishoyu (薄口醤油) tem uma coloração intermediária entre o shiroshoyu e o koikuchishoyu, tendo cerca de 66% de trigo. Quanto maior a proporção de soja, geralmente, maior o teor de glutamato (e outros aminoácidos livres), que confere(m) o umami ao molho. Quanto maior a proporção de fontes de amido, maior o teor de açúcares, que conferem um toque adocicado. (Veja na tabela 1 algumas das principais características de cada tipo.)

Tabela 1. Características de composição e coloração dos cinco tipos padronizados de shoyu japonês. (Modificado de: O'Toole 2004.)
tipo sal (g/100 ml) nitrogênio total (g/100 ml) açúcares redutores (g/100 ml) álcool (ml/100 ml) cor razão soja:trigo
koikuchi 16,9 1,57 3 2,3 marrom escuro 1:1 mais vendido no Japão (>80% do mercado)
usukuchi 18,9 1,19 4,2 2,1 marrom claro mais trigo
tamari 19 2,25 5,3 0,1 quase preto 10:1 principal tipo consumido na China
saishikomi 18,6 2,39 7,5 - quase preto 1:1 uso de shoyu cru no lugar da salmoura para fermentação líquida
shiro 19 0,5 20,2 - amarelado muito mais trigo

A figura abaixo representa simplificadamente o processo industrial de produção do koikuchishoyu.

Figura 1. Esquema simplificado da fabricação industrial do shoyu tipo koikuchi. Koji (ou kouji, ), o bolor de Aspergillus spp. sobre grãos e sementes para a iniciação da fermentação;  moromi (諸味), o mosto de fermentação do shoyu (Modificado de Luh 1995.)

Então é preciso observar- que: 1) não há proibição na legislação brasileira de adição de milho nem estabelecimento de limites para seu uso no molho de soja (como é comentado de passagem nas reportagens como a do UOL); 2) elementos amiláceos que não a soja são acrescentados normalmente na produção de shoyu, inclusive no Japão; 3) a presença de milho (e outros ingredientes) *está* indicada normalmente nos rótulos de shoyu nacionais, como determina a lei.

A única restrição que se poderia fazer é se a *ordem* dos ingredientes nos rótulos está de acordo com a quantidade de milho: se há mais milho do que soja, o milho precisa estar listado antes da soja nos ingredientes.

Os autores do estudo observam que a maioria das amostras estudadas (40 de 70 amostras de marcas brasileiras) apresentou um teor estimado de soja menor do que 20%. É preciso observar que o que o estudo determinou mais diretamente é a proporção de isótopos de carbono-13 (C-13). O milho, ao contrário da maioria das plantas, inclusive soja (e também trigo), tem o chamado metabolismo C4, em que o carbono é inicialmente fixado (incorporado) em um composto de quatro átomos de carbono (a maioria tem um metabolismo chamado de C3, que, como se pode deduzir, fixa o carbono inicialmente em um composto com três átomos de carbono). Nas plantas com metabolismo C4, ocorre uma fixação de gás carbônico com isótopo C-13 em proporção ligeiramente superior às plantas C3. Um nível mais elevado de C-13 indicaria o uso em maior quantidade de uma fonte como o milho. A metodologia, então, é bem indireta para se estabelecer a quantidade exata de milho usado - tanto é que, para pelo menos um dos pontos, a extrapolação a partir da medição de C-13 indicaria uma quantidade superior a 100% de soja, o que não faz sentido a não ser considerando-se as incertezas da avaliação para o teor de milho.

Para os pesquisadores, a possível alta quantidade de milho poderia se dever ao fato dos preços desses grãos serem, na média, menores do que os da soja. É possível e faz muito sentido (mesmo que correspondendo a alguns centavos por frasco). Mas um fator a se considerar é a diferença de gosto entre brasileiros e japoneses. Será que, em tudo o mais sendo igual (preço, quantidade de sal, cor...), o brasileiro preferiria um molho com maior umami ou um com mais açúcares? É possível que haja estudos de mercado sobre a preferência do consumidor, no entanto, como não sou da área, não tenho conhecimento a respeito.

Seria o caso de promover uma padronização do shoyu brasileiro? Não sei. Em termos de saúde - tirante legislações mais genéricas como em relação ao uso de sal, aviso de alergênicos, data de validade, tabela nutricional... -, não parece haver necessidade em função de um eventual risco pelo uso de milho. Em termos econômicos: em 2013, as vendas totais de shoyu no Brasil eram o equivalente a cerca de R$ 180 milhões/ano, não chega a ser insignificante (para fins de comparação, o ketchup movimentou cerca de 500 milhões BRL/ano em 2016); mas há lesão ao consumidor - exceto se no rótulo não for indicado o uso do milho ou a listagem sugerir um uso menor -? Essa discussão deixo para a leitora ou o leitor do GR.

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Algumas manchetes, excertos e comentários:
Exame 25.abr.2018: Estudo mostra que shoyu brasileiro é feito à base de milho
"Foram feitas análises com 70 amostras do condimento vendidas no Brasil. A presença média de soja nos produtos avaliados era de menos de 20%. Apesar de normalmente ser à base de soja no Oriente, ele é feito com milho no mercado nacional. O trigo e a cevada podem ser misturados ao shoyu, mas não fazem parte da composição principal do produto."
UOL 25.abr.2018: Shoyu produzido no Brasil não é de soja, é feito à base de milho
"Em países como Japão, China e Coreia do Sul, o molho shoyu é feito de soja com proporções pequenas de outros cereais como trigo ou cevada."
.O shoyu mais comumente vendido no Japão, por exemplo, leva 50% de trigo, o que é longe de pequeno e pode ser qualificado como fazendo parte da composição principal. Há variações que têm até 100% de trigo na composição (excetuando-se água e sal).
Terra 26.abr.2018: Estudo revela real composição do Shoyu fabricado no Brasil.
"O molho fabricado pelas indústrias brasileiras é composto por milho, e não por soja. [...] Já o milho, nesse mesmo processo apresenta o sistema de fotossíntese de C4 por gerar moléculas de açúcar que contêm quatro átomos de carbono. Essas moléculas de açúcar continuam presentes nos alimentos mesmo após seu processamento, portanto torna-se mais fácil identificar cada um deles."
.Embora o milho fosse o principal componente, havia soja - mesmo que apenas 5% (o menor teor estimado para algumas amostras), não houve nenhuma em que o molho tivesse apenas milho. O método usado não tem a ver com a quantidade de átomos de carbono nas moléculas de açúcares - porque, embora inicialmente nas plantas de metabolismo C4 o carbono seja fixado em uma molécula de 4 átomos de carbono, essa molécula é processada depois e a via fotossintética é muito similar às plantas C3; a diferença é pela fração de isótopos de carbono-13 que são incorporados (devido a afinidades das enzimas que realizam a reação).

domingo, 31 de julho de 2016

Qual anatomia é ideal para sobreviver a colisões automotivas?

Um grupo australiano composto por uma escultora, um cirurgião especialista em traumatismos por colisões e um investigador de acidentes veiculares fizeram um interessante exercício sob encomenda da Comissão de Acidentes no Transporte (TAC) do estado de Victoria, Austrália, a respeito de como haveria de ser o corpo humano selecionado pelo trânsito.

Para eles, as modificações anatômicas envolveriam uma cabeça grande resultante de um crânio espessado e tecidos absorvedores de choque que protegeriam o cérebro de danos do impacto ligado diretamente ao tórax, sem pescoço; uma caixa torácica reforçada e alguns outros detalhes menores.

A especulação é interessante para desenvolver uma consciência a respeito dos perigos do trânsito. Mas creio que não para um dos objetivos declarados do projeto, segundo o diretor-executivo da TAC, Joe Calafiore, de ser um "lembrete para desenvolver um sistema de trânsito mais seguro que vai nos proteger quando tudo der errado". Isso porque a base científica das modificações na escultura - chamada de Graham - parecem-me um tanto frágeis.

Aparentemente as modificações foram feitas em cima das estruturas mais afetadas em uma colisão de carro - cabeça e tórax - e a solução apresentada foi reforçá-las.

Mas aumentar a massa de impacto tende a não ser uma boa ideia.

Uma massa corporal maior significa uma energia cinética maior, o que implica em uma força de impacto maior - ainda que tecidos moles como o adiposo possam fornecer algum amortecimento e tecidos ósseos mais densos possam ser mais resistentes - tende a forçar mais os sistemas de segurança como cintos e air bags.

Zhu e cols. (2006) analisaram a relação entre fatalidade em colisões e o índice de massa corporal (IMC) dos motoristas. Excetuando-se as situações de velocidade muito baixas, em que uma maior massa, tem um efeito protetor, quando maior o IMC, mais mortais são os acidentes. (Fig. 1)

Figura 1. Relação entre índice de massa corporal (IMC/BMC) em motoristas homens e fatalidade em colisões automotivas. Fonte: Zhu et al. 2006.

Cabe notar que a relação IMC maior, maior fatalidade não é observado entre as mulheres (Fig. 2).

Figura 2. Efeito do IMC/BMC na fatalidade em colisões automotivas para homens (Men) e mulheres (Women). Fonte: Zhu et al. 2006.

A diferença parece se dever à diferença de distribuição de massa - nos homens, ela tende a se concentrar na região superior (Zhu et al. 2010).

Oras, aumentar a massa na região superior é exatamente o resultado da proposta da equipe que produziu Graham.

Um boi almiscarado tem, entre espessura de chifre e do crânio, cerca de 13 cm de proteção do cérebro contra o impacto gerado em suas disputas a cabeçadas contra outros machos. São animais de até 410 kg batendo-se a 60 km/h. A resistência estimada do sistema chifre+crânio é de 12.858 N (Snively & Theodor 2011). Já um motorista de uns 75 kg em uma colisão 48 km/h enfrenta uma força de 14.274 N com cinto de segurança e de 107.059 N sem cinto. O aumento de massa pela espessura cranial (e do reforço das costelas) só piora o impacto e não deve gerar a resistência necessária.

Por outro lado, um relatório técnico de 2005 do Departamento de Transporte dos EUA, levantou a mortalidade em crianças e adolescentes em colisões veiculares. Para situação de uso de cintos e cadeiras de segurança em carros de passeio, as seguintes taxas foram encontradas por faixa etária por colisão:

0-3 anos: 20,1%; 4-7 anos: 13,6%; 8-15 anos: 18,4%; 16 ou mais anos: 36.9%.

De modo geral, quanto mais jovens, maiores as chances de sobrevivência em uma colisão. A idade correlaciona-se, entre outras coisas, com o tamanho corporal.

Somando-se com a observação da mortalidade de adultos relacionada ao IMC e à distribuição da massa, o melhor para sobreviver a um acidente seria uma massa *menor*.

Um menor tamanho corporal implica também em uma menor estatura. Em termos teóricos, o papel da altura do ocupante é mais complexo - especialmente para os motoristas. De um lado, pessoas mais baixas do que a média, tendem a puxar o banco mais para a frente, ficando mais perto da barra da direção e do para-brisas: aumentando a tendência de impacto cheio com esses obstáculos. De outro, pessoas mais altas têm um menor espaço de segurança até o teto. Além disso, tendem a ter a cabeça muito acima do ponto de contato com o cinto, o que as expõe a um maior efeito chicote - em que a cabeça é rapidamente sacudida para frente e para trás em movimento de grande amplitude - o que pode causar sérias lesões na coluna cervical (risco que, teoricamente, Graham, sem pescoço, não corre).

Na literatura há alguns dados que apontam tanto para um sentido - maior risco para os mais altos - quanto para outro - maior risco para os mais baixos. Mas parece haver uma tendência a haver um maior risco para os mais altos.

Howson et al. (2012) examinaram a relação a sobrevivência em capotagem e a altura do motorista. Motoristas com mais de 72 polegadas de altura (1,83m) apresentou uma maior taxa de fatalidade - provavelmente pelo menor espaço entre o topo da cabeça e o teto do veículo aumentando a probabilidade de impacto sobre a cabeça.

Chong et al. (2007) analisaram vários atributos dos ocupantes e incidência de fraturas nas extremidades inferiores e obtiveram uma taxa aumentada de fraturas no joelho, fêmur ou bacia (KTH) para pessoas com 1,70m ou mais. Fraturas KTH, tíbia ou fíbula (LL) e pé e calcanhar (FA) aumentam também com o peso.

Por outro lado, Welsh et al. (2003), em um relatório para o Departamento de Transporte do Reino Unido, encontraram um *maior* risco de ferimentos moderados (AIS 2+) entre motoristas com até 1,60m de altura.

Pode ser que haja e que eu não tenha encontrado, mas um estudo interessante seria ver a taxa de sobrevivência/fatalidade de motoristas anões em acidentes. Sendo tudo o mais igual, capaz deles terem uma perspectiva melhor do que pessoas de altura normal.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Como é que é? - Tubarões não adoecem?

Já tinha ouvido falar que tubarões não têm câncer, mas parece que tem um mito ainda mais abrangente: a de que tubarões simplesmente não desenvolveriam nenhuma doença (Fig. 1).

O mito é explorado por uma ampla gama de produtos milagrosos, como extrato de cartilagem de tubarão, supostamente com poderes protetivos contra tumores (há pesquisas em andamento sobre o efeito antiangiogênico - isto é, inibidor de formação de vasos sanguíneos - da cartilagem de tubarão que poderia ser útil no tratamento de tumores, mas não há nada definitivo, muito menos sobre as vias de administração). (Ostrander et al. 2004.)

Figura 1. Meme desinformativo (à esquerda). Seu real valor (à direita).

Não preciso dizer que é bobagem, certo? Bem, mas vamos aos dados:

Várias espécies de bactérias do gênero Vibrio (sim, parentas da que causa a cólera em humanos) estão associadas à mortalidade em tubarões mantidos em cativeiro (Grimes et al. 1984, Grimes et al. 1985).

O parasitismo pelo copépodo Nemesis robusta nas guelras leva a uma deficiência na respiração (Benz & Adamson 1990).

O fungo Fusarium solani pode atacar os canais da linha lateral de tubarões-martelo em cativeiro (Crow et al. 1995).

E, sim, tubarões *TÊM* câncer:  neoplasia na gengiva (Borucinska 2004), melanoma (Waldoch et al. 2010), lesões proliferativas (Robbins et al 2013)... Conforme Ostrander et al. (2004), casos de neoplasias em condríctios (grupo dos peixes cartilaginosos a que pertencem os tubarões) são conhecidos há mais de 150 anos (mais de 160 anos agora). A primeira descrição (em uma raia) data de 1853. Há até condroma (tumor benigno na... cartilagem).

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Essa proliferação de perfis nas redes sociais que supostamente relatam fatos (curiosos, pouco conhecidos, interessante) sem nenhum tipo de referência é uma praga. Essas bobagens não são raras, não sei se fruto somente de uma ausência de um mecanismo mínimo de conferência ou se por má fé. A se aplicar a navalha de Hanlon, eu deveria me ater à primeira hipótese. Mas, diante do fato de a quase totalidade se manter alheia às correções feitas, não dá pra não pensar em algo além da ingenuidade e do trabalho de má qualidade. O melhor a se fazer é ignorar tais perfis - talvez se cometa alguma injustiça, mas se evita a exposição à informações factualmente erradas (ou pelo menos de natureza duvidosa que não merecem nem de longe serem chamadas de fatos).
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Referências
Benz, G.W & Adamson, S.A.M. (1990). Disease caused by Nemesis robusta (van Beneden, 1851) (Eudactylinidae: Siphonostomatoida: Copepoda) infections on gill filaments of thresher sharks (Alopias vulpinus (Bonnaterre, 1758)), with notes on parasite ecology and life history Canadian Journal of Zoology, 68 (6), 1180-1186 : 10.1139/z90-175

Borucinska, J., Harshbarger, J., Reimschuessel, R., & Bogicevic, T. (2004). Gingival neoplasms in a captive sand tiger shark, Carcharias taurus (Rafinesque), and a wild-caught blue shark, Prionace glauca (L.) Journal of Fish Diseases, 27 (3), 185-191 DOI: 10.1111/j.1365-2761.2004.00532.x

Crow, G., Brock, J., & Kaiser, S. (1995). Fusarium solani Fungal Infection of the Lateral Line Canal System in Captive Scalloped Hammerhead Sharks (Sphyma lewini) in Hawaii Journal of Wildlife Diseases, 31 (4), 562-565 DOI: 10.7589/0090-3558-31.4.562
Grimes DJ, Stemmler J, Hada H, May EB, Maneval D, Hetrick FM, Jones RT, Stoskopf M, & Colwell RR (1984). Vibrio species associated with mortality of sharks held in captivity. Microbial ecology, 10 (3), 271-82 PMID: 24221148

Grimes, D., Gruber, S., & May, E. (1985). Experimental infection of lemon sharks, Negaprion brevirostris (Poey), with Vibrio species Journal of Fish Diseases, 8 (2), 173-180 DOI: 10.1111/j.1365-2761.1985.tb01212.x

Ostrander GK, Cheng KC, Wolf JC, & Wolfe MJ (2004). Shark cartilage, cancer and the growing threat of pseudoscience. Cancer research, 64 (23), 8485-91 PMID: 15574750

Robbins, R., Bruce, B., & Fox, A. (2013). First reports of proliferative lesions in the great white shark, L., and bronze whaler shark, Günther Journal of Fish Diseases DOI: 10.1111/jfd.12203

Waldoch JA, Burke SS, Ramer JC, & Garner MM (2010). Melanoma in the skin of a nurse shark (Ginglymostoma cirratum). Journal of zoo and wildlife medicine : official publication of the American Association of Zoo Veterinarians, 41 (4), 729-31 PMID: 21370659
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via @oatila.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Jogos dos erros 2

O Estadão reproduz reportagem da AFP: "Cientistas identificam microrganismo que pode esclarecer vida primitiva"

Sobre o uso do termo primitivo já comentei aqui no GR.

Aspas para o responsável do grupo de pesquisadores: "Descobrimos no lago um ramo desconhecido na árvore da vida. É única". O que essa frase quer dizer exatamente? Tecnicamente, uma espécie ou subespécie nova também é um novo ramo da árvore da vida - e, por definição, único. É um domínio novo ao lado de arqueas, eubactérias e eucariotos? Não há nenhuma informação a respeito na reportagem.

Mais aspas: "Para nós, nenhum outro grupo de microrganismos é descendente de tão perto das raízes da árvore da vida". Isso não faz o menor sentido. *Todos* os organismos atuais são descendentes exatamente da mesma raiz e estão à mesma distância temporal dela: cerca de 4 bilhões de anos.

Continua a reportagem: "O microrganismo 'se desenvolveu há cerca de um bilhão de anos, com uma margem de erro de cem milhões de anos', acrescentou." 1 bilhão de anos... Vejamos, o tempo de divergência entre os domínios atuais é estimado em algo como 3,5 bilhões de anos - 1 bilhão está bem distante desse ponto de separação das linhagens. E mais, cianobactérias devem existir há pelo menos 2,6 bilhões de anos (e talvez 3,5 bilhões de anos se a interpretação Schopf dos Sílex de Apex se mostrar correta).

Celenterados e demais eumetazoários têm um tempo de divergência estimado em alguns estudos em cerca de 1,2 a 1,5 bilhão de anos. Nemátodos e bilatérios em cerca de 1,2 bilhão de anos. Porém, outros estudos indicam um tempo de divergência bem mais recente para os eucariotos: o LECA (o último ancestral em comum dos eucariotos) teria vivido entre 1 e 1,4 bilhão de anos atrás.

E mais: "Para o cientista, o organismo microscópico 'pode servir de telescópio para observar o microcosmo original' e assim conseguir 'entender melhor como foi a vida primitiva na Terra'." Até pode, mas não mais do que muitos outros organismos.

A reportagem não dá nenhuma contextualização mais aprofundada - só que a descoberta foi feita originalmente há 20 anos e aparentemente foi feita uma nova análise. Mas não nos informa se é um estudo publicado, submetido, se foi anunciado em um congresso científico ou se é apenas um press release. Não nos informa que tipo de micro-organismo é: uma bactéria, uma arquea, uma alga, um fungo, um protozoário...

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Só alhures encontramos a menção de que é um eucarioto. E acrescentam uma afirmação sensacionalista do tipo "mankind's furthest relative". Só será se arbitrariamente se definir o limite do parentesco com a linhagem que deu origem aos humanos no nó em que se encontra o ancestral em comum mais recente desse micro-organismo e os humanos. De todo modo, o organismo teria uma divergência mais próxima da base dos *eucariotos* e não da árvore da *vida* - se considerarmos um LECA mais recente (outras estimativas ficam na ordem de 2 bilhões de anos).

O estudo foi publicado na Molecular Biology Evolution, ainda em versão eletrônica: Zhao et al. 2012. Collodictyon – an ancient lineage in the tree of eukaryotes. Mol. Biol. Evol.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O que é biologia?

A maioria das fontes irá definir mais ou menos como: "estudo científico da vida" (e partir para uma longa discussão sobre o que vem a ser vida afinal de contas).

Apesar de o termo ter sido cunhado repetidas vezes de modo independente entre o fim do século 18 e início do 19 (com a referência mais antiga conhecida - no sentido moderno do termo - datando de 1766, segundo McLaughlin 2002), ainda no inicio do século 20 havia uma certa discussão acerca da definição e significado da palavra.

Em uma carta à Science, em 1893, J. Christian Bay sugeria que "a ciência dos seres vivos" fosse referida como fisiologia, sendo a biologia: "the mutual relationship of the forms of organized matter, especially in view of the theories of adaptations and of natural selection" ["a relação mútua entre as formas organizadas de matéria, especialmente segundo as teorias das adaptações e da seleção natural"].

Harper (1913), em uma proposta de reorganização das seções da AAAS, observou: "Biology was for a long time, and is still in some quarters, regarded as merely the sum of zoology and botany or, worse still, a mixture of a large amount of zoology with a small amount of botany.' Some also have treated it as practically synonymous with ecology, particularly animal ecology. But every science is known by its laws, and if biology is defined as the science of life its laws are those which apply to all forms of life and not to inanimate matter, namely, the laws of evolution and heredity." ["A biologia foi, por um longo tempo, e continua em algumas partes, tida como meramente a soma da zoologia e da botânica, ou, pior, a mistura de uma grande porção de zoologia com uma pequena porção de botânica. Alguns até mesmo têm-na tratado como praticamente um sinônimo de ecologia particularmente ecologia animal. Mas toda ciência é conhecida por suas leis, e, se a biologia é definida como a ciência da vida, suas leis são aquelas que se aplicam a todas as formas de vida, mas não à matéria inanimada, quais sejam, as leis da evolução e da hereditariedade."]

Essa discussão não aparece, no entanto, por exemplo, nas páginas da britânica Nature. É possível (mas friso que é apenas um chute) que essa diferença se deva à instalação recente (à época) da biologia como disciplina acadêmica nos EUA - ocorrida ao fim do século 19 (Campbell 1891, Pauly 1984).

Definições alternativas
  • Thornhill 1984. "Biology is the scientific study of the evolution of life." (Definição de Bay. Geralmente denominada de Biologia Evolutiva.)
  • Dawkins 1986 "Biology is the study of complicated things that give the appearance of having been designed for a purpose." (Não sei ao certo se se trata mesmo de uma definição ou se de apenas conceituação.)
  • Rinaldo 1998. "While biology is the study of carbon-chain chemistry, artificial life could be thought of as theoretical biology, which looks instead to creating models of biological systems."*
  • Piazzo 2005. "the science that studies complex interactive systems related to living organism. This new definition suggests a similarity between biology and computer science, because a field of the latter is the modelling of concurrent interactive systems (usually made of software components)".
  • Mustelin, T. 2006. (apud Martin 2007) "the science of nanostructures made of predominantly carbon, oxygen, nitrogen and hydrogen"

Referências
Bay, J. (1893). What is Biology? Science, 275-276 DOI: 10.1126/science.ns-21.537.275

Campbell, J.P. (1891). Biological Teaching in the Colleges of the United States.

Dawkins, R. (1986). The Blind Watchmaker.

Harper, R. (1913). A proposed re-arrangement of sections for the American Association for the Advancement of Science Science, 38 (988), 815-818 DOI: 10.1126/science.38.988.815-a

Martin, C. (2007). Nanomedicine: a great first year and, with your help, a bright future ahead
Nanomedicine, 2 (3), 265-266 DOI: 10.2217/17435889.2.3.265


McLaughlin, P. (2002). Naming Biology Journal of the History of Biology, 35 (1), 1-4 DOI: 10.1023/A:1014535811678

Pauly, P. (1984). The appearance of academic biology in late nineteenth-century America Journal of the History of Biology, 17 (3), 369-397 DOI: 10.1007/BF00126369

Piazzo, P. 2005. Probabilistic Modelling and Verification of Biological Systems. Tese de Doutorado.

Rinaldo, K. (1998). Technology Recapitulates Phylogeny: Artificial Life Art Leonardo, 31 (5) DOI: 10.2307/1576600

Thornhill, R. (1984). Scientific Methodology in Entomology The Florida Entomologist, 67 (1) DOI: 10.2307/3494107

*Upideite(20/fev/2011): Adido a esta data.
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