Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Divulgação Científica e jargão

A comunidade de divulgadores está bem ativa questionando suas bases teórico-metodológicas. O que não deixa de ser positivo: o questionamento pode ajudar a avançar a área fazendo circular ideias e gerando novas propostas. (Claro que o ideal é que o embate de ideias seja feito sempre dentro de limites de civilidade, embora, por diversos motivos - todo mundo fica irritado de vez em quando, p.e. -, isso nem sempre seja possível.) Depois da polêmica a respeito de se os cientistas devem ser obrigados a se comunicar com o público, um outro clássico da discussão dos fundamentos da DC: a linguagem, em particular do emprego ou não de jargões.

Abaixo segue um breve compilado (também sem pretensão de ser completo nem representativo, apenas ilustrativo) de tweets que orbitaram a questão. Muitos links remetem apenas a um tweet representativo de uma thread (sequência). (À medida que outros pontos de vistas passarem pela minha TL no twitter, atualizo a listagem.)

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João Pedro Salgado
"Pessoal acha que vai divulgar ciência p população falando monofilético, parafilético, holótipo... vão sim, é por isso q as pseudociências crescem tanto no Brasil, a academia fica nesse pedestal aí pra sempre"

Luiza Caires
"Falar difícil não prova que você é inteligente, apenas que não entendeu nada do jogo. Principalmente se deseja mudar qualquer coisa nesse mundo. Depois fica aí dizendo que odeia Youtuber, influenciador...
Se a maior parte das pessoas não te entende, não são elas as incompetentes." 

Francisco Sassi
"Divulgação científica é pra ser feita pra todos, pra quem não é da academia e também pra quem é cientista. Termo técnico é uma coisa que pode ser explicada e, muitas das vezes, auxilia na explicação e na compreensão do conteúdo."

João Pré-Cambriano
"Entendo o ponto. E concordo. Agora, não vejo problema em usar os termos desde que se explique o q cada um significa. O que impede de explicar, preguiça ou o nariz empinado de achar que o seu público é incapaz de entender?"

Johnny Mingau
em resposta a João Pré-Cambriano
"É então, eu compreendo e concordo com os dois Joãos aqui. Eu lembro que no começo eu decidi que eu iria evitar falar termos confusos nos vídeos, blog e etc... Mas começou a chegar momentos que ficava difícil não utilizar alguns termos...
Por exemplo, (um exemplo tosco) ... Você pode simplesmente falar que aves são Dinossauros, mas pra muita gente isso não faz sentido, elas querem saber porque são Dinossauros. Nesse momento chega a hora de explicar o que é grupo monofiletico..
Eu penso que devo evitar usar termos confusos até chegar o ponto em que eu explico o que são e significam esses termos. Daí em diante eu passo a usá-los. Por exemplo meu texto sobre Utahraptor, descrever o material sem explicar o que é holótipo ficava mais confuso ainda, então..
Eu expliquei o que é holótipo, Parátipo e etc... E o texto começou a fluir melhor. Se eu não tivesse explicado os termos acho q o texto ficaria mais confuso ao tentar não utilizá-los. Pelo menos foi oq eu senti enquanto escrevia o texto do utahraptor pro blog.
Como a academia não larga de mão desses termos, me parece conveniente explica-los ao público, para que dá próxima vez que vêem um cientista falando, não fiquem tão confusos."

Carlos Hotta
"A linguagem usada em Divulgação Científica depende, a grosso modo, do seu objetivo, público alvo e o meio utilizado. Se a linguagem for compatível com estes três fatores, vc está muito bem. Se for compatível com dois, já está valendo."

Otávio Vulcão
"Existe um padrão de linguagem pra Divulgação científica? Muita gente já comentou e eu endosso: dependerá do público, objetivo e plataforma usada.
Você não vai divulgar ciência da mesma forma no Twitter e no Youtube, muito menos presencialmente.
Partindo de alguns textos, eu entendo que a DC não é apenas "tradução" da ciência; é sua "adaptação", porque você usa diferentes estratégias para falar dos métodos, descobertas, conhecimentos prévios e etc.
Durante essa adaptação você naturalmente descarta os jargões, termos técnicos demais e dados que são desnecessários no primeiro momento.
Significa que são menos importantes? Não, só significa que eles não são exigidos para aquele objetivo.
Isso não implica, por outro lado, que você deve simplesmente tratar seu público como plenamente ignorante e incapaz de entender conceitos e/ou termos difíceis.
Usar contextualizações para explicar os termos, introduzindo eles depois pode ajudar bastante.
Sou a favor de que termos essenciais para determinadas áreas não sejam descartados durante o processo de divulgação, sendo trabalhados minuciosamente para serem compreendidos pelo público.
Temos que ser pessoas com visões plurais, não singulares: uma tomada de decisão não obrigatoriamente vai excluir outra, dependerá de como você irá reunir essas ideias e aplicá-las."

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Aqui detalho alguns estudos a respeito do uso de jargões e seus efeitos na comunicação e compreensão.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Divagação científica - divulgando ciência cientificamente 36

(Este texto foi inicialmente encomendado para sair em uma revista, mas, depois de finalizado, não obtive mais o retorno. Acabou servindo de base pra dois textos mais ou menos sobre o mesmo tema. Como uma discussão similar se deu recentemente entre cientistas e divulgadores no twitter, creio que esta versão mais completa - e ligeiramente mais técnica, embora não tanto - possa ser eventualmente útil.)

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A importância da Divulgação Científica

Pesquisadores são frequentemente instados a se envolverem em atividades de divulgação científica, tanto indiretamente, na forma de entrevistas para veículos de comunicação, como mais diretamente, falando com o público sem intermediários, em palestras, textos para colunas de jornais, vídeos explicativos, etc. São atividades que demandam um certo tempo - que poderia ser empregado na pesquisa e docência - e podem expor os cientistas e acadêmicos a críticas: dos pares ou do próprio público. Então, afinal, qual a vantagem que a divulgação científica pode trazer? Por que um cientista deveria se ocupar de se comunicar com a população? Apresentaremos a seguir uma série de motivos trazidos ao longo do tempo a favor do engajamento dos pesquisadores na comunicação pública de ciências.

Thomas & Durant em um artigo publicado em 1987 intitulado "Why should we promote the public understanding of science?" analisam nove classes de possíveis benefícios que podem ser promovidos pela divulgação científica:
1) Para a própria ciência: atrair futuros novos cientistas, apoio da população às ciências, debelar visões e expectativas irrealistas quanto às possibilidades de novos desenvolvimentos científicos e tecnológicos (evitando a desilusão que ocorreria quando tais expectativas fossem frustradas);
2) Para a economia nacional: uma população com um certo nível de conhecimento científico e tecnológico pode aplicar tais conhecimentos no aumento da produtividade e na geração de novos produtos e serviços, além de aumentar a demanda por produtos baseados em conhecimentos científicos e tecnológicos;
3) Para o poder e influência do país: o domínio de conhecimento e tecnologias estratégicas permitem desenvolver uma defesa mais segura, projetar o poder se necessário e galgar e manter posição de destaque e liderança regional ou mundial;
4) Para os indivíduos: cidadãos mais bem informados estão mais bem equipados para aplicar seus conhecimentos na decisão sobre dietas, sistemas de saúde, segurança pessoal e confrontar inúmeras alegações promocionais sobre produtos e serviços que lhes são oferecidos, podem também almejar empregos mais bem remunerados que exijam maior capacidade científico-tecnológica;
5) Para governos democráticos: grande parte da pesquisa científica é financiada com dinheiro público e seus resultados impactam a vida das pessoas; em democracias modernas, os cidadãos devem opinar e decidir a respeito de temas que envolvem a sociedade: a fim de que os cidadãos possam tomar decisões sobre políticas científicas, eles devem estar bem informados sobre o tema; assim, tanto se promove a própria democracia, ao permitir que a população participe mais diretamente, quanto se abastece a população com ferramentas para decisões mais eficientes;
6) Para a própria sociedade: acabar com o abismo entre o conhecimento ultraespecializado das disciplinas científicas e acadêmicas e os não-especialistas, permitindo à população mais opções de respostas que apenas o medo e a adulação frente ao conhecimento científico, tornando-os uma espécie de crítico das ciências (como há críticos literários e gastronômicos);
7) Para o aspecto intelectual: a ciência é um empreendimento que promove a capacitação intelectual e seu enobrecimento, o conhecimento científico deve ser promovido como parte da própria cultura intelectual;
8) Para a estética: a ciência é uma atividade criativa de destaque da mentalidade moderna, ela ajuda a revelar a beleza e o significado das coisas e;
9) Para a ética: nas ciências, para haver o convencimento, é preciso se basear em indícios objetivos e não em meras opiniões e princípios de autoridades; alguns pensadores chegam a dizer que o ideal da busca pela verdade objetiva através de regras claras tornaria a prática científica como um ideal moral a se buscar na sociedade (aqui é o único item em que Thomas & Durant fazem uma nota mais crítica observando a polêmica que é tal sugestão de superioridade moral da prática científica).

Já Semir & Revuelta 2010 dividem em cinco grupos:
1) Para os indivíduos: por aumentar seu conhecimento sobre o mundo e sua capacidade de tomar decisões informadas e usar os conhecimentos científicos para novos usos;
2) Para a sociedade global: pelo fato de o conhecimento científico, gerado sobretudo com investimentos públicos, é um elemento imprescindível para a democracia e pode contribuir para o bem estar e desenvolvimento econômico dos países;
3) Para a ciência e cultura em geral: o conhecimento compartilhado gera novas perguntas para pesquisas no mesmo campo e também em outros e dão origem a novas disciplinas;
4) Para a comunidade científica: a opacidade gera temor e a transparência, confiança do público; se os cientistas se omitem, outros farão a comunicação, nem sempre da mesma forma, com a mesma intenção ou com a mesma clareza;
5) Para a estética: muitas peças de divulgação científica: livros, fotografias, filmes, desenhos... são de grande beleza plástica e artística)

Alguns dos potenciais benefícios têm sido objeto de pesquisa científica. Um dos mais investigados é a suposição de que indivíduos com maiores conhecimentos sobre ciências tendem a ter uma melhor atitude (tendência psicológica de se avaliar um tema positiva ou negativamente) em relação às ciências, o chamado "modelo do déficit": a suposição é que o medo e a oposição ao conhecimento científico e às tecnologias dele resultante seriam frutos da ignorância científica. Embora pareça haver uma tendência para que a maioria dos pesquisadores da área considerem a hipótese falsa: não haveria essa relação, a relação seria invertida (na verdade, indivíduos que mais se opõe às ciências tenderiam a ser mais bem informados) ou haveria uma relação em "U" (indivíduos pouco informados e indivíduos muito bem informados sobre ciências teriam atitudes mais negativas, sendo as mais positivas entre os indivíduos com nível intermediário); uma meta-análise de Allum et al. 2008 com dados de 40 países indica que, de fato, quanto maior o conhecimento científico, mais positiva é a avaliação das ciências. O efeito, porém, é pequeno. [Para alguns temas como "mudanças climáticas" o efeito do maior conhecimento de ciências pode ser uma maior polarização entre as visões (Braman et al. 2012).]

Makarovs & Achterberg (2018) analisaram dados da pesquisa Special Eurobarometer de 2010 com 32 países e relacionaram a relação entre o nível de democratização do país e características socioeconômicas dos entrevistados e o engajamento público em ciências. Nas sociedades mais democráticas tende a haver uma maior participação pública nas ciências e maior apoio ao controle democrática delas; e cidadãos com níveis educacionais mais altos e mais bem informados sobre tópicos científicos também tendem a se engajar mais com ciências. O estudo, no entanto, é correlacional, não sendo possível apenas com esses resultados assumir uma relação causal necessária.

Em relação à hipótese da atração de futuro novos cientistas, Goto et al. (2018) fizeram um estudo longitudinal com alunos japoneses para avaliar o efeito da participação em eventos científicos. Alunos que já apresentavam motivação para o aprendizado foram os que mais participaram e se beneficiaram - aumentando sua motivação e aprofundando seus conhecimentos, tendo os eventos relativamente pouco impacto em atrair estudantes fora desse perfil.

Outro efeito estudado é o do impacto da cobertura midiática sobre a citação dos artigos. A publicação de notícias relacionadas aos estudos, especialmente na mídia escrita, de modo geral, correlaciona-se com um maior número de citações do trabalho em outros artigos científicos. Alguns estudos têm encontrado uma relação causal direta do destaque na imprensa não-especializada sobre a visibilidade posterior do artigo. (E.g. Kiernan 2003, Mathelus et al. 2012, Fanelli 2013, Manisha & Mahesh 2015.)

Em relação a boa parte dos benefícios putativos, no entanto, não há muitos dados corroborando ou refutando as relações alegadas.

Mas e quanto à importância que os cientistas efetivamente veem na divulgação científica? Besley e colaboradores (2017) verificaram o grau de concordância de membros de sociedades científicas americanas a oito seguintes objetivos da comunicação pública de ciências (listados em ordem decrescente de maior concordância geral entre os entrevistados):
1) garantir que as pessoas estejam bem informadas sobre temas científicos;
2) interessar e estimular as pessoas a respeito das ciências;
3) demonstrar que a comunidade científica se preocupa com o bem estar da sociedade (a percepção de benevolência e calor humano afetam a inclinação das pessoas em apoiar os outros);
4) demonstrar que a comunidade científica é aberta e transparente;
5) ajustar o enquadramento (framing) das implicações das pesquisas a fim de que o público pense sobre o tópico de modo a ressoar com seus valores (o modo como uma questão é vista afeta as atitudes e o comportamento em relação a ela);
6) demonstrar que os cientistas compartilham dos valores da comunidade (as pessoas frequentemente utilizam de pistas de identificação para compreender questões científicas);
7) ouvir o que os outros pensam sobre temas científicos;
8) demonstrar a expertise da comunidade científica (a competência é uma das dimensões avaliadas pelas pessoas para estabelecer a confiança nos especialistas).

Martín-Sempere e colegas (2008) analisaram 13 motivos para cientistas e técnicos espanhóis participarem da Feira de Ciências de Madrid. As repostas puderam ser agrupadas em quatro categorias, aqui apresentadas na ordem decrescente de importância atribuída:
1) divulgação e cultura científicas: estimular e aumentar o interesse e o entusiasmo do público pelas ciências, aumentar a cultura científica da população, aumentar a apreciação pública das ciências, tornar a instituição em que trabalha mais conhecida e visível;
2) senso de dever;
3) compromisso pessoal: além do comprometimento pessoal propriamente dito, o fato de haver sido incumbido por superiores;
4) motivações pessoais e profissionais: satisfação pessoal, diversão, relacionamentos profissionais, promoção profissional, recompensa financeira, recompensa com dia de folga.

Um temor relativamente frequente entre os acadêmicos e cientistas a respeito de se engajar nas atividades de divulgação científica é ilustrado pelo que é conhecido por "efeito Carl Sagan". Segundo essa hipótese, cientistas mais envolvidos com extensão e comunicação com o público seriam academicamente menos produtivos. Mas estudos realizados apontam que, na verdade, tende a ocorrer o oposto: pesquisadores que se dedicam mais a levar o conhecimento sobre ciências para o público em geral estão entre os que mais publicam em revistas científicas (p.e. Jensen et al. 2008, Bentley & Kyvik 2010).

Assim, existem várias razões potenciais por que os cientistas deveriam participar de atividades de divulgação. Embora muitas delas ainda não tenham tido sua validade verificada, para pelo menos algumas a resposta é de resultados positivos para o público, a comunidade científica e para a própria carreira do cientista. Diversas estratégias e receitas têm sido aventadas para permitir um bom equilíbrio entre as inúmeras atividades do cientista e a de divulgação, mas isso é objeto para um outro texto.

Referências

Allum, N. et al. 2008. Sciece knowledge and attitudes across cultures: a meta-analysis. Public Understanding of Science 17(1): 35-54. https://doi.org/10.1177/0963662506070159
Bentley, P. & Kyvik, S. 2010. Academic staff and public communication: a survey of popular science publishing across 13 countries. Public Understanding of Science 20(1): 48-63. https://doi.org/10.1177/0963662510384461
Besley, J.C. et al. 2017. Scientists' views about communication objectives. Public Understanding of Science. https://doi.org/10.1177/0963662517728478
Fanelli, D. 2013. Any publicity is better than none: newspaper coverage increases citations, in the UK more than in Italy. Scientometrics 95: 1167-77. https:// doi.org/10.1007/s11192-012-0925-0
Goto, T. et al. 2018. A large-scale longitudinal survey of participation in scientific events with a focus on students' learning motivation for science: Antecedents and consequences. Learning and Individual Differences 61: 181–7. https://doi.org/10.1016/j.lindif.2017.12.005R
Jensen, P. et al. 2008. Scientists who engage with society perform better academically. Sci Public Policy 35:527–541, https://doi.org/10.3152/030234208X329130
Kahan, D. et al. 2012. The Polarizing Impact of Science Literacy and Numeracy on Perceived Climate Change Risks. Nature Climate Change 2: 732–5. https://doi.org/10.1038/nclimate1547
Kiernan, V. 2003. Diffusion of News about Research. Science Communication 25(1): 3-13. https://doi.org/10.1177/1075547003255297
Manisha, M. & Mahesh, G. 2015. Citation pattern of newsworthy research articles. J Scientometric Res. 4(1): 42-5. https://doi.org/10.4103/2320-0057.156022
Markovs, K. & Achterberg, P. 2018. Science to the people: a 32-nation survey. Public Understanding of Science. https://doi.org/10.1177/0963662517754047
Martín-Sempere, M.J. et al. 2008. Scientists' motivation to communicate science and technology to the public: surveying participants at the Madrid Science Fair. Public Understanding of Science 17: 349-67. https://doi.org/10.1177/0963662506067660
Mathelys, S. et al. 2012. Promotion of research articles to the lay press: a summary of a three-year project.
Learned Publishing 25(3): 207-12. https://doi.org/10.1087/20120307
Semir, D. & Revuleta, G. 2010. La importancia de la comunicación en el entorno científico. Quaderns de la Fundació Dr. Antoni Esteve no. 20: 1-7. http://www.raco.cat/index.php/QuadernsFDAE/article/view/253622
Thomas, G. & Durant, J. 1987. Why should we promote the public understanding of science? In: Shortland, M (ed.) Scientific Literacy Papers. Oxford: Rewley House. Pp:1-14

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Upideite(03.set.2020): Um artigo analisa os fatores correlacionados às visões dos estudiosos da DC sobre os motivos para o engajamento público da ciência.

Besley, T. et al. 2020. Exploring scholars’ public engagement goals in Canada and the United States. PUS.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Divulgação Científica deve ser obrigação de todo cientista?

Farei um compilado (que não se pretende compreensivo nem representativo, apenas o que apareceu na minha TL) aqui da discussão que se seguiu no twitter em função da exortação aos cientistas para fazerem divulgação científica reproduzida a seguir (coloquei o link para o primeiro tweet quando normalmente os participantes fizeram uma thread - também encadeei tweets que, na verdade, eram respostas a outros comentários ao tweet inicial):

"Não vou me meter em treta dessa vez, mas reforçar algo que sempre falo. Se você é cientistas e principalmente trabalha em uma universidade pública. Você tem mais do que obrigação de virar youtuber e popularizar o seu conhecimento.
A universidade pública é baseada em três pilares - ENSINO, PEQUISA E EXTENSÃO. Virar youtuber é uma metáfora para fazer popular ciência e tecnologia, pois rolou aqui no meu feed uma discussão de que cientista não pode ser youtuber, mas deve ficar dentro do laboratório
Você não precisa estar no youtube para fazer extensão. Mas em tempos de pandemia, me mostra outra forma mais democrática de popularizar o seu conhecimento."
Depois de alguns comentários e respostas, ela complementou:
"Galera, posso ter me expressado mal. O que eu quero dizer é que o conhecimento que nós cientistas obtemos em nossas vidas deve ser popularizado, acessível para o máximo de pessoas possível. Sei bem das dificuldades de tornar esse conhecimento acessível,
eu mesma sofro demais com isso e estou engatinhando no Youtube, por exemplo. O post era mais com uma intenção de incentivo, não de obrigação. Peço desculpas se eu dei a entender errado, não era minha intenção."

Algumas respostas:

"Eu sou pesquisadora e edito uma revista de divulgação científica. Se tem uma obrigação que o professor **não** tem é a de virar Youtuber. Divulgação científica dá um trabalhão, não é td mundo que sabe fazer ou tem vontade. E extensão vai muuuuito além de popularização da ciência.
"Não acho que seja obrigatório. Obrigatório é dar aula, fazer pesquisa e extensão. Eu acho que a pessoa tem que ter abertura para fazer o trabalho chegar ao público, mas isso se resolve fortalecendo a equipe de comunicação da instituição.
tem gente que não quer e/ou não sabe mesmo. acaba até fazendo mal pra área uma divulgação tosca ou mal feita. quem estuda como se comunicar com não-especialista e tem essa obrigação é o cara que faz comunicação.
meu ponto é que quem puder, blz. acho até que a Capes podia dar uns pontos pra programas de pós que tenham projetos de DC. minha questão é com a obrigatoriedade. não tá no job description da profissão de pesquisador. vc consegue ser um excelente pesquisador sem ter projetos de DC"

"Sobre a polêmica da suposta obrigação do professor-pesquisador fazer divulgação científica (DC) (entendendo que youtuber foi generalização), algumas considerações:
1) nada que se faça por obrigação tem continuidade a longo prazo; se a DC é necessária, sua motivação é interior
2) para isto, é necessário conhecimento teórico-prático. A divulgação científica também é uma ciência e uma tecnologia. Possui congressos, revistas científicas é um campo que avança e evolui. Não se faz DC somente com uma ideia na cabeça e um podcast na mão
3) a fala que originou a polêmica dá a entender uma ação individual. Mas isto leva a uma fragmentação e à falta de eficiência. Ações coletivas, colaborativas, que busquem incluir e dar voz à sociedade que sustenta a universidade são mais interessantes
4) não se faz tanta DC, por que ela não é reconhecida e valorizada, é fato. Frente à pesquisa e, em menor grau a extensão e do ensino, que praticamente não conta, os processos de avaliação e progressão na carreira a ignoram. Seria preciso mudar uma cultura universitária
5) por que não é reconhecida? Minha hipótese, a DC não passa por mecanismos de controle. Revistas possuem revisão por pares. Projetos de extensão são avaliados, assim como de pesquisa. Mas a DC é mais livre, então estes "pontos" da avaliação estariam sendo dados "de graça"
6) neste último ponto, uma solução seria criar mecanismos de certificação de qualidade, a exemplo do selo do @scienceblogsbr e de ter canais institucionais de DC nas universidades e centros de pesquisa. Mas como disse, é preciso convencer a comunidade desta importância
7) em conclusão, DC deveria constituir uma atividade constante e sistematizada do trabalho universitário. Mas não de forma obrigatória, sem conhecimento para tal, de forma individualizada e sem reconhecimento e valorização profissional."

"'Virar YouTuber' não digo (e talvez seja força de expressão da Thabata). Mas popularizar o conhecimento da maneira que mais se encaixar no seu perfil (pode até ser palestra em escola pública), sim.
Ir numa escola uma vez a cada 1 ou 2 meses para falar de ciência e despertar interesse na área, ou ter disposição para atender jornalistas, ou fazer 1 fio no twitter voltado ao público geral... não faz diferença. O importante é fazer algo!
Meu exemplo nisso é o João Steiner, pesquisador com um puta currículo que até hoje faz palestra em escola, da curso pra professores, atende a gente na rádio toda semana... Tempo até dá se colocar como prioridade.
Fora isso, é incrível a humildade dele na posição em que está, de sempre perguntar minha opinião, respeitar meus horários, prazos. Ele nunca agiu como se tivesse fazendo favor em nos atender. Parece até o contrário. E para projeção própria ele absolutamente não precisa da gente.
Pessoal muito na defensiva. Quem é cientista de Universidade não tem obrigação formal de falar de ciência para quem não é cientista. Mas é um dever ético e precisa de apoio institucional. N dá p/ querer q a população defenda a ciência se não a conhece. Depois não dá pra reclamar"

"Eu já vi que o meu lado é o menos popular, mas acho engraçado as pessoas defenderem terceirizar comunicação científica mas não trabalhos administrativos.
E antes que falem: eu acho que tem que ter comunicação científica feita por profissionais sim, mas cientistas nunca deveriam deixar de se comunicar com o público.
Eu concordo, mas não acho que substitua o cientista falando com a sociedade. 2 a 4 h por ano, só o q peço."
CH "A função dos cientistas falarem com a sociedade não é necessariamente ensinar a sociedade. É aproximar ambos lados. É haver conhecimento mútuo para ambos crescerem."
CH "Me lembraram um ponto importante: o cientista se comunicar com a sociedade é importante do ponto de vista do financiamento.
No exterior, onde o financiamento à pesquisa por doações privadas é mais significativo, talvez fique mais claro o papel da comunicação científica em se garantir financiamento."
Em resposta a Mahayana Godoy
CH: "Eu entendi YouTuber no tweet como qq coisa que fale com o público. Acho muito necessário é obrigatório.
Tem que falar com o público de alguma forma. Nao precisa ser uma massa gigante. Sem esse contato, a sociedade não vai valorizar cientista e cientista não vai valorizar a sociedade.
A gente dá aula, a gente escreve e fala para pares. A gebte já tem parte das habilidades necessárias.
O comunicador de Ciências ruim só faz mal pq tem pouco cientista falando, daí a voz tem espaço.
Não tá no job description mas é algo q vai mudar cada vez mais. Lá fora já mudou. Mas assim como vc tem bons pesquisadores q dão  aulas ruins e são péssimos administradores, vc vai ter os q não lidam bem com o público."

"Professor ensina, para ensinar você precisar saber se comunicar sim. Pesquisador pesquisa , no passado era somente válido o conhecimento circular somente na academia e agora até para você conseguir inspirar jovens a estarem nas universidades precisa comunicar bem as vantagens
Precisar comunicar bem sua pesquisa para o público que não está na academia . Ciência faz parte da sociedade, faz partes dos questionamentos e soluções, A pesquisa passa por saber se comunicar sim e comunicação vai além de YouTube.
Ninguém é obrigado a fazer divulgação cientifica mas tem que saber se comunicar sim. O mundo muda e a ciência avança e pesquisadores tá entre os dois logo..."

"Vou ser polêmica, mas vamos em frente. Assim como eu sou uma jornalista de ciência e PRECISO tomar cuidado ao escrever sobre ciência, o cientista pode tentar ser comunicador E TAMBÉM precisa entender de comunicação. Assim, evitamos vídeos sem sentido e textos que ninguém entende.
Apenas para complementar: Também existem textos e vídeos ruins entre jornalistas (MUITOS). Assim como existem cientistas ruins por aí.
A diferença clara está: eu, quando escrevo sobre ciência, ligo para um cientista.

Aí o cientista quer comunicar sem ouvir como deve ser um comunicador. Qual é a fonte da técnica? VOZES DA MINHA CABEÇA"

"Graças ao trabalho excelente de assessores de imprensa, há mais cientista dispostos a traduzir conhecimento para jornalistas. Mas os caras não têm nem e-mail acadêmico que pega, cortam bolsa, pesquisa, perrengue. E ainda tem que ser youtuber? Eu acho que não conseguiria."

respondendo à Carolina Dantas
"Eu como cientista e comunicador, MAIS cientistas do que comunicador, escolhi fazer divulgação científica e por isso tô sempre procurando aprender como comunicar. Concordo com a Mahayana, ninguém deve ser obrigado a fazer divulgação, primeiro que muitos não querem e acaba saindo
péssimos conteúdos e segundo que ocupa o espaço, recursos e desvaloriza quem quer seguir esse caminho profissionalmente (jornalista ou cientista). O povo do meu departamento tá até hoje investindo em blog e ninguém nunca me chamou para conversar e dar ideias."

"Trabalhando com comunicação da ciência eu parei de acreditar no mito que cientista que não fala publicamente é malvadão. Primeiro que comunicação é uma habilidade, uns têm mais facilidade. Segundo que não é simples, exige um tempo danado de preparação
de conteúdo. Dito isso, acredito que a divulgação científica deve ser estimulada SIM pelas universidades, inclusive financeiramente. Obrigar o cientista a falar é bem exagerado. Até porque a rotina de um pesquisador é absurda, tem que entregar e estudar MUITO. Tem cientista
que recusa a dar entrevista pra mim e nem é porque a pessoa não acha que a sociedade não deve conehcer o trabalho dele, é falta de tempo, preparo, timidez, diversos fatores. Então vamos valorizar quem faz DC e não rebaixar quem não faz, ok?

E comunicar ciência não é só youtube."

em resposta a Olga Chaim
"hummmm... acho que a academia precisa sim passar por uma reforma, já passou da hora, e sim, precisa rever a comunicação, métricas, etc. Precisa ter em si uma braço de divulgação e linguagem potente, que não seja só pra pares. Se não for cientista pelo menos formar gente pra isso
E ai pode ser uma nova linha de profissionais, comunicadores, e os híbridos, que gostem e levem jeito pra coisa. Em todas as frentes, não só internet, pq de fato a academia tá muito fechada e isolada sim, isso dá espaço pra esses orcs ocuparem o vão entre nós e a comunidade
Olha, o pior nem é não entender as nossas atribuições, o pior ai é alguém que tá falando de divulgação e oferece um único veicúlo como saída pra resolver o problema, isso ai é o pior e demonstra uma má compreensão da coisa.
Eu uso mais o instagram do o Youtube por exemplo, e não é pq eu quero é pq no instagram o publico engaja mais com meu conteúdo mesmo. Não é assim que a banda toca. Tem toda uma questão do outro querer vc naquele veículo ou não. Besteira pura."

Em resposta à Tourinho
"Meio caminho: acho q o cientista precisa estar mais aberto a falar com a comunidade. Mas não obrigatoriamente ser o divulgador. Ele pode ser fonte de fácil acesso, por ex., se não tem treinamento p/divulgar competentemente. E as instituições devem incentivar a formação de + DC."

"Sobre professores e youtube
Divulgação científica não é uma tarefa individual nem voluntarista. As instituições que devem se preocupar com isso. A @ufrj tem a um órgão dedicado especificamente à difusão científica e cultural. Hoje coordenado pela minha pessoa. É singular, mas
difícil fazê-lo funcionar como tal, justamente porque não existe a cultura de divulgação científica como missão institucional e coletiva. Isso se confunde frequentemente com comunicação e marketing. E as iniciativas de divulgação tendem a ser individuais. Assumi há pouco tempo
e gostaria de ajudar a mudar essa cultura. Não sei se vou conseguir, mas acho que um caminho eficaz e consistente para estreitar os laços entre universidade e sociedade deve ser institucional. Ainda que possa se servir de bons exemplos individuais. Mas sem reinventar a roda. Fim."

"Divulgação Científica (DC): todo cientista deve fazer?
Aqui segue minha visão pessoal sobre a relação cientista X divulgação científica. De início, quero deixar claro que vejo com alegria esse debate e que ele não deve ser suprimido, mas estimulado.
Essa não é uma resposta pronta e com certeza não trarei uma conclusão. Essencialmente, podemos considerar a DC como ato de comunicar os saberes, métodos e a cultura científica para quem não pertence a esse conjunto.
É comum o cientista realizar atividades comunicativas ao decorrer da sua carreira, expondo seus resultados em congressos, seminários; conversando com pares por e-mails ou rodas de debate. Contudo, precisa ser lembrado que nós discorremos geralmente para os pares.
Discorrer com os pares exige, principalmente, conhecimento da área a qual você abrange. Não é necessário adaptar sua linguagem quando está se falando com pessoas que entendem os jargões, os números, os gráficos e tem vasto conhecimento prévio sobre o assunto.
A DC, entretanto, exige um conjunto de competências comunicativas para ter sucesso. Inclui habilidades intra e interpessoais, conhecimento de mídias usadas na comunicação; capacidade de diálogo com diferentes.
Conhecer o público a quem você está comunicando implica em saber a realidade dele; quais as aplicabilidades que uma informação pode ter; quais crenças e valores eles defendem ou não toleram.
O cientista, aqui destacando as 'Hard Science', não tem preparo prático e teórico para essa atividade. O que temos feito nos últimos anos vem de ações pontuais que foram se mesclando e avolumando, formando um corpo ainda pequeno mas com competência.
Pra quem vive na academia, sabe que as atividades de um cientista vão além da pesquisa. Tem funções administrativas, orientações, exigências de cumprimento de metas, deixando a DC como uma atividade pró-ativa não remunerada. Sem contar a vida pessoal de cada um.
Somando as habilidades necessárias para comunicação com as exigências formais da carreira, parece difícil exigir, com obrigatoriedade, que todo cientista apresente esse papel. Diria, inclusive, que nem todos tem a capacidade para tal.
Isso não isenta que estes, que não o fazem na prática, apoiem os colegas, concedam entrevistas, escrevam textos esporádicos ou compartilhem trabalhos de DC. Essa caracterização é o que eu chamo de 'dever ético científico'.
Se quisermos mais cientistas agindo com eficácia, aumentando o escopo, alcance e impacto da DC no Brasil, é necessário que tenhamos mudanças acadêmicas organizacionais. Incentivos e oportunidades para realizações desses trabalhos.
A DC precisa deixar de ser um trabalho que seja visto como 'hobbie', e isso só vai ocorrer quando for compreendido a necessidade dela dentro dos eixos administrativos dos institutos de pesquisas, incentivando e dando subsídios aos seus componentes a fazerem.
Temos criticados não-cientistas que tem falhas grotescas na comunicação, entretanto é válido lembrar que não somos comunicadores natos. Precisamos de auxílio de jornalistas, educadores, especialistas em comunicação/divulgação científica.
Ao final, acho válido que nossas cobranças aos cientistas sobre suas atuações fora da academiam seja antecipadas por análises calculadas, a qual notemos os benefícios e MALEFÍCIOS que uma má DC poderá causar.
Se somos analíticos em nossas carreiras por excelência, devemos também ser em como procederemos nas nossas estratégias para democratizar a ciência.
Nossas paixões e ânsias precisam ser mantidas no segundo plano e darmos palco ao pensamento crítico e prudente."

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Não tenho um posicionamento definitivo a respeito. Mas como uma tentativa de contribuição irei reproduzir uma tradução parcial de trecho de "Atoms, Bytes and Genes" de Martin W. Bauer (2015, Routledge, 298 pp.) a respeito de potenciais riscos da comunicação pública da ciência para os cientistas e a comunidade científica (e também para a sociedade) que precisam ser levados em conta (naturalmente, não como impeditivo, mas como algo que pode acontecer e se pensar em como evitar ou minimizar as possibilidades e as consequências):
"1. Cobertura midiática desfavorável (bad press) e fora do controle: a comunicação pode criar mais más notícias do que notícias favoráveis por falha da própria comunicação ou pelo funcionamento da mídia, fora de controle dos cientistas - a cobertura tende a enfatizar a controvérsia - e a publicidade sobre um ator pode atrair oponentes;
2. Determinação de liderança pela proeminência em vez de pela reputação: a tomada de atalho do processo de revisão por pares com apresentação direta do trabalho à imprensa pode se tornar comum substituindo a reputação construída pela publicação formal pela proeminência angariada com a publicidade e visibilidade midiática (embora a cobertura pela imprensa também possa levar a um aumento da citação acadêmica do trabalho);
3. Hype (exagero) e expectativas frustradas: a busca pela atenção midiática pode levar a exageros nas alegações; alegações exageradas criam expectativas altas difíceis de se cumprir, o que pode minar a autoridade da ciência;
4. Predomínio das RP sobre a mídia de massa: a preocupação com a reputação tem levado a uma profissionalização da comunicação pública da ciência contratando profissionais de relações públicas, especialmente jornalistas tarimbados; o jornalismo já cambaleante com a crise pode acabar dominado pelas RPs, afetando o equilíbrio para a cobertura independente;
5. Repercussões imprevistas sobre a condução da pesquisa científica: a competição pela visibilidade prende os cientistas em “valores de notícia” em vez de em valores científicos. Isso pode afetar não apenas o modo de se apresentar os resultados (design da informação) como a própria escolha de temas de pesquisa (influência epistêmica). Projetos passam a ser planejados e implementados tendo em vista o impacto sobre a opinião pública para atrair financiamento.
6. Compromissos públicos e criação de dificuldades de aprendizado: o compromisso público prende os atores ao compromisso sob o risco de perderem a moral; a mobilização social cria uma forma de incapacidade coletiva de perceber as coisas além do próprio projeto - eventuais fracassos são lidos como necessidade de se invetir ainda mais no trabalho, impedindo a aprendizagem e a consideração de alternativas."

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À medida em que topar com mais considerações, complemento a compilação.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Os efeitos das quarentenas na pademia de covid-19

Embora experimentos que coloquem em risco vidas humanas normalmente sejam barrados (com toda razão) em um comitê de ética, experimentos naturais ou quase naturais ocorrem em por diversos motivos, entre os quais a visão ideológica de governantes.

Governadores de sete estados americanos decidiram não emitir ordem de ficar em casa aos seus cidadãos (não por coincidência, todos republicanos). Isso permite a comparação do efeito de medidas restritivas a aglomerações e deslocamentos na evolução epidemiológica da covid-19. Mesmo nos estados em que a ordem de ficar em casa não foi dada, outras medidas foram tomadas como fechamento temporário de escolas e de comércio não essencial. A Fig. 1 inclui dois estados sem a ordem de ficar em casa (Arkansas e Oklahoma) e dois estados (Louisiana e Texas) com a ordem emitida em algum momento da região sudoeste central dos EUA; a Fig. 2 inclui quatro estados sem a ordem de ficar em casa (Iowa, Nebraska, Dakota do Norte e Dakota do Sul) e três em que a ordem foi emitida em algum momento (Kansas, Minnesota e Missouri).

Figura 1. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região sudoeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Figura 2. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região noroeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Nos sete estados sem a emissão de ordem de ficar em casa há algum achatamento da curva com a diminuição do ritmo de crescimento do número de casos e de mortos. Há efetividade das medidas restritivas adotadas. Mas, nos estados das mesmas regiões em que a ordem de ficar em casa foi emitida em algum momento, há uma tendência de haver um maior achatamento da curva.

Isso está de acordo com achados relatados em artigos científicos publicados mostrando o efeito do lockdown (confinamento) na região chinesa de Wuhan e também na Itália e na Espanha. Uma revisão de estudos de modelagem e de análise de dados observacionais feita pela Colaboração Cochrane por Nussbaumer-Streit e colaboradores (2020) concluiu que, embora com nível de certeza baixo, sim, medidas quarentenárias de restrição de movimentação e aglomeração (especialmente em combinação com outras medidas - como fechamento de escolas e de comércio) são efetivos na redução das taxas de transmissão.

Os efeitos econômicos são mais incertos, mas um estudo ainda não formalmente publicado de um grupo do MIT analisando os efeitos das medidas de combate à pandemia por restrição de movimentação e ajuntamento concluiu que as cidades americanas que adotaram as medidas com mais severidade tiveram menos pessoas afetadas pela pandemia da gripe espanhola de 1918 e se recuperaram economicamente mais cedo.

Upideite(29.mai.2020): Dados de casos e mortos nos EUA, daqui. Datas de início de medidas de restrição daqui. Data de reabertura daqui.

domingo, 26 de abril de 2020

Manifesto em defesa da ciência, do jornalismo e da divulgação científica

Frente aos ataques sofridos por divulgadores de ciência e jornalistas que cobrem a pandemia, e à distorção promovida por certos setores motivados política e ideologicamente em relação a temas científicos, a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, a RedeComCiência, lançou a declaração de título quase autoexplicativo: "Manifesto contra a tentativa de manipulação político-partidária de pautas científicas e apoio aos profissionais de comunicação que cobrem a pandemia de Covid-19".

Além de ser um protesto contra os atos de violência verbal e simbólica contra os comunicadores públicos de ciência e os perigos que a desinformação provoca, o texto elenca também uma série de pontos em que os divulgadores de ciência devem prestar atenção para evitar cair nas armadilhas dos que pretendem causar confusão - e, por consequência, a morte de milhares de pessoas. Até o presente momento (23h10, UTC -3, 26.abr.2020), são 148 signatários individuais (entre jornalistas, pesquisadores e comunicadores) e 17 instituições e projetos de ciência, pesquisa e divulgação.

Os interessados em subscrever o manifesto podem utilizar o formulário de adesão ao manifesto da RedeComCiência para ter seu nome acrescentado.

As próximas etapas ainda não foram definidos, neste primeiro momento, a ideia é obter o máximo de assinaturas possível.

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Há pouco mais de quatro anos, escrevi uma postagem em outro blogue sobre casos de ataques - inclusive presenciais (ainda que não físicos) - a divulgadores de ciências. Embora o manifesto seja um primeiro passo na resolução do problema, certamente está longe de bastar. É importante para a visibilização da questão e conscientização. Algumas propostas de medidas efetivas seriam: elaboração de cartilha de orientação aos divulgadores de cuidados a tomar (senhas fortes e diferentes para cada serviço, acesso em duas etapas, não publicar determinadas informações pessoais como localização...) e como proceder em caso de ataques ou tentativas de ataque (a quem denunciar, que informações coletar do ataque...); criação de um grupo de apoio (psicológico e jurídico); e criação de um fundo de proteção (para, p.e., financiar as custas judiciais de uma ação).
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Veja também:
Phillippe Watanabe. 07.abr.2020. Folha de S. Paulo "Após falarem sobre coronavírus, divulgadores científicos sofrem ataques na internet"
Mariana Hafiz et al. 15.abr.2020. Unicamp/Notícias "Divulgadores de ciência são atacados por hackers e recebem ofensas após alertas sobre coronavírus"
Caio Dallaqua. 17.abr.2020. Scientific American Brasil "Polarização faz divulgadores de ciência sofrerem ataques e ameaças no Brasil"

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Calendário de Lives de Ciência

Em função da pandemia covid-19, muitos eventos científicos têm sido formatados para discussões online, especialmente na forma de transmissões ao vivo. Para facilitar - um pouco - a vida dos cientófilos, o GR e os Cientistas Engajados resolveram organizar essas lives, em sua maioria independentes, em um calendário público.

Para acrescentar um evento, use o formulário para cadastramento.

*Obs. (03.mai.2020): A hora indicada é a anunciada - o que em geral é a hora local.

Colaboradora:
Helena Ansani Nogueira. Mestranda em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp.
Ana Arnt. Professora do IB/Unicamp e coordenadora do Blogs de Ciência da Unicamp.

Upideite(28.mai.2020):
Há outros calendários mais específicos.
O de Lives Paleontológicas, mantido pelos Colecionadores de Ossos.
E o GEOEventos (não sei quem administra), que aceita também eventos que não são ao vivo de Geografia.
Um de física da SBF: Lista de Eventos Online em Física.*
Um também geral é o repositório no Github do Lucas Lattari: Lives de Ciência.*
Upideite(18.jun.2020):
Um calendário internacional: o ResearchSeminars.org. (via @Rafael_RNAm)
*Upideite(25,jun.2020): adido a esta data.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Especulando: Sistema Nacional de Divulgação Científica

Tanto quanto sei (e posso estar errado em relação a isso - fiquem à vontade para me corrigir nos comentários), não existe uma lei única estruturando o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia; mas sua existência é reconhecida inclusive em documentos legais (às vezes mencionada como Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação).

Por exemplo, o sumário executivo da Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2016-2022, publicado em 2018 pelo então MCTI, apresenta o seguinte arcabouço do SNCTI.


Além dos organismos e instituições governamentais e não-governamentais, as regulações, leis e normativas legais e institucionais, além do ethos e da cultura burocrática, acadêmica e científica, compõem, dão forma e moldam o sistema e lhe ditam o funcionamento. Sua construção foi paulatina, ocorrendo ao longo de séculos - e, principalmente, ao longo das últimas seis décadas.* (E nos últimos tempos vêm enfrentando um período turbulento, com ações ostensivas por parte dos governos locais e federal para seus desmonte e descaracterização.)

Creio que estejamos vivenciando algo similar no campo da divulgação científica. Uma nucleação do que pode vir a ser um Sistema Nacional de Divulgação Científica ou de Comunicação Pública da Ciência. Diversos componentes essenciais já estão postos sobre a mesa.

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Instituições
Em termos de atores institucionais temos o Departamento de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, no MCTIC, criado em 2004; a própria SBPC, diversas associações e iniciativas de congregação de comunicadores de ciência (a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência - que simbolicamente herda a tocha da finada Sociedade Brasileira de Jornalismo Científico; a Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência, algumas regionais como a Rede Mineira de Comunicação Científica, alguns sem vínculo com instituições de pesquisa como o Science Vlogs Brasil e a Resistência Científica; e outras). E também o INCT-Comunicação Pública da Ciência e Tencologia. Algumas instituições como a UFMG, têm unidades específicas, no caso da Diretoria de Divulgação Científica, para coordenar as ações e políticas na área.

Veículos, ações e divulgadores
Há um sem número de veículos de divulgação científica institucionais, comerciais e pessoais/independentes: ComCiência, Ciência e Cultura, SciAm Brasil, Superinteressante, Galileu, seções de ciência em jornais e revistas de notícias em geral, blogs como o Blogs de Ciência da Unicamp e o Divulga Ciência da UFABC, podcasts, canais no Youtube, perfis em mídias sociais, etc. A parte de assessoria de imprensa de instituições de ensino e pesquisa, e também de jornalismo e de agências de notícias dessas mesmas instituições; além das ações de extensão e festivais. Há também iniciativas privadas como a Agência Bori. Enfim, há toda uma comunidade ativa de divulgadores das ciências atuando em conjunto ou sozinho, com ou sem vínculo institucional, trabalhando pra empresas ou atuando por conta própria.

Fomento e incentivo
Outra iniciativa privada, o Instituto Serrapilheira também se destaca como um importante ator, com seus editais de apoio à divulgação científica e sua política de estruturar o setor. O fomento também ocorre via editais do CNPq - como os de apoio a ações da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia -, Capes, e programas de bolsas como o Mídia Ciência da Fapesp.

Há também as premiações e reconhecimentos. Como o caso do Prêmio José Reis.

Capacitação
A bolsa Mídia Ciência é condicionada à participação em cursos de formação em Jornalismo Científico (ou disciplinas equivalentes em cursos de graduação em Jornalismo) ou Divulgação Científica. Cursos de especialização também se constituem parte desse sistema que se insinua, como o do Labjor, Museu da Vida/Fiocruz, LAbI... Há também cursos de treinamento em veículos como o da Folha de S. Paulo. Além de inúmeras disciplinas em cursos de graduação e pós-graduação e cursos livres.

Pesquisa
Muitos dos cursos - de especialização e disciplinas de graduação e pós - são vinculados a grupos de pesquisa em Divulgação Científica (casos do Labjor e da Fiocruz, p.e.). Os pesquisadores formam outra frente de atores no incipiente sistema.

Regulação
E, finalmente, há alguma regulamentação, dispersa em inúmeras leis e normativas: como o decreto que cria a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia, as normas que estipulam a necessidade de atividades de divulgação por parte dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) e dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs).

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À medida em que esses diversos elementos forem se integrando - como por meio do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação para Popularização e Divulgação da Ciência e Tecnologia - poderemos ter um Sistema Nacional de Divulgação Científica/Comunicação Pública da Ciência completamente operacional. Mas os prazos das metas do Plano de Ação parecem atrasadas: escalonadas para serem completadas até 2022, muitas previstas para estar operantes este ano (e mesmo em anos anteriores) ainda não foram alcançadas. Por exemplo, dentro do eixo temático 1: "Gestão da Política Pública de Popularização da Ciência e Tecnologia" na iniciativa 1 "Apoio à gestão da política" e objetivo "Consolidar  a  política  de  popularização  e  divulgação  da  ciência  como  Política  de  Estado  e  estabelecer mecanismos permanentes de consulta pública, buscando a plena consecução de seus objetivos de alcance popular", subobjetivo "Instituir instância consultiva para consolidação da política pública", a meta "Até 2018, instituir instância consultiva para apoio à formulação, ao aprimoramento, ao  acompanhamento  e  à  avaliação  da  política  pública  de  popularização  da  ciência  do  governo federal" não foi alcançada dois anos depois. De fato, desde 2019, a participação popular em diversas instâncias consultivas e decisórias do governo federal e em muitos governos locais vem sendo reduzida.

Que o entrave atual - e mesmo o recuo - possa ser revertido. Mas, assim como ocorrido com o SNCT(I), provável que a maturação de um SNDC/CPCT leve um booooom tempo ainda.

Upideite (09.abr.2020): Esboço de elementos de um Sistema Nacional de Divulgação Cientítica

*Upideite (09.abr.2020): Pirró e Longo & Derenusson (2009) dividem a constituição do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia em 4 grandes períodos:
1o período (pré-1929): nucleação aleatória - inexistência de políticas e estratégias governamentais de C&T.
1929-1950: transição
2o período (1950-1980): nucleação programada - criação deliberada de componentes necessários para a criação do SNCT;
3o período (1980-2000): crescimento e interação - sistema delineada, mas ainda com baixa articulação entre os componentes do sistema;
4o período (pós-2000): amadurecimento - formulação de políticas e estratégias de articulação dos componentes.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A pandemia de COVID-19 *NÃO* é uma gripezinha

Embora alguns insistam no erro de chamar a doença provocada pelo novo coronavírus (com o complicado nome de SARS-CoV-2 - 'Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2', isto é, uma segunda linhagem de coronavírus que causa uma doença parecida com a SARS) de "gripezinha", outros, como o caso da neurocientista e divulgadora científica Suzana Herculano-Houzel revêem a posição.

Por que o mais provável é que a COVID-19 ('Coronavirus Disease 2019' - doença do coronavírus de 2019) seja mais letal e se espalhe mais do que, por exemplo, a famigerada gripe espanhola - uma das pandemias mais graves enfrentadas recentemente pela humanidade com uma linhagem especialmente letal de vírus da gripe.

Uma pessoa infectada com a cepa do vírus da gripe espanhola, em média, acabava infectando outras 1,7-2,0 pessoas (o nome técnico para isso é 'número básico de reprodução' e é simbolizado por R0). Já alguém infectado pelo SARS-CoV-2, na média, passa o vírus para outras 2,24 a 3,58 pessoas.

Além disso, a cada mil pessoas infectadas pelo vírus da gripe espanhola, algo entre 5 e 24 pessoas morriam, isto é, tinham uma CFR ('case fatality rate', taxa de casos fatais) entre 0,05 e 2,4%. Já para a COVID-19, a CFR é algo entre 0,15 e 5,25%.

Outras doenças atuais que enfrentamos tem um potencial maior de se espalhar e é mais letal. Caso da febre amarela: R0 entre 1,5 e 5 e CFR de até uns 7%. Mas há uma vacina eficaz contra a doença, coisa que ainda não temos contra a COVID-19. A febre do vírus zika não tem vacina e também tem um poder maior de disseminação:  R0 entre 1 e 7, mas a letalidade em adultos é virtualmente zero - e há formas de enfrentamento que não necessitam o isolamento de doentes e suspeitos: combatendo o vetor: no caso da COVID-19, ela pode passar de pessoa para pessoa através de gotículas de saliva no ar. A dengue, embora tenha vacinas contra os tipos circulantes no país, a aplicação desta ainda está em fase de testes (há a complicação porque a forma hemorrágica pode se desenvolver em pessoas que têm a dengue mais de uma vez), mas também pode ser combatida com a evitação do vetor, o mesmo mosquito que transmite a zika.

Sendo uma doença nova e, assim, contra a qual ainda não há vacinas nem medicamentos curativos (o tratamento é sintomático e paliativo), nem uma imunidade natural na maioria da população, com um nível de letalidade razoável e também de potencial de espalhamento, é um perigo subestimá-la - especialmente no caso de autoridades que precisam traçar e implementar estratégias eficientes em seu combate. Não se trata de negligenciar outras doenças também graves e potencialmente danosas, mas é preciso enfrentar também a COVID-19, pelo potencial grande de dano.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pode haver bem mais do que 5 mil ou 7 mil mortos se a economia não "parar" e nada for feito

Parece equivocado o argumento de uma importante figura empresarial brasileira contra as medidas de restrição de deslocamentos da população no enfrentamento da pandemia de COVID-19 (como adotadas em vários países). Na verdade, se não houver nenhuma restrição, o total de mortos pode chegar ou ultrapassar facilmente a cada do milhão de mortos.

A fração atual de mortos no Brasil é de cerca de 2% do total de casos confirmados (47 mortes em 2.201 em 23.mar) de infecção pelo SARS-CoV-2 (o novo coronavírus). Se apenas 50% dos brasileiros se infectarem com o vírus - o que daria cerca de 100 milhões de pessoas -, seriam 2 milhões de mortos. A China conseguiu conter os casos no nível de algumas dezenas de milhares justamente pelas medidas de restrição - com quarentenas, testes e monitoramentos. O nível de 5 mil a 7 mil mortos totais mencionados pelo empresário como sendo poucos diante do que a economia nacional pode sofrer com as medidas são os projetados exatamente se tais restrições foram adotadas: a comparação com eventuais perdas econômicas das quarentenas e toques de recolher seria com o cenário em que eles *não* fossem adotados. Além das mortes, há que se contabilizar também os casos graves - que necessitam de interação e tratamentos intensivos.

Adotando-se o padrão de casos graves e mortes por idade observado nos Estados Unidos (Fig. 1) e a distribuição etária da população brasileira em 2010, com nível de infecção de 50% da população, é de se esperar 7,8 milhões de internações na UTI em função da COVID-19 no país e 1,6 milhão de mortes.

Figura 1.  Variação dos quadros de gravidade de COVID-19 em pacientes de acordo com a idade. Fonte: CDC/EUA, Tian et al. 2020/China (Beijing)


É a partir desses números que se faz a análise de benefício/custo. 7 mil mortes somem diante de 1,6 milhão.

Na Fig. 2, podemos acompanhar a variação do número de casos em diversos países.

 
Figura 2. Variação do total de casos confirmados em diversos países. Eixo vertical em escala logarítmica.

A China implementou o lockdown, restrição severa de deslocamento e fechamento de vários estabelecimentos considerados não-essenciais (basicamente o que não estava envolvido com alimentação, saúde, limpeza e segurança), em 23 de janeiro (quando contava então com 18 mortos e 600 casos no país) na região de Hubei, um dos locais mais fortemente atingidos no pais. Desde, então, na província, o número de novos casos têm diminuído - há cerca de 30 dias, os casos confirmados estão em cerca de 80.000 pessoas. Na Itália, a quarentena só foi imposta (nacionalmente) a partir de 9 de março (quando contabilizavam 9.172 casos na Velha Bota): localmente, em algumas províncias e cidades, governos locais haviam imposto quarentena a partir de 23 de fevereiro (quando contava com 157 casos conformados em todo o país): a curva parece estar diminuindo o ritmo de crescimento desde então. A França, que anunciou o lockdown no dia 16 de março (com 5.360 casos confirmados), também parece começar a apresentar um ritmo menor de aumento do número de casos.

A restrição não é a única alternativa, porém as outras opções também demandam bastante esforço e trazem consequências a valores bastante caros a sociedades democráticas. Por exemplo, na Coreia do Sul, são testados todos os casos suspeitos e todas as pessoas que tiveram contatos são monitoradas (colocando em quarentena todos os casos confirmados e os suspeitos ainda não testados). O país tem realizado cerca de 20 mil testes por dia, numa escala linear seria o equivalente ao Brasil realizar 80 mil testes diários. E a testagem é uma estratégia que só deve funcionar se instalada desde o início, quando a pandemia já estiver localmente espalhada dificilmente será possível monitorar todos os casos. Outra estratégia (considerada bastante invasiva da privacidade), também adotada pela China, é uma ampla e intensa vigilância sanitária em todos os pontos públicos: com aparelhos para medições de temperatura corporal em tempo real (para detectar potenciais casos de febre) e câmeras de vigilância com reconhecimento facial.

Veja também:
Atila Iamarino. 20.mar. O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias.
Atila Iamarino. 22.mar. Por que é importante ficar em casa.
Dalson Britto Figueiredo Filho & Antônio Fernandes/Revista Questão de Ciência. 24.mar. Três cenários para o coronavírus no Brasil.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mitos na ciência: Para que serve a revisão por pares?

Mito: "O processo de peer review (revisão por pares) é essencial para a qualidade dos trabalhos publicados."
Status: Bastante duvidoso (mas talvez seja melhor do que nada a depender de como é feito)

Uma das práticas chave do processo de publicação científica é a submissão do manuscrito a uma avaliação por revisores que atuam na mesma área ou em áreas próximas, a famigerada revisão por pares ou, na expressão inglesa de amplo uso entre cientistas nativos de outras línguas, peer review. Normalmente, o editor da revista envia o manuscrito submetido para dois revisores - que podem indicar pela rejeição sumária, o aceite para publicação ou sugerir correções antes do aceite final - e, se as opiniões divergirem muito, o editor pode tomar a decisão ou enviar para um terceiro revisor.

Porém, talvez tanto quanto é defendida, essa instituição é alvo de fortes críticas e questionamentos quanto à utilidade como barreira contra artigos ruins ou mesmo falsificados.

De acordo com uma revisão sistemática de 2002 de Tom Jefferson e colegas, os poucos estudos (19) sobre os efeitos do peer review sobre a qualidade do artigo não permitiam concluir sobre a validade do processo. Em outro estudo, também do grupo de Jefferson, de 2006, a mesma conclusão (com 28 estudos), ainda que com a tendência de apontar alguma melhora na legibilidade e na qualidade geral do manuscrito. Em um levantamento independente, de Derek Richards (2007), que incluiu 28 estudos para análise sistemática, também concluiu que há poucos indícios de um efeito positivo da revisão por pares na qualidade do estudo.

Rachel Bruce e cia. (2017) analisaram 22 artigos sobre processos para melhorar a revisão por pares: como introdução de processo cego (os revisores não têm acesso aos nomes dos autores do artigo), introdução de um avaliador com formação em estatística, uso de checklists, treinamento de revisores, open peer review (os revisores são informados de que os autores têm acesso aos nomes dos avaliadores) e outros - mas os resultados foram bastante variados. (Houve uma melhora na qualidade final do manuscrito com a introdução de um revisor formado em estatística - 2 estudos - e com revisão aberta - 7 estudos.)

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A mesma falta de estudos sistemáticos sobre a validade do uso de índice de citação como medida de qualidade de artigo também se revela na avaliação da eficiência da revisão por pares - pode ser que exista, mas em minha busca não encontrei nenhuma meta-análise. É desconcertante a confiança que se dá a um mecanismo com tão pouca base empírica para ser um elemento basilar da prática científica.

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