Lives de Ciência

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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso?

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012 tem como tema "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza".

Qual o papel a ser desempenhado pelas Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) na busca pela sustentabilidade, de uma economia verde e da erradicação da pobreza?

Quando se pensa em CTI, muitas vezes associamos com outra sigla: P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Desenvolvimento de novas tecnologias através da aplicação de conhecimento científico adquirido por meio de pesquisa.

Nesse sentido, é possível que as CTI tenham pouco a ver com a solução dessas questões. Por um motivo muito simples: não é necessário o desenvolvimento de *novos* projetos e tecnologias para acabar com a miséria e se atingir um sociedade sustentável baseada em economia ecologicamente correta e socialmente inclusiva.

Segundo levantamento do Banco Mundial, em 2011, em valores correntes, o mundo produziu US$ 69.993.693.036.451, quase 70 trilhões de dólares americanos. Segundo as Nações Unidas, em 2011, a população mundial deveria ser de 7.084.322.000 habitantes. O que corresponde a um PMB (produto mundial bruto) de US$ 9.880,08 anuais per capita ou pouco mais de US$ 820/mês (R$ 1.665/mês)  ou cerca de US$ 27/dia para cada pessoa. Não é muita coisa. Mas é muito mais do que ganham os miseráveis na definição da ONU e dos projetos sociais governamentais brasileiros (veja postagem anterior). Na verdade, está acima da faixa que o governo brasileiro define como Nova Classe Média, e, combinada em uma família de 3 pessoas, atinge a faixa B1 do Critério Brasil de Classificação Econômica.

Em temos alimentares, segundo a FAO, em 2010, o mundo produziu 2.744.973.554.000 kg de alimentos amiláceos (arroz, trigo, milho, batata e mandioca), pouco menos de 3 trilhões de kg. O que dá 387,5 kg de alimentos por ano por pessoa, pouco mais de 1kg de alimentos amiláceos por pessoa (se descontarmos o milho - usado intensamente na ração animal - teremos cerca de 735 g/dia por pessoa). Em termos de proteína animal, em 2010, a produção total (entre carnes, ovos e leites) foi de 1.024.528.037.000 kg ou 144 kg/ano por pessoa ou 392 g diários per capita. Não chega a formar uma dieta equilibrada. Por exemplo, a recomendação mínima de consumo diário para frutas, legumes e verduras é de 400 g/dia - em média para adultos -, mas a produção mundial corresponde a apenas cerca de 100g/dia por pessoa. Mas é o suficiente para suprir as necessidades energéticas e proteicas de todos os habitantes do planeta.

Em tese, não seria necessário gerar mais renda (nem mais alimentos) para os mais pobres. Bastaria distribuir a riqueza já existente. Claro que isso teria outras implicações.

E a sustentabilidade e economia verde? Somente essa distribuição teria, por um lado, um efeito de redução do impacto socioambiental. Nessa faixa de renda, as condições de moradia, saúde e alimentação são, óbvio, muito melhores do que nas condições de moradias improvisadas, sem saneamento básico. Mas não teria um efeito contrário também, já que uma renda mais elevada levaria a um maior consumo de recursos? Sim. Porém, como estamos trabalhando com redistribuição, haveria redução na outra ponta: consumo de superluxo e altamente supérfluos. De todo modo, pelo menos um estudo indica que a redução da desigualdade econômica está associada a um aumento nas emissões de CO2 (outro estudo detecta um padrão em U: em países altamente desiguais, a redução da desigualdade leva a uma diminuição da emissão per capita de CO2, já em países de baixa desigualdade, a redução leva a um aumento da emissão).

Contudo, hoje, já existem tecnologias testadas que reduzem a emissão de CO2 e consumo de matéria prima. Nos EUA, a energia eólica e hidrelétrica já são mais baratas do que a termoelética. A geotérmica também está no mesmo patamar. Um pouco acima, a energia de biomassa e ainda 50% mais cara, a energia solar (mas em tendência de queda no preço). Além da polêmica energia nuclear.

Considere-se ainda a questão da eficiência energética, que pode reduzir a demanda por energia em algo em torno de 30%.

Tudo isso com coisas que já existem e sabemos que funciona. Assim, as CTI são desnecessárias atualmente no contexto da obtenção da erradicação da pobreza com sustentabilidade e economia verde. (Mesmo a expansão da produção de alimentos e da riqueza para atender ao crescimento populacional é possível de ser obtidoa com as tecnologias atualmente existentes.)

Ou será que não? Na próxima postagem discuto outra abordagem a respeito do papel das CTI nessas questões. (Mas precisaremos alargar a visão da sigla para além da P&D.)

Upideite(17/out/2012): Continua.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" segundo o Google

Abaixo o gráfico do volume relativo de buscas no Google sobre a "Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" ao longo do tempo.



Nenhuma surpresa. Os picos são no mês de outubro. As buscas são relativamente mais intensas, em ordem decrescente, a partir do Distrito Federal (100), Rio de Janeiro (65), Minas Gerais (45) e São Paulo (17).

Um outro gráfico comparando com a busca por "Halloween" (nota, restringi para busca no Brasil).



A busca por SNCT praticamente desaparece. Idem com "Dia das Crianças" (curiosamente, no Brasil, busca-se mais por "halloween" do que por "dia das crianças").



Mais um, comparando com "Dia Mundial da Alimentação"



Ainda que sem dados para substanciar, apostaria que a busca pelo Dia Mundial da Alimentação seja induzida por trabalhos escolares (bem como sobre a SNCT). Repito, é só um chute.

As mesmas observações que fiz antes sobre a extrapolação desses dados para a população em geral valem aqui. Porém, o que é óbvio é que há ainda muito espaço para se trabalhar na divulgação da SNCT.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia foi instituída por meio de um decreto presidencial de 9 de junho de 2004, sendo comemorada todos os anos no mês de outubro e é coordenada pelo MCTI. [Por que não coincide com o Dia Nacional da Ciência (8 de julho, instituído pela Lei Federal 10.221/2001), não sei dizer.]

As edições anteriores foram:
SNCT 2011: 17 a 23/out "As mudanças climáticas, desastres naturais e prevenção de riscos"
SNCT2010: 17 a 24/out "Ciência para o desenvolvimento sustentável"
SNCT2009: 19 a 25/out "Ciência no Brasil"
SNCT2008: 20 a 26/out "Evolução e diversidade"
SNCT2007: 1 a 7/out "Terra!"
SNCT2006: 16 a 23/out "Criatividade e inovação" (Portaria MCT 212/2006)
SNCT2005: 3 a 9/out "Brasil, olhe para a água" (Portaria MCT 154/2005)
SNCT2004: 15 a 21/out tema? (Portaria MCT 352/2004)

Figura 1. Evolução da participação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

A deste ano tem como tema: "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza". (Tema também da Rio+20.)

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Pelo relatório da Comissão Bruntland de 1987 "Our Common Future" o desenvolvimento sustentável define-se como:
"15. In essence, sustainable development is a process of change in which the exploitation of resources, the direction of investments, the orientation of technological development; and institutional change are all in harmony and enhance both current and future potential to meet human needs and aspirations."
["Em essência, o desenvolvimento sustentável é um processo de mudança na qual a exploração de recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e mudança institucional estão todas em harmonia e aumenta o potencial tanto corrente quanto futuro de atender às necessidades e aspirações humanas."]

O PNUD define situação de extrema pobreza como a sobrevivência com uma renda inferior a US$ 1,25 por dia. O Bolsa Família é voltado para os brasileiros em situação de extrema pobreza. Atualmente, podem receber quem tem uma renda (per capita) de R$ 70 mensais. A Secretaria de Assuntos Estratégicos, através da Comissão para Definição da Classe Média no Brasil, define-se situação de pobreza  acomo percepção de renda per capita inferior a R$ 291 mensais.

O conceito mais polêmico é o de 'economia verde'. Tão polêmico que não foi possível uma definição de consenso na versão final do documento da Rio+20: "The Future We Want". O PNUMA define como:
"improved human well-being and social equity, while significantly reducing environmental risks and ecological scarcities. In its simplest expression, a green economy is low-carbon, resource efficient, and socially inclusive."
["bem estar humano e equidade social melhorados, com redução significativa dos riscos ambientais e escassez ecológica. Expresso de modo mais simples, uma economia verde é de baixo-carbono, eficiente no uso de recurso e socialmente inclusiva."]

Mas o que ciência e tecnologia têm a ver com isso? Pode ter tudo a ver ou muito pouco a contribuir, a depender do conceito de ciências. Discutirei isso em outra postagem.

Upideite(16/out/2012): Continua.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cadê o MCTI nas redes sociais?

Do dia 15 a 21 de outubro será a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (este ano com o tema de Sustentabilidade, Economia Verde e Erradicação da Pobreza) promovido pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

No hotsite do evento estão cadastradas as atividades comemorativas que devem ocorrer (algumas já em curso) em todo o país.

Mas uma coisa de que sinto falta é ação do MCTI nas redes sociais. Eles até têm um perfil no twitter @MTCI_Inova*, mas que parece, ao menos por enquanto, resumir-se a mais uma via única de informação oficial, sem se aproveitar da interação possível. Eles poderiam, por exemplo, promover uma blogagem coletiva com a temática da SNCT.***

Temos uma rede empolgada de cientófilos brasileiros. Pelo menos um condomínio bem estruturado de blogues sobre ciências (Scienceblogs Brasil) e um projeto de levantamento de blogues de ciências, vários perfis no twitter (entre alunos, pesquisadores e jornalistas de ciências), divulgadores bem conhecidos do brasileiro, como Drauzio Varella, Mayana Zatz e Marcelo Gleiser (entre outros); agências de fomento: Fapesp, Faperj, CNPq, etc e sociedades científicas: SBPC, ABC e outras. Sem falar nas universidades e centros de pesquisa.

Vários órgão de governo como o Ministério da Cultura e da Saúde marcam presença nas mídias sociais. E o próprio MCTI fala em investir meio bilhão de reais em TI.

Por que, então, essa ausência? Alô, alô, ministro Raupp; alô, alô, DEPDI.

*Obs. A ação é tão tímida que, iniciei esta postagem achando que o MCTI não tinha perfil no twitter (nem consta no sítio web do ministério**) e só encontrei por acaso no Google procurando pelo perfil do ministro Raupp.

**Upideite(04/out/2012): Na verdade consta, sim. Mas fica bem escondido na parte debaixo da página inicial - e ainda em banner de cor verde, não típica do twitter. De todo modo, erro meu em não observar.

***Upideite(04/out/2012): Eles irão analisar a proposta de blogagem coletiva. E com isso quebram minha impressão inicial de perfil sem interação. Bom estar errado assim : )

****Upideite(04/out/2012): O perfil do MCTI no Facebook.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas: Nota de Repúdio da Sociedade Brasileira de Sociologia

A Sociedade Brasileira de Sociologia também emitiu nota criticando a postagem de Luis Nassif.

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Nota de Repúdio


A Sociedade Brasileira de Sociologia - SBS - vem, de público, manifestar veemente repúdio ao modo desrespeitoso com o que o jornalista Luis Nassif tratou a pesquisa em sociologia, mediante crítica grosseira e desqualificada ao trabalho do sociólogo e professor Dr. Josimar Jorge Ventura de Morais, da Universidade Federal de Pernambuco.
No último dia 16 do mês corrente, o jornalista publicou em seu blog um artigo com o título "O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq", no qual é posto em xeque, de forma improcedente, o processo de avaliação e financiamento da pesquisa na área de ciências sociais.
A SBS lamenta que assuntos com esse grau de relevância, que dizem respeito à pesquisa e aos métodos de julgamento e avaliação de projetos, sejam tratados de forma preconceituosa, contribuindo para reforçar estereótipos.
A desqualificação, além de abranger uma agência de fomento como o CNPq, reconhecedora da relevância do trabalho sociológico, atinge também consultores e pareceristas, ou seja, os profissionais que possuem o mérito e a autoridade para tecer julgamento sobre os projetos de sua área de competência.
No momento em que a sociologia adquiriu um patamar de legitimidade, sendo reconhecida como ciência dotada de regras e métodos peculiares de investigação, declarações dessa ordem são prova da permanência do obscurantismo e da percepção de que as ciências sociais constituem um campo que não supõe aprendizado e conhecimento especializado.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas: Prof. Túlio Velho Barreto

Entrei em contato com os Profs. Drs. Josimar Jorge Ventura Morais e Túlio Augusto Velho Barreto de Araújo. A resposta abaixo (reproduzida na íntegra) foi-me remetida pelo Prof. Túlio Velho Barreto.

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Prezado Roberto Takata,

A propósito do comentário "o financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq", postado pelo blogueiro Luis Nassif, sobre o qual você me pediu que escrevesse algo, tenho a dizer o seguinte:
Voltando ao trabalho no último dia 18, após viagem aos Estados Unidos, onde fui participar da mesa-redonda 'Brazil: Soccer and Identity', no XI Congresso Internacional da Brazilian Studies Association (BRASA), realizado na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign – aliás, como único brasileiro convidado da referida mesa –, com o trabalho “Gilberto Freyre's contribution to the‘invention’ of Brazilian nationality: ‘Foot-ball mulato’ and other writings”, fui surpreendido com o seu e-mail tratando de comentário postado pelo blogueiro Luis Nassif na página dele. Como você estava interessado no trabalho citado pelo blogueiro, mas fez referências à violência do comentário postado, não tive como respondê-lo logo, pois não tinha lido o blog, o que, aliás, por falta de absoluto interesse e tempo, jamais o fiz.

Para minha surpresa maior, ao ler o comentário do blogueiro, vi que se tratava, de fato, de despropositado ataque contra o nosso – de Jorge Ventura de Morais e meu – trabalho no campo da Sociologia dos Esportes. Na verdade, o blogueiro cita uma das atuais pesquisas de Jorge Ventura, que possibilita o pagamento de sua bolsa de produtividade, e alguns trechos pinçados de um artigo nosso sobre outra temática, ainda que na área da Sociologia dos Esportes. Frise-se que o artigo em tela resultou de projeto de pesquisa submetido e aprovado pelo CNPq, que o financiou parcialmente, e foi publicado em periódico acadêmico de programa de pós-graduação em Sociologia. Artigo, aliás, que compôs o relatório final da referida pesquisa, igualmente aprovado por comitê científico do CNPq.

Ao ler o comentário e conversar com Jorge Ventura, logo ficou claro que, na verdade, fingindo interesse em discutir o financiamento público de pesquisas na área das Ciências Sociais, tratava-se de retaliação do blogueiro em função de desentendimentos dele com Jorge Ventura, que havia dito, em seu Facebook, que achava “ruim” o blog dele. Infelizmente, muitas pessoas entraram na discussão sem conhecer os trabalhos citados nem as trajetórias acadêmicas de seus autores, e mais: sem conhecer as verdadeiras motivações do blogueiro. Com efeito, os comentários foram apenas ataques pessoais com uma motivação: alguém apontou legítimo desinteresse por um determinado blog. Assim, abusando da confiança e fidelidade que seus leitores depositam nele, o blogueiro agiu como alguns dos veículos de imprensa que fazem 'tabula rasa' da verdade e da reputação das pessoas.

Finalmente, aqui, não vou perder meu tempo, nem fazer com que os leitores de seu blog percam o deles, tratando da validade ou não de determinados objetos de estudos na área das Ciências Sociais. Quanto à Sociologia dos Esportes, para usar uma expressão cara a um clássico como Pierre Bourdieu, já é um campo de pesquisa consagrado mundialmente desde os anos 1960, após os estudos originais e seminais entabulados por Norbert Elias e Eric Dunning, e seus discípulos, sobre o tema. Isso para não citar os estudos anteriores de Johan Huizinga, Anatol Rosenfeld, entre tantos outros. Bem como os estudos acerca do cotidiano, como apontado em 'Nota de Desagravo a Jorge Ventura de Morais do PPGS-UFPE' (acessar: http://miliano.blogspot.com.br/2012/09/nota-de-desagravo-ao-professor-jorge.html, entre outros sítios).

Entretanto, para quem se interessar por nossos trabalhos ou desejar conhecer nossas trajetórias acadêmicas, basta acessar a Plataforma Lattes do CNPq (www.cnpq.br). Dessa forma, ficará sabendo que, criado em 2006, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Futebol (Nesf), uma colaboração entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), instituição em que trabalho – diferentemente do que escreveu o blogueiro –, já deu origem a trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, a artigos publicados em livros e periódicos (impressos e eletrônicos) no Brasil, Argentina, México e Inglaterra e a artigos apresentados em eventos acadêmicos nacionais e internacionais (Chile, Colômbia, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina). E mais: que, após a criação do Nesf, coordenamos Grupo de Trabalhos em encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (Ciso), da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e da Asociación Latinoamericana de Sociología (Alas), promovemos seminários nacionais e internacionais e, finalmente, realizamos várias pesquisas, todas parcialmente financiadas pelo CNPq.

Como se vê, realizar pesquisas na área das Ciências Sociais, qualquer que seja o campo e objeto de estudos, tem um alto custo pessoal e profissional, sobretudo porque é necessário atender aos rigorosos critérios dos comitês científicos das revistas e dos eventos acadêmicos, e das agências de fomento, que nos julgam de forma sistemática e contínua. E, no meu caso, pelo menos, realmente não sobra muito tempo para dar crédito a idiossincrasias de alguns blogueiros, que imaginam que a Internet é terra de ninguém ou o perdido paraíso... Por isso, apenas em respeito ao insistente interesse que você tem demonstrado desde a segunda-feira passada em obter alguma posição minha em relação ao episódio em tela, é que me dispus, uma semana depois, a quebrar o silêncio. Mas fico por aqui. Em definitivo.

Túlio Velho Barreto
Cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
Vice-coordenador do Nesf (UFPE/Fundação Joaquim Nabuco)

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Upideite(25/set/2012): Estou tentando esclarecer com o jornalista Luís Nassif essa questão do desentendimento via Facebook.

Humanas, demasiado Humanas: Nota de Desagravo do Colegiado de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE


Publico abaixo o posicionamento do colegiado de pós-graduação em Sociologia da UFPE em relação às críticas de Luís Nassif ao trabalho dos professores Jorge Ventura Morais e Túlio Araújo. (Mais tarde publicarei texto 

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Nota de Desagravo ao Professor Jorge Ventura de Morais

Com grande estranheza leitores do blog de Luis Nassif defrontaram-se com o texto intitulado “O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq” no último dia 16 do corrente mês. Nele, o autor, mediante o recurso a excertos pinçados e descontextualizados, põe em xeque a relevância do estudo da relação entre o uso da tecnologia e as regras do futebol sob o argumento de sua obviedade, tomando como exemplo os trabalhos do Professor Jorge Ventura de Morais, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Ora, como é sabido, a Sociologia constitui campo de conhecimento que busca compreender a realidade social na sua complexidade – constituição, manutenção, transformação – em especial, processos sociais relativos ao compartilhar significados, valores, símbolos, conhecimento, cultura, tecnologia. Também é sabido que, para tanto, o estudo do cotidiano, em suas diversas dimensões, tem contribuído para fazer avançar o conhecimento sobre a sociedade, bastando mencionar os aportes da Etnometodologia, de Erving Goffman, Aaron Cicourel, dentre muitos outros. Subjacente a todos eles, há a questão das regras que orientam o comportamento coletivo, aspecto que certamente pode ser aprofundado mediante o estudo do futebol como uma das práticas sociais que atrai multidões e que ganhou vida própria, como se revela nos trabalhos de Norbert Elias e Pierre Bourdieu. O autor do texto, além de citar trechos que não mostram o sentido do trabalho criticado em sua inteireza, parece revelar ignorância do campo da sociologia. Demonstra não vislumbrar que os trabalhos do referido professor focalizam temas de enorme importância científica, como as relações entre a tecnologia e as distintas práticas sociais e a relevância das normas e da sua interpretação para o funcionamento das sociedades. Finalmente, na sua estreiteza, o blogueiro não compreende que a produção do conhecimento científico envolve aspectos tanto “puros” quanto “aplicados”.

Não vá o sapateiro além dos seus sapatos.

Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco
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Upideite(27/09/2012): A Sociedade Brasileira de Sociologia também emitiu nota condenando a postagem de Nassif..

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Como é que é? - "Tornados" de fogo são raros?

A Folha Online manchetou:

Outros sites noticiosos foram na mesma linha

E não apenas no Brasil:

*

"Tornados" ou redemoinhos de fogo são eventos impressionantes, plasticamente belos, e muito perigosos - milhares de pessoas já morreram ao longo do último século por ação direta e indireta do fenômeno.

Seu núcleo é repleto de material combustível (gás e partículas sólidas), enquanto a região externa é relativamente empobrecida. Eles podem contribuir para o alastramento rápido de um incêndio dadas sua dimensão, velocidade e dinâmica. Seu diâmetro pode chegar a 360 m e a altura atingir 1,2 km e se deslocar como um tornado classe F5 da escala Fujita [1] - assim além do próprio poder destrutivo, pode espalhar fagulhas e escombros em chamas, originando novos focos de incêndio ao redor. Sua temperatura interna de combustão também é elevada ao concentrar o fogo, o que pode pôr em ignição material próximo mesmo sem tocá-lo diretamente.**

As condições para sua origem e manutenção em um incêndio são: vorticidade ambiental (geralmente fornecida pelo vento, mas também a rotação da Terra pode ocasionar a vorticidade por efeito Coriolis), mecanismo de concentração (deslocamento vertical de ar - pelo ar aquecido pelo calor do sol ou pelo próprio incêndio ou por uma frente de tempestade). O deslocamento vertical aliado à vorticidade faz com que o torvelinho se estique e, assim, o diâmetro se reduza. A conservação de momento faz com que a redução de diâmetro leve a uma aceleração do movimento rotatório, criando uma redução de pressão, sugando o ar ao redor que traz mais vorticidade, acelerando ainda mais a velocidade de rotação. Isso cria uma estrutura dinâmica relativamente estável que impede que o material no núcleo se disperse com a rotação. [1]

Não são condições muito restritivas, até porque elas podem ser autogeradas - por exemplo, o próprio fogo produz o mecanismo de concentração ao aquecer o ar - e são relativamente ubíquas - como os ventos moderados. E mais, incêndios florestais e campestres são extremamente frequentes: cerca de 150.000 por ano nos EUA; 30.000/ano na Rússia; 130.000/ano no Brasil.

Além disso há vários casos registrados, inclusive na mídia, em diversos pontos do globo (quase sempre acompanhado com o adjetivo 'raro'):
1871, Chicago, EUA. (cidade) [1]
1871, Peshtigo, Wiscosin, EUA. (floresta) [1]
1906, São Francisco, Califórnia, EUA. (cidade) [1]
1923, Tóquio, Japão. (cidade) [1]
1926, San Luis Obispo, Califórnia, EUA. (óleo) [1]
1945, Michoacán, México. (vulcão) [1]
1947-1948, Islândia. (vulcão) [1]
1950-1953, 28 eventos no noroeste da costa do Pacífico, EUA. (floresta) [1]
1954, Ilha Myojin, Japão. (vulcão) [1]
1964, Polo, Santa Barbára, Califórnia. (floresta) [3]**
1965, Hokkaido, Japão. (óleo) [1]
1989, Califórnia, EUA (floresta).
1999, Winnemuca, Nevada, EUA. (floresta) [1]
2000, Hamilton, Montana, EUA. (floresta) [1]
2001, Doyle, Califórnia, EUA. (floresta) [1]
2002, Durango, Colorado, EUA. (floresta) [1]
2003, Califórnia, EUA. (floresta)
2003, Canberra, Austrália. (campo)***
2007, Griffith Park, Los Angeles, EUA. (floresta)
2007, Corona, Califórnia, EUA. (campo)
2008, Brea, Califórnia, EUA. (floresta)
2009, Califórnia, EUA. (campo)
2009, Austrália.(floresta) [2]
2010, Araçatuba-SP, Brasil. (campo)
2010, Havaí, EUA. (floresta)
2011, Budapeste, Hungria. (óleo)
2012?, Stayton, Oregon, EUA. (campo)
2012, Califórnia, EUA. (campo?)
2012, EUA?. (campo)
2013, Tetlin Junction, Alaska, EUA. (floresta)***
2014, San Marcos, Califórnia, EUA. (floresta)***

Esse não é, claro, nem de longe, um levantamento exaustivo, ainda assim parece forçado dizer que seja um fenômeno raro, pior ainda "dos mais raros fenômenos naturais".

Mas não podemos culpar os jornalistas pela conversa da raridade. Artigos técnicos afirmam isso: "Fire whirls are a typically rare but potentially catastrophic form of fire" [1].

**Por outro lado, outros textos dizem o contrário: "Firefighters frequently report that whirlwinds develop in and adjacent to the intensely burning fires." [3] "Fire whirls appear frequently in and around wildland fires.". Em um texto da National Geographic sobre o "tornado" de fogo na Austrália reporta: "Also known as fire whirls, fire devils, or even firenados, these whirlwinds of flame are not really rare, just rarely documented, Jason Forthofer, a mechanical engineer at the U.S. Forest Services's Missoula Fire Sciences Laboratory in Montana, said in 2010." (Provavelmente a NatGeo se refere ao trabalho de Forthofer & Butler 2010 apresentado em uma conferência sobre comportamento de fogo e combustíveis. Forthofer & Goodrick 2011 revisam a dinâmica de formação de torvelinhos verticais e horizontais associados a incêndios.)

De todo modo seria preciso um levantamento mais sistemático dos "tornados" de fogo para se ter uma ideia mais clara de quão realmente raro ou frequente são.

Referências:
[2] Hartl, K.A. & Smits, A. J. 2012.
[3] Countryman, C.M. 1964.**
[4] Countryman, C.M. 1971.**

*Upideite(21/set/2012): acrescentado a esta data.
**Upideite(24/set/2012): acrescentado a esta data.
***Upideite(16/mai/2014): acrescentado a esta data.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas

Eu mesmo tenho lá meus preconceitos com a área das Humanidades e Ciências Humanas e Sociais, mas é um campo do conhecimento que é vítima de muita incompreensão.

Luis Nassif chama bem a atenção para o fato de que é preciso um olhar crítico em relação ao financiamento de pesquisas em Ciências Sociais - e eu ampliaria dizendo que é preciso o mesmo olhar crítico para o financiamento público de todas as áreas: Biológicas e Saúde, Ciências Exatas e da Terra... Nassif, porém, pega desnecessariamente pesado, carregando nas tintas de sua crítica ema um trabalho proposto pelos Profs. Drs. Josimar Jorge Ventura de Morais, da UFPE, e Túlio Augusto Velho Barreto de Araújo da UFPEFundação Joaquim Nabuco: "As regras do futebol e o uso das tecnologias de monitoramento".

Duncan Watts, pesquisador da Microsoft, físico de formação que migrou para o estudo sociológico por meio de análise de redes, frente às propostas de corte de financiamento de estudos em áreas como Ciências Políticas, acredita que essa visão depreciativa das Ciências Sociais se deve a terem como objeto de estudos nós mesmos. Como todas as pessoas têm experiência direta em ser... bem, humano, todo mundo tende a ter uma opinião a respeito do que os cientistas sociais estudam. Uma visão altamente contaminada por subjetividades e o que forma o senso comum - o que as pessoas tomam por bom senso.

É o mesmo espírito que parece ter atacado outra jornalista, Ruth de Aquino, não se restringindo, porém, apenas às Ciências Sociais, mas de todo modo as críticas foram centradas em pesquisas a respeito do ser humano.

O próprio Watts escreveu um livro somente para atacar essa que talvez possamos denominar de "síndrome do desdém ao óbvio": "Tudo é óbvio*. *Desde que você saiba a resposta. (Como o senso comum nos engana.)" (2011. Ed. Paz e Terra, 328 pp.)

Como humano e como cidadão do país do futebolbalípodo, pode parecer óbvio para mim o que pode sair da discussão a respeito das visões e opiniões das pessoas sobre o emprego da tecnologia no futebol. Mas há dimensões para além da análise superficial: p.e. que implicações isso teria a respeito do chamado "jeitinho brasileiro"? teria alguma ligação com a tecnofobia manifestada por uma parte não desprezível da sociedade? da desconfiança de tecnologias de monitoramento como chips em automóveis, bafômetro, pontos eletrônicos?

Nassif ironiza a respeito do "papel do 'juiz ladrão'", mas lhe passa despercebido exatamente o paradoxo: o brasileiro (como a maioria dos cidadãos de outros países) critica as injustiças, então por que parte substancial crê que isso seja defensável no contexto esportivo?

Não me parece que a consideração superficial de um único estudo e de modo tão desrespeitoso seja uma contribuição positiva para a questão da qualidade da pesquisa e do financiamento público.

Obs: Estou tentando contato com os pesquisadores mencionados para uma entrevista.

Upideite(22/set/2012): Nassif volta ao tema em mais duas postagens. Em uma, anuncia que abrirá o blogue dele para a resposta dos pesquisadores (e inclui algumas perguntas); em outra, sobe um comentário que reproduz texto opinativo publicado em outro sítio web, criticando o funcionamento atual da pesquisa em universidades.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sing Along: Challenge Accepted

Há algumas boas músicas de divulgação científica sobre evolução. Tratei de uma aqui (onde também comento sobre o samba-enredo da União da Ilha em 2011).

Mas poucas conhecidas em português. Frente a um clipe antievolucionista postado no YT, @Rafael_RNA, lamentou que tenhamos chegado atrasados.

Tomei isso como desafio e escrevi umas pseudorredondilhas.

Evolua sua cabeça.
Por mais incrível
Que lhe pareça,
Somos só macacos
Sem pelagem espessa.

Evolua seu conhecimento.
Ardi, Australo, habilis, erectus,
Em algum evento,
Deram o ar da graça.
E, com neander, deu casamento.

Evolua sua mente.
São os mesmos ossos
No mico e na gente;
Não se espanta nada,
É nosso parente.

Evolua seu coração.
O lindo chimpanzé
É nosso primo-irmão;
E mais afastados:
Gorila, orango e gibão.

Evolua sua alma.
Preste muita atenção,
Nesta hora muita calma,
Há semelhanças
Nas unhas e na palma.

Evolua o seu ser.
Em nossos DNAs
Podemos ver
De novo a história
Se desenvolver.

Evolua sua pessoa.
Não é por disserem Darwin
e tanta gente boa;
O que importa mesmo
É o que o fato apregoa.

Evolua sua cabeça.
Por mais incrível
Que lhe pareça,
Somos só macacos
Sem pelagem espessa.

Não é a versão definitiva, aceito sugestões para alterações dos versos e estrofes, e também para o título da composição (obviamente "Challenge Accepted" não se encaixa como tal). Se alguém quiser musicar e fazer um video pra subir no YT, podemos combinar.

E, claro, desafio os demais cientófilos a criarem também suas composições infantis com o tema da evolução. (Avisem-me para botar os links para suas criações - epa! - nesta postagem.)

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