Lives de Ciência

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma ideia... que cresce...

Lancei uma ideia no ar - os blogueiros de ciências juntarem esforços para criar e manter uma revista eletrônica de divulgação científica. Mas não é uma ideia mais minha, é de todos. Abaixo algumas contribuições.

Luiz Bento, do Discutindo Ecologia, sugere aproveitar que muitos bloguistas são professores universitários e pesquisadores para buscar financiamentos em órgãos de fomento para o projeto.

Osame Kinouchi, do SemCiênciaSemciência*, sugere ir além e fundar uma associação formal de blogueiros de ciências e ter uma versão impressa da revista. (Upideite (15/set/2009): Kinouchi corrige a informação nos comentários, não seria uma versão impressa, mas uma cópia em papel do PDF para os associados.)

*Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.

Tatiana Nahas, do Ciência na Mídia, está em contato com os organizadores do 2o euclipo para tentar abrir um espaço no evento para que isso tudo seja discutindo com os participantes. Nahas é contra a sugestão de uma versão impressa, dada a origem do "movimento" blogueador baseada na tecnologia web, além dos custos extras envolvidos.

Mala influenza - 13

Número de casos - eixo principal:
25 confirmados em 24/abr/2009; 254.206 casos confirmados em 04/set/2009.
Mortes - eixo secundário:
7 em 27/abr/2009; 2.837 em 04/ago/2009 04/set/2009*.
(Como, seguindo recomendação da OMS, muitos países reportam apenas os casos graves, o índice de mortes por mil casos não será mais calculado. O total de países e territórios também deixará de ser divulgado por haver atingido a quase totalidade dos países da OMS.)

Fonte: OMS.

No Brasil:

Número de casos - eixo principal:
54 confirmados em 12/jun/2009; 6.592 casos confirmados em 31/ago/2009.
Mortes - eixo secundário:
0 em 12/jun/2009; 657 em 31/ago/2009.
(Como, seguindo recomendação da OMS, o Brasil reporta apenas os casos graves - a mudança no critério é indicado pela seta amarela -, o índice de mortes por mil casos não será mais calculado. O total de estados também deixará de ser divulgado por haver atingido a totalidade de unidades da federação.)

Fonte: MS.

*Upideite(17/nov/2009): corrigido a esta data.

II EWCLiPo: eu vou... eu vou?

Sim, eu vou clipar (isto é, se não tiver prova na semana...). Mas alguém vai de carro a partir de Sampa (ou passar por aqui a caminho)? Racho despesas, claro.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Aquecimento global (parte 2 de 3)

Dando continuidade à série sobre o aquecimento global antropogênico.

Vimos como os dados indicam claramente que há, de fato, um processo de aquecimento global - um aumento generalizado no decorrer dos anos da temperatura média das camadas mais baixas da atmosfera em todo o planeta.

A questão 2, aborda a causa desse aquecimento. Os negacionistas que não podem, diante dos dados, fingir que não há um aquecimento global partem, então para a estratégia de atribuir o fenômeno a outras causas que não a ação humana.

Aquecimento global é, em boa parte, causado pelos gases-estufa

Estações como o de Mauna Loa, Havaí, avaliam a composição atmosférica periodicamente. Ao longo dos anos, percebe-se um constante aumento na concentração de gases-estufa, como o próprio CO2.

Figura 1. Gráfico da concentração atmosférica de CO2 no Observatório de Mauna Loa, Havaí.

Os dados de Mauna Loa são os que formam a série histórica mais longa disponível. Mas a mesma tendência é encontrada em outros pontos. Para dados globais, vide a figura 2.

Figura 2. Gráfico da concentração atmosférica global anual de CO2. Fonte: NOAA/ESRL.

E não apenas a concentração de CO2 está a aumentar, mas também de outros gases-estufa como o metano (que mol a mol tem um efeito muito maior do que o CO2 de aumentar a temperatura atmosférica) como mostra a figura 3.

Figura 3. Gráfico da concentração atmosférica de diversos gases-estufa ao longo dos anos. Painel superior esquerdo, CO2; painel superior direito: NOx; painel inferior esquerdo: metano; painel inferior direito: CFCs. Fonte: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/aggi/

Sim, correlação não significa causação. Mas experimentos em laboratório mostram que amostras de CO2 absorvem na faixa do infravermelho - com picos em ~200 nm e ~430 nm (um pico em ~260 nm se sobrepõe a um pico de absorção pela água): Figura 4. Isto é, a presença de CO2 faz com que mais energia entre no sistema (do que se houvesse menos CO2), o que provoca aumento da temperatura.

Figura 4. Espectro de absorção de alguns dos principais gases-estufa. (Upideite (09/set/2009): a página para a referência de Howard 1959 é 1.452 e não 1.459 como na figura.)

Oquei, então temos que em laboratório o CO2 mostra aumentar a temperatura. Mas o que ocorre em uma escala maior? Incluindo-se diversos fatores e o CO2, modelos podem ser simulados em computador e ver o que ocorre com a temperatura. Os cientistas do IPCC testaram e observaram que a variação da temperatura já ocorrida poderia ser predita desse modo. Vide Figura 5.



Figura 5. Comparação entre temperaturas observadas (linha preta) e as preditas: faixa vermelha e azul (a faixa azul é a predição que desconsidera a ação humana).*

Combinando-se, então, essas três linhas de indícios: a) correlação dos dados observados entre o aumento da temperatura global e da concentração dos gases-estufa; b) análises de laboratório do efeito desses gases na absorção de energia e c) modelos de computador do clima global que levam em conta o efeito desses gases na temperatura global - temos uma base sólida para ligar o aquecimento global a tais compostos: notadamente ao CO2.

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Upideite (13/set/2009): Parâmetros da atividade solar, ao contrário, não apresentam maiores correlações com o padrão de aquecimento (Figura 6). O fator solar, no máximo, deve contribuir com cerca de 30% do total da variação observada da temperatura global (Solanki & Krivova 2003; Fröhlich & Lean 1998).

a) b)Figura 6. Variação temporal da atividade solar. (a) Número de manchas solares. (b) Fluxo solar na faixa extrema do ultravioleta. Fonte: Nasa.

Upideite(21/jan/2011): Abaixo gráficos mostrando a correlação entre o teor de CO2 atmosférico e a temperatura global atmosférica média: de 1856 a 2005.
Figura 7. a) Covariação temporal da temperatura global e o teor de CO2 atmosférico. b) Correlação entre temperatura global e teor de CO2 atmosférico. (Fonte: Robert Johnston 2008.)

*Updeite(23/jun/2012): O endereço anterior da imagem atualmente encontra-se quebrado.
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Referências

Conway, Thomas & Tans, Pieter. 2008. Trends in carbon dioxide. Disponível em: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends/. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

Fröhlich, Claus & Lean, Judith. 1998. The sun's total irradiance: cycles, trends and related climate change uncertainties since 1976. Disponível em: ftp://ftp.pmodwrc.ch/pub/publications/gl493w01.pdf. Acessado em: 13 de setembro de 1998.

Hofmann, David. 2008. The NOAA annual greenhouse gas index (AGGI). Disponível em: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/aggi/. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2007. Fourth assessment report. Disponível em: http://www.ipcc.ch/ipccreports/ar4-syr.htm. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

Solanki, SK. & Krivova, NA. 2003. Can solar variability explain global warming since 1970? Disponível em: http://www.mps.mpg.de/homes/natalie/PAPERS/warming.pdf. Acessado em: 13 de setembro de 2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma ideia...

Talvez eu lance verde lá no 2o euclipo (II EWCLiPo): a comunidade bloguista filomática (e adjacências) poderia fazer um mutirão para criar e manter uma revista de divulgação de ciências lusófonas (tanto a revista quanto as ciências).

Não, não é uma tarefa fácil, mas se cada um contribuir um pouco - com texto, trabalho de editoração e pesquisa, entrevistas e conhecimentos jornalísticos e de edição de imagens - creio que seria possível lançar uma revista eletrônica (em pdf para valorizar o visual) de caráter, digamos, bimensal ou trimestral.

Se fosse formalizada, permitiria até estágios para estudantes de jornalismo que queiram se especializar na área de jornalismo de ciências - ajudando na formação de profissionais qualificados para cobrir a área.

Seria distribuída em licença Creative Commons - das mais abrangentes: permitindo uso comercial e adaptação, bastando citar a autoria devida e a fonte. (Upideite (09/set/2009): ah, sim, claro, e a obra derivada também deve manter o tipo de licença original.)

É uma área um tanto carente. Superinteressante e Galileu não contam, são mais revistas de variedades juvenis do que especializadas em ciências. Há várias institucionais, com focos nos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores vinculados às universidades e institutos de pesquisa patrocinadores ou agências de fomento. No Brasil, temos basicamente a família SciAm Brasil, mas em boa medida é uma tradução da matriz americana.

Claro que ainda assim haveria um custo envolvido. Mesmo com contribuição voluntária dos bloguistas, não seria justo não remunerar os estagiários - seja a título simbólico (sem falar nas garantias sociais legalmente exigidas). Haveria de ter inserção de páginas publicitárias para tentar cobrir parte dos custos. Cobrar pela distribuição não seria viável, mas poderiam se aceitar as esporádicas e escassas doações.

Enfim, é coisa que precisaria mesmo amadurecer. Poderiam ser feitas uma ou duas edições para testes - verificar a viabilidade técnica e econômica.

Haveria de ter alguns princípios fundamentais:
- morte ao sensacionalismo;
- portanto pseudociências passam longe;
- clareza *e* correção (se for inviável reduzir um conceito científico a um parágrafo, que se estenda em tantas páginas quanto necessárias; por outro lado, nada de pedantismo acadêmico: se um parágrafo é suficiente, nada de se estender por páginas em digressões verborrágicas);
- pluralidade temática (não, não é a senha para liberalidades com as pseudociências, devidamente barradas pelos dois primeiros princípios - primeiros na ordem de listagem, não de importância): falar de temas que normalmente não são abordados nas editorias de ciências das mídias convencionais, mas que sejam importantes (ou pelo caráter teórico ou pelas consequências na vida do cidadão comum) - sim, não quer dizer que não se vá cobrir as áreas de saúde, meio ambiente, astronomia, biotecnologia...
- foco na produção lusófona;
- destaque para as eventuais correções de informações equivocadas que tenham sido veiculadas pela revista;
- distinção tão cristalina quanto possível entre opinião e informação;
- total e radical separação entre o comercial e o editorial;
- corolário: distinção absolutamente clara entre páginas editoriais e publicitárias;
- veto à publicidade de bebidas alcoólicas e de fumígeros.

Upideite (09/set/2009): Várias ideias surgindo na discussão feita nos comentários (acho que irei subi-los em uma postagem - Upideite (15/set/2009): publicado aqui). A maioria excelente, uma... péssima, o que me faz incluir mais um princípio editorial fundamental:
- nunca, jamais, nem em pensamento, colocar eu, Roberto Takata, como editor.

Upideite (02/out/2009): mais aqui e aqui.

Patrulha purista vocabular 3

Manchete da seção de ciências do G1.com:
Rinoceronte de Sumatra ameaçada de extinção morre aos 21 anos nos EUA
"Emi teve papel importante em programa de reprodução em cativeiro.
Ela morava havia 14 anos no zoológico de Cincinatti."

Aqui eles misturaram espécie com indivíduo: quem se extingue ou pode se extinguir são espécies (ou populações) - um conjunto de indivíduos; quem morre ou pode morrer são indivíduos.

Emi morreu, ela mesma não estava ameaçada de extinção, mas sim a espécie dos rinocerontes de Sumatra, a qual pertencia. Claro, sua (da Emi) morte pode aproximar ainda mais a espécie da extinção, porém não são a mesma coisa.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Mulheres e inteligência

Não, não é sobre a inteligência das mulheres, mas o efeito que elas causam na inteligência masculina. É um tipo de estudo que a Ruth de Aquino adoraria.

Karremans, JC et al. 2009. Interacting with women can impair men’s cognitive functioning. Journal of Experimental Social Psychology 45(4): 1041-4. Para notícias sobre o estudo: em inglês, em português.

Meus comentários machistas aqui. (Sim, bem antes do comando de caça aos paraquedistas do scibloggers, eu tinha, não uma postagem, e sim um blogue todo dedicado à ptosistasiocinegética - tá, oquei, é menos para caçar paraquedistas, do que para canalizar certos instintos menos, hum, civilizados, mas eu tinha que publicar esse neologismo em algum lugar.)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Patrulha purista vocabular 2

Redações das editorias de ciências dos veículos de comunicação deveriam ter um quadro gigante a ser consultado todos os dias - especialmente por aqueles que irão escrever, traduzir ou adaptar alguma notícia sobre genética, genômica, biologia molecular, evolução e áreas afins.

Nesse quadro estaria uma única frase, em letras garrafais (e de garrafa de Sangue de Boi): "Sequência genética *não* é o mesmo que código genético !!!! (muitas exclamações)".

A Folha Online publicou hoje uma notícia da New Scientist sobre genes que surgiram a partir de sequências não-codificantes. A notícia é muito interessante, no entanto, os detalhes (sempre os detalhes) comprometem. Lá está a bendita expressão: "Ao comparar o DNA de humanos, chimpanzés e macacos, a equipe de McLysaght chegou a genes humanos que pareciam não existir nas outras espécies. As proteínas curtas dos três códigos genéticos foram encontradas em amostras de sangue de pessoas saudáveis, e os genes também estavam presentes em todos os genomas humanos sequenciados até então --o que sugere que eles têm funções vitais em humanos." (Um aparte, a conclusão "sugere que têm funções vitais" a partir da observação "encontratada em todas as amostras" não se sustenta. Sugere apenas que foi herdado a partir de um ancestral em comum de todos os humanos amostrados. Afinal, a notícia fala de "ADN lixo", sem função codificante, oras, mas trechos de tais ADN "lixo" também estão presentes em pessoas saudáveis - não quer dizer que tenha alguma função vital. O que sugeriria que têm uma função vital seria se estivessem presentes apenas em pessoas saudáveis - ou preferencialmente em pessoas saudáveis.) Além de não ter a ver diretamente com código genético, o trecho traduzido ainda se induz a pensar que o termo se refere aos genomas das espécies comparadas: humanos, chimpanzés e macaco Rhesus ("macaque", no original; não é um termo que significa simplesmente "macaco", que, em português, inclui chimpanzés, gorilas e todos os primatas símios) - na verdade, se refere aos três genes estudados: CLLU1, C22orf45 e DNAH10OS.

E desta vez foi mancada da Folha, pois o texto original diz: "The short proteins the three genes code for have been found in blood samples from healthy people, and the genes are also present in all human genomes sequenced so far, suggesting they have vital functions in humans". Traduziram "proteins genes code for" - "as proteínas codificadas pelos genes" - por "proteínas dos códigos genéticos".

O texto traduzido ainda diz: "Nos outros primatas, as sequências de DNA equivalentes a esses códigos genéticos contêm diferenças que suspendem a produção de proteínas no início, de forma que as sequências não-codificadas não sejam encontradas nestas espécies". Enquanto que no original está: "In the other primates, the equivalent DNA sequences contained differences that would halt protein production early on, so the sequences are non-coding in these species." ("Nos outros primatas, as sequências de ADN equivalentes têm diferenças que sustariam a produção proteica precocemente, assim as sequências são não-codificantes nessas espécies.") Note-se, além de não ter que enfiar "código genético", as sequências *são* encontradas nas outras espécies, mas não codificam nenhuma proteína (o que sustenta a tese de que os genes humanos - que codificam proteína e têm sequências similares - surgiram a partir do ADN não-codificante, o que é chamado na reportagem e por muitos pesquisadores de ADN lixo).

Eu disse "desta vez" porque o uso errôneo do termo "código genético" é amplamente disseminado, não apenas na Folha, mas na imprensa leiga em geral, no Brasil e no mundo. A própria New Scientist tem vários textos, como este, que usam "genetic code" no lugar de "genetic sequence", "genetic material", "genome", "DNA molecule" e similares (as expressãoões são similares, porém não são sinônimas, bom dizer). Mesmo em revistas como a Nature, em textos noticiosos, encontramos o uso errado, como aqui.

Em outra postagem, nota-se que invadiu até mesmo a legislação, com potencial de causar problemas.

Upideite (04/set/2009): Alertada pela PPV, a Folha Online corrigiu uma parte - pelo menos os "códigos genéticos" mal empregados foram devidamente retirados. Outros problemas ainda permanecem.

Dia do Biólogo

Em homenagem aos biólogos de todo o Brasil, trago esta importante mensagem da mais famosa bacharel em Biologia do país:

"Eu peguei aqui três xícaras de chá de castanha do pará. Você viu que nós estamos usando um ingrediente nosso, da nossa flo... fau-na." (01/09/2009)

Biologia é mais você!



Sim, Lineu e Hennig perdem.

(Ok, herrores, noçoutros todos los cometiemos. Herrare umanum hest. Mas em terra de olho que tem um cego... errei - apud Millôr.)

Upideite (03/set/2009): Disclaimer necessário. Pode não parecer, ainda mais com a "homenagem" acima, mas eu respeito muito a Ana Maria Braga como comunicadora. Sim, ela é, declaradamente, uma médica frustrada, provavelmente não seria uma boa bióloga, mas naquilo que ela se propõe a fazer: apresentar um programa de variedades feminino, ela manda bem e, sim, é regiamente paga por isso.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Manifesto biomático

Já usaram o termo biomática com outros significados: como sinônimo (contração) de bioinformática (biomatics), como um novo paradigma das ciências da vida (integral biomathics) e como bioengenharia de sistemas (biomatics). (Atente-se para as grafias no inglês: -matics e -mathics. Isso traduz a etimologia e a intenção original do neologismo. -matics, de um lado, calca-se em 'informatics', e 'mathematics', -mathics, em 'máthos, máthesis', do gr. 'conhecimento, ciência'.)

Uso aqui com um significado um tanto distinto, ainda que se aproxime do 'integral biomathics' e da 'systems bioengineering' (mas que se afasta de modo bastante profundo de ambos). (Só não me dou ao trabalho de cunhar um termo distinto, porque eu o havia já criado há muito tempo de modo independente - em termos etimológicos, em inglês, resultaria em 'biomathics'.)

A proposta se parece, em um primeiro momento, com a da biologia de sistemas (usa conceitos derivados da cibernética, por exemplo; e procura analisar sistemas vivos como elementos complexos), mas, ao contrário desta, parte de uma base eminentemente reducionista.

A idéia é reduzir os problemas das ciências da vida a elementos puramente abstratos, tanto quanto possível, em entidades matemáticas. Em certa medida, englobando uma 'metabiologia': versando não apenas sobre a biologia dos organismos conhecidos, não apenas sobre a biologia do possível (ainda que não realizado), mas também sobre a biologia do 'e se' ('e se não houvesse tais restrições físicas ou biológicas?').

Não é algo que surgiria do nada. A cibernética, como comentado, teria muito a contribuir nas questões do fluxo e controle de informações que passam de um ponto a outro. A abstração matemática, aliás, está já bastante presente: como os grafos e as topologias nos estudos da filogênese, as teias representando as relações ecológicas de fluxo de matéria e energia, as equações químicas, as fórmulas matemáticas sobre crescimento populacional, evolução, metabolismo, etc.

Seria a biologia como ciência exata e abstrata. Não é uma teoria, não é um paradigma, mas sim um programa de pesquisa, ou melhor dizendo, um programa metafísico no sentido popperiano do termo - ainda necessitando ser burilado. Demandaria o trabalho intenso de várias pessoas de várias especialidades. O resultado seria incerto de dois modos: se a empreitada seria viável ao final de contas e se o produto teria alguma utilidade -, mas creio que a viagem compensaria por si só.

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