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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A origem 150 - parte 1 de 7

Charles Robert Darwin sem dúvida merece todas as homenagens feitas neste ano Darwin. Com a semana em que se completam 150 anos da publicação original de "A origem das espécies" muitos eventos estão programados (confira aqui e aqui alguns).

Quero aproveitar a efeméride para falar de alguns pontos que podem acabar um tanto obscurecidos com o brilho de Mr. Darwin. E quem melhor senão o próprio para falar do contexto histórico e dos predecessores da teoria da evolução por seleção natural?

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Um esboço histórico do progresso recente da opinião a respeito da Origem das Espécies

(On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life 4th edition. With additions and corrections (eighth thousand).)

Eu farei um esboço breve, porém imperfeito, do progresso da opinião a respeito da Origem das Espécies. A maioria dos naturalistas crê que as espécies são produções imutáveis e foram criadas em separado. Esta visão tem sido habilmente mantida por muitos autores. Alguns poucos naturalistas, por outro lado, acreditam que as espécies sofrem modificação e que as formas de vida existentes são descendentes por real geração de formas preexistentes. Deixando de lado alusões sobre o tema em autores clássicos*, o primeiro autor em tempos modernos a tratá-lo em um espírito científico foi Buffon. Mas suas opiniões variaram enormente em diferentes períodos e ele não se ateve às causas ou meios da transformação das espécies, não preciso detalhar aqui.

*Aristóteles, em seu ‘Phisicae Auscultations’ (lib. 2, cap. 8, s. 2), após destacar que a chuva não cai para fazer o grão crescer mais do que cai para estragar os grãos ao fazendeiro quando da colheita, aplica o mesmo argumento à organização; e acrescenta (conforme tradução do Sr. Clair Greece, que foi o primeiro a apresentar a passagem a mim), “Então o que impede às diferentes partes [do corpo] de ter tal relação meramente casual na natureza? como o dente, por exemplo, que cresce por necessidade, os frontais aguçados, adaptados a serem cravados, e os molares achatados e prestimosos para mastigar alimentos; uma vez que eles não foram feitos para esse propósito, mas são o resultado de acidente. E de um modo parecido com outras partes nas quais parece existir uma adaptação para um fim. Onde quer que, então, todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo) ocorrem como se feitas para alguma coisa, elas são preservadas, tendo sido apropriadamente constituídas por uma espontaneidade interna; e sempre que as coisas não forma assim constituídas, pereceram, e ainda perecem”. Aqui vemos o princípio da seleção natural prenunciada, mas o quão pouco Aristóteles compreendeu o princípio em sua totalidade é demonstrado por suas observações sobre a formação dos dentes.

Lamarck foi o primeiro cujas conclusões sobre o tema atraiu muita atenção. O, justamente, celebrado naturalista publicou sua visão inicialmente em 1801; ele a ampliou muito em 1809 em seu ‘Philosophie Zoologique’ e, posteriormente, em 1815, na Introdução de seu ‘Hist. Nat. des Animaux sans Vertèbres’. Nesses trabalhos ele sustenta a doutrina que todas as espécies, incluindo o homem, são descendentes de outras espécies. Ele primeiro fez o eminente serviço de atrair atenção à possibilidade de todas as mudanças no mundo orgânico, bem como no inorgânico, serem resultado de leis naturais e não de uma intervenção milagrosa. Lamarck parece ter sido levado a sua conclusão da mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies de variedades, pela quase perfeita gradação de formas em certos grupos e por analogia à produção doméstica. A respeito dos modos de modificação, atribui a alguma coisa à ação direta das condições físicas de vida, alguma coisa ao cruzamento de formas já existentes de vida e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. Para esta última causa, ele parece ter atribuído todas belas adaptações na natureza; - como o longo pescoço da girafa para comer as folhas dos galhos das árvores. Mas ele também acreditava na lei do desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem, então, ao progresso, a fim de explicar a existência no presente de produções simples, ele sustenta que tais formas são agora produzidas espontaneamente.*

*A data da primeira publicação de Lamarck peguei da obra de Isid. Geoffroy Saint Hilaire (‘Hist. Nat. Générale’, tom. ii, p. 405, 1859), excelente história da opinião sobre o tema. Em seu trabalho um detalhamento total é dado às conclusões de Buffon sobre o tema. É curioso quão amplamente meu avô, Dr. Erasmus Darwin, antecipou as visões e as errôneas bases da opinião de Lamarck em seu ‘Zoonomia’ (vol. i. pp. 500-510), publicado em 1794. De acordo com Isid. Geoffroy não há dúvidas que Goethe foi um partidário extremista de visões similares, como mostrado na Introdução de um trabalho escrito em 1794 e 1795, mas não publicado até muito tempo depois: ele observou pertinentemente (Goethe als Naturforscher, von Dr. Karl Meding, s. 34) que a questão futura dos naturalistas seria como, por exemplo, o gado ganhou seus chifres, e não para que eles são usados. Isso é um exemplo algo singular da maneira pela qual ideias similares surgem mais ou menos ao mesmo tempo, que Goethe na Alemanha, Dr. Darwin na Inglaterra e Geoffroy Saint Hilaire (como veremos logo) na França, chegaram à mesma conclusão sobre a origem das espécies, nos anos de 1794-5.


Parte 2

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