Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Divulgação Científica nas Interwebs: dos blogs às mídias sociais (2)

Ontem (29.mar.2016) apresentei juntamente com o Rafael Soares do Scienceblogs/Numina Labs a oficina "Divulgação Científica na Internet Blogs e YouTube" no EDICC 3 - 3° Encontro de Divulgação Científica de Ciência e Cultural, 29 a 31 de março, Unicamp, Campinas-SP, organizado pelos alunos de mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor.

Minha parte (muito menos relevante) foi mais focada nos blogues e a transição para outras mídias. É basicamente a mesma apresentação do ano passado para os alunos da especialização do Labjor.


Posso inserir o GR naquelas programas de green washing, reciclamos apresentações, poupando zilhares e zilhares de elétrons.

domingo, 27 de março de 2016

Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética 3

Após a divulgação dos resultados iniciais dos testes com a fosfoetanolamina sintética realizados pelo Grupo de Trabalho do MCTI, o grupo de Chierice contestou em entrevistas, comunicados e até em ação junto ao MP para impugnar os relatórios (uma questão científica sendo decidida pelo judiciário?).

Aqui analiso algumas das alegações do grupo para invalidar os resultados apresentados no relatórios do GT do MCTI.

1) Os testes foram in vitro, mas só funciona in vivo por causa da metabolização da Pho-S pelo organismo.

O grupo do Chierice reportou resultados *in vitro*. E.g.: "Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects" (grifo meu).

De todo modo, um dos próximos passos do GT é realizar testes in vivo.

2) As concentrações testadas pelo GT são muito abaixo das concentrações observadas pelo grupo de Chierice em que a Pho-S faz efeito.

Concentrações de 100µM a 10.000µM foram testadas pelo GT, o que corresponde a 0,1mM a 10mM. Trabalho do grupo de Chierice reportou ação com IC50 de 6mM a 12mM (contra células de leucemia**). Outro trabalho, com células de câncer renal em ratos, obteve um IC50 de 73mM.**

Na avaliação com a mistura das cápsulas, concentrações de até 100mM foram testadas, obtendo-se um IC50 da mistura entre 8,6mM a 75,9mM, compatível com o observado pelo grupo de Chierice. E compatível com o achado de que entre os componentes da mistura, apenas a monoetanolamina (que corresponde de 18,2% a 37,5% do total) apresentou efeito citotóxico, com IC50 entre 3,3mM e 7,7mM.

3) O estudo não pode comparar o efeito da Pho-S com quimioterápicos convencionais por apresentar efeito antiproliferativo diverso destes.

Efeito antiproliferativo é efeito antiproliferativo quando se resume ao que importa: impede ou não a reprodução de células tumorais? Aí é questão de aplicar o tratamento e verificar o quanto a reprodução é impedida (ou não) quando comparada ao controle (situação em que as células tumorais recebem todos os compostos do tratamento, menos o cujo efeito se pretende avaliar).

Claro que outros efeitos devem ser levados em conta: o preço final, efeitos colaterais, a facilidade de aplicação, etc. Mas isso são realizados em outros testes.

Para se medir o efeito in vitro sobre células é necessário utilizar-se também o controle positivo, com substâncias que sabemos que têm efeito (e qual o tamanho do efeito esperado). Isso porque, imagine-se a situação em que nem o controle negativo (sem nenhum composto sabida ou alegadamente inibidor) nem o teste com a Pho-S parecem apresentar alteração da reprodução das células tumorais testadas. De repente, o problema pode ser com as células testadas (aquele lote em específico não responde a nenhum inibidor); mas o controle positivo ajuda a verificar essa situação.

4) A técnica de análise usada para determinar o conteúdo das cápsulas alterou sua composição química.*

A técnica utilizada, a ressonância magnética nuclear, envolve mudança de spin dos núcleos atômicos. Essa alteração representa uma energia muito pequena, da ordem de menos de 0,4 J/mol; em comparação a transição infravermelha (que se relaciona a agitação térmica molecular) é da ordem de 4.000 a 40.000 J/mol; a transição eletrônica (mudança do nível de energia do elétron da molécula - ligado a reações químicas) é da ordem de 10.000 a 1.000.000 J/mol.

Ou seja, a espectroscopia por RMN não tem energia suficiente para causar reações químicas e alterar a composição do material analisado. E nem poderia ser diferente, do contrário, seria inútil como técnica analítica e nem seria utilizada ou haveriam de serem aplicadas técnicas para levar em conta essas alterações para se determinar a composição inicial.

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Mais tarde acrescento mais análise de outras objeções científico-metodológicas aos estudos do GT de que tomar conhecimento.

*Upideite(29/mar/2016): adido a esta data.
**Upideite(18/abr/2016): adido a esta data.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética 2

O Grupo de Trabalho do MCTI para analisar os potenciais efeitos antitumorais da fosfoetanolamina sintética acaba de liberar os relatórios com os primeiros resultados*.

As duas principais conclusões:
1) A Pho-s (fosfoetanolamina sintética) produzida pela técnica do grupo de Chierice *não* tem o grau de pureza alegado (95%): é uma mistura de compostos com menos da metade de fosfoetanolamina.

"Neste dossiê foi demonstrado que, a 'fosfoetanolamina sintética' produzida pelo Sr. Salvador Claro Neto possui 16,9% fosfoetanolamina, 37,5% de monoetanolamina e 45,6% do sal de fosfoetanolamina. Mais recentemente, os professores Dr. Luiz Carlos Dias da Unicamp e Dr. Eliezer Barreiro da UFRJ, demonstraram que nas mesmas amostras de 'fosfoetanolamina' produzida pelo Sr. Salvador Claro Neto, há proporções diferentes dos compostos mencionados acima sendo 32,2% de fosfoetanolamina, 18,2% monoetanolamina, 3,9% fosfobisetanolamina, 38,5% de fosfatos e 7,2% de água."
"Avaliação da atividade citotóxica e antiproliferativa da fosfoetanolamina, monoetalomanina e fosfobisetanolamina em células humanas de carcinoma de pâncreas e melanoma."

Pesquisador/Intituição Componentes (%)
fosfo-etanolamina mono-etanolamina sal de fosfoetanolamina fosfo-bisetanolamina fosfatos água
2013 Ferreira, AK. et al- USP São Carlos >99 - - - - -
2015 Instituto de Química - USP São Carlos 16,9 37,5 45,6 - - -
2016 Luiz Carlos Dias - Unicamp
Eliezer Barreiros - UFRJ
32,2 (6,2% associada a íons metálicos) 18,2 - 3,9 38,5 7,2
Fonte: "Avaliação da máxima dose tolerada e seleção de doses da fosfoetalomanina sintética, produzida pelo IQSC-USP em roedores"**

"Ao contrário do que é descrito na patente PI0800460-9 A2, este procedimento não permite a obtenção de altos rendimentos de FOSFOETANOLAMINA (FOS) pura. A baixa taxa de conversão do sal dihidrogeno fosfato de etanol amônio (Pi), bem como a co-formação de ácido pirofosfórico (PPi), da FBEA, além de outros produtos secundários não permitem a obtenção de FOSFOETANOLAMINA (FOS) pura no rendimento de 90% descrito na patente PI0800460-9 A2. A presença de H2O a altas temperaturas leva a hidrólise da FOSFOETANOLAMINA (FOS) e da FOSFOBISETANOLAMINA (FBEA)."
"Parte B: Síntese dos componentes da cápsula de fosfoetanolamina (FOS) para o MCTI"***

2) A fosfoetanolamina não apresenta efeito tóxico nem de inibição de crescimento de células tumorais (melanoma e carcinoma pancreático) in vitro.

"Os resultados descritos neste relatório parcial demonstram que somente a Monoetanolamina apresentou atividade citotóxica e antiproliferativa, sendo contudo, váriasordens de magnitude menos potente queos antitumorais Cisplatina e Gencitabina, utilizados como controle positivo. Já a Fosfoetanolamina e a Fosfobisetanolamina não apresentaram nenhuma atividade citotóxica nem antiproliferativa em nenhuma das 3 metodologias utilizadas."
"Avaliação da atividade citotóxica e antiproliferativa da fosfoetanolamina, monoetalomanina e fosfobisetanolamina em células humanas de carcinoma de pâncreas e melanoma."

Concentração Inibitória 50% (IC50) Aproximada (µM)
Linhagem Ensaio Fosfo-etanolamina Fosfo-bisetanolamina Mono-etanolamina Cisplatina Gencitabina
Melanoma Citotoxicidade (MTT) - - 7.774 2,9 -
Citotoxicidade (Vermelho N) - - > 10.000 3,4 -
Proliferação - - 7.413 1,1 -
Carcinoma de Pâncreas Citotoxicidade (MTT) - - 5.525 - < 0,1
Citotoxicidade (Vermelho N) - - 6.861 - < 0,1
Proliferação - - 3.347 - < 0,1
Fonte: "Avaliação da atividade citotóxica e antiproliferativa da fosfoetanolamina, monoetalomanina e fosfobisetanolamina em células humanas de carcinoma de pâncreas e melanoma."

Uma terceira conclusão:
3) A mistura produzida pelo processo do grupo de Chierice tem um efeito antiproliferativo em células tumorais in vitro muito baixo.

Amostras CI50 (mM)
HTC-116 SF-295 PC-3 L-929 CMSP
FS 25,9
(22,2-30,2)
43,4
(39,6-47,5)
19,7
(17,1-22,7)
8,6
(8,0-9,3)
42,4
(37,4-48,1)
FSNE 25,1
(19,8-31,7)
20,2
(18,3-22,4)
18,1
(15,3-21,5)
75,9
(59,6-96,9)
>100
Doxorrubicina 0,00015
(0,00013-0,00017)
0,00038
(0,00031-0,00047)
0,0016
(0,0014-0,0018)
0,0016
(0,0015-0,0018)
0,0018
(0,0014-0,0022)
FS- fosfoetanolamina (produzida pelo grupo de Chierice); FSNE - fosfoetanolamina (produzida pelo grupo de Chierice nanoencapsulada); HTC-116 - carcinoma colorretal humano; SF-295 - glioblastoma humano; PC-3 - adenocarconima de próstata humano; L-929 - fibroblasto murino; CMSP - células mononucleadas de sangue periférico humanas
Fonte: "Avaliação do potencial citotóxico in vitro da fosfotetanolamina sintética (FS) e da fosfoetanolamina sintética nanoencapsulada (FSNE)"**

Obs: Um composto puro é considerado citotóxico se IC50 igual ou menor a 4 µg/ml após 72h de incubação. Como a fosfoetanolamina (pura) tem massa molar de cerca de 141 g/mol, isso equivaleria a 0,028 mM.

Bem possivelmente, os efeitos relatados pelo grupo de Chierice só ocorrem justamente pela *impureza* da mistura. O contaminante monoetanolamina é que deve provocar o efeito antitumoral da mistura relatado pelo grupo, mas, por outro lado, o composto é tóxico para os organismos, como nota @sandov51. Em ratos ele tem uma DL50 de 0,72 a 1,80 ml/kg administrado por via oral.

As próximas etapas a serem realizadas pelo GT são:
1) ensaios para avaliar a atividade citotóxica e antiproliferativa dos três compostos (fosfoetanolamina, monoetanolamina e fosfobisetanolamina), utilizando as metodologias de MTT, Vermelho Neutro e Suforrodamina B em células de carcinoma de Pulmão (ATCC);
2) ensaios de avaliação da atividade citotóxica e antiproliferativa para a monoetanolamina utilizando as metodologias de MTT, Vermelho Neutro e Sulforrodamina B em células humanas sem câncer (fibroblasto);
3) ensaios in vitro para avaliar possíveis mecanismos responsáveis pelas atividades antiproliferativas da monoetanolamina;
4) avaliação da possível atividade anticâncer in vivo da monoetanolamina e da fosfoetanolamina (USP) no modelo de tumor xenográfico de melanoma em camundongos nude.

Mais para a frente será necessário fazer os testes com as misturas dos compostos - para avaliar se há algum efeito sinergístico ou antagônico. Mas não consta no relatório se isso será feito.

via Ruth Helena Bellinghini fb

Veja também: Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética para acompanhar o que a DCsfera produziu sobre o assunto.

*Upideite(19/mar/2016): link atualizado.
**Upideite(19/mar/2016): adido a esta data.
***Upideite(04/abr/2016): adido a esta data.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Microcefalia e zika: o tamanho do estrago

O ritmo de esclarecimento da relação entre o ZIKV e o surto de microcefalia está acelerado.

Depois da confirmação da relação causal (ainda que muitos cientistas ainda prefiram uma linguagem mais cautelosa) com dois estudos - in vitro - mostrando o efeito do ZIKV sobre células-tronco cerebrais; podemos começar a avaliar também outros aspectos como com que frequência o ZIKV causa problemas à gestação.

Grupo da Fiocruz e da UCLA realizaram análise de gestantes com sintomas de febre zika e publicaram os resultados na NEJM na edição de 04.mar.

88 grávidas (em variadas semanas de gestação) que apresentaram febre aguda e exantemas foram examinadas. 72 deram positivo para o ZIKV por análise sanguínea ou de urina com RT-PCR. Destas, duas sofreram aborto espontâneo ainda durante o primeiro semestre da gestação. Das 70 restantes, em 42 foram realizadas exames de ultrassonografia; das 16 negativas para o ZIKV, em nenhum foi detectado qualquer anomalia no feto.

Entre as 42 examinadas, o tempo da ocorrência da febre aguda variou da 6 à 35 semana gestacional. Em 12 casos (28,6%) foi detectada alguma anomalia: em 8 casos, a gestação terminou em aborto espontâneo. Dos 4 nascidos vivos, 1 apresentou microcefalia (além de calcificação cerebral, atrofia cerebral geral e lesões maculares) e o restante algum outro problema: tamanho pequeno (2 casos), lesões maculares, reflexo de sucção prejudicado e padrão de EEG alterado.
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Considerando os 2,9 milhões de nascimentos por ano do Brasil em 2013 segundo o DataSUS, e que entre 440 mil e 1,3 milhão de brasileiros foram infectados com o ZIKV, tomando-se a chance de 1 em 34 de a gestação de mãe infectada com ZIKV com bebê nascido vivo resultar em microcefalia, são esperados algo como 190 a 600 bebês com microcefalia devido ao ZIKV a cada ano com essa taxa de infecção. Se consideramos a taxa de 12/42, serão de 1.800 a 5.300 gestações com problemas: abortos, má formações e disfunções no feto. (Chamando a atenção de que é uma estimativa bem grosseira.)

Se tivéssemos um sistema de registro ausente, falho ou inconfiável como presente em muitos países em que o ZIKV circula há muito tempo, jamais teríamos dados para detectar qualquer surto de microcefalia. Por outro lado, ironicamente, se o Sinasc registrasse diligentemente todos os casos anuais de microcefalia para vigilância epidemiológica, dificilmente o surto de microcefalia associado ao ZIKV seria detectado. (E, assim, encontramos um novo significado para a frase "o ótimo é inimigo do bom".)

quinta-feira, 3 de março de 2016

A união faz... ScienceVlogs Brasil

Aquela reunião em Campinas-SP de 30 e tantos conspiradores de duas ordens distintas de Mammalia (Carnivora representado solitariamente pela dona Meleca; os felídeos retiraram-se ainda que provavelmente contra a vontade) rendeu uma iniciativa que acaba de ser oficialmente lançada (mas o jornalista Reinaldo José Lopes havia antecipado ainda hoje em seu blogue Darwin e Deus).


Rafael Soares/Numina Labs/Scienceblogs Brasil: "Nasceu! Sciencevlogs Brasil: o selo de qualidade científica para canais do YouTube"

Davi Simões/Primata Falante: "Depois de muito mistério, aí está o Science Vlogs Brasil! Uma iniciativa pra revolucionar a divulgação científica no Youtube brasileiro!"
Davi Simões/Primata Falante: "Então aí está uma novidade sensacional! A todos que estão cansados de esbarrar em sensacionalismo na divulgação de ciência e não tinham antes como saber se confiar ou não em canais que se dizem de 'curiosidades científicas' no Youtube, aí está um selo de qualidade!"

*


Devanil Júnior/Alimente o Cérebro: "Está no ar o SCIENCE VLOGS BRASIL, a união de divulgadores da ciência no Youtube, dá uma olhada"

Vinicius Penteado/iBioMovies: "Pessoal, depois de muito e prazeroso trabalho venho aqui todo orgulhoso dizer que participo da iniciativa ‪#‎sciencevlogsbrasil‬, um selo de qualidade para divulgadores cientificos. O iBioMovies, canal fantástico do qual tenho o prazer de participar, entrou de cabeça e espero que, com a ajuda de vocês, ele se renove e continue produzindo conteúdo e conhecimento de qualidade. Entrem no nosso canal e no nosso site para saber mais sobre tudo. E me ajude a divulgar, por favor, vai me deixar feliz."

Pirula/Canal do Pirula: "Pela união dos seus poderes..."

*

Pedro Loos/Ciência Todo Dia: "Orgulho de fazer parte desde o começo ao lado de canais e pessoas tão incríveis."*
Pedro Loos/Ciência Todo Dia: "E hoje começa uma das iniciativas mais ambiciosas de divulgação científica no YouTube brasileiro. Por muito tempo nós não tivemos uma comunidade sólida entre os canais de ciência no Brasil, mas felizmente isso mudará a partir de agora! Para quem não sabe, o Science Vlogs Brasil tem como objetivo unir os divulgadores científicos e proporcionar aos seus canais um selo de qualidade. Tenho orgulho de participar da iniciativa desde o começo!
E o melhor é que a iniciativa não para aqui! Se você gosta de ciência, novidades ainda mais incríveis virão nos próximos meses. A ciência no YouTube como você conhece irá mudar - e para melhor. Já pensou que legal seria assistir todos os seus YouTubers favoritos em um lugar só? Então... espere!
Ciência de verdade explicada por quem entende de ciência para quem gosta de ciência!"*

Reinaldo José Lopes/Darwin e Deus: "No ar: ScienceVlogs Brasil! Longa vida ao projeto mais ambicioso de divulgação científica por vídeos do país!"*

Yuri Grecco/Eu, Ciência: "Hoje inicia-se uma nova fase da divulgação científica no youtube.
Convido-os a conhecer o projeto Science Vlogs Brasil, uma iniciativa criada por divulgadores científicos de qualidade e duplamente destilada em discussões entre eles.
Somos pessoas que se preocupam em manter a qualidade da divulgação e educação científica veiculada em meios de produção independentes."*


*

Henrique Rufo/Bio's Fera: "E o Science Vlogs Brasil está ano ar galera!! Uma iniciativa que reúne divulgadores científicos com o intuito de levar informação de qualidade até você! ‪#‎svbr‬ ‪#‎ScienceVlogsBrasil‬ É uma honra poder participar de um projeto desse porte."*

Estêvão Slow/Canal do Slow: "Como saber em quem confiar? Atualmente, o que mais vemos por ai são mitos, boatos, informações falsas... Por isso, os maiores divulgadores científicos da internet brasileira se uniram para criar um selo de credibilidade, o Science Vlogs Brasil!
E esse é só o começo, ainda tem muita coisa boa vindo por ai!"*


*


André Rabelo/Minutos Psíquicos: "Queremos que vocês conheçam o Science Vlogs Brasil! É com MUITO orgulho que o Minutos Psíquicos faz parte dessa iniciativa que está sendo lançada hoje! "*

Aline Ghilardi/Colecionadores de Ossos: "Numa iniciativa pioneira no cenário de divulgação científica no Brasil, alguns dos mais influentes e famosos canais da área no país se reúnem em uma rede colaborativa e criam um selo de qualidade: o SCIENCEVLOGS Brasil!
Em um meio onde a propagação de desinformação e a pseudociência são difundidas rapidamente, alimentadas por desonestidade e ignorância, é importante que haja forma de facilitar que o público possa separar o joio do trigo. Tornou-se urgente identificar quem divulga ciência com seriedade, e é esta a missão do SVBr!
Seja bem-vindo ao SCIENCEVLOGS Brasil! Ciência de verdade explicada por quem entende de ciência pra quem gosta de ciência!"

Davi Calazans/Ponto em Comum: "Um selo de qualidade para conteúdo científico acaba de nascer! Ele é o Science Vlogs Brasil! E o nosso canal não poderia estar de fora!"*

Camila Laranjeira/Peixe Babel: "Depois de muito mistério, eis aqui o Science Vlogs Brasil (‪#‎SVBR‬)."*

Camila Laranjeira/Peixe Babel: "Peixe Babel: Olha eu aqui em plena sexta-feira pra falar de uma coisa muito especial: Os divulgadores científicos do Youtube resolveram se unir e criar a iniciativa Science Vlogs Brasil! Um selo de qualidade, pra garantir que você vai consumir o melhor de ciência que existe no Youtube brasileiro."**

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David Ayrolla/Papo de Primata: "Numa iniciativa pioneira no cenário de divulgação científica no Brasil, alguns dos mais influentes e famosos canais da área no país se reúnem em uma rede colaborativa e criam um selo de qualidade: o SCIENCEVLOGS Brasil!
Em um meio onde a propagação de desinformação e a pseudociência são difundidas rapidamente, alimentadas por desonestidade e ignorância, é importante que haja forma de facilitar que o público possa separar o joio do trigo. Tornou-se urgente identificar quem divulga ciência com seriedade, e é esta a missão do SVBr!"*


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Rafael Procópio/Matemática Rio: "MATEMÁTICA RIO: O dream team da divulgação científica no Youtube agora está junto através do ScienceVlogs Brasil. Basta de desinformação! Compartilhe Ciência!"**

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(Atualizarei esta postagem com mais depoimentos de seus idealizadores.)

Cobertura na imprensa:**
Galileu: Vlogueiros se unem para criar canal de divulgação científica de qualidade
Ciência Hoje: Selo de qualidade***

*Upideite(03/mar/2016): adido a esta data.
**Upideite(04/mar/2016): adido a esta data.
***Upideite(28/mar/2016): adido a esta data.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Microcefalia e zika: batendo o martelo para a relação causal

O grupo do biólogo Stevens Rehen praticamente encerrou a discussão a respeito da relação causal entre o surto de microcefalia e o ZIKV.

Ainda é um preprint* - para publicação oficial afalta passar pelo processo editorial de revisão por outros especialistas -, mas os experimentos com os mini-cérebros renderamu.


Quando infectadas por ZIKV, as células-tronco neurais do sistema são afetadas: sua viabilidade é reduzida, assim como seu crescimento - e o desenvolvimento do organóide é prejudicado.

A menos que haja algum erro na metodologia - o que não é impossível, porém parece-me muito improvável -, é o cano fumegante que faltava.

A equipa agora prepara testes com outras linhagens de ZIKV para saber se alguma mutação nova foi a responsável pelo efeito.


Upideite(04/mar/2016): Acaba de ser publicado estudo de um grupo americano de cientistas na Cell Stem Cell (submetido dia 24.fev) que traz confirmação independente da ação do ZIKV no sistema nervoso fetal. Cultura de células progenitoras humanas de neurônios corticais infectada por ZIKV apresentaram uma redução de cerca de 30% no número de células viáveis (num intervalo de cerca de 3 dias) em comparação com o controle.

A linhagem de ZIKV utilizada é diferente da usada pelo grupo de Rehen. No estudo do grupo carioca, a linhagem utilizada é a circulante no Brasil; a linhagem usada pelo grupo americano foi isolada antes da epidemia corrente.

Foi detectada também uma capacidade infecciosa do ZIKV diferente para diferentes linhagens celulares testadas. Células progenitoras neurais humanas são altamente susceptíveis (mais de 2/3 das células são infectadas em 3 dias), células renais embrionárias humanas são bem menos susceptíveis (menos de 10% são infectadas em 3 dias).

ht @matthewshirts

*Upideite(11/abr/2016): O artigo da equipa de Stevens Rehen foi oficialmente publicado como artigo na Science.

Upideite(15/abr/2016): Em 31.mar, a OMS falava de consenso científico em relação ao ZIKV causar microcefalia: "Based on observational, cohort and case-control studies there is strong scientific consensus that Zika virus is a cause of GBS, microcephaly and other neurological disorders.". Em 13.abr a CDC também chegou à conclusão pela relação causal entre ZIKV e microcefalia.

Upideite(13/mai/2016): Grupo da USP infectou camundongas grávidas com ZIKVBR (linhagem circulando no Brasil), os fetos desenvolveram-se com sinais de microcefalia e outros defeitos congênitos (fetos de camundongas controle desenvolveram-se normalmente). Em experimento in vitro com cultura de tecidos e neurosferas (similar ao experimento do grupo de Rehen), houve redução da zona proliferativa e disrupção das camadas corticais quando infectadas por ZIKVBR e ZIKVAF (extraído de agente zoonótico relacionado a primatas africanos). Os efeitos do ZIKVBR foram mais pronunciados do que de ZIKVAF nas células neurais.

Um grupo chinês usou a linhagem circulando atualmente na Ásia: ZIKV SZ01 também obtendo microcefalia em comundongos pela infecção e destruição de células progenitoras de neurônios.

La mano de dios

A PLOS ONE é um periódico respeitado, o que torna a publicação de um artigo criacionista mais espantoso.

Detalhes do caso podem ser conferidos nos blogues abaixo (a lista deve crescer à medida em que eu souber de mais postagens):

.Pharyngula: The human hand is good at grasping. Therefore, God
.Nature/Research Highlights: Paper that says human hand was 'designed by Creator' sparks concern (não exatamente um blogue)*
.Um Longo Argumento: JEsUs One: a pseudo-ciência do design inteligente às portas da academia***

Publicado em 05.jan.2016 chamou a atenção de vários cientistas e divulgadores em 02.mar. Com a repercussão nas mídias sociais e, certamente, várias admoestações aos editores da revista, a equipe comunicou nos comentários ao artigo:

"A number of readers have concerns about sentences in the article that make references to a 'Creator'. The PLOS ONE editors apologize that this language was not addressed internally or by the Academic Editor during the evaluation of the manuscript. We are looking into the concerns raised about the article with priority and will take steps to correct the published record."
["Vários leitores apresentaram preocupações a respeito de sentenças no artigo que faz referências a um 'Criador'. Os editores da PLOS ONE pedem desculpas por essa linguagem não haver sido tratada internamente ou pelo Editor Acadêmico durante a evolução do manuscrito. Estamos observando as preocupações levantadas a respeito do artigo com prioridade e tomaremos providências para corrigir o registro publicado."]

Como a linguagem é a menor das preocupações, a revista teve que esclarecer que os procedimentos de averiguação do caso não se restringirão a isso.


A conclusão dos autores de que a coordenação fina dos movimentos das mãos em atividades cotidianas mostra um planejamento no design não se sustenta nos dados apresentados. É só o requentamento do velho argumento do relógio de Paley.O fato de haver uma coordenação fina não mostra um planejamento - ironicamente um dos autores da peça, respondendo à indagação de um leitor a respeito de onde exatamente o tal 'criador' entra na história, diz que a mão humana não encontra par em tentativas de reprodução por cientistas e engenheiros a despeito de seus melhoresroes esforços e, assim, haveria de ser um projeto de uma força superior.

Ou seja, como a mão humana não pode ser projetada, então tem que ter sido projetada...

Mas o problema é que a incapacidade de reprodução planejada por humanos não elimina a alternativa real ao planejamento: a evolução por seleção natural.

Afinal a coordenação fina é vantajosa para os humanos - os exemplos do uso cotidiano analisados no artigo são mostra disso: utilizamos ferramentas, seguramos objetos, usamo-as em ações de agressão e defesa... Muita dessa mobilidade está ausente em outros animais, mesmo os mais próximos, como chimpanzés. Um estudo meramente biomecânico não traz nenhuma informação sobre a herdabilidade ou não da habilidade manual; logo, é incapaz de dizer que uma dada característica não possa ser fruto da evolução por seleção natural.

É um mistério como isso acabou passando pelo sistema de controle de uma revista como a PLOS ONE e acabou publicada. Não dá para acreditar que nem o editor, nem os revisores não veriam isso no manuscrito. Alguma coisa tem aí. Resta saber o quê. Que a PLOS ONE investigue e esclareça o mais rápido possível. É a reputação dela em jogo. Do contrário, será um gol de mão - mas ao contrário do gol da vitória da seleção Argentina contra a Inglaterra na Copa de 1986, será contra e depois de haver tomado drible desconcertante do time adversário.

Upideite(03/mar/2016): Agora o primeiro autor alega que a palavra 'Creator' tem outro significado em chinês e que, atrapalhado com o inglês, usaram o termo errado para se referir à 'Nature'.
"We are sorry for drawing the debates about creationism. Our study has no relationship with creationism. English is not our native language. Our understanding of the word Creator was not actually as a native English speaker expected. Now we realized that we had misunderstood the word Creator. What we would like to express is that the biomechanical characteristic of tendious connective architecture between muscles and articulations is a proper design by the NATURE (result of evolution) to perform a multitude of daily grasping tasks. We will change the Creator to nature in the revised manuscript. We apologize for any troubles may have caused by this misunderstanding."
["Pedimos desculpas por levar ao debate sobre criacionismo. Nosso estudo não tem nenhuma relação com o criacionismo. O inglês não é nossa língua materna. Nossa compreensão da palavra Criador não é na verdade a esperada por um falante nativo do inglês. Percebemos agora que compreendemos erradamente a palavra Criador. O que gostaríamos de expressar é que a característica biomecânica da arquitetura conectiva tendinosa entre os músculos e as articulações é um design apropriado da NATUREZA (resultado da evolução) para desempenhar uma variedade de atividades diárias de agarramento. Mudaremos a palavra Criador por natureza no manuscrito revisado. Pedimos desculpas por qualquer problema que essa má interpretação tenha causado."]

A desculpa não tem muito sentido pois usam também o termo 'mistery' no texto. E na resposta dada em 15.fev a um dos leitores, o mesmo autor deixa bem claro o que significa esse 'Creator':
"As we know, human hand is an amazing instrument that can perform a multitude of functions, such as the power grasp and precision grasp of a vast array of objects, with ease and an absence of effort. Although expended great attempts by scientists and engineers, there is no artificial hand matching the amazing capacity of human hand. The origins of human hand remain unclear. It is too miraculous to let us think that human hand is the masterwork of Creator and indicates the mystery of nature. The further discussion about the Creator is indeed out of place in our article."
["Como sabemos, a mão humana é um instrumento maravilhoso e pode realizar uma variedade de funções, como a potência e a precisão do agarramento de uma ampla gama de objetos com facilidade e ausência de esforço. Embora grandes esforços tenham sido empregados por cientistas e engenheiros, não há nenhuma mão artificial que se equipare à maravilhosa capacidade da mão humana. As origens da mão humana permanece obscura. Ela é tão milagrosa a ponto de nos fazer pensar que a mão humana é a obra prima do Criador e indica o mistério da natureza. Uma discussão mais funda sobre o Criador, de fato, não tem lugar no nosso artigo."]

*Upideite(03/mar/2016): Adido a esta data. via Carlos Orsi e Rita Helena Bellinghini fb

Upideite(03/mar/2016): A equipe da PLOS adicionou o seguinte comentário ao artigo:
"The PLOS ONE editors have followed up on the concerns raised about this publication. We have completed an evaluation of the history of the submission and received advice from two experts in our editorial board. Our internal review and the advice we have received have confirmed the concerns about the article and revealed that the peer review process did not adequately evaluate several aspects of the work.

In light of the concerns identified, the PLOS ONE editors have decided to retract the article, the retraction is being processed and will be posted as soon as possible. We apologize for the errors and oversight leading to the publication of this paper."
["Os editores da PLOS ONE investigou as preocupações levantadas sobre esta publicação. Levamos a cabo uma avaliação do histórico da submissão e recebemos orientações de dois especialistas em nosso quadro editorial. Nossa revisão interna e os conselhos que recebemos confirmaram as preocupações sobre o artigo e revelaram que o processo de revisão por pares não avaliou adequadamente vários aspectos do trabalho.

À luz das preocupações identificadas, os editores da PLOS ONE decidiram cancelar o artigo, o cancelamento está em sendo processado e será publicado o mais rapidamente possível. Pedimos desculpas pelos erros e desatenção [problemas da] supervisão que levaram àna publicação deste artigo."]

**Upideite(03/mar/2016): adido a esta data.
***Upideite(04/mar/2016): adido a esta data.
Upideite(05/mar/2016): o cancelamento acaba de ser publicado oficialmente.
"Retraction

Following publication, readers raised concerns about language in the article that makes references to a 'Creator', and about the overall rationale and findings of the study.

Upon receiving these concerns, the PLOS ONE editors have carried out an evaluation of the manuscript and the pre-publication process, and they sought further advice on the work from experts in the editorial board. This evaluation confirmed concerns with the scientific rationale, presentation and language, which were not adequately addressed during peer review.

Consequently, the PLOS ONE editors consider that the work cannot be relied upon and retract this publication.

The editors apologize to readers for the inappropriate language in the article and the errors during the evaluation process."
["Retratação

Após a publicação, os leitores levantaram preocupações a respeito da linguagem do artigo que fazia referência a um 'Criador' e sobre a argumentação geral e os achados do estudo.

Com o recebimento dessas preocupações, os editores da PLOS ONE levaram a cabo uma avaliação do manuscrito e do processo pré-publicação, e buscaram mais orientações a respeito do trabalho com os especialistas do conselho editorial. Essa avaliação confirmou as preocupações com a argumentação científica, apresentação e linguagem, que não foi apontada adequadamente durante a revisão pelos pares.

Consequentemente, os editores da PLOS ONE consideram que o trabalho não é confiável e cancela sua publicação.

Os editores pedem desculpas aos leitores pela linguagem inapropriada no artigo e pelos erros durante o processo de avaliação."]
via Adelino de Santi Jr. fb.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Zika e microcefalia: um olhar crítico ao olhar crítico

A Agência Lupa e a Globo News tiveram uma ótima ideia: conferir os dados oficiais de microcefalia comparando o boletim publicado pelo Ministério da Saúde com os dados das secretarias estaduais de saúde.

A iniciativa é louvável, pois uma conferência independente aumenta a confiabilidade no sistema: permitindo detectar falhas que precisem ser solucionadas.

Porém, isso precisa ser feito com certa cautela. Apontar erros é importante, mas erros reais - isso ajuda a depurar o sistema. Quando falsos erros são apontados, isso tende a minar a credibilidade do sistema - ou do processo avaliado ou do avaliador ou de ambos.

Quando se trata de dados de saúde pública, ainda mais sob situação de emergência como na corrente epidemia de microcefalia associada ao ZIKV, os cuidados devem ser redobrados porque as consequências de erros podem ser graves.

O levantamento da Lupa detecta discrepâncias entre os dados do MS e os de várias secretarias. Durante a edição das 16h do Jornal da Globo News do dia 29.fev.2016 pressionaram ao vivo o Ministro da Saúde a respeito das diferenças. Pareceram tomaracatar como certos os dados que levantaram junto às secretarias e creditar o erro exclusivamente ao MS. Isso levou o MS a lançar uma nota sobre o caso.

Em minha análise, não há discrepâncias reais (ou há diferenças mínimas) entre os números compilados pelo MS e os fornecidos pelas secretarias estaduais. HO que houve aparentemente é uma interpretação equivocada por parte da equipe da Lupa a respeito de "casos confirmados".

Para o MS, "casos confirmados de microcefalia" se refere a casos que "apresentam alterações típicas: indicativas de infecção congênita, como calcificações intracranianas, dilatação dos ventrículos cerebrais ou alterações de fossa posterior entre outros sinais clínicos observados por qualquer método de imagem ou identificação do vírus Zika em testes laboratoriais" - isto é, são casos de microcefalia que dá para atribuir a uma origem por ação de agente infeccioso (mas que ainda não dá pra atribuir com certeza a algum agente infeccioso conhecido que não o ZIKV: p.e. citomegalovírus ou sífilis).

Mas a Lupa entendeu "casos confirmados de microcefalia" como todos os casos de microcefalia por qualquer causa. Como na correspondência com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SESSP): "são 149 casos confirmados de microcefalia em SP por qualquer causa, correto?"

Aí no relatório da Lupa aparece: "A divergência entre o zero do ministério e o 149 do estado impactam no número nacional de casos confirmados de microcefalia (por qualquer causa)."

Não é essa a divergência, já que no boletim do dia 23 do MS, aparece 149 como o total de notificações. No máximo, seria uma divergência entre zero casos confirmados que constam no boletim do MS e a informação dada pela SESSP de que são "25 casos confirmados com *possível* relação com o vírus Zika". Mas essa correspondência deu-se no dia 24.fev. O boletim do MS tem dados atualizados até o dia 20.fev. Se a confirmação dos 25 casos de microcefalia com relação ao ZIKV deu-se depois da data do último envio dos dados, esse número só será atualizado no próximo boletim, que deve sair nesta terça (01.mar) - o MS divulgou, depois que o programa foi ao ar, o documento enviado pela SESSP com dados atualizados até o dia 15.fev em que não é mencionado que há 25 confirmações (apenas os 30 casos descartados e 119 em investigação - que é o divulgado no boletim do dia 23.fev).*

Segue a Lupa: "A Secretaria Estadual de Saúde informa que, entre 2015 e 2016, já foram confirmados 34 casos de microcefalia. No boletim do Ministério da Saúde, no entanto, MG aparece com zero casos confirmados para este diagnóstico." De novo, não há divergência. Na correspondência com a SESMG, o representante da secretaria diz:

"Em 2015, Minas Gerais registrou 34 casos de microcefalia no geral. No entanto, esclarecemos que a fonte dessa informação é o Sistema de informações sobre Nascidos Vivos (SINASC).

Conforme dito anteriormente, a partir do dia 11 de novembro de 2015, o Ministério da Saúde, por meio da portaria estabeleceu que a microcefalia deveria ser tratada como evento de emergência de saúde pública de interesse nacional, tornando obrigatória a notificação dos casos no país. Dessa forma, o número de casos apresentados no boletim epidemiológico possui como fonte o Centro de informações Estratégicas em vigilância em Saúde (Cievs Minas/SES-MG).

Até o momento, Minas Gerais não apresenta nenhum caso de microcefalia (0 casos) relacionado a infecção pelo Zika-virus."

Então, 1) os 34 são apenas para 2015 (e não de 2015 a 2016); 2) é referente ao dado do SINASC, que *não* obedece aos protocolos da notificação de microcefalia do MS em função do ESPIN. Os dados do CIEVS que seguem o protocolo: notificar todos os casos suspeitos (perímetro cefálico de nascidos a termo igual ou menor a 32 cm) é que estão no boletim do dia 23.fev do MS: 27 em investigação, 38 descartados, 0 casos de microcefalia confirmado (como tendo relação ao ZIKV, como dito na correspondência com a SESMG).

Diz a Lupa: "No Rio de Janeiro, a disparidade se repete. A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde informa que 250 casos de microcefalia já foram confirmados no estado por exames de imagem e que, agora, permanecem em investigação para detectar o que causou a enfermidade. Eram 227 casos, até o dia 22 de fevereiro. No último boletim do Ministério da Saúde, entretanto, o RJ aparece com apenas 2 casos já confirmados."

Não tem disparidade. No boletim do dia 23.fev do MS, o RJ aparece com 256 notificações:  4 descartados e 2 confirmados - são 250 em investigação.

Lupa: "Os dados do estado do Pará também não correspondem aos que o ministério dispõe sobre ele. De acordo com o governo federal, o estado tem apenas um caso confirmado de microcefalia entre 2015-2016. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, 16 casos diagnosticados com essa condição."

A discrepância não é entre 1 e 16. No boletim do dia 23.fev do MS, no Pará são 1 caso confirmado e 10 em investigação. Na correspondência com a SESPA:
"Retificando os números. Os dados consolidados de 2016 registram somente um caso confirmado de microcefalia no Pará. Os outros foram descartados. Em 2015 foram 15 casos, sendo que nenhum desses números está associado ao Zika Vírus."

A diferença entre 0 descartado no boletim do dia 23.fev do MS pode se dever a uma confirmação depois do dia 20.fev, data da última atualização dos dados publicados no boletim - a correspondência da SESPA é do dia 29.fev. Há discrepância entre os 15 casos relatados na correspondência e as 11 notificações registradas no boletim. No documento enviado pela SESPA ao MS, conforme divulgado pelo ministério no dia 29.fev, constam como 11 notificações, 10 investigações e 1 confirmação. Como na correspondência entre a Lupa e a SESPA a mediação se deu pela Ascom, pode ter havido algum mal entendido no caminho - a se ver.

Lupa: "No Espírito Santo, o problema é oposto. A Secretaria Estadual de Saúde não divulga os casos com diagnóstico positivo para microcefalia nos seus boletins. O órgão não soube confirmar os três casos relatados pelo Ministério da Saúde como já diagnosticados. Afirma apenas que possui 72 casos suspeitos de microcefalia (por qualquer causa). Para o ministério, o ES consta com 62 bebês aguardando diagnóstico." Correspondência com a SESES: "Foram notificados 72 bebês, entre nascidos e em gestação, com suspeita de microcefalia, mas ainda sem confirmação de relação com o zika vírus."

No boletim do dia 23.fev do MS os dados do ES são: 73 notificações, 8 descartes e 3 notificações. No documento da SESES para o MS, liberado pelo ministério: são 74 notificações, 8 descartes e 3 notificações.

Lupa: "O boletim estadual de Sergipe, por sua vez, não traz informações sobre bebês com microcefalia confirmada – fala apenas de 181 suspeitos. No mesmo site da secretaria, há, no entanto, uma nota sobre a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, em Aracaju, que já presta atendimento a 51 bebês com a enfermidade cosntatada desde setembro de 2015. Para o Ministério da Saúde, porém, Sergipe não teve nenhum caso de microcefalia confirmado até agora. Somente 178 suspeitos."

No boletim do dia 23.fev do MS, são 188 notificações, 10 descartes e 0 confirmações. No boletim da SESSE linkado no relatório da Lupa, com dados atualizados até o dia 26.fev (posterior, portanto, à atualização do boletim do MS) são 192 notificações e 11 descartes. Nenhuma discrepância portanto, do dia 20 a 26 mais um caso foi descartado e mais 4 notificados.

Lupa: "Alagoas apresentou em seu boletim estadual 13 casos diagnosticados de microcefalia a mais do que o informado no último informe do ministério." Na correspondência com a SESAL são 209 notificações, 79 descartes de diagnóstico de microcefalia e 38 com confirmação de microcefalia (mas não de associação ao ZIKV) até o dia 17 de fevereiro.

No boletim do dia 23.fev do MS, são 212 notificações, 85 descartes e 25 confirmações. O documento da SESAL para o MS foi enviado dia 22.fev. A diferença pode perfeitamente se dever a mais casos surgidos depois do dia 17.fev até a atualização para o MS. (Cristina Tardáguila, da Agência Lupa, em comunicação pessoal, no entanto, explica que há ainda uma incompatibilidade: pelos dados da correspondência com a SESAL, o número de descartes deveria ser de pelo menos 92: a diferença entre os 38 casos de microcefalia por qualquer caso e 25 confirmações de microcefalia relacionada a infecções deveria se somar os 79 casos descartados por diagnóstico normal.)**

Reforçando, ao contrário da conclusão da Lupa, o que detecto são divergências mínimas - as diferenças devem-se primordialmente ao entendimento da agência a respeito de "casos confirmados de microcefalia" (confirmação do diagnóstico de microcefalia independente da causa) diferente do que o MS quer dizer com "casos confirmados de microcefalia" (a confirmação não é apenas da microcefalia, mas da possibilidade de ligação com o ZIKV). Outras provavelmente devem-se às diferenças nas datas de envio de atualização ao MS para o boletim do dia 23.fev e os dados atualizados enviados para a Lupa. E uma ou outra menor em função da - aqui sim caberia ficarmos com cabelos em pé - atualização *manual* dos dados: são documentos enviados por email, sem padronização, em vez de formulário preenchidos online (sério, não custa nada - e como não são dados sigilosos, daria até pra usar ferramentas onlines gratuitas se o problema é falta de dinheiro para colocar um TI pra criar uma página php dentro do site do MS ou de subir um addon no gerenciador de conteúdo).

Acho que vale também repetir o que o MS diz em sua nota:

"O Ministério da Saúde considera importante o trabalho da imprensa, com seus questionamentos e críticas. Quando feita de maneira adequada, contribui para o controle social e correção das ações do poder público;

A indução ao erro e o reforço a boatos, em uma situação de emergência nacional em saúde pública, no entanto, traz insegurança e confunde a população."

Que a Lupa também aceite uma análise crítica a seu trabalho (repita-se, trabalho necessário e bem vindo de auditoria dos dados) para melhorá-lo. (Eu também terei que aceitar apontamentos de eventuais erros em minha análise da análise da análise.)

Upideite(02/mar/2016): O jornalista Daniel Castro publica nota da Globo News sobre o caso, segundo a avaliação do crítico houve uma admissão de erro, mas sem dar o braço a torcer. Uma amiga minha também confirma que tentaram explicar a confusão, mas sem uma admissão aberta de que erraram. (Não pude ver a edição do dia 01.mar do programa.)

Espero que o caso sirva mais de estímulo à equipe do telejornal e da agência Lupa para um aperfeiçoamento do trabalho - essencial - de conferência dos dados e informações, do que de um balde de água fria.

Upideite(02/mar/2016): Um efeito positivo da confusão é que o MS resolveu detalhar um pouco mais a tabela - há ainda melhorias a serem implementadas (como anunciar quanto da microcefalia, pelos exames, deve-se ao STORCH: sífilistas, toxoplasmose, outras causas, rubéola, citomegalovírus e herpes), mas já são alguma coisa as notas explicativas do que são cada coluna.

*Upideite(02/mar/2016): Os 25 casos confirmados até o dia 24.fev em São Paulo, até o dia 27.fev já eram 29. Mas, segundo o MS, ainda não fecharam a investigação: "Conforme informado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica 'Prof. Alexandre Vranjac', da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, 125 casos se encontram em investigação para infecção congênita. Destes, 29 são possivelmente associados com a infecção pelo vírus Zika, porém ainda não foram finalizadas as investigações."

Upideite(03/mar/2016): A Agência Lupa publicou nota em que insiste no erro. Continuam confundindo o sentido de "casos confirmados de microcefalia". Uma pena. Havia muito potencial na iniciativa.

**Upideite(06/mar/2016): adido a esta data.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Microcefalia x Piriproxifem: sem correlação

O tema já está bem esclarecido, espero, a esta altura. Não apenas com as negativas do MS, como da própria Abrasco, a quem se atribuiu a relação entre o piriproxifem e o surto de microcefalia.

Rebati a hipótese também na segunda parte da compilação de mitos a respeito do ZIKV e da microcefalia. Os testes realizados até o momento não detectaram a produção de filhotes com microcefalia quando administrados em ratas e coelhas grávidas; tampouco há registro de surto de microcefalia nos demais países em que o produto é utilizado (inclusive para tratamento de água para beber).

Tentei obter, ainda sem sucesso, dados oficiais do MS do uso do composto. Porém consegui dados parciais - de apenas algumas unidades federativas - do consumo de piriproxifen para tratamento de água em 2015 - que dá para pescar no site do ministério (tabela 1).

Tabela 1. Consumo de piriproxifem e casos de microcefalia no Brasil. 2015/6.
UF piriproxifem
(ton. 2015)
microcefalia
(notificações 2015-6)
RJ 4,1 256
MG 10 65
RS* 0,96 31
AL 6,6 212
BA 29 775
CE 17,3 335
MA 4,5 181
PB 6,55 790
PE 21 1.601
PI* 1,5 127
RN 11,4 374
SE* 7,84 188

Considerando apenas os estados do NE (a situação não muda muito se incluirmos RJ e MG), a correlação entre consumo de piriproxifem e casos notificados de microcefalia é muito baixa: R2 = 0,29 (Fig. 1). Se o consumo de composto fosse a causa da má-formação, haveria de se esperar uma correlação muito alta.

Figura 1. Relação entre consumo de piriproxifem e microcefalia em estados nordestinos. Note a correlação muito baixa: R2 = 0,29.

Compare-se, por exemplo, com a correlação entre casos de dengue e notificação de microcefalia para as UFs da região (restringi a comparação apenas à região NE porque, por provavelmente haver começado ali a epidemia de zika, nas demais regiões, a dengue não ser um bom proxy para a infecção por ZIKV). Sendo o ZIKV transmitido pelo Aedes aegypti, em área em que o vírus ocorre, quanto maior a população do mosquito, maior deve ser sua transmissão. E, se o ZIKV se liga (causalmente ou não) aos casos de microcefalia; quanto maior a taxa de infecção pelo vírus, maior o número esperado da má-formação.(Alguns fatores intervenientes podem alterar - como diferenças à *exposição* ao mosquito: em algumas regiões, apesar de uma população maior do inseto, as pessoas podem estar mais bem protegidas - por exemplo, melhor acesso a repelentes; então, os casos de dengue podem ser um bom indicador que leve em conta essa diferença de exposição: se as pessoas estão expostas a picadas de A. aegypti para pegar DENV, tendem a estar igualmente expostas a serem infectadas por ZIKV.) A correlação obtida é muito alta: R2 = 0,95.


Figura 2. Correlação entre casos de dengue e de microcefalia em estados do NE.

Caso eu tenha acesso a dados mais completos, atualizo a análise. Mas parece bem claro que a anunciada correlação entre piriproxifen e microcefalia não existe - ou, se existe, ela é muito pequena e deve-se ao fato de que, em áreas com maior infestação de mosquitos, tende-se a usar mais do produto para controle do animal, também é usado em áreas mais precárias (onde não há, p.e., água encanada), onde também estão presentes outros fatores causadores de microcefalia: desnutrição materna, citomegalovírus, sífilis...

*Upideite(29/fev/2016): adido a esta data.
Upideite(29/fev/2016): Considerando os dados de RJ, MG, RS, PI e SE, a correlação entre piriproxifem e microcefalia dá um R2 = 0,43 (Fig. 3).
Figura 3. Relação entre consumo de piriproxifem e microcefalia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Volta ao Mundo com Zika Camargo: 1 - Uganda

Esta é uma adaptação expandida de um texto que publiquei alhures.

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Nossa primeira parada desta viagem de volta ao mundo é Uganda.

Uganda é um país da África Oriental sem saída para o mar, tendo como vizinhos o Sudão do Sul (ao norte), o Quênia (a leste), Ruanda e Tanzânia (ao sul) e a República Democrática do Congo (a oeste) (Fig. 1).

Figura 1. Uganda. Fonte: Google Maps.

Em 1947, menos de dois anos do fim da Segunda Guerra Mundial, ainda fazia parte do Império Britânico (conquistaria sua independência em 1962). Sua população estimada em 1950 era de 5,16 milhões de habitantes (em 2015 são 39 milhões) (Fig. 2).

Figura 2. Evolução da população ugandense (1950-2100). Fonte: UN World Population Prospects.

Em abril desse ano de 1947, pesquisadores americanos e britânicos realizavam um levantamento na floresta de Zika. A floresta tropical de dossel alto, mas descontínuo, desenvolve-se ao longo do braço mais longo do lago Vitória (Fig. 3)**. A apenas 11 km do instituto local e na região onde havia sido detectada alta incidência de imunidade ao vírus da febre amarela (YFV) entre os macacos selvagens, era um ótimo lugar para realizar um levantamento sobre a presença do YFV. (Dick et al. 1952.)***

Figura 3. Floresta Zika, Uganda. Fonte: Kaddumukasa et al. 2014.

Rotineiramente, subiam macacos resos, animais susceptíveis ao YFV, em gaiolas de madeiras até o alto da copa das árvores. Em 18 de abril, um dos animais, o Rhesus 766, apresentou-se febril. Foram extraídas amostras de sangue e separado o soro.

Quando injetado no cérebro de ratos, o soro levava ao adoecimento dos animais. Mas não quando injetado na barriga. Outro macaco, o Rhesus 771, foi inoculado sob a pele, mas não desenvolveu nenhum quadro de doença.

Tanto o soro do 766 tirado um mês após a recuperação da febre quanto do 771 inativavam a capacidade do soro do período febril de 766 de deixar os ratos doentes. Anti-soro contra YFV, dengue, encefalomielite murina de Theiler e vírus neurotrópicos (que infectam células nervosas) conhecidos não tiveram o mesmo efeito neutralizador.

O mesmo efeito tinha o extrato obtido do esmagamento de amostras de mosquitos Aedes africanus capturados na região em janeiro de 1948; revelando um possível vetor.*

Esses resultados, publicados em 1952, mostravam que estavam diante de um novo vírus.Em função da região em que foi encontrado pela primeira vez, foi denominado de vírus da (floresta) Zika.
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*Upideite(23/fev/2016): Inicialmente, os animais eram colocados em gaiolas; mas após os pesquisadores observarem que o mosquito Ae. africanus não costumava adentrá-las, passaram a manter os macacos presos nas plataformas sem as gaiolas. Como na época em que o Rhesus 766 ficou doente, ele estava em uma gaiola, Dick 1952, questiona se o Ae. africanus poderia ser mesmo o vetor.
**Upideite(23/fev/2016): Adido a esta data.
***Upideite(23/fev/2016): Referência adida a esta data.

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