Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

P: Quando se engajar em debate com negacionistas? R: Não sei.

Uma definição de negacionismo é a empregada pelos irmãos Hoofnagle: "employment of rhetorical arguments to give the appearance of legitimate debate where there is none, an approach that has the ultimate goal of rejecting a proposition on which a scientific consensus exists". ["emprego de argumentos retóricos com fim de proporcionar a aparência de debate legítimo onde não existe nenhum, abordagem que tem como objetivo último rejeitar uma proposição em torno da qual há consenso científico."] (Diethelm & McKee 2009)

Diethelm & McKee 2009 listam 5 características comuns aos argumentos negacionistas (não estão necessariamente todos presentes ao mesmo tempo):
a) Conspiracionismo: se quase todos os cientistas acreditam em A, para o negacionista isso indica que houve um grande, complexo e secreto acordo escuso entre as partes, e não que chegaram a conclusões similares por exame independente da mesma questão. A revisão por pares seria um meio para suprimir o dissenso. (Certamente conspirações ocorrem no mundo real, mas é difícil uma que envolva praticamente toda a comunidade científica.)
Fenômeno relacionado: inversionismo - atribuir aos outros as próprias características e motivações (ex. companhias fumígeras diziam que havia uma *índústria* antitabagista, *verticalmente integrada*, *altamente concentrada*, *oligopolista e cartelizada*, em ação conjunta com monopólios públicos, a *fabricar indícios* de ligação entre o fumo e doenças como o câncer *alardeando publicamente* os supostos achados.
b) Uso de falsos especialistas: recorrer a quem se diz especialista em um dado tema, mas cuja visão é totalmente contrária ou inconsistente com o conhecimento estabelecido.
Fenômeno relacionado: conspurcação e desmerecimento de especialistas e pesquisadores estabelecidos, acusações e insinuações que procuram desacreditar seus trabalhos ou colocá-los sob suspeita e dúvida.
c) Seletividade dos indícios: usar artigos isolados que desafiam o consenso dominante ou destacar as falhas nos trabalhos menos significativos na tentativa de desacreditar todo o campo de estudos.
Fenômeno relacionado: complexo ou gambito de Galileu - implicação falaciosa de que, se uma ideia é combatida e tida por errada, então ela é certa (tal qual as ideias de Galileu frente à censura religiosa).
d) Expectativas irrealistas sobre o que as pesquisas científicas podem oferecer: p.e. negar os registros de aquecimento global porque não há medidas tão precisas como as atuais antes da invenção do termômetro.
Fenômeno relacionado: exploração das incertezas associadas a modelos matemáticos - como *todo* modelo traz consigo um certo grau - maior ou menor - de incertezas, joga-se com isso exigindo padrões de confiabilidade irrealisticamente altos.
e) Deturpações e falácias lógicas: p.e. grupos pró-fumo usavam do argumento ad Hitlerum - como Hitler era contra o fumo, então os antitabagistas eram nazistas e, portanto, errados. Mas há toda uma fauna de distorções lógicas: red herring, espantalhos, falsas analogias, falácia do terceiro excluído (ou falsa dicotomia), etc, etc.
*Fenômeno relacionado: trolagem e ameaças - de floods de timeline e caixas de comentários e editawars até ataques cibernéticosassédio pessoal, intimidações físicas ou pior. [*Acréscimo por minha conta.]

Intemann & Melo-Martín 2014** analisaram os dois critérios mais defendidos para a decisão do engajamento na discussão por parte dos cientistas com os negacionistas (dentro do chamado "dissenso normativamente apropriado") e não chegaram a uma conclusão animadora.
1) o negacionista deve se esforçar em compreender as críticas a sua própria visão: levar as críticas a sério e reanalisar seus argumentos ou explicar por que as críticas são infundadas;
Problema: muitas vezes o negacionista *acredita* estar se esforçando em compreender as críticas e *acredita* ter rebatido satisfatoriamente às críticas, mas isso ocorre por falhar em compreender de modo apropriado as críticas - ao fim, é preciso que ele compreenda os critérios para avaliação das críticas dentro do campo científico;
2) o negacionista deve compartilhar parte do padrão de avaliação de teorias científicas: um acordo sobre o que é ou não um bom indício.
Problema: naturalmente se houvesse acordo total sobre os padrões de avaliação, não haveria dissenso; em havendo total desacordo, não há diálogo possível (sendo um critério de recusa a desperdiçar tempo discutindo); a questão que surge, então, é qual o grau de sobreposição de padrões é necessário.

Os autores fazem distinção entre desacordo e dissenso científicos: um dissenso é a visão contrária ao que é amplamente estabelecido na comunidade científica; caso a questão ainda esteja em debate ou haja uma incerteza grande dentro da comunidade científica relevante, é um desacordo não dissentâneo (todo dissenso é um desacordo, mas nem todo desacordo é um dissenso). Outra distinção é entre o dissenso científico e o dissenso público ou leigo.

Não se deve deixar de enfatizar que a discordância é essencial para o avanço do conhecimento científico. É a base do exame crítico. A questão é quando se deixa de ser ceticismo saudável e se embarca no negacionismo - fase em que se nega um fato ou teoria *a despeito* do corpo de indícios favoráveis à tese que rejeita (e da inexistência de um corpo consistente de indícios contrários). Naturalmente é preciso combater o negacionismo, mas os critérios normalmente considerados para se avaliar se vale a pena (o negacionista é bem intencionado, apenas mal informado) ou se é só uma perda de tempo (ele é mal intencionado ou está irremediavelmente comprometido com sua visão) são, pelo visto, problemáticos. #comofaz?

Qual a sua experiência no debate com negacionistas?

**via Adalberto Cesari.

domingo, 11 de maio de 2014

Padecendo no paraíso 4

Ciclídeo Cyphotilapia frontosa com filhotes
na boca. Fonte: Wikimedia Commons.
Em várias espécies de peixes e de alguns anfíbios encontramos o comportamento chamado de 'mouthbrooding' (incubação oral ou bucal) - a incubação dos ovos e proteção dos filhotes em fase inicial de desenvolvimento dentro da cavidade oral.

Alguns grupos apresentam incubação materna, outros paternas ou mesmo biparental (cada uma dos pais cuida de uma porção dos ovos). No caso da tilápia da Galiléia, na mesma população há uma variação entre uniparental materna, paterna e biparental.

Esse comportamento é explorado por alguns predadores que praticam a pedofagia - alimentação de ovos ou jovens em estágios iniciais do desenvolvimento. Ciclídeos pedofágicos do lago Vitória atacam as mães de outras espécies (em ciclídeos geralmente a incubação é uniparental materna) até que ela libere alguns dos ovos ou filhotes. Outra estratégia é engolfar a boca da mãe e sugar os ovos/filhotes da cavidade oral.

Há também parasitas que depositam os próprios ovos na boca do hospedeiro que realiza a incubação oral. O peixe-gato mochokídeo Synodontis multipunctatus parasita ciclídeos do lago Tanganika. Os ovos do parasita eclodem antes e o alevino se alimenta de ovos e filhotes do hospedeiro. Por isso, o S. multipunctatus é também conhecido como bagre-cuco.

Apesar desses infortúnios, em geral, considera-se que a incubação oral seja vantajosa ao prover um "porto seguro" aos ovos e filhotes pequenos. Por essa hipótese, seria esperado que houvesse correlação entre cuidados parentais e tamanho dos ovos, porém, para peixes Betta isso não foi confirmado - embora haja uma correlação entre incubação oral e tamanho dos filhotes.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 21

Eugen Glavan e Alexandru Cernat (2010), ambos da Universidade de Bucareste, Romênia, fizeram uma análise de uma pesquisa de opinião entre os romenos sobre ciência religião.

Baseados nas respostas de 1.161 adultos, fizeram uma análise das correlações entre diversos fatores e o grau de alfabetização científica. Essa análise é resumida na Figura 1 abaixo, adaptada de sua apresentação na "Science and the Public 2010", realizada na Imperial College de Londres, RU.

Figura 1. Correlação entre dimensões de atitudes sobre ciências e religião e alfabetização científica entre os romenos. Linhas vermelhas, correlação negativa; linhas azuis: correlação positiva. Glavan &Cernat 2010.

Um aspecto que se destaca é a correlação negativa entre alfabetização científica e a visão de que a ciência e a religião se opõem (necessariamente ou frequentemente). Não é propriamente uma surpresa, porém é reforço para a visão pessoal que tenho (e divido com algumas pessoas boas) de que a ênfase no embate entre ciência e religião - como levada a cabo por Richard Dawkins e outros céticos racionalistas antirreligiosos - é deletéria para a compreensão e aceitação do conhecimento científico.

Sim, é uma correlação, não necessariamente uma relação de causa e efeito. Mas atente-se ao fato que o fator "ciência x religião" também se correlaciona positivamente com a visão de que o conhecimento científico tem pouca importância na vida das pessoas ("irrelevância científica") e que a ciência costuma trazer problemas ("riscos").

Esse embate parece servir mais para alienar uma fração considerável de pessoas religiosas - no Brasil, algo como 84% a 99% das pessoas acreditam em alguma divindade e 92%93%, tem alguma filiação religiosa. Claro, é uma pesquisa que se refere apenas à Romênia. Infelizmente não temos uma pesquisa ampla de caráter nacional por aqui - pretendo analisar essas dimensões e correlações nos resultados da Pesquisa Gene Repórter: Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia, mas ela tem limitações como autosseleção dos respondentes, de todo modo alguns dados preliminares parecem ser consistentes com o quadro romeno.

Outro elemento que se pode destacar é a correlação *negativa* entre alfabetização científica e o idealismo científico (a visão de que a ciência e a tecnologia resolverão todos os problemas do mundo). Quanto mais o indivíduo conhece as ciências e suas práticas, mais realista fica sua visão a respeito das potencialidades e limitações científicas. Na Romênia, pessoas mais alfabetizadas científicas, sem surpresas, apoiam menos a ideia de que a ciência seja irrelevante, por outro lado, não há um maior apoio de que as ciências tragam muitos benefícios, nem que os riscos sejam desprezíveis. O que talvez permita afastar a preocupação de certo setor pós-modernista (e pós-conceitualistas) de que a divulgação científica tenda a ser alienante, exaltando as maravilhas científicas e ocultando os problemas (éticos, ambientais, culturais, sociais, econômicos...) decorrentes da pesquisa e aplicação tecnológica mal planejada - ou significa que pelo menos que em alguma coisa os romenos estão acertando.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mitos na ciência: A ciência é autocorretiva?

Mito: "A ciência é autocorretiva."
Status: Não tão verdadeiro quanto seria necessário ou desejável.

É verdade que há incontáveis casos de hipóteses tidas uma vez por cientificamente válidas caídas por conta de novos estudos: como a passagem absoluta do tempo, a ausência formação de novos neurônios em cérebros adultos, a exclusividade eucariótica de material nuclear envolto por membrana, etc., etc. são afirmações e negações refutadas.

Não é possível afirmar, então, que nunca a ciência corrige os próprios erros. Às vezes há a necessidade até de se corrigir a correção: como quando Einstein incluiu uma constante em sua fórmula gravitacional, para permitir a existência de um universo estável (que não se expandia, nem se retraía), levando à posterior retratação diante da confirmação, por Hubble, da hipótese de Lamaître de um universo dinâmico, em expansão: "O maior erro de minha vida", disse o físico alemão; mas com os dados de uma expansão *acelerada*, a constante cosmológica voltou ao jogo (dado o espírito frasista, é capaz de Einstein, vivo estivesse em 1998, dizer que o reconhecimento da constante cosmológica como o maior erro de sua vida seria o segundo maior erro de sua vida).

Porém, essa correção nem sempre (quase nunca?) é automática.

Pfeifer & Snodgrass (1990) examinaram o efeito do cancelamento ('retraction') de artigos na citação destes. Havia uma diminuição substancial, mas longe - bem longe - de ser uma supressão total: em comparação com o grupo controle (artigos similares que não foram objetos de cancelamento) a redução foi de apenas 35% nas citações. Budd et al. (1999) analisaram outro grupo de artigos cancelados e verificaram que, de 2.034 citações conjuntas que 235 artigos anulados receberam, a maioria eram menções implicitamente elogiosas e 275 citações eram explicitamente positivas. Claro que são estudos de um cenário diferente do atual: há 15, 25 anos o acesso a informações sobre artigos era bem mais precário do que hoje - mas ainda falta uma base de dados geral de artigos cancelados (a base disponível no site da Rutgers University não é atualizada desde 2011) - isso permitiria a implementação de aplicativos de conferência automática de referências quanto ao status de validade.

Fanelli (2009), em uma meta-análise sobre estudos a respeito de má-conduta científica, conclui que algo em torno de 1,97% dos cientistas admitem haver manipulados os dados (33,7% admitem algum tipo de conduta censurável; em questões a respeito de colegas, 14,12% dizem já haver presenciado fraudes e 72% algum ato condenável). Fang et al. (2012) estudaram os artigos cancelados na base PubMed, eram pouco menos de 2.050 na época em um total de pouco menos de 20,5 milhões de registros em 2012 (em 2014 são em torno de 23 milhões). Isso corresponde a apenas 0,01% dos artigos cancelados. Se considerarmos que 2% são objetos de algum tipo de fraude, então a taxa de depuração é de apenas 0,5% - 99,5% dos artigos fraudulentos permanecem indetectados. E a maior parte das fraudes são descobertas menos por análise por pares e falhas nas tentativas de reprodução dos resultados do que por informações de denunciantes (Fang et al. 2012).

Tatsioni et al. (2007) acompanharam as citações de 2 artigos publicados em 1993 sobre benefícios da vitamina E e refutados no início dos anos 2000 por estudos aleatorizados e com controle. 50% das citações de artigos publicados em 2005 eram favoráveis aos estudos refutados.

Ioannidis (2012) lista uma série de fatores analisados para os estudos de Psicologia que impedem ou dificultam a autocorreção das Ciências (tabela 1); analisa também as várias propostas para evitar ou minimizar o problema (tabela 2).

Tabela 1: Fatores de impedimento para autocorreção em Ciências Psicológicas.
Fator de impedimento
Viés de publicação
Outros vieses de relatos seletivos (análise e resultados)
>flexibilidade na coleta e análise de dados
>relatório errôneo dos resultados
>correlações vudu
Fabricação de resultados
Outras práticas questionáveis de pesquisa
Viés de excesso de resultados significativos
(pode resultar de qualquer fator acima)
Estudos com pouco poder estatístico
Nenhum trabalho de replicação realizado -
especialmente replicação direta por investigadores independentes
Crise da subestimativa de replicação
Viés editorial contra pesquisa de replicação
Viés do revisor contra pesquisa de replicação
Dados, análises e protocolos não disponíveis publicamente

Tabela 2. Propostas de solução do problema de autorreção das Ciências e problemas potenciais associados.
Proposta Problema 
Promover pesquisa dirigida por paradigmas Criação de bolhas de popularidade em torno dos paradigmas da moda
Usar checklists para autores, editores e revisores Incentivo a comportamentos espúrios como usar métodos ruins que apenas atendem aos requisitos exigidos, passando a impressão de que foi realizado um estudo rigoroso
Tirar o foco sobre número de publicações e fatores de impacto --------------------
Desenvolver métricas para saber o que vale replicar Impressão de que a replicação é apenas ocasionalmente necessária e não que é útil por padrão
Fazer esforço conjunto (crowdsourcing) para replicar estudos Reforço da ideia de que a replicação não é algo sério, que qualquer pessoa pode fazer, não é trabalho para cientistas gabaritados e experientes
Elevar o status de periódicos revisados por pares que se focam na solidez dos estudos em vez de em sua significância percebida --------------------
Abaixar ou remover padrões para pubicação Enxurrada de trabalhos sem valor
Prover acesso aberto a dados, materiais e fluxograma do trabalho Aumento descontrolado de 'dredging' de dados (mineração de dados em busca de correlações)
Empregar estudantes em treinamento como "replicadores" Reforço da ideia de que a replicação não é algo sério, que qualquer pessoa pode fazer, não é trabalho para cientistas gabaritados e experientes
Exigir registro a priori rigoroso de estudos de confirmação Necessidade de análise cuidadosa sobre os dados exigidos para o registro; um simples registro de um ensaio aleatorizado sem detalhes da análise pode permitir passar falsa segurança enquanto as análises ainda são enviesadas - por outro lado, o registro antecipado rígido do método de análise a ser empregado, não permite lidar com situações não previstas como perda de pacientes, alteração no tratamento ou medições errôneas
Fonte: Ioannidis 2012.

A conclusão geral é que mais esforços precisam ser empregados (e de modo mais efetivo) para dar um gás no incensado processo autocorretivo das Ciências.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 20

Martin W. Bauer analisa a mudança do discurso a respeito da compreensão pública de ciências e os indícios a respeito de sua evolução.

Bauer, M.W. 2009. The evolution of public understanding of science - discourse and comparative evidence. Science, technology and society, 14 (2). pp. 221-240.

Minhas anotações seguem abaixo.
---------------------------
1. Evolução do discurso

Tabela 1. Paradigmas, problemas e soluções de comunicação pública de ciências
Período Atribuição diagnóstica Estratégia de Pesquisa
Alfabetização científica
1960s-1980s
Déficit público
de Conhecimento
Mensuração de alfabetização
Educação
Compreensão pública
1985-1990s
Déficit público
atitudinal
Conhecimento x atitudes
Mudança de atitudes
Educação
Relações públicas
Ciência na Sociedade
1990s-atual
Déficit de confiança
Déficit de especialistas
Noções de público
Crise de confiança
Participação
Deliberação
Mediadores 'anjos'
Avaliação de impacto
Vide: quadro de modelos de comunicação de ciências de Trench 2008.

O quadro acima não é de progressão, mas de diversificação discursiva ao longo do tempo - discursos posteriores não substituem completamente os anteriores.

Alfabetização científica: Quatro elementos básicos:
a) conhecimento básico de ciências presentes em livros-texto;
b) compreensão de métodos como raciocínio probabilístico e projeto experimental;
c) apreciação de resultados positivos das ciências e tecnologia para a sociedade;
d) rejeição de crenças supersticiosas como astrologia e numerologia.
Crítica: por que as ciências merecem atenção especial? O que dizer de história, contabilidade, direito ou mesmo floricultura?

Compreensão pública de ciências (PUS): relatório da Royal Society of London (1985)
a) falta de apoio popular à empreitada científica;
b) ‘the more you know, the more you love it’ ('quanto mais você conhece, mas você ama');
c) agenda racionalista (atitude: gerada pelo processamento racional de informações -> divulgar informações corretas e raciocínio estatístico rigoroso) e realista (atitude: gerada por relação emocional com o mundo -> 'sexing up': tornar a ciência mais sexy);
Crítica: atitudes negativas não significam falta de conhecimento nem de boa capacidade de raciocínio.

Ciência-e/na-sociedade: relatório da House of Lords (2000)
a) perda de confiança pública de instituições científicas e seus atores: crise da vaca louca, OGMs...
b) concepções falsas a respeito do público entre cientistas e tomadores de decisão levando a uma comunicação errônea, alienando ainda mais o público;
c) ausência de separação entre análise e intervenção -> objetivo: mudar a política científica;
d) aumento da participação popular: audiências públicas, jurados cidadãos, pesquisa de opinião pública deliberativa, conferências de consensualização, rodadas de mesas redondas, exercícios de delimitação de âmbito, festivais científicos, debates nacionais...
Críticas:
i) eventos muito caros e cujas organizações demandam um extenso know-how -> 'anjos' privados substituem servidores públicos e acadêmicos na realização desses eventos; atuam como atravessadores privados entre frustrações públicas e interesses institucionais;
ii) necessidade de mensuração da eficácia e eficiência desses eventos: custos/benefícios, consequências indesejadas a serem evitadas... -> reintrodução de métodos de avaliação de alfabetização científica e atitudes para com as ciências.

2. Indícios de mudança da compreensão pública
Cobertura midiática
Analisando a cobertura de ciências pela imprensa britânica entre 1946 e 1992 e a cobertura de biotecnologia (genética, clonagem, transgenia...) entre 1973 e 2002 de um único jornal britânico, Bauer conclui:
- o fluxo de notícias de ciências e tecnologia na sociedade britânica não é constante (flutua ao longo do tempo - a presença de notícias científicas aumentou dos anos 1940s aos 1960s, declinou na década seguinte, recuperando a partir de então;
- o tom avaliativo também varia (somente durante a década de 1950, as notícias eram, em geral, positivas em relação às ciências; passando a negativas a partir de meados da década de 1960, adquirindo tons positivos novamente próximo aos anos 1990s);
- o tom negativo não é expressão de um complexo anticientífico: enquanto as notícias de ciências em geral ganharam tons mais positivos desde a década de 1970, notícias de biotecnologia tornaram-se mais negativas;
- não há um ciclo de atenção pública, notícias de ciências não evoluem de uma visão inicialmente negativa para uma positiva; a tendência é a oposta: de um hype inicial, em genética, o desenvolvimento posterior foi rumo a uma ponderação maior.

PUS industrial e pós-industrial
A relação "quanto mais você conhece, mais você ama" não é propriamente falsa, mas não é universalmente válida. Em sociedades que fazem a transição da economia industrial para uma pós-industrial com uso intensivo de conhecimento a relação entre conhecimento individual, seus interesses e atitudes em relação às ciências muda.

Figura 1. Correlação entre grau de conhecimento científico e atitudes em relação às ciências na Índia e Europa. Os dados da Índia concentram-se no lado esquerdo da figura e os da Europa, no direito.

Mudanças na Europa
Figura 2. Mudanças intergeracionais de conhecimento, interesse e atitudes em relação às ciências na Europa. D - Alemanha, F - França, UK - Reino Unido, IT - Itália, PORT - Portugal , EU12 - União Europeia de 12 Estados. Fonte: Eurobarômetro.

- as dinâmicas são distintas em diferentes contextos: aparentemente há 'culturas científicas' com dinâmicas específicas  que precisam ser mais bem estudadas;
- o conhecimento está a aumentar entre as gerações em diferentes contextos;
- convergência no grau de interesse entre gerações de diferentes países: em alguns países há tendência de aumento de interesse entre as gerações e de queda em outros países;
- dinâmica intergeracional diferente entre os países para a atitude em relação às ciências.

3. Mapeamento de conversações de ciências na sociedade: distâncias e topografias
- área de pesquisa em PUS tem natureza dupla: atividade de divulgação de ciências para o público x pesquisa científica social;
- público crítico em relação às ciências não é um problema: necessário frente à crescente pesquisa realizada dentro do setor privado - com lógica comercial*;
- indicadores de compreensão pública: necessidade de pesquisas periódicas para acompanhar a evolução temporal e comparação entre diferentes contextos; complementados com monitoramento de mídia e mapeamento de discursos;
- mapear a distância entre as esferas esotérica (dos cientistas) e exotérica (do público em geral) de conversações públicas sobre ciências (modelo de Fleck, 1935, de esferas concêntricas de comunicação de ciências);
- desenvolvimento de Indicador Cultural de Ciências (análogo ao Índice de Desenvolvimento Humano).
---------------------------

*Obs: Concordo parcialmente. Sim, a fé cega na ciência, a aceitação acrítica do que nos passam os integrantes do estabelecimento científico, é ruim. Concordo se se entende a crítica/ceticismo como uma visão de análise crítica refletida e não simplesmente um negacionismo pétreo. São duas modalidades que tenho por preocupantes: uma é a ideologicamente comprometida que negará os fatos ou os distorcerá (e procurará usar dados científicos - por mais fracos que sejam - que apoiem seu ponto de vista aprioristicamente estabelecido: e.g. os antivax, os negacionistas climáticos, boa parte dos criacionistas...), a outra é a anticientífica propriamente dita: que a ciência inevitavelmente produz o mal e/ou não passa de apenas mais um tipo de mitologia sem qualquer vantagem epistemológica diante de outras formas de conhecimento.

Upideite(22/jun/2016): O blogue From the Lab Bench apresenta um resumo gráfico da evolução dos modelos de divulgação científica para um período mais expandido: do séc. 19 até os dias atuais. via @germanabarata tw

1800s-1900s
Popularização
1739: Algarotti "Newtonianismo para Senhoritas"
Modelo do déficit foca na falta de conhecimentos factuais do público
Ciência pronta para uso ('ready-made science')
1930s-1940
Vendendo a ciência
Ciência como a salvação da sociedade
1960s-1980
Jornalismo de Ciências/Questionando as ciências
1960s: reportagem de ciências se tornam mais críticas
1980s: Retorno da popularização com RP das ciências
Fim do séc. 20
Diálogo
Ciência na Sociedade
Câmara dos Lordes (2000) reconhece os limites da comunicação pública de ciências baseada em uma: "relação ciência-público paternalista, de cima para baixo" (Bucchi & Trench 2014)
2000s
Participação
Foco no cientista cidadão e acesso à ciência em construção ('science-in-the-making')
2006-
Novas mediações
'Crise' dos mediadores tradicionais de ciências: jornais, revistas, TVs, museus (Bucchi & Trench 2014)
Mídia social das ciências
Ascensão dos 'cientistas visíveis' ('visible scientists', Goodell 1977) nas mídias sociais
Futuro
O que virá?
Globalização da comunicação científica
Democratização da expertise
'Todo mundo é cientista agora?'

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Existe ordem de bicada entre as disciplinas científicas? Talvez sim.

Fonte: xkcd

Fonte: xkcd

Dean, to the physics department. "Why do I always have to give you guys so much money, for laboratories and expensive equipment and stuff. Why couldn't you be like the math. department - all they need is money for pencils, paper and waste-paper baskets. Or even better, like the philosophy department. All they need are pencils and paper." Fonte. Mathematical humor.
[Do reitor para o departamento de física: "Por que sempre tenho que dar a vocês tanto dinheiro para laboratórios, equipamentos caros e coisas assim? Por que vocês não pode ser como o departamento de matemática - tudo o que eles precisam é de dinheiro para lápis, papel e cesto de lixo? Ou melhor, como o departamento de filosofia. Tudo o que eles precisam é de lápis e papel. "]

ResearchBlogging.org
São piadas recorrentes no meio dos cientistas. Podem soar como a pura provocação (aka preconceito), mas talvez haja um fundo de verdade.

Fanelli & Glänzel (2013) analisaram dados bibliométricos de quase 29.000 artigos de 12 disciplinas para testar a hipótese da Hierarquia das Ciências (HdS ou HoS, Hierarchy of the Sciences). A HdS foi proposta pelo filósofo positivista francês Auguste Comte em que, da Matemática à Sociologia, haveria uma crescente complexidade, interdependência e proximidade às paixões humanas dos campos de pesquisa (Fig. 1). Não se entenda tal hierarquia em algum sentido pejorativo (apesar das brincadeiras acima reproduzidas), o próprio Comte foi uma importante figura da Sociologia - termo que ele reinventou em 1838 (aparentemente sem saber que Emmanuel Sieyès havia cunhado a expressão em 1780). Não é uma hierarquia como nos grupos de galinhas, em que os superiores dão bicadas nos inferiores e estes nos mais inferiores - é mais uma sequência ordenada, mas sem um sentido de maior e menor valor (como a sequência de cores no espectro visível ou das letras no alfabeto).

Figura 1. Hierarquia das Ciências como vista por Comte. Fonte: Wikimedia Commons.

A predição dos autores foi que a HdS se refletiria em um maior consenso dentro dos campos mais próximos à Matemática e menor nos campos mais próximos à Sociologia - o consenso sendo ligado à "dureza" da área. Assim 9 parâmetros foram analisados (um subdividido em dois itens) (Tabela 1).

Tabela 1. Parâmetros bibliométricos e predições da Hierarquia das Ciências. Fonte: Fanelli & Glänzel (2013)
parâmetro efeito de maior consenso predição
número de autores maior escopo e necessidade de colaboração +
tamanho do artigo menor necessidade de introdução, justificação e explicação do estudo -
número de referências menor necessidade de justificação, explicação e apoio do estudo -
referências a monografias foco em questões mais simples; menor necessidade de justificação, explicação e apoio do estudo -
idade das referências rápida resolução de desacordos; maior potencial de produzir pesquisa sobre achados anteriores -
diversidade de fontes menor número de tópicos de pesquisa, que são de interesses mais gerais -
comprimento relativo do título questões de pesquisa claramente definidas e substantivas +
uso de primeira pessoa (singular vs. plural) alegações universalmente válidas; menor espaço para argumentações; menor apelo a opiniões e autoridades -
compartilhamento de referências - grau agregação de estudos em torno de questões claramente definidas e separadas; menor necessidade de citar literatura mais antiga e geral -
compartilhamento de referências - intensidade +

As previsões gerais de acordo com diferentes hipóteses estão representadas na Fig. 2.

Figura 2. Previsão dos indicadores de dureza das disciplinas de acordo com as hipóteses da Hierarquia das Ciências; Duas Culturas e nula (sem diferenças direcionais). m - matemática; p - ciências físicas; b - ciências biológicas; s - ciências sociais; h - humanidades. Fonte: Fanelli & Glänzel (2013)

Os resultados estão sumarizados na Fig. 3.

a)
b) 

Figura 3. Parâmetros bibliográficos de subáreas das Ciências. m - matemática (MA); p - ciências físicas (ciência espacial[SP]+física[PH]+química[CH]); bh - ciências biológicas duras (biologia molecular[MB]+biologia&bioquímica[BB]); bs - ciências biológicas moles (ciências vegetal e animal[PA]+ambiente/ecologia[EE]); s = ciências sociais (psiquiatria/psicologia[PP]+economia&negócios[EB]+ciências sociais gerais[SO]); h = humanidades (artes&humanidades[AH]). Fonte: Fanelli & Glänzel (2013)

De modo geral, os resultados apoiam a hipótese da HdS. Há exceções menores, como o fato do número médio de autores ser maior para ciências biológicas (duras e moles) e o uso da primeira pessoa apresentar uma certa descontinuidade entre ciências naturais e sociais.

Um estudo anterior de um dos autores (Fanelli 2010) indicava que, de modo geral, a publicação em excesso de estudos positivos (que apoiam a hipótese analisada pelos autores) também seguia a hipótese da HdS (especialmente nas modalidades puras): Figs. 4 e 5.

Figura 4. Percentual de publicação com resultados positivos por grandes áreas das ciências. Fonte: Fanelli (2010).

Figura 5. Percentual de publicação de resultados positivos por disciplinas científicas. Fonte: Fanelli (2010).

Um estudo de outro grupo, valendo-se do uso de gráficos como proxy da dureza da disciplina, também encontrou uma correlação com a HdS (Smith et al. 2000).

Como disse, não que haja um sentido pejorativo nessa HdS. Mas, só por precaução, nós, a jusante da hierarquia, é melhor comprarmos um capacete só para prevenir, caso os exatoides a montante resolvam afiar seus bicos. [Há, claro, autores que negam a existência da HdS, e.g. Cole (1983).]

Referências
Cole, S. (1983). The Hierarchy of the Sciences? American Journal of Sociology, 89 (1) DOI: 10.1086/227835
Fanelli D (2010). "Positive" results increase down the Hierarchy of the Sciences. PloS one, 5 (4) PMID: 20383332
Fanelli D, & Glänzel W (2013). Bibliometric Evidence for a Hierarchy of the Sciences. PloS one, 8 (6) PMID: 23840557
Smith, L., Best, L., Stubbs, D., Johnston, J., & Archibald, A. (2000). Scientific Graphs and the Hierarchy of the Sciences:: A Latourian Survey of Inscription Practices Social Studies of Science, 30 (1), 73-94 DOI: 10.1177/030631200030001003

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Belo e estranho mundo 3 - De novo, não é o chupacabras

Volta e meia as pessoas capturam algum animal comum doente, deformado ou com alguma mutação e, por não ter uma aparência que lhes pareça familiar, associa a um exemplar de alguma espécie da fauna mitológica local.

Ao sul dos Estados Unidos e boa parte do México, qualquer carnívoro assim é automaticamente classificado como um chupacabras putativo. Acharam mais um:


A reportagem dá destaque à hipótese de que seja um chupacabras. Até vão entrevistar um especialista, mas deixam no ar - como se a hipótese de que se trata mesmo de chupacabras fosse uma que merecesse crédito.

O especialista diagnostica o animal como um canídeo com alguma alteração. Mas me parece pouco provável que seja o caso, porque o animal usa as patas dianteiras para agarrar e manipular pequenos objetos, girando a porção palmar da mão para dentro. Em canídeos, movimentos de pronação (giro para dentro) e supinação (giro para fora) são muito limitados.

Assemelha-se mais a um procionídeo: um guaxinim (Procyon lotor) que perdeu a pelagem - talvez por doença ou mesmo uma mutação. Em 2010, em Oklahoma, foi capturado um guaxinim glabro vivo. Também em 2010, em outra cidade texana, Runaway Bay, houve caso de um outro guaxinim sem pelos, infelizmente morto. Em 2011, outro exemplar foi capturado morto no Condado de Nelson, Kentucky. No mesmo ano um guaxinim pelado foi capturado em Vero Beach, Flórida. A espécie é encontrada por quase todo os EUA continental (Fig. 1).

Figura 1. Área de distribuição nativa (vermelho) e introduzida (azul) de guaxinim. Fonte: Wikimedia Commons

Não é uma busca exaustiva, mas em todos esses casos acima, a população imaginou tratar-se do chupacabras. É algo para o que não tenho ainda uma resposta satisfatória: por que bobagens como chupacabras se espalham com relativa rapidez e se mantêm estáveis, mas a informação de que são animais comuns com alguma alteração - neste caso, guaxinins pelados - não tem o mesmo apelo e penetração.

Não me parece ser o caso simplesmente de uma preferência de se acreditar no sobrenatural e no fantástico. Sempre que possível, tentam recobrir as lendas com algum fumo de fundamentação científica: se achassem ADN estranho, se um estudo científico concluísse que se tratava de um ser alienígena, isso seria absorvido de bom grado. (Como no caso da farsa de "estudo" sobre ADN de pés-grandes.) Por que guaxinins pelados não se fixam na imaginação? Não são suficientemente inusitados? O mistério de saber por que alguns são sem pelos não é misterioso o bastante?

Verdade que, se fosse alienígena, haveria uma implicação cósmica mais profunda a respeito de não estarmos sós no universo. Mas parte dos que preferem que seja chupacabras se recusa a crer na cosmicamente profunda implicação da teoria evolutiva que nos conecta aos guaxinins - e às cabras, e à grama, e às bactérias... Pra mim o mistério maior é entender isso: o que faz hipóteses não embasadas em fatos (ou até contrariadas por eles) fincarem raízes tão profundas (sejam historicamente recentes ou antigas em suas origens) em uma cultura, enquanto outras tão complexas e elaboradas quanto, tão desafiadoras do senso comum quanto, mas solidamente fundamentadas em fatos, registros e experimentações, serem relegadas ao estranhamento e à ignorância?

terça-feira, 1 de abril de 2014

É mentira, Terta? - Pássaros feridos

O ferimento fingido ("injury feigning") ou a exibição de asa quebrada ("broken wing display") é um comportamento de evitação de predação de ovos e ninhada observado em adultos de algumas espécies de pássaros que nidificam no chão.

Diante dos predadores, a uma certa distância, as aves arqueiam uma ou ambas as asas arrastando-as enquanto se locomovem de um modo desengonçado ou se debatem no mesmo local mantendo uma das asas estendida e imóvel, como se estivera quebrada.

Inicialmente vários autores (e.g. Dewar 1928,  Jourdain 1936) supuseram que o comportamento fosse resultado de uma espécie de "choque" causado pelo avistamento do predador levando a uma paralisia parcial - um conflito interno entre fugir e deixar sua prole desprotegida. O reverendo F.C.R. Jourdain revisando os casos que conhecia à época (1936, 1937) concluiu que, na verdade, tratava-se de um comportamento que procurava dirigir as ações do predador. (Montgomerie & Weatherhead 1988.)

Um fato que é preciso observar é que há uma variação dentro da mesma espécie na exibição ou não de tais comportamentos diante de um predador.

Byrkjedal (1989) estudou o comportamento da tarambola dourada americana (Pluvialis dominica) de uma população em Manitoba, Canadá. Em relação a potenciais ameaças humanas (ele mesmo) aos ninhos, observou quatro tipos básicos de comportamento: a) as aves fugiam do ninho diretamente rumo a um esconderijo, sem nenhuma exibição distrativa; b) fugiam do ninho diretamente até se afastarem permanecendo à vista; c) fugiam do ninho de modo escondido até encontrarem um novo esconderijo e d) fugiam do ninho exibindo comportamento de distração e permaneciam à vista. Os comportamentos mais discretos - 'a' e 'c' - foram observados apenas em 10% das vezes (das 88 repetições que fez). Machos e fêmeas não diferiam no comportamento nesse aspecto.

Em 17 ocasiões, os machos iniciavam vocalização enquanto o intruso de aproximava a menos de 5 a 10 metros do ninho. Mas, durante a fuga, direta ou com exibição de distração o movimento era realizado em silêncio. Em 63 repetições, o pesquisador permaneceu perto do ninho por 5 minutos; dos 50 casos em que um macho ocupava o ninho, em 27, após a fuga, o macho se reaproximava do intruso e exibia o comportamento de distração.

Nem todas as exibições de distração foram de asa quebrada. Apenas cerca de 8 exibições envolviam a movimentação da asa como se ferida. Porém, quando da reaproximação do macho ao predador insistente, de 71 casos, em 60 havia a exibição estacionária da asa quebrada e em 50 a exibição era em deslocamento.

Já no borrelho ruivo (Charadrius morinellus), a exibição de asa quebrada é mais frequente dentre as exibições distratoras conforme estudo anterior do mesmo Byrkjedal (1987) com populações norueguesas das aves - o estudo comparou com o comportamento antipredação de outra espécie tarambola dourada (Pluvialis apricaria). (Fig. 2)


O pesquisador correlacionou a exibição de comportamentos de distração quando ele se aproximava dos ninhos com a sobrevivência desses ninhos (ele acompanhou alguns a certos intervalos procurando por sinais de predação dos ovos). Ninhos em que os pais exibiam mais intensamente comportamentos distratores tiveram melhores índices de sobrevivência. Para o borrelho ruivo, exibições estacionárias tiveram um efeito protetivo maior do que exibições em deslocamento; mas não houve diferença no caso da tarambola dourada. Isso certamente pode explicar as diferenças na distribuição dos tipos de comportamento de distração. O fingimento estacionário de ferimento é quase ausente entre as tarambolas douradas, mas está presente em quase 30% dos ninhos estudados de borrelhos ruivos.

Não consegui encontrar um trabalho que analisasse a genética e a herdabilidade dos comportamentos de fingimento. É bastante tentador atribuir fatores herdáveis a parte dessas exibições, e é um chute muito razoável, porém temos que ter em mente que pode não ser exatamente o caso.

Entre as batuíras melodiosas (Charadrius melodus) o comportamento não é do tipo tudo ou nada, estereotipado. A exibição de asa quebrada é flexível, variando de acordo com a distância e o movimento do predador. As aves também aprendem a exibir somente diante de intrusos que representem ameaças mais sérias.

Dado que há variabilidade na exibição do comportamento de fingir ferimentos e dado que tal comportamento é vantajoso, se a variação for herdável, é de se esperar que a característica esteja sujeita à seleção natural. De todo modo, ainda não se sabe como se deu a origem/evolução do comportamento, nem há dados a respeito dos custos para o adulto - p.e. possivelmente ficam mais expostos à predação, mas o quanto mais?

Referência
Byrkjedal, I. 1987. Antipredator behavior and breeding success in greater golden-plover and Eurasian dotterel. The Condor 89:40-7.
Byrkjedal, I. 1989. Nest defense behavior of lesser golden-plovers. Wilson Bull. 101(4): 579-90.
Montgomerie, R.D. & Weatherhead, P.J. 1988. Risks and rewards of nest defence by parent birds. The Quaterly Review of Biology 63(2): 167-87.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Cosmos: Uma Odisseia Midiática

Cosmos foi ao ar pela primeira vez em 1980 pela rede pública educativa americana PBS. Os treze episódios foram apresentados por Carl Sagan e se tornaram um grande sucesso de público - ao menos dentro dos parâmetros de um TV educativa. Entre meus muitos defeitos morais está o fato de jamais de ter assistido à série completa - nem em suas reprises, nem em DVD.

O primeiro episódio de Cosmos: A Spacetime Odyssey (que a NatGeo Brasil resolveu chamar de Cosmos: Uma Odisseia no Espaço), uma atualização do clássico bancada por Seth MacFarlane como produtor e tendo Neil deGrasse Tyson como apresentador, foi ao ar dia 9 de março último pela rede privada Fox (um canal aberto nos EUA). A audiência estimada foi de 8,5 milhões de telespectadores (entre o canal Fox e outras 10 redes do mesmo grupo como National Geographic e FX), o que coloca como a 3a. atração televisiva mais vista no horário nobre. Parece promissor como um programa de divulgação de ciências, porém a rede Fox investiu pesado em sua produção e divulgação (os valores não foram divulgados). Se será o suficiente para animar os executivos e os patrocinadores, não sei dizer - apenas posso torcer para que seja e que a audiência aumente no decorrer dos episódios.

A pretensão de deGrasse é passar uma "perspectiva cósmica" aos espectadores: visualizarmos nosso lugar no Universo - vivemos ao redor de uma estrela dentre bilhões de uma galáxia dentre bilhões, e partilhamos nossas origens com cada ser desta Terra e com os corpos deste sistema solar, que há uma história profunda de bilhões de anos pregressos em que a matéria passou por várias transformações desde o início de nosso Universo visível.

A perspectiva dos executivos, no entanto, certamente é bem mais paroquial - no tempo e no espaço. Prestígio, ok. Entreter e informar os espectadores também. Porém o importante é haver retorno financeiro. Vendas de espaço publicitário e de produtos associados: blu-rays, direitos de transmissão em outros países (a Globo comprará os direitos para retalhar a série no Fantástico?). Até por isso não incentivo a pirataria sob qualquer desculpa - é fácil encontrar um torrent com a versão em alta definição, mas se não tem como assistir em seu pacote de TV por assinatura, espere pelo lançamento em DVD ou blu-ray: valerá a espera e valerá cada centavo. Não é para dar lucro aos donos da Fox ou enriquecer ainda mais Seth MacFarlane - quer dizer, é, mas não é esse o objetivo final. O que precisamos é demonstrar que investir em divulgação científica de qualidade (e não aquelas de produções sobre monstros, assombrações e alienígenas) compensa.

Um fracasso financeiro de Cosmos redundará em resistência das empresas de entretenimento em apostar no filão. Um sucesso retumbante certamente abrirá as portas para novos empreendimentos do gênero.

---------------
No Brasil, por enquanto, é transmitido pelos canais Fox (incluindo Fox Sports, FX e NatGeo), que só estão disponíveis por assinatura. A diferença de tempo é relativamente pequena: enquanto nos EUA os episódios são exibidos aos domingos, por cá são às quintas. Por que decidiram passar apenas em definição normal e não em alta definição é um mistério (o primeiro episódio passou em HD nos canais especiais da Fox e NatGeo, mas o segundo episódio foi exibido apenas em SD).

---------------
Abaixo uma relação de postagens sobre o novo Cosmos em outros blogues:
Upideite(11/abr/2014): Evolução da audiência da série Cosmos desde a estreia na TV FOX americana
Figura 1. Evolução da audiência ao vivo da série Cosmos (FOX) desde a estreia (não inclui visualizações posteriores por DVR e reprises). Fonte: Nielsen (via Zap2it)

segunda-feira, 17 de março de 2014

interCiência: revelando o (não-)segredo

Em janeiro do ano passado, o Scienceblogs Brasil organizou o interCiência e o GR tomou parte e recebeu um texto com curiosidades a respeito do número 42.

Vários participantes já revelaram quais textos eram seus, outros ainda não. Reproduzo abaixo a minha contribuição - um segredo de polichinelo.

————
Um dos critérios da concessão de prêmios Nobel é que o laureado esteja vivo (desde 1974, premiação póstuma só pode ocorrer se a morte do ganhador sobrevier após o anúncio dos vencedores; e, antes, só se a morte ocorresse depois da escolha [1]). Isso evita que pesquisadores vivos sejam preteridos por grandes nomes de um passado mais remoto e que a morte de um cientista influa em sua escolha (como uma espécie de homenagem in memoriam); mas, como também a tendência é de os prêmios serem concedidos por realizações já muito bem estabelecidas (coisa que pode levar muitas vezes décadas), abre espaço para algumas injustiças: indivíduos com contribuições relevantes deixam de ser homenageados porque decidiram expirar antes.
Um dos casos de grande injustiça, a meu ver, é em relação ao físico britânico John Stewart Bell. O breve relato biográfico a seguir é copiado descaradamentebaseado em texto de Andrew Whitaker [2], a menos onde indicado em contrário.
Bell nasceu a 28 de julho de 1928 em Belfastat, capital da Irlanda do Norte. Em 1945, ingressou no Queen’s Belfast University, graduando-se com louvor em Física Experimental (1948) e em Física Matemática (1949). Ainda como estudante de graduação, discutia com seus professores mostrando insatisfação com a Física Quântica e sua interpretação de modo acalorado e até agressivo.
Ao se graduar, passou a trabalhar no UK Atomic Research Establishment em Harwell, Inglaterra, sendo posteriormente realocado para o grupo de projeto de aceleradores em Malvern, também na Inglaterra – desenvolvendo modos de traçar a trajetória de partículas carregadas.
Em 1951, em ano sabático, no laboratório do físico Rudolf Peierls na Birmingham University, Bell desenvolveu seu trabalho com o teorema CPT (uma teoria quântica de campo canônica – basicamente sem considerar ações imediatas de longa distância e que trabalhe com transformações do espaço-tempo de acordo com a teoria da relatividade de Einstein – é invariante sob operações CPT [3]). Os físicos alemães Gerhard Lüders e Wolfgang Pauli, porém, publicaram seus achados um pouco antes de Bell, de modo que o britânico não tem levado quase nenhum crédito pela descoberta.
Casou-se com a física Mary Ross em 1954. Haviam se conhecido em Malvern e manteriam uma intensa parceria – afetiva e profissional – por toda a vida, publicando, inclusive, alguns trabalhos conjuntos.
Obteve o doutorado em 1956 e, em 1960, mudou-se com a esposa para o CERN. Algumas fontes [2] dizem que a mudança ocorreu pela alteração da linha de pesquisa em física teórica para aplicada em Harwell; outras, que se deu pelo redirecionamento dos esforços britânicos na pesquisa experimental com física de partículas para o CERN [4]. De todo modo, Bell passaria o resto de sua vida trabalhando no CERN.
Seus principais trabalhos abordando a questão das variáveis ocultas exposta no chamado paradoxo EPR (de Einstein, Podolsky e Rosen, os autores do artigo original que apresentava um questionamento sobre a completude da física quântica), juntamente com crítica ao argumento do matemático von Neumann contra a existência de variáveis ocultas foram desenvolvidos em 1964 (mas publicado só em 1966).
Em 1969, juntamente com o físico polonês naturalizado americano Roman Jackiw e com contribuição de Stephen Adler, físico americano, resolveram um problema na teoria quântica de campos. Pela teoria, um píon neutro não deveria decair em dois fótons, mas era exatamente o que ocorria na prática. O modelo algébrico padrão utilizado continha uma falha e quando procedeu-se a quantização (em vez de soluções contínuas), obteve-se a quebra de simetria no modelo, o que explicava o decaimento do píon. Isso é conhecido como anomalia ABJ ou anomalia quiral.
Foi eleito membro da Royal Society em 1972. Em 1988 recebeu a Medalha Dirac do Physics Institute [5], em 1989 foi agraciado com a Medalha Hughes da Royal Society [6] e com o Prêmio Dannie Heinemann de Física Matemática pela American Physics Society [7].
Em 1990, Bell faleceu em decorrência de um derrame cerebral.
————–
O teorema CPT e a anomalia ABJ já dão mostras do papel importantíssimo de Bell na física teórica e, em particular, na física quântica. Mas Bell foi fundamental com o resultado de seu trabalho de 1964. A partir dele derivaram-se as desigualdades (ou inequações) de Bell. Essas desigualdades puderam ser experimentalmente testadas e os resultados contradisseram as esperanças de Einstein com seu paradoxo EPR (e do próprio Bell, que acreditava nas variáveis ocultas e no realismo local).
Para tentar entendermos melhor a genialidade das inequações de Bell, precisamos entender a questão do realismo local. Até o desenvolvimento da física quântica nas primeiras décadas do século 20, a visão que predominava era a do determinismo. Esse determinismo era ilustrado pelo demônio de Laplace: uma inteligência a quem fosse dado saber o estado de todas as partículas do universo em um determinado instante, poderia simplesmente aplicar as leis da mecânica e conhecer o estado de cada partícula em qualquer outro momento futuro ou passado [8]. Heisenberg mudaria o quadro com seu princípio da incerteza (ou indeterminação).
Duas grandezas conjugadas, como velocidade e momento, não poderiam ter seus valores conhecidos com grau infinito de precisão ao mesmo tempo: quanto mais precisa a determinação do valor de uma das grandezas, menor a precisão do valor de outra. Heisenberg ilustrou com um experimento mental para a observação de um elétron ao microscópio. Para determinar a posição do elétron, seria preciso lançar fótons sobre ele e verificar o espalhamento (difração). Quanto menor o comprimento de onda, menor o espalhamento e maior a precisão da posição do elétron. Porém, quanto menor o comprimento de onda, maior a energia dos fótons e maior a transferência de momento ao elétron, tornando mais imprecisa a determinação da velocidade do elétron. Quanto menos energético o elétron, menos interferência no momento e mais precisa a determinação da velocidade do elétron. Porém o espalhamento é maior e a precisão da posição é menor. [9]
Na interpretação radical, para a época, da Escola de Copenhagen, isso significaria que, antes da observação, uma partícula não teria um estado definido: ela não estaria na posição x, y ou z. Ela estaria em um estado de sobreposição, em que a partícula estaria ao mesmo tempo na posição x, y e z. Uma função de onda (uma expressão matemática que descreve uma onda) indicaria a probabilidade de a partícula estar na posição x, y ou z depois da observação.
Albert Einstein não aceitava essa interpretação. Para ele (e boa parte dos físicos de então), a partícula tinha uma posição definida antes mesmo da observação. Apenas não saberíamos qual era. É o que os físicos chamam de interpretação realista – qualquer sistema tem um estado bem definido independentemente de observação. No artigo que escreveria com o físico russo Eric Podolsky e com o físico americano e israelense Nathan Rose, é proposto o seguinte experimento mental: dois sistemas (p.e. partículas) são colocados em contato e deixados interagir e se afastarem em linha reta. Princípios físicos bem estabelecidos (e aceitos na física quântica), garantiam a conservação de certas grandezas, como o momento de um sistema. Assim, sendo duas partículas de mesma natureza, teriam a mesma massa, ao se afastarem entre si, partindo da situação de repouso na interação inicial, a velocidade de uma seria exatamente igual a de outra, mas em sentidos opostos – conservando o momento inicial (qual seja, zero). Partindo do mesmo ponto, a posição de uma seriaestaria a uma mesma distância do ponto inicial do que a da posição de outra. Assim, quando suficientemente afastadoas, se medíssemos a posição de uma, imediatamente saberíamos a posição de outra; e, medindo a velocidade da outra, saberíamos a velocidade de uma. Segundo os autores, como a velocidade da luz é finita e nenhum sinal pode ter velocidade maior – isto é, não haveria nenhum efeito imediato à distância (o princípio da localidade – qualquer evento só pode ser afetado por outro evento que esteja nas imediações, não há uma ação imediata à distância); não haveria tempo de qualquer medição na posição na primeira partícula alterar a velocidade na segunda partícula e vice-versa. Isso permitiria que se conhecessem com precisão tanto a posição de ambas as partículas quanto suas velocidades (e, portanto, momento). Em não havendo possibilidade de um sinal superluminal (com velocidade acima da da luz) ir de um sistema ao outro, os valores das grandezas só poderiam estar definidos desde o começo. [10] Ou será que não?
Os seguidores da interpretação de Copenhagen mantinham que os valores não estavam predeterminados. Bell, que defendia a posição de Einstein, então bolou um modo de verificar a diferença entre as duas interpretações.
Consideremos três parâmetros A, B e C. Digamos, A – é loiro; B – tem menos de 1,60m de altura; C – é do sexo masculino. Em qualquer sala de aula, há um certo número (igual ou maior do que zero) de alunos que são loiros e têm 1,60m ou mais de altura N(A~B); um certo número que são loiros e do sexo feminino N(A~C) e que têm menos de 1,60m e são do sexo feminino N(B~C). É fácil ver que:
N(A~B) + N(B~C) ≥ N(A~C) [ineq. 1]
Se todos que são B são também C, então o número de alunos que são A, mas não são B, é igual ao número de alunos que são A, mas não são C (e, naturalmente, o número de alunos que são B, mas não são C, é igual a zero). Se nenhum que é B é C; o número de alunos que são A, mas não B, é igual ao de alunos que são A e C; o número de alunos que são B, mas não C, é igual ao número de alunos que são B; e o número de alunos que são A, mas não C, é igual ao número de alunos que são A e B. O número de alunos que são A e B, no máximo, é igual ao número de alunos que são B (caso todos os que são A sejam também B). Então, qualquer situação intermediária também obedece à inequação 1.
Isso vale para quaisquer conjuntos de variáveis A, B e C, desde que sejam variáveis clássicas: que obedeçam aos princípios do realismo e da localidade – o realismo local.
Se os estados das partículas, como elétrons, são definidos independentemente de observação, então teríamos a estatística das observações de parâmetros A, B e C que obedecem à inequação.
Obviamente não faz sentido falar em elétrons garotos ou elétrons loiros (embora certamente todos sejam menores do que 1,60m). Uma característica quântica do elétron que se pode medir é o spin (grosso modo correspondente ao momento angular). Se um par de elétrons é gerado a partir de um processo em que se possa aplicar os princípios de conservação (digamos decaimento de uma partícula com spin 0, como um fóton), então teríamos um determinado número de elétrons com spin a 0°, 45° e 90° em uma dada direção para a direita ou para a esquerda (cuja soma ao fim fosse de 0). Sendo A = 0° direita; B = 45°direita e C = 90° direita:
N(0° direita e 45° esquerda) + N(45° direita e 90° esquerda) ≥ N(0° direita e 90° esquerda) [ineq. 2]
(Não há nada de particularmente especial nesses valores de ângulos para o spin, poderiam ser outros.)
Em 1982, equipe liderada pelo físico francês Alain Aspect colocou o teorema de Bell à prova. Usando fótons no lugar de elétrons e medindo ângulo de polarização no lugar de spin por razões técnicas. A inequação de Bell foi violada [11a, b]. A esperança de Einstein (e de Bell) em que variáveis ocultas locais salvariam o realismo local estava abalada.
Alguns modelos abandonam a localidade para tentar salvar o realismo. Mas alguns resultados relativamente recentes descartam um certo grupo de teorias de realismo com variáveis ocultas não-locais [12].
O trabalho de Bell abriu caminho para uma linha de investigação que permitiu avançar sobre o paradoxo EPR e colocar a estranha (por anti-intuitiva) interpretação de Copenhagen do estranho (por além de nossa experiência cotidiana) mundo quântico em bases experimentais bem sólidas. As implicações disso na visão de mundo que podemos ter é alvo de intenso debate entre epistemologistas [13]. Mas podemos dizer com segurança que mudou o mundo (ao menos o modo como o enxergamos) para sempre. E a Academia Sueca perdeu uma grande oportunidade de reconhecer tal fato.
[Este texto é parte da primeira rodada do InterCiência, o intercâmbio de divulgação científica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]
————
O fardo de receber o texto acima coube ao Caderno de Laboratório.

O método de análise de estrutura de texto acabou acertando minha contribuição. Os parâmetros não foram ajustados usando a informação que eu sabia com certeza.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails