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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Qual o papel da fosfoetanolamina nos seres vivos?

Este texto inicialmente foi preparado para um livreto que acabou não sendo publicado a respeito da fosfoetanolamina. Embora não seja um artigo científico formal, creio que seja de alguma contribuição uma vez que não tenho conhecimento de nenhum artigo de revisão a respeito do composto (se souberem de algum, por favor, indiquem nos comentários).
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Qual o papel da fosfoetanolamina nos seres vivos?
A fosfoetanolamina (PEA) está presente em células de bactérias, protozoários, plantas, fungos e animais. Seu papel ainda não é completamente conhecido. A PEA serve de substrato para a produção de diversos fosfolipídios de membrana como a fosfatidiletanolamina e a fosfatidilcolina (Figs. 1, 2). Em bactérias parasitas, a molécula é adicionada a outras presentes na membrana ajudando os micro-organismos a escaparem do sistema imunológico do hospedeiro (Packlam et al 2014). Diversos efeitos contraditórios têm sido atribuídos à PEA em células animais: como estimulação (Karagezyan & Ovsepyan 1975) e inibição (Modica-Napolitano & Renshaw 2004) da atividade oxidativa das mitocôndrias; a promoção da divisão celular e/ou sobrevivência e crescimento (Kano-Sueoka et al. 1979; Kano-Sueoka & Errick 1981; Kiss 1999) e indução da apoptose celular, como defendido pelo grupo de Chierice (Ferreira et al. 2011, 2013) - porém, há indicativos de que a amostra utilizada apresentava um grau muito baixo de pureza, menos de um terço em massa seria de fato constituído de PEA (Dias et al. 2016); podendo ocorrer aumento (Vermeersch et al.2014) e redução (Cady et al. 2010) de concentração celular/tecidual durante hipóxia (baixo teor de oxigênio)/isquemia (baixa irrigação sanguínea).


Figura 1. Via de biossíntese de fosfolipídios em células de mamíferos. CDP - difosfocitidina; CTP - trifosfocitidina; CK - colina quinase; CPT - CDP-colina 1,2-diacilglicerol colinophosphotransferase; CT - CTP:fosfocolina citidiltransferase; EK - etanolamina quinase; EPT - CDP-etanolamina 1,2-diacilglicerol etanolaminofosfotransferase; ET - CTP:fosfoetanolamina citidiltransferase; PEMT - fosfatidiletanolamine N-metiltransferase; PSD - fosfatidilserina decarboxilase; PSS - fosfatidilserina sintase. Adaptado de Vance & Vance 2004 e Vance 2008.


Figura 2. Via de biossíntese de fosfolipídios em planta (Lemna paucicostata). CDP - difosfocitidina. Adaptado de Mudd & Datko 1986.

A fosfoetanolamina apresenta-se em concentração elevada em vários tecidos durante o desenvolvimento embrionário e fetal: células musculares de frango (Granata et al. 2000); músculo esquelético e cardíaco de ratos (Turner et al. 1994); cérebro de coelho (Cohen & Lin 1962);cérebro, coração, fígado, rim e baço de camundongos (Kataoka et al. 1991); cérebro de cães (Gyulai et al. 1984); pool de corpo inteiro de embriões da lagosta europeia (Homarus gammarus) (Rosa et al.2005). Também apresenta-se aumentado no útero pós-parto de coelhas (Cawkwell 1958), de ratas e mulheres (Phoenix & Wray 1994). A presença da PEA no leite materno também aumenta com o tempo de lactação (Harzer et al. 1984) e a concentração no colostro de mulher após parto precoce é mais alta do que no colostro de mulher após parto a termo (Pamblanco et al. 1989). Por outro lado, sua concentração em tecido cerebrais de indivíduos com doenças neurodegenerativas (Alzheimer e Huntington) é reduzida (Ellison et al. 1987). (Tabela 1.) Essas observações não parecem ser facilmente explicadas pelo efeito apoptótico defendido pelo grupo de Chierice; mas são compatíveis com o efeito mitogênico proposto por Kano Sueoka e colaboradores.

Tabela 1. Concentrações de fosfoetanolamina em diferentes tecidos e órgãos. Em itálico: tecidos tumorais.
Tecido/Órgão
Concentração (μmol/g pu)
humano
lobo frontal (feto 5 meses)
lobo frontal (feto 8 meses)
lobo frontal (adulto 19 anos)
córtex frontal (adulto 49,8±4,6 anos)
córtex frontal (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex frontal (adulto Alzheimer)
córtex frontal (adulto Huntington)
lobo occipital (feto 5 meses)
córtex occipital (adulto 49,8±4,6 anos)
córtex occipital (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex occipital (adulto Alzheimer)
córtex occipital (adulto Huntington)
lobo temporal (feto 8 meses)
córtex temporal (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex temporal (adulto Alzheimer)
núcleo accumbens (adulto 49,8±4,6 anos)
núcleo accumbens (adulto Huntington)
núcleo caudado (feto 5 meses)
núcleo caudado (feto 8 meses)
núcleo caudado (adulto 19 anos)
caudado (adulto 49,8±4,6 anos)
caudado (adulto Huntington)
hipotálamo (feto 5 meses)
hipotálamo (feto 8 meses)
hipotálamo (adulto 19 anos)
hipocampo (adulto 70,6±5,0 anos)
hipocampo (adulto Alzheimer)
putâmen (adulto 49,8±4,6 anos)
putâmen (adulto Huntington)
córtex cerebral
astrocitoma
astrocitoma anaplástico
glioblastoma
ependimoma
meduloblastoma
meningioma
neurinoma
craniofaringioma
cordoma
adenoma da pituitária
linfoma maligno
adenocarcinoma pulmonar
mama
tumor mamário
fígado
carcinoma hepatocelular

7,43
6,63
0,71
0,81±0,11
0,97±0,12
0,50±0,12
0,72±0,06
5,24
0,75±0,17
0,90±0,18
0,80±0,19
0,66±0,10
6,90
1,21±0,14
0,43±0,10
1,25±0,19
0,65±0,10
9,29
8,45
1,04
1,02±0,19
0,25±0,03
6,68
3,82
0,38
0,95±0,13
0,57±0,09
1,18±0,15
0,56±0,06
1,06±0,10
1,27±0,11
2,05±0,41
2,38±0,38
1,06
4,62
1,61±0,24
1,87±0,31
0,68±0,12
2,05±0,69
4,41±1,06
4,29±0,17
2,12±0,20
0,16±0,01
2,1±1,1
0,16±0,10
2,47±0,84
rato
útero (feto 20-21 dias)
útero (neonato 1-3 dias)
útero (fêmea adulta grávida)
útero (fêmea adulta pós-parto)
intestino delgado do músculo liso (adulto)
intestino delgado do músculo liso (adulta grávida)
músculo esquelético (feto 20-21 dias)
músculo esquelético (neonato 1-3 dias)
músculo esquelético (adulto)
coração (feto 20-21 dias)
coração (neonato 1-3 dias)
coração (adulto)
cérebro (feto 20-21dias)
cérebro (neonato 1-3 dias)
cérebro (adulto)

2,45±0,30
1,65±0,10
1,68±0,14
2,42±0,12
1,63±0,08
2,01±0,16
~1
~1
0,02±0,1
1,2±0,1
1,4±0,1
~0,3
4,13±0,28
3,87±0,55
~1
galinha
músculo peitoral (embrião 9 dias)
músculo peitoral (embrião 14 dias)
músculo peitoral (embrião 17 dias)
músculo peitoral (recém eclodido)

1,85±0,90
1,33±0,66
0,57±0,33
0,21±0,08
pu - peso úmido de tecido. Fontes: Ackerstaff et al. 2003; Bell & Bhakoo 1998, Ellison et al. 1987, Granata et al. 2000, Gribbestad et al. 1999, Podo 1999.

A PEA é produzida também pela degradação da esfingosina-1-fosfato (S1P) (Fig. 3). A S1P é um lipídio com vários efeitos no organismo: inflamação, tumorigênese e neovascularização, entre outros (Pyne & Pyne 2010).

Figura 3. Formação e degradação da esfingosina-1-fosfato. SGPL1 - esfingosina-1-fosfato liase; SK - esfingosina quinase; S1PP - esfingosina-1-fosfato fosfatase. Adaptado de Spiegel & Milstien 2003.

No entanto, células geneticamente modificadas com superexpressão da enzima esfingosina quinase (SK), que converte a esfingosina em S1P não apresentam uma taxa aumentada de divisões celulares. Somente quando a modificação também leva à superexpressão da enzima esfingosina-1-fosfato liase (SGPL1), que quebra a S1P nas moléculas PEA e hexadecenal, o efeito mitogênico é observado, sugerindo, assim, que o produto da ação conjunta das enzimas SK e SGPL1 e não a S1P em si que apresenta o efeito de estimulação da divisão celular. (Kariya et al. 2005.) Sendo a fosfoetanolamina um dos produtos da degradação da S1P, há mais acordo com a proposta da ação mitogênica da PEA, do que de um efeito inibidor ou apoptótico. Por outro lado, a superexpressão S1P fosfatase (S1PP), leva à redução da concentração celular de S1P e aumento da esfingosina e ceramida e induz ao surgimento de características apoptóticas (Mandala et al. 2000).

Em Smith et al. (1984), PEA a 1 μg/ml, na presença de outros fatores como soro fetal e insulina, apresentou efeito mitogênico para células mioepiteliais derivadas de um tumor mamário de rato; porém outras linhagens derivadas de epitélios de tumor mamário e de células mamárias não-tumorais de ratos não foram estimuladas pela PEA. Em Dhakshinamoorthy et al. (2015), PEA a 8 e 12 mM (1.692,76 1 μg/ml) estimulou a apoptose em células Jurkat (linhagem imortalizada derivada de linfócitos T humanos), mas não em linfócitos normais - apresentando até um possível efeito protetivo sobre estas últimas. Kano-Sueoka & Errick (1981), usando linhagens hormônio-dependentes de carcinoma mamário de rato expostas a uma concentração de 5 nmol/ml (0,71 μg/ml) de PEA, obtiveram um aumento de 3,4 vezes na contagem de células em relação ao controle. A mesma linhagem havia sido testada em Kano-Sueoka et al. (1979): o efeito apresentou uma relação dose dependente, aumentando até a concentração de 5 nmol/ml, na concentração de cerca de 50 nmol/ml (7,05 μg/ml), o efeito foi similar à concentração de 5 nmol/ml; em Kano-Sueoka & Errick. (1981), o efeito da PEA foi sempre crescente até a uma concentração de 10 nmol/ml (1,41 μg/ml). A linhagem hormônio-independente de carcinoma mamário de rato não apresentou a mesma resposta clara; células de hepatoma de ratos, células 3T3 de camundongos e células de fibroblasto de ratos não tiveram sua taxa de divisão aumentada pela PEA; células epiteliais normais de ratos, em testes preliminares dos autores, respondem à molécula (Kano-Sueoka et al. 1979). A etanolamina, molécula precursora da fosfoetanolamina, em Kano-Sueoka & Errick (1981), também apresentou efeito mitogênico sobre as células de carcinoma mamário de rato; mas em concentrações maiores (50 nmol/ml), apresentou efeito inibidor do crescimento. Os efeitos mitogênico e apoptótico da PEA parecem ser variáveis de acordo com a linhagem celular e a concentração aplicada.

Em células de câncer, a PEA também apresenta-se em concentrações elevadas, de duas a vinte vezes, bem como a fosfocolina (PCh) (Podo 1999) (Tabela 1). Células de câncer mamário humano triplo negativas (com três mutações que interrompem a atividade de três genes) MDA-MB-231 tratadas com ARNs interferentes pequenos (siRNA, small interfering RNA) que inibem a transcrição de quinase de etanolamina-1 (EtnK-1) e da quinase de colina-α (ChK-α) levam à redução das concentrações intracelulares de PEA e PCh. A aplicação de siRNA ChK-α também provocou a redução da viabilidade das células em 60%; o siRNA EtnK-1 reduziu a viabilidade celular em 50%.  (Shah et al. 2015.) A PEA, assim como a PCh, parecem ter um papel importante na viabilidade de células tumorais, mas em desacordo com a proposta do grupo de Chierice.

A concentração intracelular de PEA aumenta ligeira, mas consistentemente, com perturbações no metabolismo celular de naturezas diversas: privação de glicose, condição de hipóxia e de isquemia (Vermeersch et al. 2014; cf. Cady et al. 2010). Isso indica que essa elevação faça parte de um mecanismo genérico de resposta ao estresse. Ela pode resultar de um aumento na taxa de substituição dos fosfolipídios de membrana ou, se o grupo de Chierice estiver certo, de resposta apoptótica ao estresse. (Vermeersch et al. 2014.)

No cérebro do peixe euritérmico (capaz de se adaptar a uma gama ampliada de temperaturas) Perccottus glenni (frequentemente grafado erroneamente como P. glehni), a concentração de PEA aumenta quando o animal é exposto a baixas temperaturas: tanto sazonalmente, quanto em condição de choque térmico. Possivelmente devido à alteração da composição de lipídios da membrana. (Karanova 2013.)

No processo de aclimatação a baixas temperaturas do caruncho do trigo, Sitophilus granarius, e do besourinho dos grãos, Cryptolestes ferrugineus, ocorre também variação nos níveis de fosfoetanolamina no corpo. Em S. granarius, a concentração de PEA diminui com a aclimatação; já em C. ferrugineus, a concentração de PEA aumenta. (Fields et al. 1998.)

Outros efeitos estudados da fosfoetanolamina são: coagulação sanguínea - tem efeito anticoagulante (Koppel et al. 1959); ação em células do núcleo septal em cérebros de ratos - aumenta a captação de colina e síntese de acetilcolina (Bostwick et al. 1992); em neurônios do hipocampo de ratos - aumenta temporariamente a excitabilidade (Zeise & Lehmann 1987).

Conclusão Até o presente, basicamente o único papel bem estabelecido da fosfoetanolamina nos organismos é como precursor de importantes fosfolipídios de membrana celular. Vários outros interessantes efeitos têm sido atribuído à molécula: regulação do ciclo celular, ação sobre o metabolismo oxidativo, resposta ao estresse... Mas, como boa parte desses efeitos parecem variar e até apresentar resultados contrários entre diferentes estudos, seria necessário um esforço de replicação independente dos testes realizados até o momento; além de ampliação das pesquisas para determinar os fatores responsáveis por tal variação. Certamente outras funções biológicas da PEA deverão ainda ser descobertas. A maioria dos indícios, no entanto, parecem indicar que a PEA não tem efeito inibidor sobre células tumorais em concentrações fisiológicas normais. Apenas em concentrações de 10 a 100 vezes acima da normal parecem produzir efeitos de inibição ou de apoptose em certas células cancerosas e mesmo tal efeito é incerto pela possível contaminação da PEA utilizada nesses estudos do grupo de Chierice.

Referências
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

NÃO MATEM OS MACACOS! - Qual o papel dos macacos nos casos de febre amarela?

Resposta curta: NÃO MATEM OS MACACOS!

Resposta longa:

Com o recente surto de febre amarela e diversos casos reportados da doença em *macacos* na cidade de São Paulo, infelizmente os primatas vêm sendo alvo de ataques e vários foram encontrados mortos com sinais de violência e envenenamento.

A imprensa e várias autoridades sanitárias vêm alertando que tais atos de crueldade não têm fundamento uma vez que os macacos não transmitem a febre amarela. Isso é correto? Afinal, qual o papel dos primatas na doença?

Existem dois ciclos da doença. O ciclo urbano - ausente no Brasil desde 1942 - envolve a transmissão do vírus amarílico de uma pessoa infectada para outra não infectada através da picada do mosquito do gênero Aedes: Aedes aegypti e Aedes albopictus principalmente. No ciclo silvestre - endêmico e virtualmente impossível de erradicar, presente no Brasil - o vírus circula de um mamífero, especialmente macacos, mas também alguns marsupiais e roedores, para outro tendo como vetor mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Todos os casos no país são do tipo silvestre. Ocasionalmente, pessoas que se embrenham nas matas ou em seu entorno (trabalhadores rurais, campistas e turistas, soldados...) são picadas por um mosquito Haemagogus ou Sabethes contaminado e são infectadas. (Para uma revisão, veja Monath e Vasconcelos 2015.)

Macacos não são considerados reservatórios do vírus porque normalmente adoecem e morrem. Os reservatórios acabam sendo os próprios vetores, onde a população de vírus se mantém em um certo nível; podendo ocorrer inclusive transmissão vertical - da fêmea para seus descendentes - por infecção transovariana (o vírus acaba penetrando os ovos que se desenvolvem dentro do corpo da fêmea). Mas os macacos são considerados um dos principais amplificadores. Quando um símio é infectado, o vírus se multiplica em seu organismo, podendo infectar vários mosquitos que se alimentam de seu sangue e com cargas virais mais altas.

Não está absolutamente claro o papel da transmissão vertical na manutenção do ciclo silvestre; os especialistas tendem a dar mais importância à população de macacos de uma região. Surtos epizoóticos (grande aumento do número de casos em animais não humanos) ocorrem em intervalos de cinco a oito anos em uma região; a população de mosquitos não se altera tanto, mas é possível que o período decorra em função do tempo que leva para a população de macacos se recuperar - já que os que são afetados pela doença frequentemente morrem, diminuindo muito o número de animais na área. Na maior parte dos casos, tais surtos se deslocam por áreas contíguas, o que possivelmente se deve ao deslocamento de macacos contaminados por um novo local em que há animais não afetados.

Ocorre também casos em que o vírus de uma linhagem, subitamente, aparece em uma nova área muito distante de onde normalmente circula. Geralmente isso é interpretado pelo deslocamento de pessoas infectadas - os macacos e os mosquitos têm um deslocamento mais limitado - ou, de modo não mutuamente incompatível - pelo tráfico de animais silvestres (com indivíduos virêmicos - com vírus no sangue).

Então, os casos humanos no Brasil - e onde não há o ciclo urbano - ocorre quando um mosquito selvático que se alimentou previamente do sangue de um macaco infectado eventualmente pica uma pessoa. O macaco não transmite a febre amarela diretamente, mas por meio do vetor - os mosquitos.

A população de macacos é um fator de risco para a ocorrência de febre amarela em humanos. Hamrick et al. 2017 analisaram vários fatores: coordenadas geográficas, tipo de hábitat predominante (floresta, campo, cerrado...), temperatura, pluviosidade, intensidade de uso do solo (como áreas agrícolas), perda de dossel (desmatamento), presença de primatas não-humanos. O principal fator de risco são as chuvas: pluviosidade de 1.000 a 1.700 mm/ano aumenta o risco em mais de 7 vezes em relação a regiões com índices de chuva menores; regiões com pluviosidade superior a 2.700 mm/ano tem um risco quase 20 vezes maior de haver casos de febre amarela em humanos. Altitudes abaixo de 800 m têm um risco de cerca de 5 vezes maior do que em áreas de altitude superior a 1.800 m. Regiões com temperaturas médias superior a 20°C têm risco de 2 vezes ou mais de regiões com temperaturas abaixo de 15°C. E a diversidade de primatas na região também afeta: a presença de um gênero de macaco aumenta as chances em mais de 3 vezes em relação a áreas sem sua presença.

Isso, no entanto, de modo algum justifica a crueldade com os primatas, nem mesmo um abate humanitário. Boa parte dos primatas são espécies vulneráveis - estão em algum grau em risco de extinção -, eles têm um importante papel ecológico ao predarem pequenos artrópodos e vertebrados e dispersarem sementes; são também espécies capazes de sentir dor e têm alguma habilidade cognitiva.

Como os mosquitos selváticos têm uma limitada capacidade de deslocamento e não se aventuram para fora de áreas de mata, as pessoas podem evitar de pegar a febre amarela não se aproximando de regiões de mata em que há registros da doença. As pessoas que moram no entorno podem ser perfeitamente protegidas por meio da vacinação, que é altamente eficaz e suficientemente segura.

Assim, uma vez que existem outros meios e muito mais eficientes de se evitar a febre amarela em humanos e considerando as características biológicas e seu status de conservação, razões éticas, legais e ecológicas muito fortes contra a matança dos macacos existem.

Resumo: NÃO MATEM OS MACACOS!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Como é que é? - Atletas mulheres trans levam vantagem sobre atletas mulheres cis?

A recente estreia da jogadora Tiffany Abreu, transgênero (pessoa que nasce com o sexo biológico oposto ao qual com que se identifica) homem-mulher, na Superliga de Vôlei Feminino, causou bastante interesse - é a primeira atleta trans a atuar em uma competição de elite no voleibol nacional. Bastante interesse e muita polêmica. Por exemplo, a ex-jogadora Ana Paula Henkel criticou a decisão da federação de permitir a participação - embora, como a própria Henkel reconhece, sob auspícios da legislação desportiva internacional sobre o tema. Para ela - e muitos contrários à integração de atletas trans em meio às cisgêneros (pessoas que nascem com o sexo com que se identifica) -, as atletas trans levam uma vantagem pela exposição pretérita aos hormônios androgênicos antes dos tratamentos para a transição de gênero: inibidores hormonais que mantém os níveis de andrógenos como a testosterona muito abaixo dos níveis normalmente encontrados mesmo em mulheres cis.

A Declaração do Consenso de Estocolmo sobre a Cirurgia de Readequação de Sexo no Esporte, de 2003, estipulou parâmetros para a admissão de atletas transgêneros - particularmente de mulheres trans em competições femininas - nas Olimpiadas de Atenas em 2004. Sofrendo modificações recentes, que abordam também os casos de hiperandrogenismos (em que mulheres cisgêneros cujos corpos produzem níveis de hormônios androgênicos mais altos do que a média das mulheres). Atletas trans homens não sofrem qualquer restrição especial para participar em competições masculinas. As atletas trans mulheres devem: declarar que são mulheres (e devem manter a declaração, para fins esportivos, por pelo menos quatro anos), apresentar níveis de testosterona inferiores a 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes de estreia em uma competição esportiva (o tempo de moratória pode ser alongado a depender do caso) e durante toda a carreira como atleta feminina (caso não passe em algum teste, haverá suspensão por 12 meses).

Isso é o suficiente? O fato de a pessoa treinar boa parte da vida como homem, desenvolver musculatura, sistema respiratório e esquelético de um atleta homem... influencia após a transição de gênero?

A verdade é... não sabemos. Jones, B.A. e colaboradores (2017) revisaram a literatura científica a respeito da performance das atletas trans em comparação com atletas cis e concluíram:
"Results In relation to sport-related physical activity, this review found the lack of inclusive and comfortable environments to be the primary barrier to participation for transgender people. This review also found transgender people had a mostly negative experience in competitive sports because of the restrictions the sport’s policy placed on them. The majority of transgender competitive sport policies that were reviewed were not evidence based.
Conclusion Currently, there is no direct or consistent research suggesting transgender female individuals (or male individuals) have an athletic advantage at any stage of their transition (e.g. cross-sex hormones, gender-confirming surgery) and, therefore, competitive sport policies that place restrictions on transgender people need to be considered and potentially revised."
["Resultados: Em relação às atividades físicas relacionadas aos esportes, esta revisão encontrou na falta de ambientes inclusivos e confortáveis a barreira primária à participação de pessoas transgêneros. Esta revisão também encontrou que pessoas trans têm na maior parte das vezes experiências negativas em esportes competitivos por causa das restrições que a política esportiva impôs a elas. A maioria das políticas de esportes competitivos para transgêneros que revisamos não são baseadas em evidências.
Conclusão: Atualmente, não há pesquisas diretas nem consistentes sugerindo que indivíduos transgêneros femininos (ou indivíduos masculinos) tenham alguma vantagem atlética em qualquer estágio de sua transição (p.e. terapia hormonal cruzada, cirurgia de readequação de sexo) e, assim, políticas de esportes competitivos que impõem restrições às pessoas transgêneros devem ser consideradas e potencialmente revisadas."]

Até o momento, apenas um estudo publicado analisou diretamente o efeito hormonal no desempenho de atletas trans. O tamanho amostral (n = 8) é muito baixo e a metodologia deixa a desejar para uma conclusão forte, mas, comparando o desempenho na corrida de longa distância (5 a 42 km) de atletas antes de depois do tratamento de supressão da testosterona, Harper (2015) verificou que após a supressão, o tempo relatado (não foi medido objetivamente pelo pesquisador, mas as próprias atletas reportaram a alteração) aumentou significativamente (isto é, as atletas ficaram mais lentas) e passou a apresentar um desempenho similar a atletas cis mulheres.

Um outro estudo apresentado no World Congress of Performance Analysis of Sport XI 2016, Harper e cols. compararam o desempenho de 6 atletas: 1 velocista, 1 remadora, 1 ciclista e 3 fundistas. Após corrigir para a idade, todas apresentaram uma queda do desempenho após o tratamento, de 6 a 11%, que seria consistente com as diferenças entre atletas masculinos e femininos de elite.

Precisaremos de mais estudos para saber se realmente há a tal vantagem das atletas trans - as indicações disponíveis até o momento (são fracas, é preciso frisar) é que não.

Mas, mesmo que eventualmente encontre-se uma vantagem, não necessariamente a solução seria a segregação entre atletas trans e cis. Várias modalidades aplicam mecanismos de compensação para tornar a disputa mais equilibrada. O golfe, por exemplo, usa o sistema de handicap para que jogadores em níveis distintos possam competir entre si com chances mais parecidas de vitória. O próprio vôlei, no Brasil, usa sistema de classificação de atletas: os clubes têm um limite de número de atletas mais bem avaliados que podem ter em seus elencos. Associações como a NBA usam o sistema de draft, em que as equipes se alternam na escolha dos atletas estreantes. Quase todas as modalidades apresentam divisão por idade; muitas dividem por peso.

Upideite (11/fev/2018): Veja também.
Pirula (15/jan/2018): Tiffany e transexuais no esporte. (video)

Upideite(20/jun/2022): Um estudo publicado em 2021 (Roberts et al.) com um número maior de pessoas trans (46 mulheres trans) não encontrou diferenças, após 2 anos de tratamento hormonal, no desempenho atléticos entre mulheres cis e trans em exercícios de flexão de braço e abdominais, a vantagem das mulheres trans na velocidade de corrida de 1,5 milha caiu de 21% para 12%. No caso dos homens trans, após 1 ano de terapia, as diferenças para os homens cis despareceram para flexões e corrida, em abdominais a média dos homens trans foi até superior em relação aos homens cis (em contagem durante um minuto).

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Gene Repórter ano 10


Hoje completa 9 anos da primeira postagem aqui no GR. Ou seja, estamos agora no ciclo do décimo ano deste blogue.

Em uma rápida conta de engenheiro, não sou a metade da pessoa que costumava ser: cerca de 60% das células que constituíam meu corpo em 27 de novembro de 2008 foram substituídas desde então.

Ainda não existia o Whatsapp (lançado em 24 de fevereiro de 2009), possivelmente hoje, o principal serviço de comunicação instantânea entre os brasileiros, com 120 milhões de contas verde-amarelas. O sistema operacional Android (liberado em 23 de setembro de 2008) tinha poucos meses. A Uber (março de 2009) ainda seria fundada. A Tesla já existia há muito tempo (ao menos em termos tecnológicos - fundada em julho de 2003), mas Elon Musk, no pior ano de sua vida, havia acabado de assumir o comando da empresa (outubro de 2008) e entre novembro e dezembro uma injeção de 50 milhões de dólares da Daimler salvaria a empresa da falência.

A revista Ciência Hoje e Unesp Ciência ainda existiam em versões impressas. Aliás, a Unesp Ciência não, ela só seria lançada no ano seguinte. Desde então, houve um desmonte das editorias de ciência nos principais veículos (dentro de um cenário maior de crise geral no jornalismo). E mesmo os blogues passaram por sua crise de crescimento (e dos eventos mais recentes dessa crise representado pelo fim do Scienceblogs americano e ao mesmo tempo em que parece crescer os condomínios institucionais acadêmicos) e vimos uma diversificação de mídias de divulgação científica na internet: com podcasts e vlogs (a comunidade cresceu a ponto de iniciativa do ScienceVlogs surgir para congregar os vlogueiros de ciência em pt-br), e fora dela, com festivais, cafés e saraus.

O cenário atual para as ciências é tenebroso. Não apenas no Brasil, mas particularmente grave por estas bandas com sucessivos cortes bastante duros no financiamento público para as atividades de ensino e pesquisa. Suscitando vários eventos mundiais e nacionais de mobilização, particularmente no âmbito das Marchas pela Ciência.

Esta crise pelo menos estimulou um debate sobre a necessidade de maior divulgação das ciências, ainda que deva demorar uma ação mais efetiva ou mesmo um planejamento dessas ações. E, também em um cenário mais amplo da crise econômica, ela acabou afetando vários planos para canais de divulgação científica - com o encolhimento das verbas publicitárias que despontavam ao fim de 2014. Não temos ainda modelos de negócios que permitam muitos viverem disso por conta própria. Adsense e cliques não pagam mais o suficiente, veiculação direta de publicidade nos canais igualmente é limitada (em alguns casos, como podcasts as agências ainda não sabem como quantificar e qualificar a audiência; no caso do YT, as métricas são bastante ricas e detalhadas, mas os algoritmos não são muito generosos com canais de ciência - é preciso subir vídeos quase que diariamente, a economia da atenção torna a concorrência severa com distratores como mergulhos em tanques de banho recheados com compostos de propriedades reológicas e colorimétricas suspeitas).

A produção de material de DC se diversificou. Porém, a transformação passou a exigir um nível de sofisticação que envolve muito trabalho. Muito trabalho e baixa remuneração. Quando não obriga a que o divulgador pague do próprio bolso para produzir sua peça: equipamentos de áudio e vídeo, equipe para diagramação, edição e mixagem... Há poucas e concorridas bolsas e editais para DC.

O que reservará o décimo ciclo que ora se inicia? O que poderemos fazer para melhorar a conjuntura em que torna a DC tão necessária e ao mesmo tempo tão difícil?

Experimentos estão sendo feitos: vaquinhas e patronatos, o velho pedido de doação, assinaturas de newsletter, organização em cooperativas de freelances, abertura de EMEIs, venda de brindes e quinquilharias geek, cursos e palestras... Veremos o resultado deles futuramente. Que sejam positivos.

Um ótimo novo ciclo a todos!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 32

Minhas anotações de AbiGhannam 2016 que traça alguns perfis de comunicadoras de ciências na internet.

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AbiGhannam, N. 2016. Madam science communicator: a typology of women’s experiences in online science. Science Communication 38(4): 468-94. DOI: 10.1177/1075547016655545

Entrevistas via skype com 43 comunicadoras de ciência (escolhidas em votação aberta pelo twitter: as pessoas poderiam indicar até 5 nomes que considerassem de mais destaque; de 170 citadas no total, 64 foram contatadas, com 43 aceitando responder).

Quatro perfis foram considerados (Fig. 1):
.Expressiva/escapista (E/E): comunicação sobre temas complexos por necessidade pessoal ou desejo de fugir do cotidiano;
.Advogada/normalizadora (A/N): normalização da experiência científica para os outros na sociedade para que se identifiquem mais com as ciências ou as aceitem ou defesa de uma causa científica para fazer com que as pessoas se conscientizem da importância e ajam;
.Edutainer (Et): comunicação de tópicos simples com o objetivo de educar as pessoas através do entretenimento;
.Performer/compartilhadora (P/C): comunicação de tópicos básicos de ciência, focado na própria inclinação natural de compartilhar informações com os outros.

Figura 1. Tipologia de comunicadoras científicas online. Eixo horizontal: foco da comunicação; eixo vertical: seleção de temas. Fonte: AbiGhannam 2016.

A Tabela 1 resume as características demográficas e profissionais das entrevistadas.

Tabela 1. Demografia e características das tipologias das comunicadoras. Fonte: AbiGhannam 2016.

Características demográficas Total E/E A/N Et P/C
N 43 10 11 14 8
Idade média (anos) 39,5 45,2 36,9 37,25 39,3
Mais nova 25 35 27 25 25
Mais velha 73 61 55 60 73
Não respondeu 2 0 0 0 0
Etnia
Branca 37 7 9 13 8
Afroamericana 3 2 1 0 0
Hispânica 0 0 0 0 0
Asiática 1 0 1 0 0
Indígena 1 0 0 1 0
Não respondeu 1 1 0 0 0
Estado civil
Mora junto 3 1 2 0 0
Casada 24 6 5 8 5
Solteira 14 2 4 5 3
Não respondeu 2 1 0 1 0
Filhos
Sim 20 6 3 6 5
Não 23 4 8 8 3
Comunicação online
Blog 37 10 10 10 7
Escrita 24 4 7 10 3
Extensão (outreach) 14 0 5 5 4
Formação
Ciências 35 8 9 10 8
Outra 8 2 2 4 0
Outras responsabilidades
Ainda fazendo ciências 16 7 4 2 3
Foi cientista e não é mais 19 1 5 8 5
Nunca fez ciências 8 2 2 4 0
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Fim de uma era.

O ScienceBlogs americano encerrou suas atividades ao fim de outubro passado, num Dia das Bruxas, antevéspera de Finados. Sem anúncios grandiloquentes, apenas murmúrios lastimosos de seus blogueiros em tweets relembrando a aventura que foi fazer parte de um marco na divulgação científica na era digital, um dos primeiros condomínios e, durante um tempo, uma das principais referências mundiais em blogues de ciências. Tendo legado deixado uma versão alemã e uma brasileira (o Lablogatórios, condomínio formando em 2008, seria renomeado ScienceBlogs Brasil em 2009 após acordo com o pessoal da SEED, responsável, então, pelo SB matriz: SB-us): ambos sobrevivem ao projeto pai e continuam (o vínculo sempre foi mais unicamente o nome, não havia nenhuma forma de controle editorial por parte da matriz - embora quando, em 2011, o SB-us passou para o controle da National Geographic, ao menos a parte comercial, havia a possibilidade dos projetos filhos também se beneficiarem do acordo: como o direito de utilizarem de imagens da NatGeo).

As postagens não são mais acessíveis no site do SB-us: clicando nos links, o leitor é redirecionado para os novos endereços dos blogues que costumavam ser hospedados no condomínio. Não há nenhum aviso oficial.

Chad Orzel, físico químico, autor do blogue "Uncertain Principle" e que esteve desde o início do SB-us, escreve sobre sua longa passagem pelo condomínio (atualmente escreve para o site da Forbes), mas aparentemente também não tem os detalhes por trás da decisão do encerramento do projeto.

A crise geral dos blogues não deixou o SB-us incólume. Dependendo do serviço utilizado, a estimativa de tráfego mensal é de cerca de 500-600 mil a 1,5-2 milhões de visitantes/mês no último ano. São números respeitáveis, mas aparentemente não o suficiente para se manter como uma empreitada economicamente viável nos Estados Unidos. De todo modo, representa uma estagnação ou declínio frente a cerca de 2 milhões visitantes/mês que havia atingido já em 2010.

Ao mesmo tempo em que quase sempre havia uma ampla liberdade editorial dos blogueiros, parece que sempre foi complicado tornar o SB-us um projeto verdadeiramente rentável. Um infame episódio foi a malfadada tentativa de atrair anunciantes permitindo que mantivessem um blogue dentro do condomínio. A Pepsi criou dentro do SB-us um blogue sobre nutrição, o que causou desconforto em vários blogueiros da casa, e muitos se desligaram do projeto. A parceria acabou naufragando. Mas para PZ Meyers, do Pharyngula, um dos principais nomes do SB-us até sua saída em 2011, o principal problema foi quando do acordo com a NatGeo. Para o biólogo, a imposição de uma padronização da diagramação e uma supervisão editorial mais estrita tolhia essa liberdade. Ele acabou fundando um novo coletivo, o Freethought Blogs. O SB-us readquiriria independência um tempo depois (não sei precisar o momento em que o acordo com a NatGeo se encerrou - se eu conseguir levantar esse dado, atualizo a postagem), mas sem o vigor inicial.

A filósofa Janet D. Stemwedel - que mantinha o blogue Adventure in Ethics and Scienc -, em seu perfil no twitter, rememorou o sentimento de comunidade que havia no início. Acabou se afastando em 2010, insatisfeita com o gerenciamento do projeto que, segundo ela, estaria mais preocupado em gerar um tráfego intenso para o SB-us, mesmo valendo-se de manter um tanto artificialmente polêmicas entre seus blogueiros e outros de fora. À época de sua saída, Bora Zivkovic, do A Blog Around the Clock, também criticava o crescimento do SB-us em número de blogues - cerca de 90 em 2010 - e a perda do sentimento de comunidade e o desgaste das relações.

Embora seja muito triste que um dos pioneiros cerre suas portas, deixa frutos importantes. Não apenas toda uma geração de importantes comunicadores e divulgadores de ciência como Ed Yong ("Not Exactly Rocket Science") e Brian Switek ("Lealaps") passou por lá, como serviu de inspiração para outros projetos, como o Blogs de Ciência da Unicamp e o próprio Lablogatório que viraria o Scienceblogs Brasil. Em tempos em que a divulgação de ciências na internet flui e se diversifica - podcasts, Youtube, facebook, twitter e outras mídias sociais... - o legado do ScienceBlogs americano fica.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 3

Ao contrário da segunda edição, desta vez houve um pouco mais de tempo para uma organização mais digna desse nome para a marcha, um pouco mais de um mês (contra os quatro dias daquela).

Devido ao meu grau de envolvimento pessoal nesta edição (na primeira não participei em nada da organização - fui inicialmente como participante e literalmente no meio do caminho me converti a repórter; na segunda, apenas tentei iniciar os preparativos e depois saí em desesperada tentativa de divulgação), não pretendo fazer um relato pormenorizado - seria mais um ato de propaganda do que de descrição mais fiel dos fatos.

Deixo aqui apenas alguns registros da manifestação e uma ou outra observação.

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3a Marcha pela Ciência.
08 de outubro de 2017. Avenida Paulista. São Paulo/SP.

(Crédito: autoria própria.)

*Pelo vídeo dá pra ver que o tamanho do público é maior, e bem, do que o reportado em alguns sites noticiosos, né, O Globo?* No vídeo, o cone de sinalização fornece uma boa referência dimensional - sua altura é de 75cm. Conta de engenheiro. Levaram cerca de 7 segundos pra atravessar a faixa. A faixa tem cerca de 4 metros, então dá uma velocidade média de cerca de 2km/h da caminhada. São cerca de 3 minutos pro cortejo passar, que dá cerca de 103 m de comprimento da passeata. Com uma distância média 80 cm entre as fileiras, são umas 129 fileiras de pessoas. Sendo cerca de 10 pessoas por fileira, teremos cerca de 1.290 manifestantes. Com uma propagação de erros nas coxas diria que: 1.290,0±193.5 presentes seria uma estimativa razoável. Ou, mais condizente com a precisão possível: M = 1.300±200 [IC95%: 900-1.700]. Não fosse a forte chuva pela manhã, talvez tivéssemos um número até maior. Mas, felizmente, não choveu durante o evento como era a previsão (um participante da Marcha pela Ciência torcendo contra uma previsão científica, sim).

*No meio do deslocamento, cruzamos com duas outras manifestações de outra natureza - e bem menores numericamente (felizmente, dada a natureza de pelo menos uma delas). Segundo relatos - que reputo confiáveis - houve provocações por parte dos integrantes dessas outras manifestações (uma delas eu vi, na verdade; mas eram provocações sem sentido, já que não éramos contrários à religião deles; já da religião de outra, que pedia golpe militar, queríamos distância) em direção à marcha pela ciência, mas não houve incidentes de qualquer um querer comprar briga (no máximo, alguma devolução verbal de provocação). A polícia, na primeira passagem por uma das manifestações que vinha pela outra pista da Paulista, chegou a formar um cordão ao longo do canteiro central da avenida. A presença dessas outras manifestações não chegou a frustrar a realização da Marcha pela Ciência, mas obrigou a um desvio do percurso na volta.

*Houve um certo número de pessoas que acabaram chegando já depois que o pessoal havia se dispersado - pouco depois das 16h30.

*A Banca da Ciência fez sucesso e acabou ficando até mais tarde - umas 18h - pra atender o público.
Crédito: Paulo Borges/Banca da Ciência.
*As palavras de ordem que achei as melhores: "Sem ciência é zika", "Sem ciência a terra é chata". Tem um duplo sentido que é verdadeiro (ou quase) nos dois casos, é curto e fácil de entender.

*Mesmo que possamos considerar esta marcha bem sucedida (há gente ainda reclamando do tamanho de participação alcançada), ela com certeza não é o fim. A marcha ainda é longa, muito longa, o primeiro alvo é tentar evitar mais cortes ainda no orçamento da ciência e educação. Hoje, a SBPC e associadas participaram de uma audiência pública no Congresso para mais recursos para a área. A marcha, especialmente em São Paulo, não é uma reivindicação salarial - a maioria dos professores continuam a receber seus salários - o risco é de não haver mais verba pra pesquisa: para bolsas dos alunos e dinheiro para equipamentos e suprimentos. Em São Paulo, os institutos de pesquisa estão com um quadro que não é renovado há um bom tempo e que vem sendo reduzido mais e mais com a ausência de novos concursos e aposentadoria dos antigos pesquisadores.

*A marcha precisa do apoio de um amplo setor - dentro e fora da academia. Nesta edição esteve presente, por exemplo, a SOS Mata Atlântica.
*A necessidade de integrar uma diversidade de atores implica também em aceitar e conviver com uma diversidade de visões. O que cria também algumas tensões. Num cenário de polarização, temos que reaprender a conviver com as diferenças de opinião (sim, excetuando-se as bizarrices criminosas dos fascistas). Esse enfrentamento, se mantido em um nível respeitoso, é até saudável. Havia divergência desde quanto a cor da camisa (a organização sugeriu - sugeriu, não impôs como condição para participação na marcha - uma cor escura, mas havia quem quisesse cor clara e manifestando contrariedade nos comentários dos canais de comunicação da organização do evento) até detalhes de pauta (a pauta geral do evento foi necessariamente limitada e sem grandes detalhamentos pela necessidade de poder congregar o maior número possível de frentes).

*Se há necessidade de se tirar lições disso, é exatamente das discordâncias em vários aspectos entre os participantes e o fato de a Marcha ter ocorrido sem incidentes maiores. É uma demonstração de que essa divergência respeitosa é possível, especialmente em nome de um objetivo em comum. Não precisamos concordar em tudo, não precisamos abafar essa divergência; basta apenas cultivar o respeito mútuo e estar disposto a dialogar civilizadamente. Ao diálogo, então. E mais protestos.

*Claro que terá ainda havido falhas na organização. Estamos melhorando. Ainda que faltem recursos, tudo é um processo de aprendizagem. Ouvir as críticas, aprender com elas também é parte dessa aprendizagem. (Bem como descartar as críticas desinformadas. Se acha 1.200 pessoas ainda muito baixo, ok, podemos discutir isso; mas reclamar que apenas 200 apareceram, não.)

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Veja a cobertura da imprensa:
Estadão (08/out/2017): Marcha pela Ciência reúne cerca de mil pessoas na Avenida Paulista (Cuidado! contém paywall poroso!)*
Folha (08/out/2017): Pesquisadores e estudantes marcham na Paulisa contra cortes na ciência (Cuidado! contém paywall poroso!)

À medida que saírem relatos dos participantes em seus canais de divulgação científica, acrescento a esta postagem.

Alô, Ciência? (10/out/2017): Por que marcham os cientistas?
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Obs: Com muito afinco - envolvendo troca de mensagens até de madrugada em várias ocasiões -, grande parte do sucesso desta terceira edição é para ser creditada ao trio que comandou também os preparativos da primeira: Dayane Machado, Flávia Virginio e Natalia Pasternak Taschner.
The Powerpuff Girls: created by Craig McCracken/©1998- Cartoon Network.
Figura 1. Núcleo central da organização da 3a. Marcha pela Ciência. Da esquerda para a direita: Flávia Virginio, Natalia Pasternak Taschner, Dayane Machado.

Só um exemplo do que elas fizeram. Um pouco antes do dia do evento, lanço verde para elas a ideia de convidarmos os nobelistas que assinaram a carta para o presidente sobre a crise na ciência brasileira para fazerem um vídeo para a Marcha. Em vez de inventarem uma desculpa de que seria complicado, de que eles diriam não (o que era bem provável - afinal, quem éramos nós?), que havia pouco tempo (todas desculpas razoáveis, ainda mais que estão muito ocupadas com outras tarefas acadêmicas)... elas compraram isso de modo entusiástico. Em poucos minutos - no meio da noite já! - prepararam um texto em inglês e enviaram para 22 dos signatários (de um deles - um nonagenário - não conseguimos obter o endereço eletrônico) um email com o pedido. Sim, esse foi o tamanho da nossa cara de pau. Alguns responderam e, como previsto, declinaram (o que é mais do que compreensível, e somente a delicadeza de responder já mostra que se trata de outro nível). Mas eis que ninguém menos do que Claude Cohen-Tannoudji, um dos vencedores do Nobel de Física em 1997, e o principal abaixo-assinado da carta aberta, faz um vídeo falando sobre a preocupação deles com a ciência do Brasil. Aí corre fazer a tradução pra publicar. O vídeo era pesadinho, ainda que curto (dá pra notar pela qualidade da imagem, embora o áudio sofra um pouco). Tentei subir a legenda, mas falhei miseravelmente (o facebook não me deixou subir o arquivo srt). O Luciano Queiroz, do Dragões de Garagem, renderizou outro vídeo com legendas incluídas, e subimos para a página da Marcha pela Ciência - São Paulo.

Claro que um evento deste tamanho envolveu o trabalho de muita gente, mas seria complicado listar aqui toda e cada contribuição. A começar pelos que contribuíram ao Catarse (um sucesso que superou a meta - a propósito, de todo modo ainda é possível contribuir: os valores que sobrarem depois da fatura das despesas serão transferidos para um fundo gerido pela Aciesp para utilização em outros eventos pró-ciência), aos que assinaram o Manifesto pela Ciência, aos que ajudaram na divulgação, aos que fizeram a distribuição do material de divulgação, etc, etc. Além claro de todo o restante do pessoal da organização e coordenação.
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*Upideite(10/out/2017): Há erro também na matéria de O Globo quando informa que a SBPC organizou. A SBPC apoia a marcha, mas não organiza. As instituições realizadoras foram a Aciesp e a APqC. O Estadão cometeu erro complementar, atribuiu a organização à SBPC e à APqC - incluiu a SBPC incorretamente e omitiu a Aciesp.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Por que Gallus gallus domesticus atravessou a rua? Ciência&humor: dá samba?

Minha apresentação das palestras que dei para o 15o Congresso de Iniciação Científica em Ciências Agrárias, Biológicas e Ambientais do Instituto Biológico de São Paulo (12 a 14 de setembro de 2017), no dia 13 (qua) e também o 25o Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP da Escola de Enfermagem - 1a fase (14 de setembro de 2017), no dia 14 (qui).




Reciclei alguns slides de apresentações anteriores, claro. Não vamos desperdiçar elétrons à toa.

Agradecimentos também ao Atila Iamarino, que me indicou pro SIICUSP/EE. A Carol Medeiros está nos agradecimentos dos slides, mas repito aqui, pela indicação pro CICAM/IB.

domingo, 3 de setembro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 2

Desta vez foram menos participantes em São Paulo, mas acho que se obteve um impacto até maior junto à população.

O tempo ajudou e no sábado dia 02 de setembro, ao contrário do dia da primeira Marcha pela Ciência em São Paulo, não choveu. E também não era emendado com feriado como foi em abril. Mas a segunda edição da Marcha na capital paulista contou com menos tempo de organização ainda do que na anterior. Se o tempo de um mês já foi curto para a edição de 22 de abril, imaginem que desta vez decidiram na terça, dia 28 de agosto, que o evento seria no sábado, dia 02 de setembro. E a coisa é ainda pior se considerarmos o tempo em que se estava cogitando a organização da marcha em São Paulo: no sábado, dia 26, frente a um pedido no grupo da Marcha pela Ciência no Brasil no facebook (o evento no Rio já havia sido definido há bem mais tempo) resolvemos tentar criar um grupo para tocar a manifestação paulistana (inicialmente, tentou-se via Whatsapp, mas não estava funcionando e mudamos pra um grupo no facebook mesmo)*. Sem data definida para quando seria.

Toca enviar email para associações científicas e a acadêmicas ainda no sábado e no domingo. Até a segunda feira somente a Aciesp havia respondido (e positivamente). Conseguimos a confirmação da adesão logo depois da ANPG. Ou seja, ainda não havia se consolidado nem a articulação dentro da comunidade científica para a marcha em São Paulo quando acabaram decidindo pela data. Eu estive fora o dia 29 de agosto (terça) e nem acessei a internet. Quando volto no fim da tarde e abro o grupo, já haviam fechado a data, no sábado (dia 02 de setembro)* mesmo, e criado a página de eventos.

Ok. Não havia mais nada a ser feito a não ser tentar loucamente divulgar para o máximo possível de pessoas. Convidei para o evento todos os meus conhecidos no facezucko que eu achava que estariam em um raio razoável para poderem ir à marcha. Divulgadores científicos, compreensivelmente, ficaram aborrecidos com o modo súbito com que definiram a data. (Não estou completamente por dentro dos eventos que levaram à essa definição. Mas há uma preocupação forte na SBPC e na comunidade científica brasileira com os cortes - e a versão inicial da lei orçamentária para 2018 parece tornar a situação do financiamento da ciência brasileira ainda pior. Uma demonstração era necessária antes da votação e definição da LOA 2018. E possivelmente quiseram dar um alcance maior coordenando com o evento carioca. Além de São Paulo e Rio, programaram para a mesma data: Porto Alegre, Brasília e São Luís; Natal escolheu dia 04 de setembro.)

Dadas essas circunstâncias, meio que de brincadeira, defini um corte pessoal de 10 pessoas (mais ou menos o tamanho do número de participantes dos organizadores da marcha em São Paulo) como critério para sucesso: se aparecessem 11 ou mais gatos pingados, eu me daria por satisfeito. De terça a sexta pouco mais de 400 pessoas haviam confirmado presença na página do evento no fb (em abril, das cerca de 1.500 confirmações, umas 300-500 pessoas apareceram de fato). Até às 15h30 (o evento havia sido marcado para começar às 15h), não mais do que umas 50 pessoas estavam sob o vão do Masp, local definido para o protesto. De fato, até umas 14h50, havia somente um manifestante - eu. Mas, enfim, para meu critério já era um sucesso, porém o clima era de um certo constrangimento e a sensação era de que a manifestação havia fracassado (alguns até foram embora nesse tempo). Pouco a pouco, porém, foram chegando mais gente. Até as 16h00 deveriam ser algo como 150 pessoas.

Não havia programação definida e nem previsão de deslocamento. Mas, na hora, decidiu-se coletivamente subir do Masp até o prédio do escritório da Presidência da República (na esquina com a rua Augusta). A PM fez a escolta e duas pistas foram fechadas localmente para a passeata. Alguns carros passaram buzinando em apoio ao protesto, vários transeuntes pararam pra acompanhar e registrar com seus celulares, eu flagrei pelo menos um lendo os cartazes com palavras de ordem e denúncia contra os cortes e a situação da ciência no Brasil, um ciclista e alguns passantes levantaram o braço agitando-o em apoio durante o trajeto. Acho que decisão de se deslocar acabou acertada, ainda que alguns tenham chegado ao Masp depois que saímos e achado que a manifestação já houvesse acabado. (Não deu tempo nem de organizar um canal de mídia social que fizesse atualização em tempo real da movimentação.)

A primeira marcha ficou concentrada no Largo da Batata, sem deslocamento. Embora os 150-200 manifestantes da edição de setembro sejam significativamente menos numerosos, acho que o deslocamento criou um maior impacto junto à população e uma maior visibilidade.

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O fórum permanente criado pela SBPC com as entidades científicas associadas para discutir a crise na ciência brasileira poderia ser ampliado para incluir entidades não-estritamente acadêmicas, como representantes da comunidade de divulgadores da ciência, do movimento estudantil e sindical, de ONGs ambientalistas, entidades da cultura e outras. É preciso uma articulação e diálogo mais amplo e fluido para um movimento mais robusto - há fortes interseções da C&T com educação, meio ambiente e até cultura.

Upideite(03/set/2017): Veja também
03.set. Carlos Orsi. Ciência marcha em legítima defesa.
04.set. Maurício Tuffani/Direto da Ciência. Marcha pela ciência precisa dizer #vemprarua para os próprios cientistas.
04.set. Daniela Klebis/Jornal da Ciência. Pesquisadores denunciam situação crítica em 2a. Marcha pela Ciência no Brasil.

*Upideite(03/set/2017): adido a esta data.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Como é que é? - Mulheres evitam empregos estressantes?

O famigerado memorando que levou à demissão de um engenheiro da Google causou alvoroço (para contexto, recomendo o post do Carlos Orsi remetido lá embaixo). Entre textos e textões contra e a favor da demissão, contra e a favor das ideias defendidas no memorando (basicamente que diferenças biológicas entre homens e mulheres devem dar conta da baixa presença feminina na áreas de computação), críticas à cobertura da imprensa, análises do suporte científico apresentado... queria analisar mais detalhadamente um ponto que foi expresso na tal comunicação do engenheiro.

Em um momento, o documento insinua que as mulheres, com maiores tendências ao neuroticismo - um traço de personalidade que indica maior sensibilidade à ansiedade, ao medo, à solidão, à frustração... -, evitariam cargos que as expusessem a mais estresse, porque elas, na média, saberiam lidar menos bem do que os homens, e como a área de tecnologia envolveria muito estresse, a baixa participação feminino seria devido a isso - e não a um sexismo consciente ou inconsciente que barraria sua entrada.

Para colocar isso à prova, aproveitei-me do levantamento anual do Business Insider das profissões mais estressante. Peguei as edições de 2015 a 2017, um total de 38 ocupações foram arroladas - nem todas presentes nos três anos - e utilizei a média de pontuação dada (de 0, nada estressante, a 100, o máximo de estresse) e comparei com a razão sexual dos trabalhadores na área (quando não havia dados diretamente disponíveis, utilizei-me do proxy da população de alunos de graduação). Encontrei os dados da razão sexual para 28 das 38. Dessas, em 16 delas há mais mulheres do que homens, em 12, há mais homens. Se multiplicarmos a fração de mulheres/homens pelo índice de estresse avaliado para cada profissão, a média das 28 com dados para isso, para as mulheres, é de 48,8 pontos e, para os homens, de 46,2 pontos: em um índice que podemos chamar de S (de 'stress). (Tabela 1.)

Caso o argumento do memorando fizesse sentido, era de se esperar uma participação média bem inferior de mulheres nessas profissões tidas por mais estressantes - o que se refletiria em um S sensivelmente menor para as mulheres-, o que não parece ocorrer.




Veja também:
Carlos Orsi (11.ago.2017): O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência.

Obs: Os dados referem-se ao mercado dos EUA.

Upideite(05/set/2017):
Algumas pessoas objetaram que a lista elaborada pela O*NET e publicada pela Business Insider é baseada em um questionário em que os próprios funcionários respondem à pergunta sobre o quão importante é a resistência ao estresse no trabalho que desenvolvem. Não é um problema - se isso significasse que as mulheres, supostamente menos resistentes ao estresse, tendessem a reportar níveis mais altos, então nesse caso, a lista deveria ser dominada por ocupações em que as mulheres são a maioria. O que não ocorre tampouco.

De todo modo, uma lista alternativa de profissões por estresse a que os trabalhadores se expõe é da CareerCast.com. O estudo analisa 11 fatores como: necessidade de viajar com frequência, exposição da vida à risco de morte, necessidade de cumprir prazos, demandas físicas, lidar com o público e outros. A versão de 2016 é apresentada na lista abaixo ordenada do mais estressante para o menos.



Entre as 20 mais estressantes, consigo recuperar dados sobre a razão sexual para 17. Em 7 há mais mulheres e em 10 há mais homens. Entre as 30 primeiras, são 25 com dados sobre a razão sexual: em 11 há mais mulheres e em 14 há mais homens.

Novamente, sem indícios de que as mulheres sistematicamente evitem as profissões mais estressantes.

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