Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Não deixemos o Rock com Ciência morrer

O programa de rádio e podcast Rock com Ciência, criado, produzido e mantido pelo Prof. Dr. Rubens Pazza (que também comanda o blogue DNA Cético) da Universidade Federal de Viçosa vai ser encerrado por... falta de espaço (físico).

Não foi cedida para a produção do programa uma simples salinha nas instalações do câmpus do Rio Paranaíba para os equipamentos e gravação dos episódios.

Você que curte ciências e/ou roque; você que sabe da importância da divulgação científica; você ouvinte do Rock com Ciência; você membro da comunidade da gloriosa Federal de Viçosa; você que está preocupado com a educação no país; você metazoário cordado mamífero primata; precisamos deixar bem claro para a direção do câmpus do Rio Paranaíba e outras instâncias da UFV que não concordamos com esse fim.

Proteste (sempre com o devido respeito, claro):
(34) 3855-9300
diretoriacrp@ufv.br* (direitoria do câmpus do Rio Paranaíba)
dex@ufv.br (pró-reitoria de extensão da UFV)

Eu enviei a mensagem abaixo:
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From: Roberto Takata 
Date: 2012/12/20
Subject: Sobre o fim do programa Rock com Ciência
To: diretoriacrp@ufv.br

Excelentíssimo Diretor Geral do Campus de Rio Paranaíba Prof. Dr. Luciano Baião Vieira,

Soube que o valiosíssimo trabalho de divulgação científica Rock com Ciência produzido no câmpus do Rio Paranaíba será descontinuado por falta de espaço para acomodação de equipamentos de produção e sala para a gravação do programa.(1)

Gostaria assim de registrar meu profundo pesar e protesto pela perda de mais um meio para a tão necessária popularização das ciências. No momento em que um presidiário**, acompanhando as transmissões, inspira-se em retomar os estudos para ingressar no ensino superior, não há como negarmos o caráter transformador (e até revolucionário) da iniciativa do Prof. Dr. Rubens Pazza.

Queria instar a toda a comunidade do câmpus do Rio Paranaíba a rever essa decisão e também colocar-me a disposição para tentar encontrar uma solução e a colaborar para a viabilidade da continuidade do projeto Rock com Ciência.

Cordialmente,

Roberto Takata

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*Upideite(20/dez/2012): Rubens Pazza informa que a diretoria do câmpus de Rio Paranaíba está solidária.
**Upideite(20/dez/2012): Rubens Pazza corrige, era funcionário de um presídio, não presidiário - não, o feito não é menor (em certo sentido, até maior, já que tem menos tempo livre para estudar).
Upideite(17/jun/2013): O Rock com Ciência está de volta!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Brasil precisa de um apagão científico como o do IINN-ELS

Antes de mais nada, dois avisos necessários: respeito o trabalho do jornalista Herton Escobar, a quem não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele em um evento sobre Origem da Vida na USP e acompanho seus textos no Estadão e ocasionalmente comento suas postagens no blogue Imagine Só!) e respeito o trabalho do Prof. Dr. Miguel Nicolelis, a quem também não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele no lançamento de Muito Além de Nosso Eu em Belo Horizonte e converso por meio do twitter).

O Estadão publicou uma matéria a respeito da produção científica do Instituto Internacional de Neurociências de Natal - Edmond e Lily Safra - IINN-ELS após a saída de pesquisadores em meados de 2011 por uma série de divergências. Um ano e meio depois ainda há disputa entre o que podemos chamar de dissidentes e a equipe de Nicolelis, por exemplo, em relação a alguns equipamentos.

Mas, palavras da reportagem do jornal paulista: "Após saída de boa parte da equipe, há 18 meses, IINN nada produziu, mas neurocientista continua recebendo volumosas verbas do governo." e "Desde então, o IINN não publicou nenhum trabalho científico novo." Para o Estadão, isso seria o "apagão científico".

Em resposta, Nicolelis divulgou no sítio web do IINN-ELS lista dos artigos publicados entre 2011 e 2012.

O Estadão voltou à carga, dizendo que os artigos são referentes aos trabalhos pré-racha.

Bem ,o fato é que o IINN-ELS *publicou* artigo novo. Sim, são referentes a trabalhos pré-racha. Porém, o que era de se esperar? Há um lapso de tempo provocado pelo processo de submissão e análise de manuscritos até a publicação - só entre a recepção e aceite, em uma Nature, o tempo médio é de cerca de 200 dias, mas pode passar de 20 meses para outras publicações.

Considere então o cenário: há um racha, chegam novos integrantes, que começam a fazer seus trabalhos, obtêm seus resultados, preparam seus manuscritos, submetem, fazem as correções e finalmente é publicado (isso sem contar eventuais rejeições dos manuscritos). Não é mesmo de se esperar que trabalhos iniciados pós-racha sejam publicados em revistas indexadas antes de 2012 - devem começar a ser publicados a partir de 2013.

Assim, o melhor indicador da produção pós-racha são os resumos em congressos, são 16 no período: 10 em congressos internacionais, 6 em nacionais. Isso em 18 meses para uma equipa de 6 pesquisadores e 3 pós-graduandos: 1,18 resumo por integrante-ano.

Sério, isso é apagão onde? Bom seria se tivéssemos esse índice de produtividade em boa parte dos laboratórios e institutos de ciências - públicos ou privados.

Só posso expressar minha perplexidade com a má vontade do Estadão (aumentada justamente pelo meu respeito ao trabalho de Herton Escobar). Ok, o Dr. Nicolelis não quis responder às perguntas feitas e para algumas seria muito interessante que houvesse uma resposta (por exemplo, a Raytheon está bloqueando a publicação dos dados sobre pernas robóticas controladas a distância com ondas cerebrais de uma macaca na esteira? - isso tem implicações bastante sérias); no entanto, não é dizendo mentiras como "Nicolelis usa trabalhos antigos para mostrar nova produção de instituto" que se vai resolver a questão.

Upideite(19/dez/2012): Profa. Dra. Ângela Paiva, reitora da UFRN, fala sobre o rompimento entre os professores da universidade e a equipe de Nicolelis.
Upideite(19/dez/2012): Vale muito a pena ler também o texto de Bernardo Esteves para a Revista Piauí de um ano atrás sobre a "mitose" dos grupos e os planos de Nicolelis.
Upideite(21/dez/2012): Herton Escobar responde a algumas questões que fiz sobre o desenvolvimento da reportagem.
Upideite(14/fev/2013): Herton Escobar volta à carga. Segundo o jornalista, o recente trabalho sobre processamento pelo córtex tátil de ratos de sinais infravermelhos captados por sensores artificiais não teria sido produzido em Natal, a despeito da filiação dos autores indicada no artigo. Nicolelis responde que daqui a duas semanas sairá artigo na Nature com resultados de trabalhos em Duke e em Natal.
Upideite(14/fev/2013) Segundo Miguel Nicolelis, essas acusações levaram à perda de doação de R$ 300 mil ao programa de pré-natal de alto risco.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mais fraude na USP?

Recebi a mensagem abaixo:

"Só queria alertar para denúncia de fraude em lab da USP, irregularidades e manipulação de imagens em cerca de 8 artigos de um mesmo grupo. http://www.science-fraud.org/?tag=curi"

Uma série de postagens do blogue Science Fraud mostra que a mesma imagem foi usada em diferentes painéis do mesmo artigo, representando condições distintas, em pelo menos duas ocasiões diferentes.

No comentário de uma das postagens, o primeiro autor de dois dos artigos analisados respondeu que as imagens são similares porque, embora fossem réplicas independentes, os controles dos experimentos foram conduzidos em condições similares. O autor da postagem treplicou dizendo que mesmo que as condições fossem idênticas, as imagens não poderiam ser idênticas por causa das flutuações aleatórias.

De nodonovo, não farei nenhuma acusação antes de uma investigação profunda. Mas que a resposta dada pelo Dr. Rafael Herling Lambertucci para a similaridade (identidade) das imagens está estranha, está.

Não tenho acesso agora aos artigos completos. Mais tarde tentarei colher a versão dos autores*.

Upideite(05/jan/2013): O sítio web que fez a denúncia, 'Science Fraud', provisoriamente removeu todo o conteúdo publicado após receber notificação extrajudicial. O blogue 'Retraction Watch' diz que a notificação partiu de advogados de um dos autores dos artigos referidos acima. Um dos artigos, publicado em 2007 no Journal of Lipid Research, foi cancelado ('retracted'). Segundo apurou Herton Escobar, o cancelamento deu-se a pedido de um dos autores, Prof. Dr. Rui Curi, diretor do ICB/USP.

*Upideite(05/jan/2013): Enviei a Curi pedindo entrevista, mas não consegui nenhuma resposta.

Upideite(05/jan/2013): Reinaldo José Lopes, na Folha de São Paulo, traz a versão de Curi sobre o concelamento do artigo: teria havido erro de boa fé em relação às imagens (trocadas e repetidas, erro que teria ocorrido já na tese de doutoramento de um dos autores do artigo). Traz também mais detalhes sobre a desativação e futuro do 'Science Fraud.'

Upideite(07/jan/2013): Herton Escobar, no Estadão, informa que a reitoria da USP irá investigar o caso. Um dos autores do estudo cancelado, Sandro Hirabara, diz que houve problemas na edição das figuras, mas que não foi intencional.

Upideite(07/jan/2013):  Leandro Tessler, no Cultura Científica, e Marcelo Hermes, no Ciência Brasil, comentam o caso.

Upideite(08/jan/2013): O CNPq também irá investigar o caso.

Upideite(09/jan/2013): Herton Escobar publica versão em inglês de declaração do Dr. Paul S. Brookes, autor do blogue Science Fraud, com planos para criar um serviço de revisão anônima pós-publicação.

Upideite(16/jan/2012): Roberto Berlinck, no Ciência em Sociedade, analisa a questão das más oondutas em pesquisa científicas e as causas atribuídas.

Upideite(23/jan/2013): O Retraction Watch informa que Dr. Curi fez uma correção em um dos artigos criticados pelo Science Fraud. (via @besteves)

Upideite(30/abr/2013): Herton Escobar comenta mais um cancelamento de artigo de Dr. Curi - anunciado pelo Retraction Watch.

Upideite(07/jun/2013): O Retraction Watch informa mais uma correção publicada. (via @besteves)

Upideite(07/jun/2013): Herton Escobar informa que as comissões da USP e do CNPq para averiguar a conduta de Dr. Curi ainda não terminaram seus trabalhos.

Upideite(03/ago/2013): O CNPq inocentou o Dr. Curi das acusações de fraude.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Gene Repórter Ano 5: A resposta

Já temos um ganhador do Concurso Cultural Gene Repórter Ano 5.

Quem levou o exemplar de "O Terceiro Chimpanzé" de Jared Diamond foi Igor Santos.

A regra por trás do padrão das cartas é: "Se a carta for de um valor primo (2, 3, 5, 7, 11/J ou 13/K), a seguinte deve ser de cor diferente; do contrário (1/A, 4, 6, 8, 9, 10 ou 12/Q), deve ser da mesma cor".


Simples, não, mamita?

Agradeço a todos pela participação. E parabéns ao vencedor.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Gene Repórter Ano 5

Dia 27 de novembro é o aniversário de 4 anos do Gene Repórter.

As marcas são modestas em comparação com outros blogues, mas são um sucesso para o que importa ao próprio GR.

Passamos agora há pouco dos 100 mil visitantes.Dos 100 assinantes fiéis do feed do GR. E das 300 postagens publicadas.

Agradeço, de coração e mente, a todos os visitantes, comentaristas e colaboradores.

E como já é de praxe, teremos uma promoção valendo um exemplar de "O terceiro chimpanzé" de Jared Diamond (2011, Ed. Record, 448 pp.).

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Eleusis é um jogo de cartas criado por Robert Abbott em 1956. Os participantes devem adivinhar a regra que determina a ordem de posicionamento das cartas. Uma variante simplificada é o Eleusis Express.

O desafio aqui é adivinhar qual a regra secreta escolhida a partir do padrão abaixo.


Dicão 1: Se X então Y, senão Z.
Dicão 2: = ∨ ≠.
Dicão 3: Henri-Marie Beyle, Ruy Castro, Jerry Harrison.
Dicão 4: en:Optimus; pt:Basílio.

Use o formulário abaixo para enviar sua resposta.



Regulamento:
0. Somente concorrerão os que enviarem formulários corretamente preenchidos.
1. Parentes meus até segundo grau não valem.
2. A resposta deve ser enviada até às 23h59 (hora de Brasília) do dia 30/11/2012. (Vale o "timestamp" do sistema.)
3. Em havendo mais de uma pessoa que houver respondido corretamente, leva quem tiver respondido antes.
4. O prêmio será enviado gratuitamente, mas somente para um endereço coberto pelos Correios brasileiros em porte nacional.
5. O vencedor ou a vencedora será contatado/a por email e terá uma semana para responder. Findo o prazo, o prêmio estará prescrito e o segundo colocado será contatado. (E assim por diante.)
6. Pode-se responder ao formulário quantas vezes quiser, mas o participante estará concorrendo apenas com o último enviado.
7. Caso não haja nenhum acertador entre os que enviaram a resposta dentro do prazo, o prêmio será sorteado entre todos os concorrentes.
8. Este concurso segue a lei federal 5.768/1971 e legislação correlata.
9. Ocasionalmente o prêmio poderá ser alterado (em comum acordo com o/a ganhador/a) e trocado por um de valor equivalente em casos de indisponibilidade no fornecedor ou por desejo do/a ganhador/a.
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sábado, 27 de outubro de 2012

Entrevista com uma doutoranda - Gabriela Sobral

Gabriela Sobral**** é doutoranda em Biologia pelo Museum für Naturkunde na Alemanha. Ela desenvolve pesquisa sobre a evolução da audição em grupos basais* de arcossauromorfos (grupo que inclui aves e demais dinossauros, crocodilos, pterossauros, e membros menos conhecidos, além de, possivelmente, tartarugas**).

Recentemente, junto com colaboradores, publicou um trabalho com análise do sistema auditivo de um dinossauro usando tomografia computadorizada. Mas ultimamente têm enfrentado um problema seriíssimo: atraso do pagamento da bolsa Capes.

Abaixo, segue a entrevista concedida ao GR, em que Gabi relata o problema que tem atingindo vários pesquisadores brasileiros.

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GR. Você fez Ciências Biológicas no Rio (UFRJ) e mestrado em Biologia Comparada/Paleontologia em Ribeirão-SP (USP). Como foi parar na Alemanha em seu doutorado? Como está o encaminhamento do seu projeto?

Gabriela Sobral. Desde cedo eu tinha planos de passar parte da minha formação acadêmica no exterior e, ainda adolescente, procurei bolsas de estudo de graduação, mas a oferta era muito pequena. Quando cheguei perto mestrado e procurei saber, idem - a maior parte do subsídio financeiro sempre pareceu ser mais farta para o doutorado. Então quando eu participei pela primeira vez do encontro anual da Society of Vertebrate Paleontology em 2008 (um dos mais importantes encontros em paleontologia de vertebrados) eu já tinha em mente conversar com professores e pesquisadores de outras instituições. Mas como eu vim parar aqui foi totalmente ao acaso. Durante a apresentação do meu pôster, conversei com um professor de Munique sobre a minha pesquisa, que envolvia um grupo pouco estudado de arcosauromorfos basais chamado genericamente de prolacertiformes (atualmente sabe-se que são parafiléticos). Esse professor me perguntou se eu teria interesse em continuar estudando esse grupo, disse que na Alemanha havia tanto oportunidades de doutorado, como bom acesso aos materiais e me mostrou o site do DAAD (que eu já conhecia por uma amiga, que iria em poucos meses fazer sanduíche através desse acordo [NE: Deutscher Akademischer Austausch Dienst, Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão]). Sinceramente, estudar na Alemanha não tinha passado seriamente pela minha cabeça, então, quando voltei ao Brasil, dei mais atenção a um contato em Cambridge que eu havia feito no congresso. Semanas depois do retorno, essa amiga me avisou que havia saído o edital do próximo ano e perguntou se eu iria aplicar. Resolvi tentar também. Liguei para o professor de Munique para amadurecermos a ideia e ele disse que não era especialista na área, que havia dado a ideia por achar interessante, mas que se eu quisesse mesmo, poderia tentar com o professor de Berlin - e me passou os contatos do meu atual orientador, para quem liguei na mesma hora e se mostrou muito empolgado com a idéia. E assim foi. Minha tentativa para Cambridge não se consumou principalmente por falta de verba, já que eu não havia pedido bolsa no Brasil e dependia apenas da bolsa para estrangeiros da universidade, a qual me foi negada.

O meu projeto já está entrando na fase final e, como tudo corre bem próximo ao cronograma, devo entregar minha tese em abril de 2014. Todos os meus relatórios anuais voltaram com muitos elogios ao meu progresso e nunca tive problemas maiores com a CAPES ou nenhum outro órgão. Meu orientador é muito atencioso e cuidadoso, se importa com meu projeto e me incentiva também a procurar projetos paralelos. Empenha-se em me ensinar novas técnicas, oferece-me oportunidades de cursos, colaborações) e sempre discute aberta e sinceramente todas as minhas questões.

GR. Há quanto tempo não estão depositando o valor de sua bolsa Capes? Eles explicaram o motivo? Há previsão de normalização?

GS. Até este trimestre, eu nunca havia tido problemas maiores com o depósito da bolsa, afora no trimestre de abril deste ano, mas imagino que as datas dos feriados de Páscoa no Brasil e na Alemanha tenham contribuído. Nessa ocasião, quando entrei em contato, recebi uma resposta um pouco automática: "como consta no contrato, a bolsa pode levar até o vigésimo dia do primeiro mês do trimestre pra bater". Essa cláusula por si só é um pouco cruel, por que eu acho absurdo que se peça para qualquer ser humano guardar o equivalente a quase um mês de salário porque "devido a trâmites internacionais" o pagamento "pode atrasar". É impraticável. A ordem de pagamento não pode ser feita antes?

De todo modo, quando recebi essa resposta em abril me perguntei se, quando questionados sobre o assunto, os funcionários realmente verificavam se havia um problema e, em caso negativo, mencionavam a lentidão da transação, ou se era apenas uma resposta automática mesmo. Quanto tempo até perceberem que houve um erro? E o que acontece quando há um erro? Eu não sabia... mas agora eu sei. Quer dizer, sei mais ou menos. Apesar de não ter contactado a Capes desta vez acerca do atraso (por dois motivos: primeiro que eu estava no encontro anual da SVP nos Estados Unidos; segundo porque vi no site que a ordem de pagamento tinha sido enviada apenas em primeiro de outubro - aproximadamente 10 dias depois do normal - e pensei logo na greve), eu nunca fui avisada de que houve um erro. Nunca me ligaram, nem me escreveram. E da primeira vez que eu liguei, também não havia prazo de quando as bolsas seriam depositadas. Quando liguei da segunda vez pedindo um contato no Banco do Brasil, a resposta foi que não se sabia a quem perguntar e que havia chegado a informação de que a previsão seria na semana que vem. Ou seja: em novembro já!

GR. Como a falta da bolsa está afetando seu dia-a-dia e suas pesquisas? Como você está se virando nesse meio tempo com suas despesas?

GS. Isso ainda não está afetando diretamente meu trabalho, mas certamente está afetando meu psicológico e o meu dia a dia. Voltei dos Estados Unidos resfriada e a gripe não melhora. Nos últimos dias tenho tido insônia e crises de choro, principalmente a cada vez que chega uma conta: o aluguel, o dentista, a luz... E eu simplesmente não tenho dinheiro pra pagar! Já administro minha vida financeira há mais de 5 anos e nunca tive problemas, então essa situação me afeta de maneira particularmente forte. Desde o começo do mês estou no negativo e, no começo, estava sacando dinheiro do meu cartão de crédito, mesmo com altas taxas para tal, para depositar na minha conta corrente e cobrir meus gastos - fora que estava usando o cartão para supermercado e outros. E agora a fatura do cartão vai chegar e eu não tenho como pagar. Tenho economizado aonde dá: cheguei ao absurdo de economizar no supermercado e bom, pelo menos emagreci pouco mais de um quilo. Para viajar para o encontro deste ano da SVP, eu apliquei para uma bolsa de ajuda de custo de US$ 600 da sociedade - e ganhei. Com esse dinheiro paguei meus gastos lá e consegui economizar uns 100 dólares, que se transformaram na minha fonte de renda desde que eu voltei.

Eu cogitei fazer um empréstimo no banco e até meu orientador me ofereceu ajuda. Também cheguei a propor um acordo com o DAAD do Rio, para que o DAAD daqui me depositasse se não o valor da bolsa completo, pelo menos mil euros [porque mil euros não é tipo de quantia que eu vou pedir pro meu orientador], mas o diretor do DAAD não aceitou a proposta, disse que era inviável. Inviável é ficar sem receber! Eu conversei com meu locatário e avisei que não poderei pagar até que tudo se normalize - o que alivia porque o aluguel é a maior parte dos meus gastos. Para todo o resto eu tive que pedir para a minha família. Mas daqui a pouco o mês vira e as contas vão começar a chegar de novo e eu não sei se poderei contar com minha família novamente. Eu espero poder repassar todos os custos referentes a esse atraso para a Capes - como por exemplo multas por eventuais atrasos ou a taxa de saque do cartão de crédito etc. Por mais que sejam quantias pequenas, eu não acho justo ter que arcar com isso por um erro que não foi meu.

GR. Sabe de mais algum brasileiro com esse problema, na Alemanha ou em outro lugar?

GS. Acho que quase todos os bolsistas da Alemanha estão sem receber - sei de pelo menos mais duas pessoas na mesma situação. Em outros países eu realmente não sei....

A minha queixa maior com a Capes é no atendimento ao aluno. Em três anos, eu raramente fui respondida de pronto a uma dúvida e em muitas ocasiões tive que ligar para o escritório no Brasil para ser respondida. Dois anos atrás, o parecer do meu relatório anual também atrasou, o que resultou em um estresse desnecessário para o envio de um documento vital para a renovação do meu visto. Mandei emails, que não foram respondidos porque a funcionária estava de férias - e aparentemente ninguém ficou responsável por isso.

São pequenos descuidos que fazem a gente passar um aperto desnecessário. Por exemplo, se tivessem avisado do erro na transação com antecedência, eu teria programado minhas despesas melhor, teria conversado com meu locatário antes... não que eu fosse ficar feliz em saber que não iria receber, mas a demonstração de preocupação faz a diferença - e isso infelizmente a Capes não demonstra muito.
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O que será que a Capes tem a dizer sobre isso? Ainda mais quando agora está - em uma medida louvável - enviando cerca de 100 mil alunos de graduação e pós-graduação ao exterior por meio do Ciência sem Fronteiras.

*Upideite(28/out/2012): corrigido a esta data.
**Upideite(28/out/2012): a opinião de que tartarugas possivelmente sejam arcossauros não é partilhada pela entrevistada (Gabriela Sobral defende diz que a visão predominante entre os paleontologistas de vertebrados é de que seja um lepidossauromorfo).****
***Upideite(28/out/2012): @carloshotta indica um estudo recente com elementos ultraconservados que posiciona as tartarugas no ramo dos arcossauromorfos (como grupo-irmão dos arcossauros).
****Upideite(28qout/2012): alterado a esta data.
Upideite(30/out/2012): Ícaro Gonçalves comenta: "Aos bolsistas desse programa [Ciência sem Fronteiras] aqui na Alemanha, a mesma coisa. Até agora não se sabe de ninguém que tenha recebido as primeiras mensalidades no exterior, do trimestre referente a nov-dez-jan, e a grande maioria se encontra na mesma situação da doutoranda."
Updeite(30/out/2012): Pelo comentário e twitter, Jeferson Arenzon, do Coletivo Ácido Cético, informa que o atraso ocorreu também na França. O pagamento da bolsa foi feito somente hoje. Aparentemente, a justificativa da Capes para o atraso seria o aumento do número de bolsistas - deveria ter havido, então, um aumento correspondente no pessoal para a análise e liberação dos pagamentos.
Upideite(29/nov/2012): Só agora a Capes comunica oficialmente que houve atrasos e o motivo:
"A Capes esclarece que, tendo em vista a implementação de novo sistema, Virtual Private Network (VPN), alguns pagamentos em moedas diferentes do dólar americano não foram devidamente processados dentro do prazo estabelecido. Sendo assim, as equipes técnicas da Capes e do Banco do Brasil encontram-se trabalhando conjuntamente para que os atrasos ocasionados por essa mudança sejam solucionados imediatamente."
(Não, não sei o que a instalação de VPN tem a ver com atraso nas bolsas. Muito menos a espera de *dois* meses para dar tal esclarecimento.)
E só agora a imprensa começa a cobrir o caso.
Upideite(10/jan/2013): A situação continua complicada, reportagem da Folha mostra que pelo menos 25 bolsistas da UEL não recebem deste setembro de 2012. E agora a Capes diz que falta estrutura para gerenciar os pagamentos das bolsas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Melhorar a ciência brasileira: acabar com bolsistas e criar o cargo de pesquisador?


A neurobióloga Suzana Herculano-Houzel propõe como forma de valorização dos cientistas a extinção de bolsas de pós-graduação e a criação de cargos de pesquisadores contratados pelas fundações privadas de apoio a instituições acadêmicas.

Há um grande mérito de se aventar uma proposta clara e bem objetiva para a melhoria da ciência no Brasil. Acho que merece ser pensado com carinho.

Alguns senões que vejo são:
a) Para uma mesma verba, menos pessoal poderá ser envolvido. A garantia de direitos trabalhistas é, sem dúvida, um ponto importante. Mas isso significa custos - adicional de férias, décimo terceiro, previdência. Mesmo que os valores dos salários dos pesquisadores sejam equivalentes ao das bolsas, no fim, cada pesquisador custará por mês mais do que um bolsista. Dentro do panorama governamental de expansão do número de cientistas no Brasil, isso implicará na necessidade de um aporte de verbas substancialmente maiores.

b) Sou um tanto reticente (estou sendo eufemista, sou muito reticente) quanto à parte de transferência da responsabilidade da contratação pelas fundações privadas. O controle sobre elas é menor, o que significa de um lado, a agilidade percebida por Herculano-Houzel; mas, de outro, abre brechas fortes para malversações - e tivemos um escândalo recente de desvio de verbas por fundações privadas na UnB (escândalo que envolveu o reitor de então).

c) A dissociação de ensino/pesquisa. Ainda que a *instituição* mantenha o trinômio ensino-pesquisa-extensão, a separação das carreiras de docente e pesquisador no âmbito das universidades pode trazer consequências ruins para a parte da docência. Verdade que um bom pesquisador não necessariamente é um bom professor; mas a estrutura universitária (ao menos das IES públicas) não é mesmo voltada ao ensino nos termos de um professor passar didaticamente a matéria ao aluno - funciona bem na base da "seleção natural" - ainda que com resultados. O argumento é que um bom pesquisador, ainda que não seja um bom professor, permite ao aluno estar em contato com a pesquisa de ponta. É verdadeiro isso? Não sei. Seria preciso averiguar melhor.

Infelizmente acho que não terei como atender ao pedido da @ciencianamidia de analisar a proposta com sugestão de melhorias. As "melhorias" que vejo desvirtuariam completamente a proposta de HH: por exemplo, a transferência da responsabilidade do contrato das fundações privadas de volta para a universidade/institutos.

Mas a questão da profissionalização da figura do pesquisador e da meritocracia são pontos de total concordância. Se não me engano é o modelo alemão em que muitos alunos de PhD são contratados como professores e pesquisadores assistentes - ou seja, recebem um salário.

A meritocracia é implementável mesmo dentro do funcionalismo público. É preciso um plano de carreira condizente. As IES estaduais paulistas têm os seus - parece-me que o da USP, mais recentemente implantado, é o mais draconiano: a progressão na carreira (com o correspondente aumento salarial) se dá sob análise da produtividade nos últimos 5 anos.

No plano federal, desde 2002 vinha havendo uma gradativa recomposição salarial dos docentes das IES. O que foi interrompido com a crise de 2008; que acabou redundando em uma longa greve este ano.

Dando também minha cara à tapa, eu apostaria, então, em uma estratégia mix para a valorização devida dos pesquisadores (uma evolução gradual em vez de uma revolução):
1) Recomposição e valorização salarial dos docentes e estruturação de um plano de carreira por meritocracia (sim, uma avenida enorme de discussão sobre quais indicadores de mérito usar: publicações, orientações, desempenho dos alunos, projetos aprovados...);
2) Recomposição e valorização das bolsas de pós-graduação e institucionalização de certos direitos (férias remuneradas, décimo-terceiro, contribuição previdenciária proporcional, seguro saúde);
3) Aumento no investimento público em C&T (incluindo a expansão e estruturação das IES públicas e institutos públicos de pesquisa, e investimentos em P&D de estatais e empresas de capital misto como a Petrobras);
4) Incentivo à pesquisa em empresas e instituições privadas (linhas facilitadas de crédito, mas sem empréstimos a fundo perdido, participação governamental nas patentes: riscos e ganhos compartilhados; isso inclui parcerias público-privadas);
5) Melhora na governança e gestão das IES públicas e institutos públicos de pesquisa e dos investimentos públicos em C&T.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso? - parte 2

Na postagem anterior, argumentei que, do ponto de vista de produção de riqueza e recursos suficientes para erradicar a pobreza dentro de um quadro ambientalmente sustentável, as Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), entendidas no âmbito da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) podem ter pouco a contribuir - a simples aplicação de tecnologias já existentes e testadas seria o suficiente.

E sugeri que as CTI, indo além das P&D, têm um papel fundamental a desempenhar no alcance dos objetivos expressos no tema da SNCT2012.

Já se adiantaram nos comentários da postagem precedente: a questão da distribuição igualitária dos recursos soa utópica. Alexandre falando da questão de controle dos níveis de carbono atmosférico: "exigiria uma coesão política internacional que não tem se mostrado real."

É aí que entra o papel das CTI. E é aí que ela diverge da ideia convencional de P&D.

Eli Vieira, em outra postagem (sobre o papel das Ciências Sociais e Humanas): "Como estamos nos comportando como sociedade sob a influência das novas tecnologias da informação? Qual sistema econômico pode melhor atender o que nós prometemos fazer na Constituição? São perguntas difíceis, cujas respostas certamente existem, e é papel dos profissionais das ciências sociais tentar responder."

Talvez seja exagero de minha parte dizer que as CTI como P&D têm pouco a contribuir (novas e melhores linhagens de cultivares e raças de criação, tecnologias mais eficientes e menos poluentes...), mas as CTI como produtoras de tecnologias sociais têm um papel mais importante.

Certamente distribuir equitativamente a riqueza é uma utopia, mas o fato é que ela só precisa ser marginalmente mais bem distribuída para se erradicar a pobreza (dentro dos limites de 'pobreza extrema' com que se trabalha nos programas como da ONU e do governo federal).

Programas de transferência de renda são um tipo de tecnologia social - não exatamente nova na concepção, mas relativamente nova na sua aplicação massiva -, são também tecnologias sociais mudanças culturais no modo como nos relacionamos, nos hábitos de consumo, alterações na ordenança institucional e legal de modo a torná-las mais condizentes com os objetivos.

Para isso é preciso ainda entender que, de um lado, uma dicotomia do tipo: desenvolvimento x preservação ambiental é improdutiva; de outro, é preciso rechaçar também interpretações marotas de preservação ambiental (só para citar um exemplo, "parques" lineares) que facilitam a exploração econômica e inflam artificialmente parâmetros de conservação (como total de áreas "preservadas") e as falácias mais diversas que abriram os flancos para o ataque promovido sobre a legislação do Código Florestal em nome de uma "segurança jurídica" e de uma "segurança alimentar" que mais bem se traduzem por "segurança do capital" (atente-se para o fato de que não há uma valoração negativa do termo "capital" aqui, apenas a condenação da distorção de um termo para disfarçar outras intenções).

É papel das ciências - no sentido ampliado e aqui usado, que inclui as ciências sociais e humanas - equacionar a questão. Não é factível esperar que um dia desenvolva-se tecnologia milagrosa que permita as pessoas a tocarem suas vidas do modo como sempre tocaram sem as consequências danosas às dimensões socioeconômica, ambiental e institucional. Pode ser que ela se desenvolva, mas seria deixar o futuro largado somente ao lance de sorte. (A serendipidade pode ser colocada na equação, mas somente considerando-se uma taxa dentro de um prazo, prazo que não necessariamente temos.) Por outro lado, é pouco razoável esperar que as pessoas mudem drasticamente seus hábitos e abdiquem completamente de conforto material (sua manutenção ou aspiração a ele).

Seria pretensão demasiada querer apontar aqui qual a equação final, mas certamente um termo de compromisso com novas tecnologias - materiais e sociais - que facilitem mudanças de hábitos. Há precedentes limitados: no Brasil, a população respondeu bem por um tempo à necessidade de restrição do consumo de energia elétrica em função do gargalo da capacidade instalada em fins de 19982000; programas de controle de emissão de poluentes levaram à produção de motores mais eficientes com menor consumo de combustíveis e menor liberação de material particulado; uma moratória internacional de caça às baleias foi acordada (ainda que com burla de países como o Japão e a Noruega e a crescente pressão desses mesmos países em suspender a moratória); uma área internacional de exclusão econômica pôde ser demarcada em torno do continente antárctico; esforços internacionais permitiram a erradicação da varíola e controle de várias doenças humanas, animais e de plantas de interesse econômico.

Mesmo nessa versão expandida de ciências e tecnologia, elas têm limites. O principal é que a aplicação das tecnologias existentes, os esforços no desenvolvimento de novas, depende de haver um valor partilhado de compromisso com esses objetivos. O quão compromissados os líderes estão com os valores do documento "The Future We Want" e tais valores estão arraigados na mecânica política dos países é algo a ser determinado - que passem ao largo em debates políticos presidenciais é um indicativo negativo, porém.

Assim, uma outra expansão de sentido é necessária, incluindo nas CTI a política, não como política científica, mas (e já vejo aqui narizes sendo retorcidos e ouço fungadas de reprovação) a política como ciência (não, é bom deixar claro, no sentido da tecnocracia estrita, mas sim da orientação da formulação de políticas públicas a partir do que se conhece em ciências - incluindo as ciências sociais).

Upideite(17/out/2012): Parte dessas novas tecnologias sociais passa pela mudança da abordagem da questão (o que é, em si mesma, uma tecnologia social). Comentei acima que a dicotomia desenvolvimento x preservação é improdutiva. Um exemplo que ilustra a modificação da abordagem para uma explicitação de como o desenvolvimento depende da preservação ambiental é da International Conservation. Os serviços ambientais para a real segurança alimentar (qual seja, não apenas a garantia de lucratividade dos grandes produtores, mas sim a produção sustentável de alimentos de qualidade nutricional adequada e biológica e quimicamente seguros para a população a um preço acessível) devem ser enfatizados: polinização, fonte de água potável, proteção contra a erosão, controle de pragas... isso tudo e muito, muito mais é o que oferece uma floresta saudável em pé. (Link via @luizbento.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso?

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012 tem como tema "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza".

Qual o papel a ser desempenhado pelas Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) na busca pela sustentabilidade, de uma economia verde e da erradicação da pobreza?

Quando se pensa em CTI, muitas vezes associamos com outra sigla: P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Desenvolvimento de novas tecnologias através da aplicação de conhecimento científico adquirido por meio de pesquisa.

Nesse sentido, é possível que as CTI tenham pouco a ver com a solução dessas questões. Por um motivo muito simples: não é necessário o desenvolvimento de *novos* projetos e tecnologias para acabar com a miséria e se atingir um sociedade sustentável baseada em economia ecologicamente correta e socialmente inclusiva.

Segundo levantamento do Banco Mundial, em 2011, em valores correntes, o mundo produziu US$ 69.993.693.036.451, quase 70 trilhões de dólares americanos. Segundo as Nações Unidas, em 2011, a população mundial deveria ser de 7.084.322.000 habitantes. O que corresponde a um PMB (produto mundial bruto) de US$ 9.880,08 anuais per capita ou pouco mais de US$ 820/mês (R$ 1.665/mês)  ou cerca de US$ 27/dia para cada pessoa. Não é muita coisa. Mas é muito mais do que ganham os miseráveis na definição da ONU e dos projetos sociais governamentais brasileiros (veja postagem anterior). Na verdade, está acima da faixa que o governo brasileiro define como Nova Classe Média, e, combinada em uma família de 3 pessoas, atinge a faixa B1 do Critério Brasil de Classificação Econômica.

Em temos alimentares, segundo a FAO, em 2010, o mundo produziu 2.744.973.554.000 kg de alimentos amiláceos (arroz, trigo, milho, batata e mandioca), pouco menos de 3 trilhões de kg. O que dá 387,5 kg de alimentos por ano por pessoa, pouco mais de 1kg de alimentos amiláceos por pessoa (se descontarmos o milho - usado intensamente na ração animal - teremos cerca de 735 g/dia por pessoa). Em termos de proteína animal, em 2010, a produção total (entre carnes, ovos e leites) foi de 1.024.528.037.000 kg ou 144 kg/ano por pessoa ou 392 g diários per capita. Não chega a formar uma dieta equilibrada. Por exemplo, a recomendação mínima de consumo diário para frutas, legumes e verduras é de 400 g/dia - em média para adultos -, mas a produção mundial corresponde a apenas cerca de 100g/dia por pessoa. Mas é o suficiente para suprir as necessidades energéticas e proteicas de todos os habitantes do planeta.

Em tese, não seria necessário gerar mais renda (nem mais alimentos) para os mais pobres. Bastaria distribuir a riqueza já existente. Claro que isso teria outras implicações.

E a sustentabilidade e economia verde? Somente essa distribuição teria, por um lado, um efeito de redução do impacto socioambiental. Nessa faixa de renda, as condições de moradia, saúde e alimentação são, óbvio, muito melhores do que nas condições de moradias improvisadas, sem saneamento básico. Mas não teria um efeito contrário também, já que uma renda mais elevada levaria a um maior consumo de recursos? Sim. Porém, como estamos trabalhando com redistribuição, haveria redução na outra ponta: consumo de superluxo e altamente supérfluos. De todo modo, pelo menos um estudo indica que a redução da desigualdade econômica está associada a um aumento nas emissões de CO2 (outro estudo detecta um padrão em U: em países altamente desiguais, a redução da desigualdade leva a uma diminuição da emissão per capita de CO2, já em países de baixa desigualdade, a redução leva a um aumento da emissão).

Contudo, hoje, já existem tecnologias testadas que reduzem a emissão de CO2 e consumo de matéria prima. Nos EUA, a energia eólica e hidrelétrica já são mais baratas do que a termoelética. A geotérmica também está no mesmo patamar. Um pouco acima, a energia de biomassa e ainda 50% mais cara, a energia solar (mas em tendência de queda no preço). Além da polêmica energia nuclear.

Considere-se ainda a questão da eficiência energética, que pode reduzir a demanda por energia em algo em torno de 30%.

Tudo isso com coisas que já existem e sabemos que funciona. Assim, as CTI são desnecessárias atualmente no contexto da obtenção da erradicação da pobreza com sustentabilidade e economia verde. (Mesmo a expansão da produção de alimentos e da riqueza para atender ao crescimento populacional é possível de ser obtidoa com as tecnologias atualmente existentes.)

Ou será que não? Na próxima postagem discuto outra abordagem a respeito do papel das CTI nessas questões. (Mas precisaremos alargar a visão da sigla para além da P&D.)

Upideite(17/out/2012): Continua.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" segundo o Google

Abaixo o gráfico do volume relativo de buscas no Google sobre a "Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" ao longo do tempo.



Nenhuma surpresa. Os picos são no mês de outubro. As buscas são relativamente mais intensas, em ordem decrescente, a partir do Distrito Federal (100), Rio de Janeiro (65), Minas Gerais (45) e São Paulo (17).

Um outro gráfico comparando com a busca por "Halloween" (nota, restringi para busca no Brasil).



A busca por SNCT praticamente desaparece. Idem com "Dia das Crianças" (curiosamente, no Brasil, busca-se mais por "halloween" do que por "dia das crianças").



Mais um, comparando com "Dia Mundial da Alimentação"



Ainda que sem dados para substanciar, apostaria que a busca pelo Dia Mundial da Alimentação seja induzida por trabalhos escolares (bem como sobre a SNCT). Repito, é só um chute.

As mesmas observações que fiz antes sobre a extrapolação desses dados para a população em geral valem aqui. Porém, o que é óbvio é que há ainda muito espaço para se trabalhar na divulgação da SNCT.

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