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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A origem 150 - parte 7 de 7

Finalizando a série, alguns outro nomes que podem ser destacados, além de Darwin, Wallace e Matthew, são:

Anaximandro (?611-546 a.C.): filósofo jônio, desenvolveu uma visão evolutiva da vida - à sua maneira: da Terra, surgindo do apeiron (a substância primordial), coberta de água e lama. Da lama, surgiriam os primeiros organismos... os peixes. Estes, ao se arrastarem para fora da água teriam sofridos modificações - transmutação. De uma dessas transmutações, os humanos haveriam de surgir... Uma coincidência muito interessante com a visão filogenética moderna de que nós, Homo sapiens, além de macacos pelados, somos osteíctes de quatro patas (incidentalmente que usa as duas posteriores para caminhar e as duas anteriores para escrever em blogues).

Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri, Al-Jahiz (776-868): filósofo árabe nascido onde hoje é o Iraque em seu livro "Kitab al-Hayawan" ("O Livro dos Animais") colige descrições em versos e prosa de 350 animais. Jahiz acreditava que os animais sofriam mudanças em função de fatores ambientais como alimentos e clima (e também por intervenção divina) e parte dessas mudanças eram passadas para os descendentes na medida em que ajudavam a superar a luta pela existência, na qual animais mais fortes devoravam os mais fracos. Para Jahiz, as plantas teriam se originado da matéria inanimada; os animais, das plantas e os seres humanos, de animais.*

Edward Tyson (1650-1708): médico inglês, em um impressionante estudo de anatomia comparativa, salientava a grande similaridade das características entre humanos e demais primatas.

James Burnett (1714-1799): juiz e linguista escocês, Lorde Monboddo. Alguns pesquisadores consideram que ele teriam chegado à concepção da seleção natural. Outros acham que sua influência é negligenciavel. De todo modo, Lorde Monboddo não era desconhecido de Darwin: em notas rascunhadas, Darwin o menciona, embora não no contexto de evolução, mas sobre linguagem.

Edward Blyth (1810-1873): farmacêutico e zoólogo inglês. Chegou, antes de Darwin, à concepção de seleção natural. Mas para ele a seleção não gerava nova espécies, apenas permitia sua variação. Darwin correspondeu longamente com Blyth.

O que importa saber:
1) Outros pesquisadores chegaram à mesma ideia básica antes ou conjuntamente com Darwin.
2) Darwin foi um dos que enxergaram mais longe o potencial da seleção natural na evolução dos organismos.
3) Darwin foi um dos que mais arduamente trabalharam em amealhar indícios sólidos à ideia da evolução por seleção natural.
4) A própria Teoria da Evolução evoluiu. E continua a evoluir, 150 anos depois.

Não resisto, termino esta homenagem/lembrança/comemoração com a batida (mas mais do que apropriada) citação da frase final de "A origem das espécies":

"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being evolved."

*Upideite (16.mar.2019): adido a esta data.

A origem 150 - parte 6 de 7

Parte 5

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

Em 1853, um celebrado geólogo, Conde Keyserling ('Bulletin de la Soc. Géolog.' 2nd Ser. tom. x. p. 357), sugeriu que uma nova doença, supostamente causada por um tipo de miasma, surgiu e se espalhou por todo o mundo, assim em certos períodos os germes das espécies existentes podem ter sido quimicamente afetados pelas moléculas circum-ambientes de uma natureza particular e assim ter dado origem a novas formas.

No mesmo ano, 1853, Dr. Schaaffhousen publicou um excelente panfleto. ('Verhand.des Naturhist. Vereins der Preuss. Rheinlands' etc), no qual ele defenre o desenvolvimento progressivo de formas orgânicas na terra. Ele inere que muitas espécies se mantiveram como tais por longos períodos, enquanto que algumas se modificaram. A distinção das espécies ele explica pela destruição das formas graduais intermediárias. "Assim plantas e animais atuais não são separados dos extintos por novas criações, mas devem ser considerados como seus descendentes através de reprodução continuada".

O famoso botânico francês, M. Lecoq, escreveu em 1854 ('Etudes sur Géograph. Bot.' tom. i. p 250), "On voit que nos recherches sur la fixité ou la variation de l'espèce, nous conduisent directement auxidées émises par deux hommes justement célèbres, Geoffroy Saint-Hilaire et Goethe". Algumas outras passagens espalhadas ao longo do grande trabalho de M. Lecoq tornam um pouco duvidoso o quão longe ele estende suas visões sobre a modificação das espécies.

A 'Philosophy of Creation' foi tratada de modo magistral pelo Rev. Baden Powell, em seu 'Essays on the Unity of Worlds', 1855. Nada pode ser mais pungente que o modo em que ele mostra que a introdução de uma nova espécie é "um fenômeno regular, não um casual" ou, como Sir John Herschel expressou "um contraste natural a um processo miraculoso".

O terceiro volume do 'Journal of the Linnean Society' contém o artigo, lido em 1o de julho, 1858, pelo Sr. Wallace e por mim, no qual, como dito nas observações introdutórias deste volume, a teoria da Seleção Natural é proferida pelo Sr. Wallace com força e clareza admiráveis.

Von Baer, a que todos os zoólogos sentem tão profundo respeito, expressou por volta do ano de 1859 (veja Prof. Rudolph Wagner, 'Zoologisch-Anthropologische Untersuchungen', 1861, s. 51) sua convicção, baseada principalmente nas leis da distribuição geográfica, que as formas agora perfeitamente distintas descendem de uma única forma parental.

Em junho, 1859, Professor Huxley deu uma palestra diante da Royal Institution sobre os 'Persistent Types of Anima Life'. Referindo-se a tais casos, ele observa,"É difícil de se compreender o significado de tais fatos como estes, se supusermos que cada espécie de animal e planta, ou cada grande tipo de organização, foram formados e colocados sobre a superfície do globo a longos intervalos por um ato distinto de poder criativo e é bom lembrar que tal suposição de um lado não pode ser sustentada com base na tradição e na revelação e de outro é contraditada pela analogia geral da natureza. Se, de outro modo, vimos as 'Persistent Types' em relação àquela hipótese que supõe que as espécies existentes a qualquer tempo são resultados da modificação gradual de espécies preexistentes - um hipótese que, embora não provada, e lamentavelmente estragada por alguns de seus defesores, é ainda a única a que a fisiologia pode dar algum apoio; suas existências pareceria mostrar que a quantidade de modificação por que tais seres passaram durante o tempo geológico é apenas uma pequena fração em relação à toda a série de mudanças por que passaram".

Em dezembro, 1859, Dr. Hooker publicou sua 'Introduction to the Australian Flora'. Na primeira parte desse grande trabalho ele admite a verdade da descendência e modificação das espécies e apoia essa doutrina em muitas observações originais.

A primeira edição deste trabalho foi publicada em 24 de novembro de 1859 e a segunda edição em 7 de janeiro de 1860.

Parte 7

A origem 150 - parte 5 de 7

Parte 4

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)


M. Isidore Geoffroy Saint Hilaire, em suas Palestras dadas em 1850 (das quais um Résumé foi publicado no ‘Revue et Mag. de Zoolog.’, jan. 1851), brevemente expressa seus motivos em crer que caracteres específicos “sont fixes, pour chaque espèce, tant qu’elle se perpetue au milieu des mêmes circonstances ambiantes viennent à changer”. “Em resume l’observation dês animaux sauvages démontre déjà la variabilité limitée dês espèces. Les expériences sur les animaux sauvages devenus domestiques, et sur les animaux domestique redevenus sauvages, la démontrent plus clairement encore. Ces mêmes expériences prouvent, de plus, que les différences produites peuvent être de valeur générique". Em sua 'Hist. Nat. Générale' (tom. ii. p. 430, 1859) ele reproduz conclusões análogas.


De uma circular recentemente publicada parece que Dr. Freke, em 1851 ('Dublin Medical Press', p. 322), declarou a doutrina que todos os seres orgânicos descendem de uma forma primordial. Suas bases de crença e tratamento do assunto são totalmente diferentes dos meus, mas como o Dr. Freke agora (1861) publicou seu Ensaio sobre 'A origem das espécies através da Afinidade Orgânica' a difícil tentativa de passar qualquer ideia de suas visões seria supérfluo de minha parte.

O Sr. Herbert Spencer, em um Ensaio (originalmente publicado no 'Leader', março 1852, e republicado em seu 'Essays' em 1858), contrastou as teorias da Criação e do Desenvolvimento de seres orgânicos com destacadas habilidade e força. Ele argumenta a partir da analogia de produções domésticas, das mudanças que os embriões de muitas espécies sofrem, da dificuldade de distinguir espécies de variedades e a partir do princípio da gradação geral, que as espécies se modificaram; e ele atribui essa modificação à mudança nas circunstâncias. O autor (1855) tambpem tratou a Psicologia pelo princípio de da aquisição necessária de cada faculdade e capacidade mental pela gradação.

Em 1852, M. Naudin, um destacado botânico, expressamente afirmou, em um artigo admirável sobre a Origem das Espécies ('Revue Horticole', p. 102; desde então parcialmente republicada em 'Nouvelles Archives du Muséum', tom. i. p. 171), sua crença em que as espécies são formadas de um modo análogo à que as variedades são sob cultivo e a último processo ele atribui ao poder da seleção pelo homem. Mas ele não mostra como a seleção age na natureza. Ele acredita, como o Deão Herbet, que as espécies, quando nascentes, eram mais plásticas que no presente. Ele põe peso no que ele chama de princípio da finalidde, "puissance mystérieuse, indéterminée; fatalité pour les uns; pour les autres, volonté providentielle, dont l'action incessante sur les êtres vivants détermine, à toutes les époques de l'existence du monde, la forme, le volume, et la durée de chacun d'eux, en raison de sa destinée dans l'ordre de choses dont il fait partie. C'est cette puissance qui harmonise chaque membre à l'ensemble en l'appropriant à la fonction qu'il doit remplier dans l'organisme général de la nature, fonction qui est pour lui sa raison d'être".*

*A partir de referências em 'Untersuchungen über die Entwickelungs-Gesetze' de Brunn parece que o celebrado botânico e paleontólogo Under publicou, em 1852, sua crença em que as espécies passam por desenvolvimento e modificação. D'Alton, do mesmo modo, no trabalho de Pander e d'Alton sobre Preguiças Fósseis, expressou, em 1821, uma crença similar. Visões similares, como é bem sabido, tem sido mantidas por Oken em seu místico 'Natur-Philosophie'. De outras referências no trabalho de Godron 'Sur l'Espèce', parece que Bory St. Vincent, Burdach, Poiret e Fries, todos admitiram que novas espécies estão sendo continuamente produzidas.

Eu posso acrescentar, que dos trinta e quatro autores nomeados neste Esboço Histórico, que acreditam na modificação das espécies ou, pelo menos, descrêem em atos de criação em separado, vinte e sete escreveram em ramos especiais de história natural ou geologia.

Parte 6

A origem 150 - parte 4 de 7

Parte 3

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

O Professor Owen, em 1849 (‘Nature of Limbs’, p. 86), escreveu o que se segue: -“A ideia arquetípica foi manifestada em carne sob tais modificações diversas, neste planeta, bem antes da existência destas espécies animais que atualmente as exemplificam. A que leis naturais ou causas secundárias se submetem a sucessão e progressão ordenada de tais fenômenos orgânicos, nós ainda ignoramos”. Em seu “Address” à “British Association”, em 1858, ele fala (p. ii.) “o axioma da operação contínua do poder criativo ou do vir a ser ordenado das coisas vivas”. Mais adiante (p. xc.), após se referir à distribuição geográfica, ele acrescenta, “Estes fenômenos abalam nossa confiança na conclusão de que o Apteryx da Nova Zelândia e Lagópode Vermelho da Inglaterra são criações distintas nestas e para estas ilhas respectivamente. Também sempre é possível se ter em mente que pela palavra ‘criação’ os zoólogos querem dizer ‘um processo que ele não sabe o quê’. Ele amplifica a ideia acrescentando que, quando tais casos como o do Lagópode Vermelho são “enumerados pelos zoólogos como evidência de criação distinta das aves nestas e para tais ilhas, ele principalmente expressa que ele não sabe como o Lagópode Vermelho foi parar lá e apenas lá; significando também, por esse modo de expressar tal ignorância, sua crença de que ambos, a ave e as ilhas, devem suas origens a uma grande primeira Causa Criativa”. Se interpretarmos essas sentenças proferidas na mesma Address, uma pela outra, parece que esse eminente filósofo sentiu em 1858 sua abalada sua confiança em que o Apteryx e o Lagópode Vermelho surgiram inicialmente em seus respectivos lares, ‘ele não sabe como’, ou por um processo que ‘ele não sabe o quê’ Desde a publicação em 1859 de meu trabalho em ‘A origem das espécies’, mas se em conseqüência disso é duvidoso, Professor Owen tem claramente expressado sua crença em que as espécies não foram criadas separadamente e não são produções imutáveis, mas ele ainda (‘Anatomy of the Vertebrates’, 1866) nega que saibamos as leis naturais ou as causas secundárias da aparição sucessiva das espécies; embora ao mesmo tempo ele admita que a seleção natural pode ter feito algo nesse sentido. É surpreendente que essa admissão não tenha sido feita antes, na medida que Professor Owen agora acredita ter promulgado a teoria da seleção natural em uma passagem lida diante da Zoological Society em fevereiro, 1850 (‘Transact.’ Vol. Iv. P. 15); em uma carta à ‘London Review’ (5 de maio, 1866, p. 516), comentando sobre alguma crítica dos revisores, ele disse: “Nenhum naturalista pode discordar da verdade de V. percepção da identidade essencial da passagem citada com base dessa teoria [chamada darwiniana], o poder, viz., das espécies em se acomodarem, or se curvarem às influências das circunstâncias do ambiente”. Mais adiante na mesma carta, ele fala de si mesmo como “o autor da mesma teoria no início de 1850”. Essa crença do Professor Owen que ele deu ao mundo a teoria da seleção natural surpreenderá todos aqueles que conhecem várias passagens de seus trabalhos, revisões e palestras, publicadas desde ‘A origem’, na qual ele vigorosamente se opõem à teoria e irá deleitar a todos os que se interessam neste lado da questão, conforme possa se presumir que sua oposição não irá cessar. Isso pode, no entanto, significar que a passagem acima referida no ‘Zoological Transactions’, conforme encontrei ao consultá-la, aplica-se exclusivamente à exterminação e preservação dos animais e, em nenhum modo, a sua modificação gradual, origem ou seleção natural. Tão remota a chance disso ser o caso que o Professor Owen na verdade inicial o primeiro de dois parágrafos (vol. iv. p. 15) com as seguintes palavras:-“Não temos nem uma partícula de evidência de que qualquer espécie de ave ou fera que viveu durante o período pliocênico tenha seus caracteres modificados em qualquer aspecto pela influência do tempo ou de mudanças das circunstâncias externas”.

Parte 5

A origem 150 - parte 3 de 7

Parte 2

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)

O celebrado geólogo e naturalista, Von Buch, em seu excelente ‘Description Physique des Iles Canaries’ (1836, p. 147), claramente expressa sua crença que as variedades lentamente se tornam modificadas permanentemente em espécies, que não são mais capazes de se intercruzar.

Rafinesque, em seu ‘New Flora of North America’, publicada em 1836,escreveu (p. 6) como sefue: - “Todas as espécies podem ter sido variedades uma vez, e muitas variedades estão gradualmente se tornam espécies ao assumirem caracteres constantes e peculiares:’ mas mais adiante (p. 18) ele acrescenta, “exceto os tipos originais dos ancestrais do gênero”.

Em 1843-44, Professor Haldeman (Boston Journal of Nat. Hist. U. States, v. iv. P. 468) habilmente apresentou argumentos prós e contras a hipótese do desenvolvimento e modificação das espécies: ele parece se inclinar para o lado da mudança.

O ‘Vestiges of Creation’ apareceu em 1844. Na décima e muito melhorada edição (1853) o autor anônimo diz (p. 155): - “A proposição determinada após muita consideração é que as várias séries de seres animados, do mais simples e velho ao mais alto e recente, são, sob a providência de Deus, o resultado, primeiro, de um impulso que foi dado às formas de vida, avançando as, em tempos definidos, através das gerações, ao longo de graus de organização terminando nas dicotiledôneas e vertebrados superiores, esses graus sendo pouco numerosos e geralmente marcados por intervalos de caracteres orgânicos, que descobrimos ser a dificuldade prática em atribuir afinidades; em segundo lugar, de outro impulso conectado às forças vitais, tendendo, ao longo das gerações, a modificar as estruturas orgânicas de acordo com as circunstâncias externas, como comida, a natureza do habitat e os agentes climáticos, esta sendo as ‘adaptações’ dos teólogos naturais”. O autor aparentemente acredita que a organização avança em saltos súbitos, mas que os efeitos produzidos pelas condições de vida são graduais. Ele argumenta com muito força sobre a base geral de que as espécies não são produções imutáveis. Mas não consigo ver como os dois supostos “impulsos” explicam em um sentido científico as numerosas e belas coadaptações que vemos em toda a natureza; não consigo ver então que ganhemos qualquer insight sobre como, por exemplo, um pica-pau se tornou adaptado a seu hábito de vida peculiar. O trabalho, por seu estilo poderoso e brilhante, embora exibindo em suas primeiras edições pouco conhecimento acurado e uma grande necessidade de cautela científica, imediatamente obteve uma ampla circulação. Em minha opinião, ele fez um excelente serviço neste país de chamar a atenção para o tema, em remover o preconceito e, assim, preparar o terreno para a recepção de visões análogas.

Em 1846, o geólogo veterano M. J. d’Omalius d’Halloy publicou um excelente, embora curto, artigo (‘Bulletins de l’Acad. Roy. Bruxelles’, tom. xiii, p. 581), sua opinião é que é mais provável que as novas espécies tenham sido produzidas por descendência com modificação, do que que elas tenha sido criadas em separado: o autor promulgou sua opinião inicialmente em 1831.

Parte 4

A origem 150 - parte 2 de 7

Parte 1

Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)


Geoffroy Saint Hilaire, como dito em seu ‘Life’, escrito por seu filho, suspeitava, já em 1795, que o que chamamos de espécies são várias degenerações de um mesmo tipo. Foi só em 1828 que ele publicou sua convicção que as mesmas formas não foram perpetuadas desde a origem de todas as coisas. Geoffroy parece ter se baseado principalmente nas condições de vida, ou “monde ambiant”, como causa da mudança. Ele foi cauteloso em tirar conclusões e não acreditava que as espécies existentes estivessem sofrendo modificações agora e, como seu filho acrescenta, “C’est donc um problème à réserver entièrement à l’avenir, supposé même que l’avenir doive avoir prise sur lui”.

Em 1813, Dr. W.C. Wells leu diante da Royal Society ‘An Account of a White Female, part of whose Skin resembles that of a Negro’, mas seu artigo não foi publicado até que seu famoso ‘Two Essays upon Dew and Single Vision’ aparecesse em 1818. Nesse artigo ele distintamente reconhece o princípio da seleção natural e este é o primeiro reconhecimento que foi indicado, mas ele o aplica somente às raças humanas e para somente para alguns caracteres. Depois de destacar que os negros e os mulatos têm uma imunidade à certas doenças tropicas, ele observa, primeiramente, que todos os animais tendem a variar em algum grau e, em segundo lugar, que os agricultores melhoram seus animais domésticos por seleção e então, ele acrescenta, mas o que é feito no último caso “pela arte, parece ser realizado com igual eficácia, embora mais lentamente, pela natureza, na formação de variedades da humanidade, ajustada às terras em que habitam. A partir de variedades acidentais no homem, que pode ocorrer entre os primeiros poucos e espalhados habitantes das regiões centrais da África, alguns seriam mais ajustado que outros a suportar as doenças desse país. Essa raça poderia consequentemente se multiplicar, enquanto outras diminuiriam; não apenas por sua inabilidade em barrar os ataques da doença, mas por sua incapacidade de enfrentar seus vizinhos mais vigorosos. A cor dessa raça vigorosa, tomo por garantido pelo que já foi dito, seria mais escura. Mas a mesma disposição para formar variedades ainda existem, uma raça mais e mais escura poderia surgir a medida que o tempo passasse; e a mais escura seria a mais bem ajustada ao clima, ela poderia ao longo do tempo se tornar mais prevalente, se não a única raça, em um dado país no qual se originou”. Ele então estende a mesma visão aos habitantes brancos de países mais frios. Estou em dívida com o Ver. Mr. Brace, dos EUA, por ter me chamado a atenção para a passagem acima do trabalho do Dr. Well.

O Hon. e Rer. W. Herbert, depois Deão de Manchester, no quarto volume de ‘Horticultural Transactions’, 1822, e em seu trabalho sobre as ‘Amaryllidaceae’ (1837, p. 19, 339), declara que “os experimentos horticulturais estabeleceram, além da possibilidade de refutação, que as espécies botânicas são apenas uma classe mais alta e mais permanente de variedades”. Ele estende a mesma visão aos animais. O Deão acredita que uma única espécie de cada gênero foi criada em uma condição original altamente plástica e que isso produziu, principalmente por intercruzamento, mas também por variação, todas as espécies existentes.

Em 1826, Professor Grant, no parágrafo final de seu bem conhecido artigo (‘Edinburgh Philosophical Journal’, vol. Xiv. P. 283) sobre Spongila, claramente declara sua crença de que as espécies são descendentes de outras espécies e que elas são melhoradas no curso da modificação. A mesma visão é dada em sua 55ª. Lecture, publicada em ‘Lancet’ em 1834.

Em 1831, Sr. Patrick Matthew publicou seu trabalho ‘Naval Timber and Arboticulture’, no qual ele apresenta precisamente a mesma visão sobre a origem das espécies que (atualmente a ser atribuída como) a proferida pelo Sr. Wallace e por mim na’Linnean Journal’ e como a ampliada neste presente volume. Infelizmente a visão foi dada pelo Sr. Matthew muito brevemente em passagens dispersas em um Apêndice de um trabalho de um assunto totalmente diverso, de modo que permaneceu sem ser notado até que o próprio Sr. Matthew chamou a atenção para ele no ‘Gardener’s Chronicle’ em 7 de abril, 1860. As diferenças da visão do Sr. Matthew da minha não são de muita importância: ele parece considerar que o mundo foi quase totalmente despovoado em períodos sucessivos e então repopulado e ele diz, como uma alternativa, que as novas formas podem ter sido geradas “sem a presença de nenhum limo ou germe de agregados predecessores”. Não estou certo de ter entendido certas passagens, mas parece que ele atribui muita influência da ação direta das condições de vida. Ele claramente viu, no entanto, a força total do princípio da seleção natural.

Parte 3

A origem 150 - parte 1 de 7

Charles Robert Darwin sem dúvida merece todas as homenagens feitas neste ano Darwin. Com a semana em que se completam 150 anos da publicação original de "A origem das espécies" muitos eventos estão programados (confira aqui e aqui alguns).

Quero aproveitar a efeméride para falar de alguns pontos que podem acabar um tanto obscurecidos com o brilho de Mr. Darwin. E quem melhor senão o próprio para falar do contexto histórico e dos predecessores da teoria da evolução por seleção natural?

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Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies

(On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life 4th edition. With additions and corrections (eighth thousand).)

Eu farei um esboço breve, porém imperfeito, do progresso da opinião a respeito da Origem das Espécies. A maioria dos naturalistas crê que as espécies são produções imutáveis e foram criadas em separado. Esta visão tem sido habilmente mantida por muitos autores. Alguns poucos naturalistas, por outro lado, acreditam que as espécies sofrem modificação e que as formas de vida existentes são descendentes por real geração de formas preexistentes. Deixando de lado alusões sobre o tema em autores clássicos*, o primeiro autor em tempos modernos a tratá-lo em um espírito científico foi Buffon. Mas suas opiniões variaram enormente em diferentes períodos e ele não se ateve às causas ou meios da transformação das espécies, não preciso detalhar aqui.

*Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), “Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem”. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.

Lamarck foi o primeiro cujas conclusões sobre o tema atraiu muita atenção. O, justamente, celebrado naturalista publicou sua visão inicialmente em 1801; ele a ampliou muito em 1809 em seu ‘Philosophie Zoologique’ e, posteriormente, em 1815, na Introdução de seu ‘Hist. Nat. des Animaux sans Vertèbres’. Nesses trabalhos ele sustenta a doutrina que todas as espécies, incluindo o homem, são descendentes de outras espécies. Ele primeiro fez o eminente serviço de atrair atenção à possibilidade de todas as mudanças no mundo orgânico, bem como no inorgânico, serem resultado de leis naturais e não de uma intervenção milagrosa. Lamarck parece ter sido levado a sua conclusão da mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies de variedades, pela quase perfeita gradação de formas em certos grupos e por analogia à produção doméstica. A respeito dos modos de modificação, atribui a alguma coisa à ação direta das condições físicas de vida, alguma coisa ao cruzamento de formas já existentes de vida e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. Para esta última causa, ele parece ter atribuído todas belas adaptações na natureza; - como o longo pescoço da girafa para comer as folhas dos galhos das árvores. Mas ele também acreditava na lei do desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem, então, ao progresso, a fim de explicar a existência no presente de produções simples, ele sustenta que tais formas são agora produzidas espontaneamente.*

*A data da primeira publicação de Lamarck peguei da obra de Isid. Geoffroy Saint Hilaire (‘Hist. Nat. Générale’, tom. ii, p. 405, 1859), excelente história da opinião sobre o tema. Em seu trabalho um detalhamento total é dado às conclusões de Buffon sobre o tema. É curioso quão amplamente meu avô, Dr. Erasmus Darwin, antecipou as visões e as errôneas bases da opinião de Lamarck em seu ‘Zoonomia’ (vol. i. pp. 500-510), publicado em 1794. De acordo com Isid. Geoffroy não há dúvidas que Goethe foi um partidário extremista de visões similares, como mostrado na Introdução de um trabalho escrito em 1794 e 1795, mas não publicado até muito tempo depois: ele observou pertinentemente (Goethe als Naturforscher, von Dr. Karl Meding, s. 34) que a questão futura dos naturalistas seria como, por exemplo, o gado ganhou seus chifres, e não para que eles são usados. Isso é um exemplo algo singular da maneira pela qual ideias similares surgem mais ou menos ao mesmo tempo, que Goethe na Alemanha, Dr. Darwin na Inglaterra e Geoffroy Saint Hilaire (como veremos logo) na França, chegaram à mesma conclusão sobre a origem das espécies, nos anos de 1794-5.


Parte 2

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