Finalizando a série, alguns outro nomes que podem ser destacados, além de Darwin, Wallace e Matthew, são:
Anaximandro (?611-546 a.C.): filósofo jônio, desenvolveu uma visão evolutiva da vida - à sua maneira: da Terra, surgindo do apeiron (a substância primordial), coberta de água e lama. Da lama, surgiriam os primeiros organismos... os peixes. Estes, ao se arrastarem para fora da água teriam sofridos modificações - transmutação. De uma dessas transmutações, os humanos haveriam de surgir... Uma coincidência muito interessante com a visão filogenética moderna de que nós, Homo sapiens, além de macacos pelados, somos osteíctes de quatro patas (incidentalmente que usa as duas posteriores para caminhar e as duas anteriores para escrever em blogues).
Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri, Al-Jahiz (776-868): filósofo árabe nascido onde hoje é o Iraque em seu livro "Kitab al-Hayawan" ("O Livro dos Animais") colige descrições em versos e prosa de 350 animais. Jahiz acreditava que os animais sofriam mudanças em função de fatores ambientais como alimentos e clima (e também por intervenção divina) e parte dessas mudanças eram passadas para os descendentes na medida em que ajudavam a superar a luta pela existência, na qual animais mais fortes devoravam os mais fracos. Para Jahiz, as plantas teriam se originado da matéria inanimada; os animais, das plantas e os seres humanos, de animais.*
Edward Tyson (1650-1708): médico inglês, em um impressionante estudo de anatomia comparativa, salientava a grande similaridade das características entre humanos e demais primatas.
James Burnett (1714-1799): juiz e linguista escocês, Lorde Monboddo. Alguns pesquisadores consideram que ele teriam chegado à concepção da seleção natural. Outros acham que sua influência é negligenciavel. De todo modo, Lorde Monboddo não era desconhecido de Darwin: em notas rascunhadas, Darwin o menciona, embora não no contexto de evolução, mas sobre linguagem.
Edward Blyth (1810-1873): farmacêutico e zoólogo inglês. Chegou, antes de Darwin, à concepção de seleção natural. Mas para ele a seleção não gerava nova espécies, apenas permitia sua variação. Darwin correspondeu longamente com Blyth.
O que importa saber:
1) Outros pesquisadores chegaram à mesma ideia básica antes ou conjuntamente com Darwin.
2) Darwin foi um dos que enxergaram mais longe o potencial da seleção natural na evolução dos organismos.
3) Darwin foi um dos que mais arduamente trabalharam em amealhar indícios sólidos à ideia da evolução por seleção natural.
4) A própria Teoria da Evolução evoluiu. E continua a evoluir, 150 anos depois.
Não resisto, termino esta homenagem/lembrança/comemoração com a batida (mas mais do que apropriada) citação da frase final de "A origem das espécies":
"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed by the Creator into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being evolved."
*Upideite (16.mar.2019): adido a esta data.
Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Darwin. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
A origem 150 - parte 6 de 7
Parte 5
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
Em 1853, um celebrado geólogo, Conde Keyserling ('Bulletin de la Soc. Géolog.' 2nd Ser. tom. x. p. 357), sugeriu que uma nova doença, supostamente causada por um tipo de miasma, surgiu e se espalhou por todo o mundo, assim em certos períodos os germes das espécies existentes podem ter sido quimicamente afetados pelas moléculas circum-ambientes de uma natureza particular e assim ter dado origem a novas formas.
No mesmo ano, 1853, Dr. Schaaffhousen publicou um excelente panfleto. ('Verhand.des Naturhist. Vereins der Preuss. Rheinlands' etc), no qual ele defenre o desenvolvimento progressivo de formas orgânicas na terra. Ele inere que muitas espécies se mantiveram como tais por longos períodos, enquanto que algumas se modificaram. A distinção das espécies ele explica pela destruição das formas graduais intermediárias. "Assim plantas e animais atuais não são separados dos extintos por novas criações, mas devem ser considerados como seus descendentes através de reprodução continuada".
O famoso botânico francês, M. Lecoq, escreveu em 1854 ('Etudes sur Géograph. Bot.' tom. i. p 250), "On voit que nos recherches sur la fixité ou la variation de l'espèce, nous conduisent directement auxidées émises par deux hommes justement célèbres, Geoffroy Saint-Hilaire et Goethe". Algumas outras passagens espalhadas ao longo do grande trabalho de M. Lecoq tornam um pouco duvidoso o quão longe ele estende suas visões sobre a modificação das espécies.
A 'Philosophy of Creation' foi tratada de modo magistral pelo Rev. Baden Powell, em seu 'Essays on the Unity of Worlds', 1855. Nada pode ser mais pungente que o modo em que ele mostra que a introdução de uma nova espécie é "um fenômeno regular, não um casual" ou, como Sir John Herschel expressou "um contraste natural a um processo miraculoso".
O terceiro volume do 'Journal of the Linnean Society' contém o artigo, lido em 1o de julho, 1858, pelo Sr. Wallace e por mim, no qual, como dito nas observações introdutórias deste volume, a teoria da Seleção Natural é proferida pelo Sr. Wallace com força e clareza admiráveis.
Von Baer, a que todos os zoólogos sentem tão profundo respeito, expressou por volta do ano de 1859 (veja Prof. Rudolph Wagner, 'Zoologisch-Anthropologische Untersuchungen', 1861, s. 51) sua convicção, baseada principalmente nas leis da distribuição geográfica, que as formas agora perfeitamente distintas descendem de uma única forma parental.
Em junho, 1859, Professor Huxley deu uma palestra diante da Royal Institution sobre os 'Persistent Types of Anima Life'. Referindo-se a tais casos, ele observa,"É difícil de se compreender o significado de tais fatos como estes, se supusermos que cada espécie de animal e planta, ou cada grande tipo de organização, foram formados e colocados sobre a superfície do globo a longos intervalos por um ato distinto de poder criativo e é bom lembrar que tal suposição de um lado não pode ser sustentada com base na tradição e na revelação e de outro é contraditada pela analogia geral da natureza. Se, de outro modo, vimos as 'Persistent Types' em relação àquela hipótese que supõe que as espécies existentes a qualquer tempo são resultados da modificação gradual de espécies preexistentes - um hipótese que, embora não provada, e lamentavelmente estragada por alguns de seus defesores, é ainda a única a que a fisiologia pode dar algum apoio; suas existências pareceria mostrar que a quantidade de modificação por que tais seres passaram durante o tempo geológico é apenas uma pequena fração em relação à toda a série de mudanças por que passaram".
Em dezembro, 1859, Dr. Hooker publicou sua 'Introduction to the Australian Flora'. Na primeira parte desse grande trabalho ele admite a verdade da descendência e modificação das espécies e apoia essa doutrina em muitas observações originais.
A primeira edição deste trabalho foi publicada em 24 de novembro de 1859 e a segunda edição em 7 de janeiro de 1860.
Parte 7
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
Em 1853, um celebrado geólogo, Conde Keyserling ('Bulletin de la Soc. Géolog.' 2nd Ser. tom. x. p. 357), sugeriu que uma nova doença, supostamente causada por um tipo de miasma, surgiu e se espalhou por todo o mundo, assim em certos períodos os germes das espécies existentes podem ter sido quimicamente afetados pelas moléculas circum-ambientes de uma natureza particular e assim ter dado origem a novas formas.
No mesmo ano, 1853, Dr. Schaaffhousen publicou um excelente panfleto. ('Verhand.des Naturhist. Vereins der Preuss. Rheinlands' etc), no qual ele defenre o desenvolvimento progressivo de formas orgânicas na terra. Ele inere que muitas espécies se mantiveram como tais por longos períodos, enquanto que algumas se modificaram. A distinção das espécies ele explica pela destruição das formas graduais intermediárias. "Assim plantas e animais atuais não são separados dos extintos por novas criações, mas devem ser considerados como seus descendentes através de reprodução continuada".
O famoso botânico francês, M. Lecoq, escreveu em 1854 ('Etudes sur Géograph. Bot.' tom. i. p 250), "On voit que nos recherches sur la fixité ou la variation de l'espèce, nous conduisent directement auxidées émises par deux hommes justement célèbres, Geoffroy Saint-Hilaire et Goethe". Algumas outras passagens espalhadas ao longo do grande trabalho de M. Lecoq tornam um pouco duvidoso o quão longe ele estende suas visões sobre a modificação das espécies.
A 'Philosophy of Creation' foi tratada de modo magistral pelo Rev. Baden Powell, em seu 'Essays on the Unity of Worlds', 1855. Nada pode ser mais pungente que o modo em que ele mostra que a introdução de uma nova espécie é "um fenômeno regular, não um casual" ou, como Sir John Herschel expressou "um contraste natural a um processo miraculoso".
O terceiro volume do 'Journal of the Linnean Society' contém o artigo, lido em 1o de julho, 1858, pelo Sr. Wallace e por mim, no qual, como dito nas observações introdutórias deste volume, a teoria da Seleção Natural é proferida pelo Sr. Wallace com força e clareza admiráveis.
Von Baer, a que todos os zoólogos sentem tão profundo respeito, expressou por volta do ano de 1859 (veja Prof. Rudolph Wagner, 'Zoologisch-Anthropologische Untersuchungen', 1861, s. 51) sua convicção, baseada principalmente nas leis da distribuição geográfica, que as formas agora perfeitamente distintas descendem de uma única forma parental.
Em junho, 1859, Professor Huxley deu uma palestra diante da Royal Institution sobre os 'Persistent Types of Anima Life'. Referindo-se a tais casos, ele observa,"É difícil de se compreender o significado de tais fatos como estes, se supusermos que cada espécie de animal e planta, ou cada grande tipo de organização, foram formados e colocados sobre a superfície do globo a longos intervalos por um ato distinto de poder criativo e é bom lembrar que tal suposição de um lado não pode ser sustentada com base na tradição e na revelação e de outro é contraditada pela analogia geral da natureza. Se, de outro modo, vimos as 'Persistent Types' em relação àquela hipótese que supõe que as espécies existentes a qualquer tempo são resultados da modificação gradual de espécies preexistentes - um hipótese que, embora não provada, e lamentavelmente estragada por alguns de seus defesores, é ainda a única a que a fisiologia pode dar algum apoio; suas existências pareceria mostrar que a quantidade de modificação por que tais seres passaram durante o tempo geológico é apenas uma pequena fração em relação à toda a série de mudanças por que passaram".
Em dezembro, 1859, Dr. Hooker publicou sua 'Introduction to the Australian Flora'. Na primeira parte desse grande trabalho ele admite a verdade da descendência e modificação das espécies e apoia essa doutrina em muitas observações originais.
A primeira edição deste trabalho foi publicada em 24 de novembro de 1859 e a segunda edição em 7 de janeiro de 1860.
Parte 7
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
A origem 150 - parte 5 de 7
Parte 4
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
M. Isidore Geoffroy Saint Hilaire, em suas Palestras dadas em 1850 (das quais um Résumé foi publicado no ‘Revue et Mag. de Zoolog.’, jan. 1851), brevemente expressa seus motivos em crer que caracteres específicos “sont fixes, pour chaque espèce, tant qu’elle se perpetue au milieu des mêmes circonstances ambiantes viennent à changer”. “Em resume l’observation dês animaux sauvages démontre déjà la variabilité limitée dês espèces. Les expériences sur les animaux sauvages devenus domestiques, et sur les animaux domestique redevenus sauvages, la démontrent plus clairement encore. Ces mêmes expériences prouvent, de plus, que les différences produites peuvent être de valeur générique". Em sua 'Hist. Nat. Générale' (tom. ii. p. 430, 1859) ele reproduz conclusões análogas.
De uma circular recentemente publicada parece que Dr. Freke, em 1851 ('Dublin Medical Press', p. 322), declarou a doutrina que todos os seres orgânicos descendem de uma forma primordial. Suas bases de crença e tratamento do assunto são totalmente diferentes dos meus, mas como o Dr. Freke agora (1861) publicou seu Ensaio sobre 'A origem das espécies através da Afinidade Orgânica' a difícil tentativa de passar qualquer ideia de suas visões seria supérfluo de minha parte.
O Sr. Herbert Spencer, em um Ensaio (originalmente publicado no 'Leader', março 1852, e republicado em seu 'Essays' em 1858), contrastou as teorias da Criação e do Desenvolvimento de seres orgânicos com destacadas habilidade e força. Ele argumenta a partir da analogia de produções domésticas, das mudanças que os embriões de muitas espécies sofrem, da dificuldade de distinguir espécies de variedades e a partir do princípio da gradação geral, que as espécies se modificaram; e ele atribui essa modificação à mudança nas circunstâncias. O autor (1855) tambpem tratou a Psicologia pelo princípio de da aquisição necessária de cada faculdade e capacidade mental pela gradação.
Em 1852, M. Naudin, um destacado botânico, expressamente afirmou, em um artigo admirável sobre a Origem das Espécies ('Revue Horticole', p. 102; desde então parcialmente republicada em 'Nouvelles Archives du Muséum', tom. i. p. 171), sua crença em que as espécies são formadas de um modo análogo à que as variedades são sob cultivo e a último processo ele atribui ao poder da seleção pelo homem. Mas ele não mostra como a seleção age na natureza. Ele acredita, como o Deão Herbet, que as espécies, quando nascentes, eram mais plásticas que no presente. Ele põe peso no que ele chama de princípio da finalidde, "puissance mystérieuse, indéterminée; fatalité pour les uns; pour les autres, volonté providentielle, dont l'action incessante sur les êtres vivants détermine, à toutes les époques de l'existence du monde, la forme, le volume, et la durée de chacun d'eux, en raison de sa destinée dans l'ordre de choses dont il fait partie. C'est cette puissance qui harmonise chaque membre à l'ensemble en l'appropriant à la fonction qu'il doit remplier dans l'organisme général de la nature, fonction qui est pour lui sa raison d'être".*
*A partir de referências em 'Untersuchungen über die Entwickelungs-Gesetze' de Brunn parece que o celebrado botânico e paleontólogo Under publicou, em 1852, sua crença em que as espécies passam por desenvolvimento e modificação. D'Alton, do mesmo modo, no trabalho de Pander e d'Alton sobre Preguiças Fósseis, expressou, em 1821, uma crença similar. Visões similares, como é bem sabido, tem sido mantidas por Oken em seu místico 'Natur-Philosophie'. De outras referências no trabalho de Godron 'Sur l'Espèce', parece que Bory St. Vincent, Burdach, Poiret e Fries, todos admitiram que novas espécies estão sendo continuamente produzidas.
Eu posso acrescentar, que dos trinta e quatro autores nomeados neste Esboço Histórico, que acreditam na modificação das espécies ou, pelo menos, descrêem em atos de criação em separado, vinte e sete escreveram em ramos especiais de história natural ou geologia.
Parte 6
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
M. Isidore Geoffroy Saint Hilaire, em suas Palestras dadas em 1850 (das quais um Résumé foi publicado no ‘Revue et Mag. de Zoolog.’, jan. 1851), brevemente expressa seus motivos em crer que caracteres específicos “sont fixes, pour chaque espèce, tant qu’elle se perpetue au milieu des mêmes circonstances ambiantes viennent à changer”. “Em resume l’observation dês animaux sauvages démontre déjà la variabilité limitée dês espèces. Les expériences sur les animaux sauvages devenus domestiques, et sur les animaux domestique redevenus sauvages, la démontrent plus clairement encore. Ces mêmes expériences prouvent, de plus, que les différences produites peuvent être de valeur générique". Em sua 'Hist. Nat. Générale' (tom. ii. p. 430, 1859) ele reproduz conclusões análogas.
De uma circular recentemente publicada parece que Dr. Freke, em 1851 ('Dublin Medical Press', p. 322), declarou a doutrina que todos os seres orgânicos descendem de uma forma primordial. Suas bases de crença e tratamento do assunto são totalmente diferentes dos meus, mas como o Dr. Freke agora (1861) publicou seu Ensaio sobre 'A origem das espécies através da Afinidade Orgânica' a difícil tentativa de passar qualquer ideia de suas visões seria supérfluo de minha parte.
O Sr. Herbert Spencer, em um Ensaio (originalmente publicado no 'Leader', março 1852, e republicado em seu 'Essays' em 1858), contrastou as teorias da Criação e do Desenvolvimento de seres orgânicos com destacadas habilidade e força. Ele argumenta a partir da analogia de produções domésticas, das mudanças que os embriões de muitas espécies sofrem, da dificuldade de distinguir espécies de variedades e a partir do princípio da gradação geral, que as espécies se modificaram; e ele atribui essa modificação à mudança nas circunstâncias. O autor (1855) tambpem tratou a Psicologia pelo princípio de da aquisição necessária de cada faculdade e capacidade mental pela gradação.
Em 1852, M. Naudin, um destacado botânico, expressamente afirmou, em um artigo admirável sobre a Origem das Espécies ('Revue Horticole', p. 102; desde então parcialmente republicada em 'Nouvelles Archives du Muséum', tom. i. p. 171), sua crença em que as espécies são formadas de um modo análogo à que as variedades são sob cultivo e a último processo ele atribui ao poder da seleção pelo homem. Mas ele não mostra como a seleção age na natureza. Ele acredita, como o Deão Herbet, que as espécies, quando nascentes, eram mais plásticas que no presente. Ele põe peso no que ele chama de princípio da finalidde, "puissance mystérieuse, indéterminée; fatalité pour les uns; pour les autres, volonté providentielle, dont l'action incessante sur les êtres vivants détermine, à toutes les époques de l'existence du monde, la forme, le volume, et la durée de chacun d'eux, en raison de sa destinée dans l'ordre de choses dont il fait partie. C'est cette puissance qui harmonise chaque membre à l'ensemble en l'appropriant à la fonction qu'il doit remplier dans l'organisme général de la nature, fonction qui est pour lui sa raison d'être".*
*A partir de referências em 'Untersuchungen über die Entwickelungs-Gesetze' de Brunn parece que o celebrado botânico e paleontólogo Under publicou, em 1852, sua crença em que as espécies passam por desenvolvimento e modificação. D'Alton, do mesmo modo, no trabalho de Pander e d'Alton sobre Preguiças Fósseis, expressou, em 1821, uma crença similar. Visões similares, como é bem sabido, tem sido mantidas por Oken em seu místico 'Natur-Philosophie'. De outras referências no trabalho de Godron 'Sur l'Espèce', parece que Bory St. Vincent, Burdach, Poiret e Fries, todos admitiram que novas espécies estão sendo continuamente produzidas.
Eu posso acrescentar, que dos trinta e quatro autores nomeados neste Esboço Histórico, que acreditam na modificação das espécies ou, pelo menos, descrêem em atos de criação em separado, vinte e sete escreveram em ramos especiais de história natural ou geologia.
Parte 6
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
A origem 150 - parte 4 de 7
Parte 3
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
O Professor Owen, em 1849 (‘Nature of Limbs’, p. 86), escreveu o que se segue: -“A ideia arquetípica foi manifestada em carne sob tais modificações diversas, neste planeta, bem antes da existência destas espécies animais que atualmente as exemplificam. A que leis naturais ou causas secundárias se submetem a sucessão e progressão ordenada de tais fenômenos orgânicos, nós ainda ignoramos”. Em seu “Address” à “British Association”, em 1858, ele fala (p. ii.) “o axioma da operação contínua do poder criativo ou do vir a ser ordenado das coisas vivas”. Mais adiante (p. xc.), após se referir à distribuição geográfica, ele acrescenta, “Estes fenômenos abalam nossa confiança na conclusão de que o Apteryx da Nova Zelândia e Lagópode Vermelho da Inglaterra são criações distintas nestas e para estas ilhas respectivamente. Também sempre é possível se ter em mente que pela palavra ‘criação’ os zoólogos querem dizer ‘um processo que ele não sabe o quê’. Ele amplifica a ideia acrescentando que, quando tais casos como o do Lagópode Vermelho são “enumerados pelos zoólogos como evidência de criação distinta das aves nestas e para tais ilhas, ele principalmente expressa que ele não sabe como o Lagópode Vermelho foi parar lá e apenas lá; significando também, por esse modo de expressar tal ignorância, sua crença de que ambos, a ave e as ilhas, devem suas origens a uma grande primeira Causa Criativa”. Se interpretarmos essas sentenças proferidas na mesma Address, uma pela outra, parece que esse eminente filósofo sentiu em 1858 sua abalada sua confiança em que o Apteryx e o Lagópode Vermelho surgiram inicialmente em seus respectivos lares, ‘ele não sabe como’, ou por um processo que ‘ele não sabe o quê’ Desde a publicação em 1859 de meu trabalho em ‘A origem das espécies’, mas se em conseqüência disso é duvidoso, Professor Owen tem claramente expressado sua crença em que as espécies não foram criadas separadamente e não são produções imutáveis, mas ele ainda (‘Anatomy of the Vertebrates’, 1866) nega que saibamos as leis naturais ou as causas secundárias da aparição sucessiva das espécies; embora ao mesmo tempo ele admita que a seleção natural pode ter feito algo nesse sentido. É surpreendente que essa admissão não tenha sido feita antes, na medida que Professor Owen agora acredita ter promulgado a teoria da seleção natural em uma passagem lida diante da Zoological Society em fevereiro, 1850 (‘Transact.’ Vol. Iv. P. 15); em uma carta à ‘London Review’ (5 de maio, 1866, p. 516), comentando sobre alguma crítica dos revisores, ele disse: “Nenhum naturalista pode discordar da verdade de V. percepção da identidade essencial da passagem citada com base dessa teoria [chamada darwiniana], o poder, viz., das espécies em se acomodarem, or se curvarem às influências das circunstâncias do ambiente”. Mais adiante na mesma carta, ele fala de si mesmo como “o autor da mesma teoria no início de 1850”. Essa crença do Professor Owen que ele deu ao mundo a teoria da seleção natural surpreenderá todos aqueles que conhecem várias passagens de seus trabalhos, revisões e palestras, publicadas desde ‘A origem’, na qual ele vigorosamente se opõem à teoria e irá deleitar a todos os que se interessam neste lado da questão, conforme possa se presumir que sua oposição não irá cessar. Isso pode, no entanto, significar que a passagem acima referida no ‘Zoological Transactions’, conforme encontrei ao consultá-la, aplica-se exclusivamente à exterminação e preservação dos animais e, em nenhum modo, a sua modificação gradual, origem ou seleção natural. Tão remota a chance disso ser o caso que o Professor Owen na verdade inicial o primeiro de dois parágrafos (vol. iv. p. 15) com as seguintes palavras:-“Não temos nem uma partícula de evidência de que qualquer espécie de ave ou fera que viveu durante o período pliocênico tenha seus caracteres modificados em qualquer aspecto pela influência do tempo ou de mudanças das circunstâncias externas”.
Parte 5
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
O Professor Owen, em 1849 (‘Nature of Limbs’, p. 86), escreveu o que se segue: -“A ideia arquetípica foi manifestada em carne sob tais modificações diversas, neste planeta, bem antes da existência destas espécies animais que atualmente as exemplificam. A que leis naturais ou causas secundárias se submetem a sucessão e progressão ordenada de tais fenômenos orgânicos, nós ainda ignoramos”. Em seu “Address” à “British Association”, em 1858, ele fala (p. ii.) “o axioma da operação contínua do poder criativo ou do vir a ser ordenado das coisas vivas”. Mais adiante (p. xc.), após se referir à distribuição geográfica, ele acrescenta, “Estes fenômenos abalam nossa confiança na conclusão de que o Apteryx da Nova Zelândia e Lagópode Vermelho da Inglaterra são criações distintas nestas e para estas ilhas respectivamente. Também sempre é possível se ter em mente que pela palavra ‘criação’ os zoólogos querem dizer ‘um processo que ele não sabe o quê’. Ele amplifica a ideia acrescentando que, quando tais casos como o do Lagópode Vermelho são “enumerados pelos zoólogos como evidência de criação distinta das aves nestas e para tais ilhas, ele principalmente expressa que ele não sabe como o Lagópode Vermelho foi parar lá e apenas lá; significando também, por esse modo de expressar tal ignorância, sua crença de que ambos, a ave e as ilhas, devem suas origens a uma grande primeira Causa Criativa”. Se interpretarmos essas sentenças proferidas na mesma Address, uma pela outra, parece que esse eminente filósofo sentiu em 1858 sua abalada sua confiança em que o Apteryx e o Lagópode Vermelho surgiram inicialmente em seus respectivos lares, ‘ele não sabe como’, ou por um processo que ‘ele não sabe o quê’ Desde a publicação em 1859 de meu trabalho em ‘A origem das espécies’, mas se em conseqüência disso é duvidoso, Professor Owen tem claramente expressado sua crença em que as espécies não foram criadas separadamente e não são produções imutáveis, mas ele ainda (‘Anatomy of the Vertebrates’, 1866) nega que saibamos as leis naturais ou as causas secundárias da aparição sucessiva das espécies; embora ao mesmo tempo ele admita que a seleção natural pode ter feito algo nesse sentido. É surpreendente que essa admissão não tenha sido feita antes, na medida que Professor Owen agora acredita ter promulgado a teoria da seleção natural em uma passagem lida diante da Zoological Society em fevereiro, 1850 (‘Transact.’ Vol. Iv. P. 15); em uma carta à ‘London Review’ (5 de maio, 1866, p. 516), comentando sobre alguma crítica dos revisores, ele disse: “Nenhum naturalista pode discordar da verdade de V. percepção da identidade essencial da passagem citada com base dessa teoria [chamada darwiniana], o poder, viz., das espécies em se acomodarem, or se curvarem às influências das circunstâncias do ambiente”. Mais adiante na mesma carta, ele fala de si mesmo como “o autor da mesma teoria no início de 1850”. Essa crença do Professor Owen que ele deu ao mundo a teoria da seleção natural surpreenderá todos aqueles que conhecem várias passagens de seus trabalhos, revisões e palestras, publicadas desde ‘A origem’, na qual ele vigorosamente se opõem à teoria e irá deleitar a todos os que se interessam neste lado da questão, conforme possa se presumir que sua oposição não irá cessar. Isso pode, no entanto, significar que a passagem acima referida no ‘Zoological Transactions’, conforme encontrei ao consultá-la, aplica-se exclusivamente à exterminação e preservação dos animais e, em nenhum modo, a sua modificação gradual, origem ou seleção natural. Tão remota a chance disso ser o caso que o Professor Owen na verdade inicial o primeiro de dois parágrafos (vol. iv. p. 15) com as seguintes palavras:-“Não temos nem uma partícula de evidência de que qualquer espécie de ave ou fera que viveu durante o período pliocênico tenha seus caracteres modificados em qualquer aspecto pela influência do tempo ou de mudanças das circunstâncias externas”.
Parte 5
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
A origem 150 - parte 3 de 7
Parte 2
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
O celebrado geólogo e naturalista, Von Buch, em seu excelente ‘Description Physique des Iles Canaries’ (1836, p. 147), claramente expressa sua crença que as variedades lentamente se tornam modificadas permanentemente em espécies, que não são mais capazes de se intercruzar.
Rafinesque, em seu ‘New Flora of North America’, publicada em 1836,escreveu (p. 6) como sefue: - “Todas as espécies podem ter sido variedades uma vez, e muitas variedades estão gradualmente se tornam espécies ao assumirem caracteres constantes e peculiares:’ mas mais adiante (p. 18) ele acrescenta, “exceto os tipos originais dos ancestrais do gênero”.
Em 1843-44, Professor Haldeman (Boston Journal of Nat. Hist. U. States, v. iv. P. 468) habilmente apresentou argumentos prós e contras a hipótese do desenvolvimento e modificação das espécies: ele parece se inclinar para o lado da mudança.
O ‘Vestiges of Creation’ apareceu em 1844. Na décima e muito melhorada edição (1853) o autor anônimo diz (p. 155): - “A proposição determinada após muita consideração é que as várias séries de seres animados, do mais simples e velho ao mais alto e recente, são, sob a providência de Deus, o resultado, primeiro, de um impulso que foi dado às formas de vida, avançando as, em tempos definidos, através das gerações, ao longo de graus de organização terminando nas dicotiledôneas e vertebrados superiores, esses graus sendo pouco numerosos e geralmente marcados por intervalos de caracteres orgânicos, que descobrimos ser a dificuldade prática em atribuir afinidades; em segundo lugar, de outro impulso conectado às forças vitais, tendendo, ao longo das gerações, a modificar as estruturas orgânicas de acordo com as circunstâncias externas, como comida, a natureza do habitat e os agentes climáticos, esta sendo as ‘adaptações’ dos teólogos naturais”. O autor aparentemente acredita que a organização avança em saltos súbitos, mas que os efeitos produzidos pelas condições de vida são graduais. Ele argumenta com muito força sobre a base geral de que as espécies não são produções imutáveis. Mas não consigo ver como os dois supostos “impulsos” explicam em um sentido científico as numerosas e belas coadaptações que vemos em toda a natureza; não consigo ver então que ganhemos qualquer insight sobre como, por exemplo, um pica-pau se tornou adaptado a seu hábito de vida peculiar. O trabalho, por seu estilo poderoso e brilhante, embora exibindo em suas primeiras edições pouco conhecimento acurado e uma grande necessidade de cautela científica, imediatamente obteve uma ampla circulação. Em minha opinião, ele fez um excelente serviço neste país de chamar a atenção para o tema, em remover o preconceito e, assim, preparar o terreno para a recepção de visões análogas.
Em 1846, o geólogo veterano M. J. d’Omalius d’Halloy publicou um excelente, embora curto, artigo (‘Bulletins de l’Acad. Roy. Bruxelles’, tom. xiii, p. 581), sua opinião é que é mais provável que as novas espécies tenham sido produzidas por descendência com modificação, do que que elas tenha sido criadas em separado: o autor promulgou sua opinião inicialmente em 1831.
Parte 4
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
O celebrado geólogo e naturalista, Von Buch, em seu excelente ‘Description Physique des Iles Canaries’ (1836, p. 147), claramente expressa sua crença que as variedades lentamente se tornam modificadas permanentemente em espécies, que não são mais capazes de se intercruzar.
Rafinesque, em seu ‘New Flora of North America’, publicada em 1836,escreveu (p. 6) como sefue: - “Todas as espécies podem ter sido variedades uma vez, e muitas variedades estão gradualmente se tornam espécies ao assumirem caracteres constantes e peculiares:’ mas mais adiante (p. 18) ele acrescenta, “exceto os tipos originais dos ancestrais do gênero”.
Em 1843-44, Professor Haldeman (Boston Journal of Nat. Hist. U. States, v. iv. P. 468) habilmente apresentou argumentos prós e contras a hipótese do desenvolvimento e modificação das espécies: ele parece se inclinar para o lado da mudança.
O ‘Vestiges of Creation’ apareceu em 1844. Na décima e muito melhorada edição (1853) o autor anônimo diz (p. 155): - “A proposição determinada após muita consideração é que as várias séries de seres animados, do mais simples e velho ao mais alto e recente, são, sob a providência de Deus, o resultado, primeiro, de um impulso que foi dado às formas de vida, avançando as, em tempos definidos, através das gerações, ao longo de graus de organização terminando nas dicotiledôneas e vertebrados superiores, esses graus sendo pouco numerosos e geralmente marcados por intervalos de caracteres orgânicos, que descobrimos ser a dificuldade prática em atribuir afinidades; em segundo lugar, de outro impulso conectado às forças vitais, tendendo, ao longo das gerações, a modificar as estruturas orgânicas de acordo com as circunstâncias externas, como comida, a natureza do habitat e os agentes climáticos, esta sendo as ‘adaptações’ dos teólogos naturais”. O autor aparentemente acredita que a organização avança em saltos súbitos, mas que os efeitos produzidos pelas condições de vida são graduais. Ele argumenta com muito força sobre a base geral de que as espécies não são produções imutáveis. Mas não consigo ver como os dois supostos “impulsos” explicam em um sentido científico as numerosas e belas coadaptações que vemos em toda a natureza; não consigo ver então que ganhemos qualquer insight sobre como, por exemplo, um pica-pau se tornou adaptado a seu hábito de vida peculiar. O trabalho, por seu estilo poderoso e brilhante, embora exibindo em suas primeiras edições pouco conhecimento acurado e uma grande necessidade de cautela científica, imediatamente obteve uma ampla circulação. Em minha opinião, ele fez um excelente serviço neste país de chamar a atenção para o tema, em remover o preconceito e, assim, preparar o terreno para a recepção de visões análogas.
Em 1846, o geólogo veterano M. J. d’Omalius d’Halloy publicou um excelente, embora curto, artigo (‘Bulletins de l’Acad. Roy. Bruxelles’, tom. xiii, p. 581), sua opinião é que é mais provável que as novas espécies tenham sido produzidas por descendência com modificação, do que que elas tenha sido criadas em separado: o autor promulgou sua opinião inicialmente em 1831.
Parte 4
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
A origem 150 - parte 2 de 7
Parte 1
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
Geoffroy Saint Hilaire, como dito em seu ‘Life’, escrito por seu filho, suspeitava, já em 1795, que o que chamamos de espécies são várias degenerações de um mesmo tipo. Foi só em 1828 que ele publicou sua convicção que as mesmas formas não foram perpetuadas desde a origem de todas as coisas. Geoffroy parece ter se baseado principalmente nas condições de vida, ou “monde ambiant”, como causa da mudança. Ele foi cauteloso em tirar conclusões e não acreditava que as espécies existentes estivessem sofrendo modificações agora e, como seu filho acrescenta, “C’est donc um problème à réserver entièrement à l’avenir, supposé même que l’avenir doive avoir prise sur lui”.
Em 1813, Dr. W.C. Wells leu diante da Royal Society ‘An Account of a White Female, part of whose Skin resembles that of a Negro’, mas seu artigo não foi publicado até que seu famoso ‘Two Essays upon Dew and Single Vision’ aparecesse em 1818. Nesse artigo ele distintamente reconhece o princípio da seleção natural e este é o primeiro reconhecimento que foi indicado, mas ele o aplica somente às raças humanas e para somente para alguns caracteres. Depois de destacar que os negros e os mulatos têm uma imunidade à certas doenças tropicas, ele observa, primeiramente, que todos os animais tendem a variar em algum grau e, em segundo lugar, que os agricultores melhoram seus animais domésticos por seleção e então, ele acrescenta, mas o que é feito no último caso “pela arte, parece ser realizado com igual eficácia, embora mais lentamente, pela natureza, na formação de variedades da humanidade, ajustada às terras em que habitam. A partir de variedades acidentais no homem, que pode ocorrer entre os primeiros poucos e espalhados habitantes das regiões centrais da África, alguns seriam mais ajustado que outros a suportar as doenças desse país. Essa raça poderia consequentemente se multiplicar, enquanto outras diminuiriam; não apenas por sua inabilidade em barrar os ataques da doença, mas por sua incapacidade de enfrentar seus vizinhos mais vigorosos. A cor dessa raça vigorosa, tomo por garantido pelo que já foi dito, seria mais escura. Mas a mesma disposição para formar variedades ainda existem, uma raça mais e mais escura poderia surgir a medida que o tempo passasse; e a mais escura seria a mais bem ajustada ao clima, ela poderia ao longo do tempo se tornar mais prevalente, se não a única raça, em um dado país no qual se originou”. Ele então estende a mesma visão aos habitantes brancos de países mais frios. Estou em dívida com o Ver. Mr. Brace, dos EUA, por ter me chamado a atenção para a passagem acima do trabalho do Dr. Well.
O Hon. e Rer. W. Herbert, depois Deão de Manchester, no quarto volume de ‘Horticultural Transactions’, 1822, e em seu trabalho sobre as ‘Amaryllidaceae’ (1837, p. 19, 339), declara que “os experimentos horticulturais estabeleceram, além da possibilidade de refutação, que as espécies botânicas são apenas uma classe mais alta e mais permanente de variedades”. Ele estende a mesma visão aos animais. O Deão acredita que uma única espécie de cada gênero foi criada em uma condição original altamente plástica e que isso produziu, principalmente por intercruzamento, mas também por variação, todas as espécies existentes.
Em 1826, Professor Grant, no parágrafo final de seu bem conhecido artigo (‘Edinburgh Philosophical Journal’, vol. Xiv. P. 283) sobre Spongila, claramente declara sua crença de que as espécies são descendentes de outras espécies e que elas são melhoradas no curso da modificação. A mesma visão é dada em sua 55ª. Lecture, publicada em ‘Lancet’ em 1834.
Em 1831, Sr. Patrick Matthew publicou seu trabalho ‘Naval Timber and Arboticulture’, no qual ele apresenta precisamente a mesma visão sobre a origem das espécies que (atualmente a ser atribuída como) a proferida pelo Sr. Wallace e por mim na’Linnean Journal’ e como a ampliada neste presente volume. Infelizmente a visão foi dada pelo Sr. Matthew muito brevemente em passagens dispersas em um Apêndice de um trabalho de um assunto totalmente diverso, de modo que permaneceu sem ser notado até que o próprio Sr. Matthew chamou a atenção para ele no ‘Gardener’s Chronicle’ em 7 de abril, 1860. As diferenças da visão do Sr. Matthew da minha não são de muita importância: ele parece considerar que o mundo foi quase totalmente despovoado em períodos sucessivos e então repopulado e ele diz, como uma alternativa, que as novas formas podem ter sido geradas “sem a presença de nenhum limo ou germe de agregados predecessores”. Não estou certo de ter entendido certas passagens, mas parece que ele atribui muita influência da ação direta das condições de vida. Ele claramente viu, no entanto, a força total do princípio da seleção natural.
Parte 3
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies (cont.)
Geoffroy Saint Hilaire, como dito em seu ‘Life’, escrito por seu filho, suspeitava, já em 1795, que o que chamamos de espécies são várias degenerações de um mesmo tipo. Foi só em 1828 que ele publicou sua convicção que as mesmas formas não foram perpetuadas desde a origem de todas as coisas. Geoffroy parece ter se baseado principalmente nas condições de vida, ou “monde ambiant”, como causa da mudança. Ele foi cauteloso em tirar conclusões e não acreditava que as espécies existentes estivessem sofrendo modificações agora e, como seu filho acrescenta, “C’est donc um problème à réserver entièrement à l’avenir, supposé même que l’avenir doive avoir prise sur lui”.
Em 1813, Dr. W.C. Wells leu diante da Royal Society ‘An Account of a White Female, part of whose Skin resembles that of a Negro’, mas seu artigo não foi publicado até que seu famoso ‘Two Essays upon Dew and Single Vision’ aparecesse em 1818. Nesse artigo ele distintamente reconhece o princípio da seleção natural e este é o primeiro reconhecimento que foi indicado, mas ele o aplica somente às raças humanas e para somente para alguns caracteres. Depois de destacar que os negros e os mulatos têm uma imunidade à certas doenças tropicas, ele observa, primeiramente, que todos os animais tendem a variar em algum grau e, em segundo lugar, que os agricultores melhoram seus animais domésticos por seleção e então, ele acrescenta, mas o que é feito no último caso “pela arte, parece ser realizado com igual eficácia, embora mais lentamente, pela natureza, na formação de variedades da humanidade, ajustada às terras em que habitam. A partir de variedades acidentais no homem, que pode ocorrer entre os primeiros poucos e espalhados habitantes das regiões centrais da África, alguns seriam mais ajustado que outros a suportar as doenças desse país. Essa raça poderia consequentemente se multiplicar, enquanto outras diminuiriam; não apenas por sua inabilidade em barrar os ataques da doença, mas por sua incapacidade de enfrentar seus vizinhos mais vigorosos. A cor dessa raça vigorosa, tomo por garantido pelo que já foi dito, seria mais escura. Mas a mesma disposição para formar variedades ainda existem, uma raça mais e mais escura poderia surgir a medida que o tempo passasse; e a mais escura seria a mais bem ajustada ao clima, ela poderia ao longo do tempo se tornar mais prevalente, se não a única raça, em um dado país no qual se originou”. Ele então estende a mesma visão aos habitantes brancos de países mais frios. Estou em dívida com o Ver. Mr. Brace, dos EUA, por ter me chamado a atenção para a passagem acima do trabalho do Dr. Well.
O Hon. e Rer. W. Herbert, depois Deão de Manchester, no quarto volume de ‘Horticultural Transactions’, 1822, e em seu trabalho sobre as ‘Amaryllidaceae’ (1837, p. 19, 339), declara que “os experimentos horticulturais estabeleceram, além da possibilidade de refutação, que as espécies botânicas são apenas uma classe mais alta e mais permanente de variedades”. Ele estende a mesma visão aos animais. O Deão acredita que uma única espécie de cada gênero foi criada em uma condição original altamente plástica e que isso produziu, principalmente por intercruzamento, mas também por variação, todas as espécies existentes.
Em 1826, Professor Grant, no parágrafo final de seu bem conhecido artigo (‘Edinburgh Philosophical Journal’, vol. Xiv. P. 283) sobre Spongila, claramente declara sua crença de que as espécies são descendentes de outras espécies e que elas são melhoradas no curso da modificação. A mesma visão é dada em sua 55ª. Lecture, publicada em ‘Lancet’ em 1834.
Em 1831, Sr. Patrick Matthew publicou seu trabalho ‘Naval Timber and Arboticulture’, no qual ele apresenta precisamente a mesma visão sobre a origem das espécies que (atualmente a ser atribuída como) a proferida pelo Sr. Wallace e por mim na’Linnean Journal’ e como a ampliada neste presente volume. Infelizmente a visão foi dada pelo Sr. Matthew muito brevemente em passagens dispersas em um Apêndice de um trabalho de um assunto totalmente diverso, de modo que permaneceu sem ser notado até que o próprio Sr. Matthew chamou a atenção para ele no ‘Gardener’s Chronicle’ em 7 de abril, 1860. As diferenças da visão do Sr. Matthew da minha não são de muita importância: ele parece considerar que o mundo foi quase totalmente despovoado em períodos sucessivos e então repopulado e ele diz, como uma alternativa, que as novas formas podem ter sido geradas “sem a presença de nenhum limo ou germe de agregados predecessores”. Não estou certo de ter entendido certas passagens, mas parece que ele atribui muita influência da ação direta das condições de vida. Ele claramente viu, no entanto, a força total do princípio da seleção natural.
Parte 3
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
A origem 150 - parte 1 de 7
Charles Robert Darwin sem dúvida merece todas as homenagens feitas neste ano Darwin. Com a semana em que se completam 150 anos da publicação original de "A origem das espécies" muitos eventos estão programados (confira aqui e aqui alguns).
Quero aproveitar a efeméride para falar de alguns pontos que podem acabar um tanto obscurecidos com o brilho de Mr. Darwin. E quem melhor senão o próprio para falar do contexto histórico e dos predecessores da teoria da evolução por seleção natural?
----------------------------
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies
(On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life 4th edition. With additions and corrections (eighth thousand).)
Eu farei um esboço breve, porém imperfeito, do progresso da opinião a respeito da Origem das Espécies. A maioria dos naturalistas crê que as espécies são produções imutáveis e foram criadas em separado. Esta visão tem sido habilmente mantida por muitos autores. Alguns poucos naturalistas, por outro lado, acreditam que as espécies sofrem modificação e que as formas de vida existentes são descendentes por real geração de formas preexistentes. Deixando de lado alusões sobre o tema em autores clássicos*, o primeiro autor em tempos modernos a tratá-lo em um espírito científico foi Buffon. Mas suas opiniões variaram enormente em diferentes períodos e ele não se ateve às causas ou meios da transformação das espécies, não preciso detalhar aqui.
*Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), “Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem”. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.
Lamarck foi o primeiro cujas conclusões sobre o tema atraiu muita atenção. O, justamente, celebrado naturalista publicou sua visão inicialmente em 1801; ele a ampliou muito em 1809 em seu ‘Philosophie Zoologique’ e, posteriormente, em 1815, na Introdução de seu ‘Hist. Nat. des Animaux sans Vertèbres’. Nesses trabalhos ele sustenta a doutrina que todas as espécies, incluindo o homem, são descendentes de outras espécies. Ele primeiro fez o eminente serviço de atrair atenção à possibilidade de todas as mudanças no mundo orgânico, bem como no inorgânico, serem resultado de leis naturais e não de uma intervenção milagrosa. Lamarck parece ter sido levado a sua conclusão da mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies de variedades, pela quase perfeita gradação de formas em certos grupos e por analogia à produção doméstica. A respeito dos modos de modificação, atribui a alguma coisa à ação direta das condições físicas de vida, alguma coisa ao cruzamento de formas já existentes de vida e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. Para esta última causa, ele parece ter atribuído todas belas adaptações na natureza; - como o longo pescoço da girafa para comer as folhas dos galhos das árvores. Mas ele também acreditava na lei do desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem, então, ao progresso, a fim de explicar a existência no presente de produções simples, ele sustenta que tais formas são agora produzidas espontaneamente.*
*A data da primeira publicação de Lamarck peguei da obra de Isid. Geoffroy Saint Hilaire (‘Hist. Nat. Générale’, tom. ii, p. 405, 1859), excelente história da opinião sobre o tema. Em seu trabalho um detalhamento total é dado às conclusões de Buffon sobre o tema. É curioso quão amplamente meu avô, Dr. Erasmus Darwin, antecipou as visões e as errôneas bases da opinião de Lamarck em seu ‘Zoonomia’ (vol. i. pp. 500-510), publicado em 1794. De acordo com Isid. Geoffroy não há dúvidas que Goethe foi um partidário extremista de visões similares, como mostrado na Introdução de um trabalho escrito em 1794 e 1795, mas não publicado até muito tempo depois: ele observou pertinentemente (Goethe als Naturforscher, von Dr. Karl Meding, s. 34) que a questão futura dos naturalistas seria como, por exemplo, o gado ganhou seus chifres, e não para que eles são usados. Isso é um exemplo algo singular da maneira pela qual ideias similares surgem mais ou menos ao mesmo tempo, que Goethe na Alemanha, Dr. Darwin na Inglaterra e Geoffroy Saint Hilaire (como veremos logo) na França, chegaram à mesma conclusão sobre a origem das espécies, nos anos de 1794-5.
Parte 2
Quero aproveitar a efeméride para falar de alguns pontos que podem acabar um tanto obscurecidos com o brilho de Mr. Darwin. E quem melhor senão o próprio para falar do contexto histórico e dos predecessores da teoria da evolução por seleção natural?
----------------------------
Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies
(On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life 4th edition. With additions and corrections (eighth thousand).)
Eu farei um esboço breve, porém imperfeito, do progresso da opinião a respeito da Origem das Espécies. A maioria dos naturalistas crê que as espécies são produções imutáveis e foram criadas em separado. Esta visão tem sido habilmente mantida por muitos autores. Alguns poucos naturalistas, por outro lado, acreditam que as espécies sofrem modificação e que as formas de vida existentes são descendentes por real geração de formas preexistentes. Deixando de lado alusões sobre o tema em autores clássicos*, o primeiro autor em tempos modernos a tratá-lo em um espírito científico foi Buffon. Mas suas opiniões variaram enormente em diferentes períodos e ele não se ateve às causas ou meios da transformação das espécies, não preciso detalhar aqui.
*Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), “Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem”. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.
Lamarck foi o primeiro cujas conclusões sobre o tema atraiu muita atenção. O, justamente, celebrado naturalista publicou sua visão inicialmente em 1801; ele a ampliou muito em 1809 em seu ‘Philosophie Zoologique’ e, posteriormente, em 1815, na Introdução de seu ‘Hist. Nat. des Animaux sans Vertèbres’. Nesses trabalhos ele sustenta a doutrina que todas as espécies, incluindo o homem, são descendentes de outras espécies. Ele primeiro fez o eminente serviço de atrair atenção à possibilidade de todas as mudanças no mundo orgânico, bem como no inorgânico, serem resultado de leis naturais e não de uma intervenção milagrosa. Lamarck parece ter sido levado a sua conclusão da mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies de variedades, pela quase perfeita gradação de formas em certos grupos e por analogia à produção doméstica. A respeito dos modos de modificação, atribui a alguma coisa à ação direta das condições físicas de vida, alguma coisa ao cruzamento de formas já existentes de vida e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. Para esta última causa, ele parece ter atribuído todas belas adaptações na natureza; - como o longo pescoço da girafa para comer as folhas dos galhos das árvores. Mas ele também acreditava na lei do desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem, então, ao progresso, a fim de explicar a existência no presente de produções simples, ele sustenta que tais formas são agora produzidas espontaneamente.*
*A data da primeira publicação de Lamarck peguei da obra de Isid. Geoffroy Saint Hilaire (‘Hist. Nat. Générale’, tom. ii, p. 405, 1859), excelente história da opinião sobre o tema. Em seu trabalho um detalhamento total é dado às conclusões de Buffon sobre o tema. É curioso quão amplamente meu avô, Dr. Erasmus Darwin, antecipou as visões e as errôneas bases da opinião de Lamarck em seu ‘Zoonomia’ (vol. i. pp. 500-510), publicado em 1794. De acordo com Isid. Geoffroy não há dúvidas que Goethe foi um partidário extremista de visões similares, como mostrado na Introdução de um trabalho escrito em 1794 e 1795, mas não publicado até muito tempo depois: ele observou pertinentemente (Goethe als Naturforscher, von Dr. Karl Meding, s. 34) que a questão futura dos naturalistas seria como, por exemplo, o gado ganhou seus chifres, e não para que eles são usados. Isso é um exemplo algo singular da maneira pela qual ideias similares surgem mais ou menos ao mesmo tempo, que Goethe na Alemanha, Dr. Darwin na Inglaterra e Geoffroy Saint Hilaire (como veremos logo) na França, chegaram à mesma conclusão sobre a origem das espécies, nos anos de 1794-5.
Parte 2
Marcadores:
Darwin,
evolução,
seleção natural,
wallace
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Darwin hoje
O que Darwin estaria fazendo se estivesse vivo? (Não, não vale: "arranhando a tampa do caixão".)
Difícil dizer. Mas duas iniciativas tentam trazer os relatos do Beagle para os tempos atuais - ao menos nos meios de comunicação. Em vez de longas cartas enviadas pelos navios da frota de Sua Majestade, um blogue e tweets (via @besteves).
De todo modo, os textos originais ainda são imperdíveis. Para suas obras completas e muito mais: aqui.
Difícil dizer. Mas duas iniciativas tentam trazer os relatos do Beagle para os tempos atuais - ao menos nos meios de comunicação. Em vez de longas cartas enviadas pelos navios da frota de Sua Majestade, um blogue e tweets (via @besteves).
De todo modo, os textos originais ainda são imperdíveis. Para suas obras completas e muito mais: aqui.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Darwin 200: HQ
Tomei conhecimento do trabalho pelo blogue Discutindo Ecologia, há coisa de três semanas.
Os artistas Simon Gurr e Eugene Byrne criaram uma biografia de Charles Darwin na forma de quadrinhos - ou, em termos eisnerianos, arte sequencial - sob auspícios do projeto Darwin 200 do Museu de História Natural de Londres em parceria com a Bristol Cultural Development Partnership.
O livro não é vendido, mas distribuído gratuitamente em vários locais: escolas, bibliotecas, grupos de leitura - britânicos, naturalmente. Consegui um exemplar com Gurr, que gentilmente enviou-me uma cópia.
Impresso em papel de qualidade com muitas ilustrações (preto e branco) baseadas em fotografias históricas, a narrativa conta, como era de se esperar, com toques do legítimo humor britânico: à página 7, em nota de rodapé a respeito da expressão "vespas amigáveis", uma série de observações - "Isto é uma piada. Vespas não são amigáveis. Se você perturbar uma vespa, ela o picará."; "Sim, sabemos que você sabe que vespas picam. Mas o pessoal de Segurança & Saúde disse que deveríamos alertá-lo de qualquer modo."; "E também que poderíamos ser processados. Se alguma criança fosse picada depois de ler isso, seus pais poderiam querer nos processar em um milhão de libras pelo tempo que tiveram que gastar beijando-a mais."; "Isto é, beijando mais a criança, não a vespa. Óbvio."; "Não beije vespas. Sério. Não beije."
A narração é sob a perspectiva de um grupo de documentaristas da natureza. Mas em lugar de Sir David Attenborough, Jeff Corwin ou do finado Steve Irwin, uma equipe de primatas: a orangotango Jenny e o gorila Dave como apresentadores, o chimpanzé Tony como diretor e a ai-ai (ou aie-aie) Helen como editora; além de prestativos lêmures-de-cauda-anelada em diversas funções: cinegrafista, contrarregra, assistente...
Há um pecadilho ou outro. Na página 87: "Darwin's other big problem was that he had no idea how natural selection happens. What causes de changes - the longer necks, the bigger claws, the camouflage colours etc. - that enable evolution." Aqui, o texto parece misturar seleção natural - que Darwin sabia muito bem como operava, na forma de competição intraespecífica por recursos como alimentos, abrigo, parceiros reprodutivos, etc. - com a origem das variedades.
Mas no geral o resultado é excelente. Seria muito bom se pudessem traduzir para o português e distribuir às escolas da rede pública brasileira.
Os artistas Simon Gurr e Eugene Byrne criaram uma biografia de Charles Darwin na forma de quadrinhos - ou, em termos eisnerianos, arte sequencial - sob auspícios do projeto Darwin 200 do Museu de História Natural de Londres em parceria com a Bristol Cultural Development Partnership.
O livro não é vendido, mas distribuído gratuitamente em vários locais: escolas, bibliotecas, grupos de leitura - britânicos, naturalmente. Consegui um exemplar com Gurr, que gentilmente enviou-me uma cópia.
Impresso em papel de qualidade com muitas ilustrações (preto e branco) baseadas em fotografias históricas, a narrativa conta, como era de se esperar, com toques do legítimo humor britânico: à página 7, em nota de rodapé a respeito da expressão "vespas amigáveis", uma série de observações - "Isto é uma piada. Vespas não são amigáveis. Se você perturbar uma vespa, ela o picará."; "Sim, sabemos que você sabe que vespas picam. Mas o pessoal de Segurança & Saúde disse que deveríamos alertá-lo de qualquer modo."; "E também que poderíamos ser processados. Se alguma criança fosse picada depois de ler isso, seus pais poderiam querer nos processar em um milhão de libras pelo tempo que tiveram que gastar beijando-a mais."; "Isto é, beijando mais a criança, não a vespa. Óbvio."; "Não beije vespas. Sério. Não beije."
A narração é sob a perspectiva de um grupo de documentaristas da natureza. Mas em lugar de Sir David Attenborough, Jeff Corwin ou do finado Steve Irwin, uma equipe de primatas: a orangotango Jenny e o gorila Dave como apresentadores, o chimpanzé Tony como diretor e a ai-ai (ou aie-aie) Helen como editora; além de prestativos lêmures-de-cauda-anelada em diversas funções: cinegrafista, contrarregra, assistente...
Há um pecadilho ou outro. Na página 87: "Darwin's other big problem was that he had no idea how natural selection happens. What causes de changes - the longer necks, the bigger claws, the camouflage colours etc. - that enable evolution." Aqui, o texto parece misturar seleção natural - que Darwin sabia muito bem como operava, na forma de competição intraespecífica por recursos como alimentos, abrigo, parceiros reprodutivos, etc. - com a origem das variedades.
Mas no geral o resultado é excelente. Seria muito bom se pudessem traduzir para o português e distribuir às escolas da rede pública brasileira.
Marcadores:
Darwin,
evolução,
quadrinhos
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Semana Darwin 200 - II
Em geral gosto dos textos do jornalista Herton Escobar. Oquei, às vezes ele dá um certo exagero nas simplificações - mas quem nunca não erra a mão?
Na reportagem de ontem (dia 11), ele abriu com um clichê velho: "Se fulano estivesse vivo completaria hoje...". Além de clichê, é um tanto absurdo: "Se Charles Darwin estivesse vivo para comemorar seu aniversário de 200 anos, hoje, é provável que haveria protestos diante de sua casa". Tirante O Homem Bicentenário do conto de Azimov (e isso porque ele era um robô), as pessoas mais longevas vão pela casa dos 120 - alguns falam em 130 anos - (em geral são as mulheres que vivem mais).
Marcelo Leite foi um pouco mais irônico: "Charles Darwin completaria hoje 200 anos, não fosse pela seleção natural. Ela, afinal, é a maior responsável pelo barroco processo de desenvolvimento que leva os organismos complexos inexoravelmente à morte - conceito que não se aplica muito a bactérias e arqueobactérias, seres que se reproduzem gerando clones de si próprios, partilham identidades com a transferência horizontal de genes e podem ficar milênios em vida suspensa (no gelo, por exemplo)."
Bem, não posso deixar de recorrer à velha piada: P - o que Darwin estaria fazendo se estivesse vivo hoje? R - arranhando a tampa de seu caixão.
Na reportagem de ontem (dia 11), ele abriu com um clichê velho: "Se fulano estivesse vivo completaria hoje...". Além de clichê, é um tanto absurdo: "Se Charles Darwin estivesse vivo para comemorar seu aniversário de 200 anos, hoje, é provável que haveria protestos diante de sua casa". Tirante O Homem Bicentenário do conto de Azimov (e isso porque ele era um robô), as pessoas mais longevas vão pela casa dos 120 - alguns falam em 130 anos - (em geral são as mulheres que vivem mais).
Marcelo Leite foi um pouco mais irônico: "Charles Darwin completaria hoje 200 anos, não fosse pela seleção natural. Ela, afinal, é a maior responsável pelo barroco processo de desenvolvimento que leva os organismos complexos inexoravelmente à morte - conceito que não se aplica muito a bactérias e arqueobactérias, seres que se reproduzem gerando clones de si próprios, partilham identidades com a transferência horizontal de genes e podem ficar milênios em vida suspensa (no gelo, por exemplo)."
Bem, não posso deixar de recorrer à velha piada: P - o que Darwin estaria fazendo se estivesse vivo hoje? R - arranhando a tampa de seu caixão.
Marcadores:
aniversário,
Darwin
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Semana Darwin 200
Ano Darwin, 200 anos do nascimento do naturalista inglês e 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies".
Esta semana - dia 12 de feveiro - comemora-se o ducentésimo aniversário de Charles Darwin. Como esperado, muito material publicado na imprensa para comemorar a efeméride. De modo geral, estão bem apurados e procuram contextualizar o trabalho original de Darwin (alguns ainda se lembram de que Alfred Wallace também chegou de modo independente à concepção da evolução biológica por seleção natural).
Há, no entanto, algumas falhas mais ou menos recorrentes. Vamos analisar uma parte delas.
A revista Veja desta semana preparou uma reportagem especial para data. A Darwin o que é de Darwin... de Gabriela Carelli com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes. Está boa e merece ser lida, mas comentarei apenas os trechos em que há um ou outro deslize na minha avaliação.
"A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir."
Lembra muito bem que há coisas que as ciências ainda não conseguem responder (se é que um dia conseguirá). O que houve antes do Big Bang - se é que houve o antes - é algo, sim, ainda fora dos limites das ciências (embora haja alguns modelos). Porém, há erro ao dizer que, só depois dos três minutos "iniciais", tem-se noção do que deve ter ocorrido: vide, por exemplo, o já velhinho, mas ainda bastante acurado: "Os três primeiros minutos", do nobelista Steven Weinberg (em português, há uma edição da Gradiva de 2002, importada). O problema ocorre antes do tempo de Planck - cerca de 10-43 segundo.
"Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos."
Aqui uma observação sem maior importância - o trecho dá a entender que no livro há a estimativa da data divergência. Essa idade só seria estimada muito depois. Naturalmente, na época de Darwin não se conheciam os elementos radioativos para se fazerem as datações absolutas dos estratos fossilíferos - A Ascendência do Homem é de 1871, a radioatividade seria descoberta por Becquerel em 1896. A melhor estimativa da idade do planeta era de algumas centenas de milhares de anos, feita pelo físico Lord Kelvin.
"O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos"
Devemos nos lembrar de que Darwin especificamente não se ateve à questão do pescoço da girafa. E atualmente há controvérsias em relação ao cenário evolutivo da origem do pescoço longo do animal. Esse trecho também perpetua o preconceito a respeito de Lamarck, um importantíssimo biólogo (e ele foi um dos primeiros a empregar o termo Biologia para designar a área do conhecimento a respeito dos seres vivos) - de fato, o mecanismo elaborado por Lamarck para explicar a evolução é, pelo que sabemos hoje, equivocado. Mas há muito mérito no cientista francês em haver elaborado um processo de explicação natural para a evolução. (É importante também salientar que a questão da lei do uso e desuso e herança de caracteres adquiridos é totalmente secundário às idéias de Lamarck sobre evolução, apesar dessas duas leis serem atualmente usadas para caracterizar algo que se chama lamarquismo.)
"Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível."
O trecho dá a entender que Darwin concebeu a idéia da evolução por seleção natural nas próprias Galápagos. Na verdade, Darwin nem sequer havia notado a diversidade dos tentilhões entre as ilhas - achou que fossem todas iguais. Tanto é que não teve o cuidado de etiquetar as amostras por ilhas. A diversidade só ficou patente na volta, quando os espécimes foram preparados para a descrição pelo ornitólogo John Gould. Darwin teve que recorrer aos espécimes mais bem identificados das coleções feitas por seus companheiros de viagem: FitzRoy, Fuller e Covington.
"Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico."
Não foi bem a evolução em si que foi registrada ocorrer de um ano para o outro. E, sim, o processo de seleção natural - principalmente em função da maior ou menor intensidade das chuvas. Parece picuinha, mas ter em mente a distinção entre evolução e seleção natural é importante.
"Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin foi amadurecendo a teoria da evolução e começou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante. Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna."
Há controvérsias em relação ao motivo do atraso na publicação das idéias. Vide: John van Wyhe 2007 - 'Mind the gap: Did Darwin avoid publishing his theory for many years?' Notes and Records of the Royal Society 61: 177-205. Nesse trabalho, o autor sustenta que a postergação da publicação se deu pelo fato de Darwin simplesmente ter se mantido muito ocupado com seus estudos - sobretudo pela descrição das cracas.
"A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953."
De fato Darwin concebeu a idéia de seleção natural como motora da evolução. Mas é importante salientar que pelo menos outras quatro pessoas, de modo independente, acabaram também chegar a idéias muito similares se não idênticas. O mais conhecido é o trabalho de Alfred Wallace, que acabou sendo apresentado juntamente com o resumo de Darwin na Linnean Society. Mas Edward Blyth, Patrick Matthew e William Charles Wells também elaboraram hipóteses parecidas. Claro que isso não diminui em nada o trabalho de Darwin, que procurou juntar indícios das mais diversas naturezas: biogeografia, paleontologia, embriologia e criação comercial - para sustentar solidamente os argumentos em favor da evolução por seleção natural.
E a seleção natural, na verdade foi aceita bem antes, com a Nova Síntese - entre as décadas de 1930 e 1940. A estrutura do ADN em si não tem muita coisa a ver com seleção natural - "apenas" revelava o modo de transmissão de características, que não era vital à teoria da evolução por seleção natural.
"Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam [...] hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações."
Na verdade, as idéias de Mendel iam *contra* as idéias de transmissão de características de Darwin - daí a importância da Síntese Moderna, que conciliou a teoria da evolução por seleção natural com a genética mendeliana. A pangênese darwiniana preconizava uma mistura de características e não a herança de fatores que se mantinha discretos (ou pelo menos que se segregavam).
Esta semana - dia 12 de feveiro - comemora-se o ducentésimo aniversário de Charles Darwin. Como esperado, muito material publicado na imprensa para comemorar a efeméride. De modo geral, estão bem apurados e procuram contextualizar o trabalho original de Darwin (alguns ainda se lembram de que Alfred Wallace também chegou de modo independente à concepção da evolução biológica por seleção natural).
Há, no entanto, algumas falhas mais ou menos recorrentes. Vamos analisar uma parte delas.
A revista Veja desta semana preparou uma reportagem especial para data. A Darwin o que é de Darwin... de Gabriela Carelli com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes. Está boa e merece ser lida, mas comentarei apenas os trechos em que há um ou outro deslize na minha avaliação.
"A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir."
Lembra muito bem que há coisas que as ciências ainda não conseguem responder (se é que um dia conseguirá). O que houve antes do Big Bang - se é que houve o antes - é algo, sim, ainda fora dos limites das ciências (embora haja alguns modelos). Porém, há erro ao dizer que, só depois dos três minutos "iniciais", tem-se noção do que deve ter ocorrido: vide, por exemplo, o já velhinho, mas ainda bastante acurado: "Os três primeiros minutos", do nobelista Steven Weinberg (em português, há uma edição da Gradiva de 2002, importada). O problema ocorre antes do tempo de Planck - cerca de 10-43 segundo.
"Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos."
Aqui uma observação sem maior importância - o trecho dá a entender que no livro há a estimativa da data divergência. Essa idade só seria estimada muito depois. Naturalmente, na época de Darwin não se conheciam os elementos radioativos para se fazerem as datações absolutas dos estratos fossilíferos - A Ascendência do Homem é de 1871, a radioatividade seria descoberta por Becquerel em 1896. A melhor estimativa da idade do planeta era de algumas centenas de milhares de anos, feita pelo físico Lord Kelvin.
"O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos"
Devemos nos lembrar de que Darwin especificamente não se ateve à questão do pescoço da girafa. E atualmente há controvérsias em relação ao cenário evolutivo da origem do pescoço longo do animal. Esse trecho também perpetua o preconceito a respeito de Lamarck, um importantíssimo biólogo (e ele foi um dos primeiros a empregar o termo Biologia para designar a área do conhecimento a respeito dos seres vivos) - de fato, o mecanismo elaborado por Lamarck para explicar a evolução é, pelo que sabemos hoje, equivocado. Mas há muito mérito no cientista francês em haver elaborado um processo de explicação natural para a evolução. (É importante também salientar que a questão da lei do uso e desuso e herança de caracteres adquiridos é totalmente secundário às idéias de Lamarck sobre evolução, apesar dessas duas leis serem atualmente usadas para caracterizar algo que se chama lamarquismo.)
"Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível."
O trecho dá a entender que Darwin concebeu a idéia da evolução por seleção natural nas próprias Galápagos. Na verdade, Darwin nem sequer havia notado a diversidade dos tentilhões entre as ilhas - achou que fossem todas iguais. Tanto é que não teve o cuidado de etiquetar as amostras por ilhas. A diversidade só ficou patente na volta, quando os espécimes foram preparados para a descrição pelo ornitólogo John Gould. Darwin teve que recorrer aos espécimes mais bem identificados das coleções feitas por seus companheiros de viagem: FitzRoy, Fuller e Covington.
"Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico."
Não foi bem a evolução em si que foi registrada ocorrer de um ano para o outro. E, sim, o processo de seleção natural - principalmente em função da maior ou menor intensidade das chuvas. Parece picuinha, mas ter em mente a distinção entre evolução e seleção natural é importante.
"Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin foi amadurecendo a teoria da evolução e começou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante. Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna."
Há controvérsias em relação ao motivo do atraso na publicação das idéias. Vide: John van Wyhe 2007 - 'Mind the gap: Did Darwin avoid publishing his theory for many years?' Notes and Records of the Royal Society 61: 177-205. Nesse trabalho, o autor sustenta que a postergação da publicação se deu pelo fato de Darwin simplesmente ter se mantido muito ocupado com seus estudos - sobretudo pela descrição das cracas.
"A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953."
De fato Darwin concebeu a idéia de seleção natural como motora da evolução. Mas é importante salientar que pelo menos outras quatro pessoas, de modo independente, acabaram também chegar a idéias muito similares se não idênticas. O mais conhecido é o trabalho de Alfred Wallace, que acabou sendo apresentado juntamente com o resumo de Darwin na Linnean Society. Mas Edward Blyth, Patrick Matthew e William Charles Wells também elaboraram hipóteses parecidas. Claro que isso não diminui em nada o trabalho de Darwin, que procurou juntar indícios das mais diversas naturezas: biogeografia, paleontologia, embriologia e criação comercial - para sustentar solidamente os argumentos em favor da evolução por seleção natural.
E a seleção natural, na verdade foi aceita bem antes, com a Nova Síntese - entre as décadas de 1930 e 1940. A estrutura do ADN em si não tem muita coisa a ver com seleção natural - "apenas" revelava o modo de transmissão de características, que não era vital à teoria da evolução por seleção natural.
"Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam [...] hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações."
Na verdade, as idéias de Mendel iam *contra* as idéias de transmissão de características de Darwin - daí a importância da Síntese Moderna, que conciliou a teoria da evolução por seleção natural com a genética mendeliana. A pangênese darwiniana preconizava uma mistura de características e não a herança de fatores que se mantinha discretos (ou pelo menos que se segregavam).
Assinar:
Postagens (Atom)