Lives de Ciência

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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Belo e estranho mundo 3 - De novo, não é o chupacabras

Volta e meia as pessoas capturam algum animal comum doente, deformado ou com alguma mutação e, por não ter uma aparência que lhes pareça familiar, associa a um exemplar de alguma espécie da fauna mitológica local.

Ao sul dos Estados Unidos e boa parte do México, qualquer carnívoro assim é automaticamente classificado como um chupacabras putativo. Acharam mais um:


A reportagem dá destaque à hipótese de que seja um chupacabras. Até vão entrevistar um especialista, mas deixam no ar - como se a hipótese de que se trata mesmo de chupacabras fosse uma que merecesse crédito.

O especialista diagnostica o animal como um canídeo com alguma alteração. Mas me parece pouco provável que seja o caso, porque o animal usa as patas dianteiras para agarrar e manipular pequenos objetos, girando a porção palmar da mão para dentro. Em canídeos, movimentos de pronação (giro para dentro) e supinação (giro para fora) são muito limitados.

Assemelha-se mais a um procionídeo: um guaxinim (Procyon lotor) que perdeu a pelagem - talvez por doença ou mesmo uma mutação. Em 2010, em Oklahoma, foi capturado um guaxinim glabro vivo. Também em 2010, em outra cidade texana, Runaway Bay, houve caso de um outro guaxinim sem pelos, infelizmente morto. Em 2011, outro exemplar foi capturado morto no Condado de Nelson, Kentucky. No mesmo ano um guaxinim pelado foi capturado em Vero Beach, Flórida. A espécie é encontrada por quase todo os EUA continental (Fig. 1).

Figura 1. Área de distribuição nativa (vermelho) e introduzida (azul) de guaxinim. Fonte: Wikimedia Commons

Não é uma busca exaustiva, mas em todos esses casos acima, a população imaginou tratar-se do chupacabras. É algo para o que não tenho ainda uma resposta satisfatória: por que bobagens como chupacabras se espalham com relativa rapidez e se mantêm estáveis, mas a informação de que são animais comuns com alguma alteração - neste caso, guaxinins pelados - não tem o mesmo apelo e penetração.

Não me parece ser o caso simplesmente de uma preferência de se acreditar no sobrenatural e no fantástico. Sempre que possível, tentam recobrir as lendas com algum fumo de fundamentação científica: se achassem ADN estranho, se um estudo científico concluísse que se tratava de um ser alienígena, isso seria absorvido de bom grado. (Como no caso da farsa de "estudo" sobre ADN de pés-grandes.) Por que guaxinins pelados não se fixam na imaginação? Não são suficientemente inusitados? O mistério de saber por que alguns são sem pelos não é misterioso o bastante?

Verdade que, se fosse alienígena, haveria uma implicação cósmica mais profunda a respeito de não estarmos sós no universo. Mas parte dos que preferem que seja chupacabras se recusa a crer na cosmicamente profunda implicação da teoria evolutiva que nos conecta aos guaxinins - e às cabras, e à grama, e às bactérias... Pra mim o mistério maior é entender isso: o que faz hipóteses não embasadas em fatos (ou até contrariadas por eles) fincarem raízes tão profundas (sejam historicamente recentes ou antigas em suas origens) em uma cultura, enquanto outras tão complexas e elaboradas quanto, tão desafiadoras do senso comum quanto, mas solidamente fundamentadas em fatos, registros e experimentações, serem relegadas ao estranhamento e à ignorância?

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Belo e estranho mundo 2 - a árvore que engoliu uma bicicleta

Em janeiro deste ano, vários sítios web de notícia divulgaram a história de que uma bicicleta esquecida na mata em Vashon, no estado de Washington, EUA, junto a uma árvore por várias décadas, acabou incorporada à planta a medida em que esta crescia. (Fig. 1.)

Bicycle Swallowed by Tree in Washington State
Helen Puz Finds Bicycle She Lost Over 50 Years Ago Swallowed By Tree
60 years later, a tree has successfully eaten this bike

Um hoax se desenvolveu a partir disso de que seria uma bicicleta de um garoto que morreu durante a Primeira Guerra. Sítios web de análise de lendas urbanas, como o e-farsas e o Snopes, refutaram esse boato, mas corroboram que é mesmo uma bicicleta incrustrada naturalmente na árvore. Será mesmo?

a)
b)
Figura 1. a) Bicicleta "incrustrada" em árvore em Vashon/WA/EUA. Fonte: Callista1172/Flickrb) Detalhe da roda traseira da bicicleta na árvore. Fonte: Sea turtle/Flickr.

Um problema é que árvores crescem verticalmente a partir de meristemas (conjunto de células indiferenciadas que dão origem aos demais tecidos e órgãos vegetais) apicais de seu caule (Fig. 2). Se a bicicleta tivesse sido encostada ou acorrentada à árvore, naturalmente, teria sido na altura do solo. Quando a árvore crescesse, a bicicleta não seria erguida. Uma possibilidade é que alguém quis fazer uma brincadeira e a pendurou em um ramo - a bicicleta está perto de uma ramificação.

Figura 2. Crescimento de plantas vasculares lenhosas. Os meristemas nas gemas (apical e lateral) e na ponta das raízes promovem o crescimento longitudinal das plantas a partir das extremidades. Os tecidos meristemáticos do câmbio vascular e do felogênio (câmbio da casca) produzem o crescimento em espessura do caule e da raiz. Fontes: Esquema do crescimento do caule: Wikimedia Commons; corte longitudinal da gema: Blueridgekitties/Flickr; corte transversal da raiz: Wikimedia Commons; esquema da porção distal da raiz: Wikimedia Commons; corte longitudinal do ápice da raiz: Wikimedia Commons.

Mas temos ainda outro aspecto que não está muito de acordo com o modo de crescimento de uma árvore. De fato, há vários casos em que um objeto é "incorporado" no tronco quando o vegetal cresce - porém, surge uma "cicatriz" (Fig. 3). Isso porque a massa da árvore não absorve o objeto, e, sim, cresce em sua volta, envolvendo-o, mas sem haver fusão do tecido (Fig. 4). No caso da bicicleta, não há um sinal claro de tal cicatriz.


a)  b) 
c)     d)
e)  f) 
Figura 3. Cicatriz de crescimento de tronco ao redor de objeto. a) Fonte: Adam Clarke/Flickrb)  Fonte: Kate Mereand-Sinha/Flickr. c) Fonte: Mjtmail/Flickr. d) Fonte: Mary J.I./Flickr. e) Fonte: Arsheffield/Flickr. f) Fonte: Redspotted/Flickr.


Figura 4. Diagrama esquemático de corte transversal de crescimento de troncos entremeados. Observe que nas áreas de contato, o crescimento posterior é inibido. Modificado de: Landmark Trees of Ontario/Facebook.

Observamos também características suspeitas no modo como a roda traseira "sai" do tronco. A roda está amassada na parte junto à árvore, acompanhando a curvatura externa do tronco, em vez de estar incrustada em sua forma mais ou menos circular.

Em uma foto da árvore na qual parte da casca está removida, observamos escorrimento de resina a partir do ponto de inserção da parte anterior do quadro e do pedal. Isso, novamente, está em desacordo com o que deveria ocorrer com um crescimento do tronco ao redor do objeto: canais resiníferos não haveriam de ser rompidos.

Parece ser mais o caso de uma intervenção humana com uma bicicleta cortada em dois e cada metade encravada em um buraco natural ou cavado no tronco. (Na verdade, cortada em três - com descarte da porção do meio.) Seja como for, infelizmente a atração vem sendo vítima de depredação - o guidão, a roda dianteira e o garfo já desapareceram, o pneu traseiro vem sendo cortado pouco a pouco.

Há um outro caso alegado de bicicleta incorporada em uma árvore, na vila de Brig o’Turk, na Escócia. A posição do veículo é ainda mais inusitada - quase na vertical (Fig. 5).

Figura 5. Bicicleta 'incrustrada" em árvore em Brig O'Turk, Escócia, RU. Fonte: Forestry Commission, Scotland.

Nas fotografias dos detalhes também não aparenta exibir uma cicatriz óbvia e aparenta um certo desalinhamento entre as partes - o guidão sai de um ponto fora da reta projetada da porção do quadro onde a roda traseira deveria se ligar. Mas isso poderia ser pela entortadura do quadro com o crescimento do tronco. Há, porém, outras peças metálicas que não parecem ser componentes de bicicleta. Também se assemelha mais a uma situação em que pedaços separados de metais foram cravados na árvore, em vez de terem sido apenas dependuradas nela e posteriormente "absorvidas".

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mais fraude na USP?

Recebi a mensagem abaixo:

"Só queria alertar para denúncia de fraude em lab da USP, irregularidades e manipulação de imagens em cerca de 8 artigos de um mesmo grupo. http://www.science-fraud.org/?tag=curi"

Uma série de postagens do blogue Science Fraud mostra que a mesma imagem foi usada em diferentes painéis do mesmo artigo, representando condições distintas, em pelo menos duas ocasiões diferentes.

No comentário de uma das postagens, o primeiro autor de dois dos artigos analisados respondeu que as imagens são similares porque, embora fossem réplicas independentes, os controles dos experimentos foram conduzidos em condições similares. O autor da postagem treplicou dizendo que mesmo que as condições fossem idênticas, as imagens não poderiam ser idênticas por causa das flutuações aleatórias.

De nodonovo, não farei nenhuma acusação antes de uma investigação profunda. Mas que a resposta dada pelo Dr. Rafael Herling Lambertucci para a similaridade (identidade) das imagens está estranha, está.

Não tenho acesso agora aos artigos completos. Mais tarde tentarei colher a versão dos autores*.

Upideite(05/jan/2013): O sítio web que fez a denúncia, 'Science Fraud', provisoriamente removeu todo o conteúdo publicado após receber notificação extrajudicial. O blogue 'Retraction Watch' diz que a notificação partiu de advogados de um dos autores dos artigos referidos acima. Um dos artigos, publicado em 2007 no Journal of Lipid Research, foi cancelado ('retracted'). Segundo apurou Herton Escobar, o cancelamento deu-se a pedido de um dos autores, Prof. Dr. Rui Curi, diretor do ICB/USP.

*Upideite(05/jan/2013): Enviei a Curi pedindo entrevista, mas não consegui nenhuma resposta.

Upideite(05/jan/2013): Reinaldo José Lopes, na Folha de São Paulo, traz a versão de Curi sobre o concelamento do artigo: teria havido erro de boa fé em relação às imagens (trocadas e repetidas, erro que teria ocorrido já na tese de doutoramento de um dos autores do artigo). Traz também mais detalhes sobre a desativação e futuro do 'Science Fraud.'

Upideite(07/jan/2013): Herton Escobar, no Estadão, informa que a reitoria da USP irá investigar o caso. Um dos autores do estudo cancelado, Sandro Hirabara, diz que houve problemas na edição das figuras, mas que não foi intencional.

Upideite(07/jan/2013):  Leandro Tessler, no Cultura Científica, e Marcelo Hermes, no Ciência Brasil, comentam o caso.

Upideite(08/jan/2013): O CNPq também irá investigar o caso.

Upideite(09/jan/2013): Herton Escobar publica versão em inglês de declaração do Dr. Paul S. Brookes, autor do blogue Science Fraud, com planos para criar um serviço de revisão anônima pós-publicação.

Upideite(16/jan/2012): Roberto Berlinck, no Ciência em Sociedade, analisa a questão das más oondutas em pesquisa científicas e as causas atribuídas.

Upideite(23/jan/2013): O Retraction Watch informa que Dr. Curi fez uma correção em um dos artigos criticados pelo Science Fraud. (via @besteves)

Upideite(30/abr/2013): Herton Escobar comenta mais um cancelamento de artigo de Dr. Curi - anunciado pelo Retraction Watch.

Upideite(07/jun/2013): O Retraction Watch informa mais uma correção publicada. (via @besteves)

Upideite(07/jun/2013): Herton Escobar informa que as comissões da USP e do CNPq para averiguar a conduta de Dr. Curi ainda não terminaram seus trabalhos.

Upideite(03/ago/2013): O CNPq inocentou o Dr. Curi das acusações de fraude.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Plágio? 4

A Biochemical Pharmacology cancelou (retracted) o artigo Sant'Ana et al. 2008, da equipe do Prof. Dr. Andreimar Soares.

Os autores já haviam reconhecido o problema da reprodução das fotografias - atribuindo a um erro involuntário.

Diz a nota de cancelamento:
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"This article has been retracted at the request of the Editor-in-Chief and Author. Please see Elsevier Policy on Article Withdrawal (http://www.elsevier.com/locate/withdrawalpolicy). Reason: The authors have plagiarized transmission electron microscopy figures published by others in Antimicrob. Agents Chemother., 47 (2003) 1895–1901; doi:10.1128/AAC.47.6.1895-1901.2003). As such this article represents a severe abuse of the scientific publishing system. The scientific community takes a very strong view on this matter and we apologize to readers of the journal for this incident."
["Este artigo foi cancelado a pedido do editor-chefe e do autor. Por favor veja Política de Remoção de Artigo da Elsevier.
Justificativa: Os autores plagiaram as imagens de microscopia eletrônica de transmissão publicadas por outros em Antimicrob. Agents Chemother., 47 (2003) 1895-1901. Assim este artigo representa um sério abuso do sistema de publicação científica. A comunidade científica tem uma opinião muito forte sobre essa questão e pedidmos desculpas aos leitores do jornal pelo incidente."]
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(Via Adusp.)

A nota de cancelamento menciona apenas as fotos, não fala a respeito dos trechos virtualmente idênticos.

Não sei em que pé está a investigação interna da USP. Imagino que já foi concluída, mas não sei o desfecho.*

Não sabia, mas foi o Informativo Adusp o primeiro a dar a notícia a respeito do plágio em novembro do ano passado. Segundo a Adusp, a Folha publicou depois, usando o que foi publicado pelo jornal da entidade, mas não citou a fonte.

*Upideite(16/jun/2010): a sindicância ainda está em andamento.

*Upideite(20/jan/2011): a comissão decidiu pela demissão do docente e cancelamento do título de doutorado da aluna.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Malvedere

Terminou mal a edição 2009 do prêmio Veolia Environment Wildlife Photographer of the Year (anunciado aqui neste blogue ano passado).

O vencedor havia sido o espanhol José Luis Rodríguez com sua fotografia de um lobo saltando o portão de uma fazenda à noite.

Mas a organização do concurso concluiu, após denúncia, que o fotógrafo havia burlado as regras do concurso - fraudado - ao usar um lobo treinado de zoólogico. O acusado nega.

Se verdade, muito triste isso. O prêmio era interessante - dez mil libras -, mas é relativamente pouco para alguém sujar sua reputação.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Plágio? - 3

A história da acusação de plágio contra o trabalho de Sant'Ana et al. 2008 se complica ainda mais.

Folha Online: Trabalho de reitora da USP é acusado de outro plágio

A reportagem não esclarece quais os novos elementos de plágio que o grupo da UFRJ encontrou. Diz que são duas outras imagens as suspeitas. Mas não diz quais e nem de que trabalho teriam sido copiados sem atribuição da fonte.

Enviei um email à Dra. Angela Hampshire Lopes para saber desses detalhes.

Upideite(21/nov/2009): Contatada, a Dra. Angela Lopes não quis informar a respeito ou achou-se impedida disso.

Não julgo aqui a atitude da Dra. Angela Lopes - ela pode bem ter seus motivos. Mas esse caso me parece bem típico do que a sociedade tem pleno direito de saber a verdade a respeito. É compreensível a necessidade de preservar as partes enquanto uma avaliação definitiva não é realizada - para não condenar inocentes ou absolver os culpados em um prejulgamento. Por outro lado, trata-se de pesquisa financiada com dinheiro público e, pior, de pesquisa na área da saúde. Se há suspeição a respeito de uma pesquisa, a população precisa ser informada dos motivos. Bem como a respeito dos critérios de julgamento.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(Auto)plágio?

Osame Kinouchi do Semciência postou nos comentários da postagem anterior uma observação anônima que ele recebeu a respeito do trabalho de Sant'Ana et al. 2008.

A figura 2 de Sant'Ana et al. 2008 seria uma modificação da figura 4 de França et al. 2007 (o primeiro trabalho citado nas referências de Sant'Ana et al. 2008 e também do grupo de trabalho de Andreimar M. Soares). Compare as duas abaixo.


Agora compare os painéis '4b' com '2b' e '4c' com '2a'.


Embora os organismos-alvo sejam os mesmos: leishmânias nos painéis superiores e tripanossomos nos painéis inferiores e se tratem todos de oxidades de L-aminoácidos (LAAOs), são extraídas de espécies distintas de Bothrops. Bjar se referindo à jararaca (B. jararaca), Bjussu à jararacuçu (B. jararacussu) e Bmoo ao jararacão (B. moojeni).

O fato de haver uma conservação da estrutura tridimensional, a despeito de pequenas diferenças na sequência primária, poderia explicar uma ação similar. De fato, quando comparamos os painéis 4a e 4b de França et al. 2007, notamos que as curvas são bastante parecidas.

Parecidas, mas não idênticas. A sequência primária da Bjar LAAO-I e da Bjussu LAAO-I não são idênticas, mas muito parecidas. P.e., a primeira começa com:ADDKNPLEEC FRETDYEEFL; a segunda com: ADDRNPLEEC FRETDYEEFL. De uma lisina (K) para uma arginina (R). Mas as sequências da Bmoo LAAO-I e Bjussu LAAO-I também são muito parecidas (as 70 primeiras posições de resíduos de aminoácidos são idênticas) e os gráficos, embora similares, apresentam diferenças reconhecíveis.

Se não errei nas contas, há mais diferenças entre Bjar LAAO-I e Bjussu LAAO-I - 11 posições com resíduos distintos - (ou Bmoo LAAO-I - 16 resíduos) do que entre Bjussu LAAO-I e Bmoo LAAO-I - 5 posições com resíduos diferentes. Bjar LAAO-I também é um pouco maior: 484 resíduos de aminoácidos contra 470 dos outros dois. Era de se esperar então que o gráfico de Bjar LAOO-I fosse mais diferente? Se as diferenças se concentrarem em regiões com algum efeito cinético, sim. Mas se as diferenças se concentrarem em regiões relativamente inertes quanto a reações químicas e que não mude a estrutura da proteína, o modo de ação poderia ser virtualmente idêntico.

De todo modo, mesmo que fossem a mesmíssima proteína, era de se esperar gráficos ligeiramente distintos, por conta da ação de outros fatores, que fazem com que um ensaio não seja exatamente igual a outro.

A coisa está mesmo estranha. Tentarei falar com o Prof. Dr. Andreimar M. Soares para falar a respeito dos gráficos e ouvir o que pode estar ocorrendo.

Upideite(13/nov/2009): Para facilitar a comparação fiz uma sobreposição dos dados (extraídos a partir das coordenadas dos pontos das figuras - creio que as legendas sejam mais ou menos autoexplicativas):

Upideite(13/nov/2009): Já havia destacado na outra postagem sobre o tema, mas é sempre bom alertar que não pretendo aqui fazer nenhum pré-julgamento. Entrei em contato com o Prof. Dr. Andreimar para ver se ouvehouve mesmo algum erro ou se os dados são mesmo tão similares.

Upideite(16/nov/2009): O Prof. Dr. Andreimar Soares respondeu gentilmente às minhas mensagens. Pedi uma entrevista, mas, compreensivelmente, ele prefere que isso seja feito depois da sindicância ter sido finalizada. O que ele confirma é que os gráficos não teriam sido trocados e que os dados são diferentes: a semelhança, segundo o pesquisador, deve-se às semelhanças da proteína.

Upideite(18/nov/2012): Bem, agora que já faz mais de ano da decisão final, creio que eu possa fazer uma observação a respeito da coincidência dos dados. Mesmo que se tratasse da *mesma* proteína, a probabilidade de a repetição das medidas produzirem tal concordância é muitíssimo baixa. Sobretudo para L. braziliensis - a barra de erro é uma indicação da variação casual da medida. Se representa o desvio padrão, assumindo-se a hipótese da normalidade da variação, aproximadamente 68% das vezes, a média de uma reamostragem nas mesmas condições estaria dentro do intervalo dado pela média±desvio padrão. O desvio para os pontos de L. braziliensis é de quase 5p.p. As médias de cada ponto se sobrepõe de modo praticamente total - mas se considerarmos um desvio de 1p.p. para mais ou para menos, isso nos dá um escore z de ±0,20. Somente cerca de 8% das vezes as médias de uma repetição cairia dentro do intervalo de ±1p.p. Como são três pontos, a probabilidade dessa coincidência ocorrer ao acaso é de (8%)^3 ~ 0,0005 = 0,05%; isso apenas para o caso da L. braziliensis. Então mesmo que se tivesse usado a mesma enzima, nas mesmas condições, com os mesmos indivíduos, a probabilidade de se obter uma variação igual ou menor do que a obtida seria de menos de 0,05%. Bom dizer que não afirmo com isso que houve fraude, isso mostra apenas que é altamente improvável que haja coincidência casual - poderia, por exemplo, ter havido uma troca acidental dos dados.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Limitações das ciências: fraudes

A propósito das discussões suscitadas pelo mais recente caso de plágio na USP, reproduzo abaixo trecho de um ensaio mais longo (em verdade, mais uma colcha de retalhos) que estou preparando (no andar da carruagem não termino antes do mundo acabar em 2012)*.

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Várias outras limitações surgem às ciências em função dela ser uma atividade humana. Não obstante, a mais insidiosa certamente é a adulteração deliberada dos dados: a fraude. Há vários motivos por que alguém relataria um achado falso. Ser o primeiro a anunciar a realização de um feito perseguido por vários outros pesquisadores é uma glória que satisfaria a muitos: no entanto, somente uma pessoa pode obter esse feito. E isso pode depender de recursos que não estão disponíveis ao pesquisador, ou ele pode estar sem sorte. Atualmente existe ainda a pressão por publicações: o pesquisador que não lança artigos a uma certa taxa é tido como improdutivo, preguiçoso e imerecedor de promoções ou da própria manutenção do cargo. Talvez a filha dele esteja doente, ele não tenha tido muito tempo para se dedicar às pesquisas e o órgão financiador ameaça suspender o financiamento de seu trabalho, o que mancharia seu currículo. Certamente uma fraude mancha de modo mais profundo e permanente, mas conquanto não seja descoberta... Vira um jogo. Um jogo duplamente perigoso. Não apenas à carreira do pesquisador, mas ao próprio sistema de produção de conhecimento científico: altamente dependente de uma relação de confiança. Há mecanismos para tentar inibir a fraude ou erros não propositais: os trabalhos devem apresentar a metodologia de modo que outros pesquisadores possam tentar replicar os achados, os artigos são submetidos ao exame de outros pesquisadores na área para que possam tentar detectar erros e sugerir melhorias. Mas não são mecanismos à prova de falhas. E há até mesmo uma forte pressão para que tal procedimento seja revisto, em parte, novamente, pela pressão para a publicação: o processo de revisão pelos pares tende a tornar tudo muito mais lento e custoso. Se erros são detectados após a publicação, os trabalhos podem ser retirados (na prática anuncia-se que eles não são mais válidos, se estiverem em servidores web o arquivo é removido do diretório e substituído por uma mensagem de alerta) por iniciativa da publicação e/ou dos autores do trabalho.

Estas fraudes, disse, minam a razão de ser do processo científico. É como a presença de notas falsas circulando no mercado. Isso debilita a credibilidade do sistema: quem recebe as notas não sabe se poderá trocá-las por produtos e serviços e tende a se recusar a recebê-las, independentemente de se são verdadeiras ou falsas. Tal fato foi usado como arma de guerra. Durante a Segunda Guerra, a Alemanha nazista, na operação Bernhard, produziu um grande número de libras falsas (estima-se que a produção correspondeu a um valor equivalente a 15% do montante de libras circulante à época), empregando as habilidades de prisioneiros judeus do campo de concentração de Sachsenhausen. O governo britânico, percebendo que poderia abalar a credibilidade da moeda do país, decidiu aceitar tais notas como meio circulante – retirando-as gradativamente à medida que chegavam aos bancos e eram detectadas. Certamente houve prejuízos, entretanto a alternativa: a dissolução da confiança na moeda, provavelmente traria danos ainda maiores. O episódio foi retratado em 2007 em um filme austríaco ganhador do Oscar, Die Fälscher (Os falsários).

Mas a aceitação de trabalhos científicos com resultados falsos não é possível. Se fraudes ocorrem em pequena escala, o problema é circunscrito. Infelizmente há indicações de que atualmente a prática não é tão rara. Na condição de manterem anonimato, 33% de 3.247 cientistas americanos pesquisados da área da saúde admitiram ter incorrido (nos três anos anteriores à pesquisa) em algum tipo de conduta antiética na pesquisa (plágio, não dar atenção ao contraditório, não prestar atenção nas falhas das análises de terceiros, etc.), 0,3% admitiram algum tipo de falsificação dos dados (Martinson, BC et al. 2005. Scientists behaving badly. Nature 435: 737-8). Em um estudo meta-analítico, 33,7% dos cientistas admitiam alguma conduta reprovável e 1,97% admitiam ter adulterado os dados pelo menos uma vez (Fanelli, D. 2009. How many scientists fabricate and falsify research? A systematic review and meta-analysis of survey data. Plos One 4(5): e5738. Acessado em: 16 de julho de 2009. Disponível em: http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0005738).

2% de fraude pode não parecer grande coisa, mas um levantamento de 2006 detectou 632 remoções de artigos (“retractions”) na base de dados PubMed (Liu, SV. 2006. Top journal’s top retraction rates. Scientific Ethics 1: 91-3). Claro, não são todas as remoções que correspondem a um caso de fraude, na verdade, os casos de remoções por fraude são bastante raros**. Se considerarmos um número mais modesto dos 0,3% reportados no trabalho de Martinson e colaboradores (2005), os 632 trabalhos corresponderiam a um total de pouco mais de 210.000 trabalhos (se considerarmos os 2%, seriam pouco menos de 32.000 artigos). O número total de artigos indexados na base é muito maior do que isso [em 1995, a base Medline do PubMed tinha mais de 9 milhões de artigos indexados (Schulman, J-L. 2000. Using medical subject headings (MeSH) to examine atterns in American medicine. Acessado em: 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/mesh/patterns.html.); em 2008, mais de 16 milhões (Medline. 2008. Fact sheet: Medline. Acessado em 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/pubs/factsheets/medline.html).] Então o processo de depuração (a autocorreção das ciências, na visão de Sagan) não parece mesmo estar dando conta – a situação fica ainda mais complicada se considerarmos o universo de ações reprováveis e erros na produção do trabalho que justificariam sua remoção. Por alto (e sendo generoso), o processo de depuração científica está trabalhando a uma taxa de apenas 2% de eficiência – 98% das fraudes e erros cometidos se acumulam, indetectados, na literatura científica mundial (atenção ao leitor ou leitora que tenha lido o trecho anterior com alguma pressa: não se disse que 98% da literatura científica contenha fraude ou erro, mas sim que, dentre os artigos que têm problemas, 98% passam incólume pela revisão posterior a sua publicação).

Todas essas questões e limitações e ocorrências de fraudes, um número delas certamente não detectado, devem fazer um cidadão consciencioso refletir sobre qual então a validade de tudo aquilo que se nos apresenta como conhecimento científico chancelado pela comunidade de pesquisadores.
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*Upideite(29/nov/2009): A carruagem não acelerou, mas o ensaio não completamente finalizado pode ser obtido aqui.

**Upideite(05/out/2012): Aparentemente não são tão raros assim. Um estudo de Fang e cols. (2012) encontrou que 43,4% dos artigos removidos desde 1975 na base Pubmed o foram devido a fraude, 14,2% por duplicação de publicação e 9,8% por plágio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Plágio?

O tema levantado por Eduardo Geraque da Folha (o artigo pode ser lido no blogue do Nassif) está a toda. Rafael Soares do RNAm já comentou, Marcelo Leite do Ciência em Dia também, Osame Kinouchi no Senciência (não confundir com Semciência) levanta uma série de questões. A Reitoria da USP divulgou nota. (Vários outros órgãos da imprensa também deram destaque ao caso, como o G1, o R7, iG... e toda a sopa de letrinhas internéticas.)

Eu, como de costume, não irei comentar no calor dos acontecimentos: há muito espaço para prejulgamentos - que, em geral, é mau conselheiro. Apurem-se os responsáveis e as devidas (e justas) sanções sejam aplicadas, bem como contramedidas efetivas para que os erros não se repitam.

Sem julgar pessoas, comento apenas o óbvio: as fotos são sim as *mesmas* - apenas que as do artigo de Sant'Ana et al. 2008 são um recorte das de Rosa et al. 2003 - e, como noticiado, não há menção da fonte original no artigo de Sant'Ana et al. 2008. Plágio? Sim. Plágio. Tecnicamente é um plágio. Se intencional, é um delito ético de grande monta.

Mas, eu e minhas idiossincrasias, noto um problema mais grave. Na legenda do artigo original (de Rosa e colaboradores), as fotos são atribuídas a Leishmania amazonensis (tratadas com óleo de Croton cajucara - caá-juçara e outras denominações populares) Já no artigo de Sant'Ana e colegas, as mesmas fotos - '3.A' a '3.C' (correspondentes às imagens '3.A', '3.D' e '3.E' de Rosa et al.)- são atribuídas a Trypanosoma cruzi (tratados com uma proteína extraída do veneno de Bothrops jararaca - sim, de jararaca). Isso introduz um *erro* factual, uma informação falsa. (Sim, erro de autoria também é um erro de informação, mas aqui é um erro quanto a um dado científico.) Isto é, se houve intenção por parte de alguém, teremos um caso de fraude.


Repito, analiso apenas as consequências potenciais, não quero aqui fazer prejulgamentos. Até prova em contrário, os erros - que existem e não se pode negá-los -, serão de natureza involuntária.

Upideite(05/nov/2009): O texto do RNAm foi atualizado enquanto eu produzia esta postagem. Lá consta também a observação em relação à troca das informações sobre a espécie a que as fotos se referem.
Upideite(05/nov/2009): O que torna a história mais complicada é que não formaforam apenas fotos, mas dois trechos do texto também foram plagiados.
Upideite(05/nov/2009):Em verde, o original de Rosa et al., em vermelho, a cópia de Sant'Ana et al.
"Untreated and treated (15.0 ng of essential oil per ml) promastigotes were observed by transmission electron microscopy, and photomicrographs of the promastigotes are shown in Fig. 3A to E, which show promastigotes with different degrees of damage. Disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling, and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 30 min in the presence of essential oil the parasites were completely destroyed." (p. 1898)
"Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated for 20 to 30 min with 15.0 ng of essential oil from C. cajucara per ml (Fig. 3). " (p. 1900)
"Untreated and treated promastigotes (L. amazonensis) and epimastigotes (T. cruzi) were observed by transmission electron microscopy. Photomicrographs of the promastigotes with different degrees of damage are shown in Fig. 3. For treated T. cruzi with BjarLAAO-I, disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 24 h in the presence of 15 μg of BjarLAAO-I, the parasites were completely destroyed (Fig. 3A–C). Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated with 5.0 μg/ml of BjarLAAO-I (Fig. 3D and E)." (p. 283/6)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Diamonds are forever?

Jared Diamond é um ecólogo americano autor de vários livros de divulgação (alguns traduzidos para o português: Colapso; Armas, Germes e Aço; Por que o sexo é divertido?) e de artigos técnicos (que vai de fisiologia - sua formação inicial - à história ecológica - o ramo a que atualmente mais se dedica).

Seus trabalhos de divulgação deram-lhe destaque na impresa especializada e na leiga. Confesso que não li nenhum de seus trabalhos, mas estão na minha wish-list. Ou estavam.

Recentemente Diamond sofreu uma acusação da mais alta gravidade. Membros de tribos de Papua-Nova Guiné abriram processo contra o pesquisador e a revista The New Yorker por injúria. No artigo, Diamond narra uma briga intertribal sanguinária movido pela vingança. Algumas das pessoas nomeadas disseram que a história é mentirosa e injuriosa.

O cientista ainda não disse nada a respeito. Temos que aguardar o desenrolar dessa história.

Ainda que não seja um trabalho propriamente científico que está sob ataque, a integridade intelectual é o maior bem de um cientista. Se sua reputação cai em desgraça, ele não tem nada.

Como em algumas áreas como a antropologia o testemunho do cientista que descreve o trabalho é o principal - e, não raras vezes, o único - elemento disponível para a análise, a comprovação independente é complicada. (Sem falar nos casos em que o cientista autor do trabalho original atua como o único guardião do acesso ao grupo de pessoas estudadas, dificultando ou impossibilitando o contato com outros pesquisadores - às vezes por motivos razoáveis: p.e. medo que o contato excessivo com pessoas de fora acabem por descaracterizar a cultura do grupo, outras por mera vaidade.) Se uma dúvida séria paira no ar, todo o trabalho fica comprometido.

É difícil mensurar, no entanto, a extensão real dos casos de fraude. Há casos ruidosos como de Hwang Woo-Suk, mas nem sempre é fácil detectar atos de má-fé e uma certa cultura corporativista permite que se abafe muitos casos dentro do âmbito acadêmico. Não obstante alguns estudos procuram quantificar a ocorrência de atos lesivos ou potencialmente lesivos à integridade científica. Martinson e cols. (2005), garantindo o anonimato de seus entrevistados, descobriram que cerca de 1/3 dos cientistas da área de saúde já realizaram algum ato que pode ser definido como intelectualmente desonesto em seu trabalho científico: no limite, fraude. Jagsi e cols. (2009) analisando trabalhos publicados na área médica, perceberam que 29% deles tinha pelo menos um autor financiado ou de outro modo ligado à indústria farmacêutica diretamente interessada nos resultados.

Jagsi, R., Sheets, N., Jankovic, A., Motomura, A.R., Amarnath, S. & Ubel, P.A. 2009. Frequency, nature, effects, and correlates of conflicts of interest in published clinical cancer research. Cancer. Early view. DOI: 10.1002/cncr.24315

Martinson, B.C., Anderson, M.S. & De Vries, R. 2005. Scientists behaving badly. Nature 435, 737-8. doi:10.1038/435737a

Real, potencial ou imaginário, os casos de fraude minam muito a razão de ser do processo científico. A maior parte das análises conclui que o principal fator é a cobrança pela produtividade a qualquer custo - uma versão mais agressiva da famigerada "publish or perish". De todo modo, o ato final é uma decisão do próprio cientista que realiza atos pouco éticos ou mesmo fraude pura e simples. E por isso ele deve ser cobrado (claro que ao que digo isso alguém poderá levantar a sobrancelha e lembrar do efeito "mais santo que vós", de Epley & Dunning 2000).

Epley N. & Dunning, D. 2000. Feeling "Holier Than Thou": Are Self-Serving Assessments Produced by Errors in Self- or Social Prediction? Journal of Personality and Social Psychology, 79(6): 861-75. Link.

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