Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Concurso Cultural GR: Get a Life.

Não, não é aniversário do GR, nem do dono do blogue. Não atingimos nenhum número redondo de postagens, comentários ou visitantes. Não é nenhuma data comemorativa. Bem, até é,  hoje (3 de maio) é dia do Taquígrafo (parabéns a todos os estenografistas), mas não é uma promoção por causa disso. O que estamos comemorando então? Só a Vida. (Só?)

Para concorrer a um exemplar gratuito de "O que é vida?" de Lynn Margulis e Dorion Sagan (2002, Jorge Zahar, 288 pp.), basta decifrar o enigma e enviar a resposta pelo formulário (atenção para o regulamento).

Decifre o enigma:




Dicão 1: Está em inglês.
Dicão 2: 24 -> 3 -> 1.**
Dicão 3: 256 -> 64 -> 20+2+".".**
Dicão 4: The book (of life) is on the table.  





Regulamento:
0. Somente concorrerão os que enviarem formulários corretamente preenchidos.
1. Parentes meus até segundo grau não valem.
2. A resposta deve ser enviada até às 23h59 (hora de Brasília) do dia 31/03/201231/05/2012*. (Vale o "timestamp" do sistema.)
3. Em havendo mais de uma pessoa que houver respondido corretamente, leva quem tiver respondido antes.
4. O prêmio será enviado gratuitamente, mas somente para um endereço coberto pelos Correios brasileiros em porte nacional.
5. O vencedor ou a vencedora será contatado/a por email e terá uma semana para responder. Findo o prazo, o prêmio estará prescrito e o segundo colocado será contatado. (E assim por diante.)
6. Pode-se responder ao formulário quantas vezes quiser, mas o participante estará concorrendo apenas com o último enviado.
7. Caso não haja nenhum acertador entre os que enviaram a resposta dentro do prazo, o prêmio será sorteado entre todos os concorrentes.
8. Este concurso segue a lei federal 5.768/1971 e legislação correlata.
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*Upideite(03/mai/2012): corrigido a esta data. Obrigado, @samir_elian.
**Upidete(04/mai/2012): corrigido a esta data.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Jogos dos erros 2

O Estadão reproduz reportagem da AFP: "Cientistas identificam microrganismo que pode esclarecer vida primitiva"

Sobre o uso do termo primitivo já comentei aqui no GR.

Aspas para o responsável do grupo de pesquisadores: "Descobrimos no lago um ramo desconhecido na árvore da vida. É única". O que essa frase quer dizer exatamente? Tecnicamente, uma espécie ou subespécie nova também é um novo ramo da árvore da vida - e, por definição, único. É um domínio novo ao lado de arqueas, eubactérias e eucariotos? Não há nenhuma informação a respeito na reportagem.

Mais aspas: "Para nós, nenhum outro grupo de microrganismos é descendente de tão perto das raízes da árvore da vida". Isso não faz o menor sentido. *Todos* os organismos atuais são descendentes exatamente da mesma raiz e estão à mesma distância temporal dela: cerca de 4 bilhões de anos.

Continua a reportagem: "O microrganismo 'se desenvolveu há cerca de um bilhão de anos, com uma margem de erro de cem milhões de anos', acrescentou." 1 bilhão de anos... Vejamos, o tempo de divergência entre os domínios atuais é estimado em algo como 3,5 bilhões de anos - 1 bilhão está bem distante desse ponto de separação das linhagens. E mais, cianobactérias devem existir há pelo menos 2,6 bilhões de anos (e talvez 3,5 bilhões de anos se a interpretação Schopf dos Sílex de Apex se mostrar correta).

Celenterados e demais eumetazoários têm um tempo de divergência estimado em alguns estudos em cerca de 1,2 a 1,5 bilhão de anos. Nemátodos e bilatérios em cerca de 1,2 bilhão de anos. Porém, outros estudos indicam um tempo de divergência bem mais recente para os eucariotos: o LECA (o último ancestral em comum dos eucariotos) teria vivido entre 1 e 1,4 bilhão de anos atrás.

E mais: "Para o cientista, o organismo microscópico 'pode servir de telescópio para observar o microcosmo original' e assim conseguir 'entender melhor como foi a vida primitiva na Terra'." Até pode, mas não mais do que muitos outros organismos.

A reportagem não dá nenhuma contextualização mais aprofundada - só que a descoberta foi feita originalmente há 20 anos e aparentemente foi feita uma nova análise. Mas não nos informa se é um estudo publicado, submetido, se foi anunciado em um congresso científico ou se é apenas um press release. Não nos informa que tipo de micro-organismo é: uma bactéria, uma arquea, uma alga, um fungo, um protozoário...

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Só alhures encontramos a menção de que é um eucarioto. E acrescentam uma afirmação sensacionalista do tipo "mankind's furthest relative". Só será se arbitrariamente se definir o limite do parentesco com a linhagem que deu origem aos humanos no nó em que se encontra o ancestral em comum mais recente desse micro-organismo e os humanos. De todo modo, o organismo teria uma divergência mais próxima da base dos *eucariotos* e não da árvore da *vida* - se considerarmos um LECA mais recente (outras estimativas ficam na ordem de 2 bilhões de anos).

O estudo foi publicado na Molecular Biology Evolution, ainda em versão eletrônica: Zhao et al. 2012. Collodictyon – an ancient lineage in the tree of eukaryotes. Mol. Biol. Evol.

sábado, 21 de abril de 2012

O caso da borboleta (não necessariamente Atíria)

Ainda estou no começo da leitura de "Infinito em Todas as Direções", do físico e matemático britânico naturalizado americano Freeman Dyson (2000, Cia. das Letras, 386 pp.). O original é de 1988 e se baseia na série de Conferências Gifford do autor proferidas em 1985 em Aberdeen, Escócia -In Praise of Diversity. Uma passagem do segundo capítulo (e que também é reproduzida na orelha do livro) me fez pensar:

"Esta rápida excursão pelo universo começará com as supercordas e terminará com as borboletas. [...] Não explicarei o que são borboletas e supercordas. Explicar as borboletas é desnecessário, pois todo mundo já as viu. Explicar as supercordas é desnecessário, porque ninguém jamais as viu. [...] Supercordas e borboletas são exemplos que ilustram dois aspectos diferentes do universo e duas noções diferentes de beleza. As supercordas aparecem no início e as borboletas no final porque são exemplos extremos. As borboletas estão no extremo da concretude, e as supercordas, no extremo da abstração. Marcam os limites extremos sobre o qual a ciência pretende ter jurisdição. [...] Ambas, de um ponto de vista científico, são mal compreendidas. Cientificamente falando, uma borboleta é, no mínimo, um mistério tão grande quanto uma supercorda. Quando algo deixa de ser um mistério, deixa de chamar a atenção dos cientistas. Quase tudo o que os cientistas pensam e sonham são mistérios."

É uma passagem bastante bonita. E com a qual concordei de início. Mas refletindo um pouco mais, acho que discordo em vários pontos.

A começar pela questão da explicação. A necessidade de explicação não está na familiaridade ou não de um fenômeno. Mas sim se há o tal "mistério" a ser desvendado. Há uma porção de elementos a respeito das borboletas que as pessoas não entendem. Por exemplo, só relativamente recentemente entendemos como as borboletas voam - sim, elas batem as asas, mas elas apenas as movimentam para cima e para baixo: quando movimentam para baixo, empurra o ar para baixo e, em reação, o ar empurra as borboletas para cima; só que, quando as borboletas movimentam para cima, o inverso deveria ocorrer. No caso das aves, elas recolhem as asas ao trazê-las para cima, fazendo com que não haja um efeito grande do ar empurrá-las de volta para baixo; moscas e abelhas giram as asas, com efeito similar. No caso dos lepidópteros, o que os sustenta são vórtex do ar que passam pela superfície dorsal durante o voo. Outro aspecto extremamente familiar, porém de detalhes pouco conhecidos, é a metamorfose. Os biólogos do desenvolvimento, com seus instrumentos de biologia molecular, começaram a desvendar o processo de ativação e desativação de genes - é a mudança no padrão que explica boa parte do fato de um mesmo conjunto genômico produzir duas formas tão distintas quanto a lagarta e a borboleta adulta. E mais. Quantas espécies existem? Como essa diversidade se relaciona entre si? Como as borboletas (e mariposas) evoluíram? São todas questões intrigantes que os cientistas procuram desvendar. (Certo que boa parte desses novos conhecimentos não estavam disponíveis à época das conferências.) E todo esse conjunto ajuda a explicar as borboletas - mesmo que haja ainda uma panapaná de outros "mistérios" (o próprio Dyson lista alguns mais à frente: "Com essa massa quase microscópica de células nervosas, o animal sabe como acionar suas pernas e asas, como andar e voar, como encontrar seu caminho usando algum meio de navegação desconhecido por milhares de quilômetros de Massachusetts até o México. Como é possível fazer tudo isso? Como os padrões de comportamento do animal são programados primeiro nos genes da larva e depois traduzidos nas vias neurais da borboleta?"). (Da parte de supercordas, um bom livro de divulgação é o "O Universo Elegante", de Brian Greene, 2001, Cia. das Letras, 592 pp.).

Discordo também de que borboletas e supercordas estejam em extremos opostos de concretude - embora isso dependa da noção de concretude que se está a empregar. A concretude como objetos que se consideram parte da realidade implica que ambos - borboletas e supercordas - são objetos tidos por de existência concreta. O que quer que signifique 'realidade', borboletas e supercordas devem existir realmente. Por outro lado, ambos são entidades abstratas: chamamos de borboletas, na verdade, a uma classe de manifestações - visuais, auditivas, táteis; e supercordas são outras entidades, cuja manifestação é bem mais indireta. Pode-se objetar e dizer que supercordas (ou sua versão mais turbinada de p-branas) são construtos matemáticos teóricos que procuram explicar as propriedades de partículas; mas borboletas também são construtos teóricos - embora não matemáticos - que associamos aos sinais mencionados (visuais, táteis, auditivos...) - apenas que borboletas são construtos emprestados de um tempo pré-científico.

Também discordo que ambos os fenômenos estejam no extremo do território científico. De um lado, embora as supercordas sejam supostamente os constituintes básicos do universo (não haveria nada a partir do qual as supercordas fossem formadas), ao menos da porção material, há questões ainda mais próximas da metafísica: como a origem do Universo (incluindo das supercordas); de outro, há epifenômenos dos quais as borboletas são constituintes (e não estou falando do tal efeito borboleta), como as nuvens das monarcas migratórias, as redes ecológicas nas quais elas estão imersas (borboletas podem ser indicadores da saúde ambiental), populações de lepidópteros podem ser bons exemplos dos processos evolutivos em ação.

Apesar de toda essa discordância, no entanto, creio que concorde em essência com Dyson: os mistérios são o que move os cientistas. Mas volto a discordar de que, uma vez desfeito o mistério, o cientista perca o interesse. Ele deixa de se mover nessa direção, mas é bem capaz de admirar a beleza do ex-mistério: o efeito da compreensão é algo que pode embasbacar o cientista; mesmo que ele já saiba do fato, ao se dar conta de que aquilo já é sabido e de como tal conhecimento foi obtido, o frescor do "eureka" de Arquimedes rebrota espontaneamente (mais ou menos como todo mundo - ao menos os que não são mal-humorados crônicos - ri das mesmas piadas de Chaves, não importa se é a milésima vez que revê o episódio). Não deixo de admirar o arco-íris mesmo conhecendo os processos ópticos por trás, nem de apreciar o voo desengonçado da borboleta sabendo dos torvelinhos aéreos, nem de me entreter com as máquinas de Rube Goldberg tendo ciência da cinética e da mecânica newtonianas.

sábado, 14 de abril de 2012

Qual é o valor do aluno de pós-graduação stricto sensu?*

*Esta postagem faz parte da blogagem coletiva promovida pelo sítio web posgraduando pela valorização dos alunos de pós-graduação.

Antes de mais nada, uma pequena objeção minha, o pessoal do posgraduando restringiu a discussão à situação dos alunos de pós-graduação stricto sensu sob a justificativa: "Outra confusão comum é a diferenciação entre as pós-graduações stricto sensu e lato sensu. Com a recente transformação do ensino superior em mercadoria ocorreu uma explosão de ofertas de cursos de especialização lato sensu, infelizemente nem sempre oferecidos por instituições sérias ou comprometidas com a qualidade de ensino. Como consequência disto surgiu um sério preconceito contra esses cursos, e este preconceito muitas vezes é estendido à pós-graduação de maneira geral." Aparentemente incorporaram os preconceitos contra os pós-graduandos lato sensu.

Adotarei a restrição, no entanto, não pela aceitação de que o lato sensu é de baixa qualidade, mas sim, em reconhecimento de que as situações são distintas. A pós lato sensu é eminentemente voltada para o mercado e a valorização se dá diretamente na carreira dos que fazem tais cursos: como aumento de salário, melhores oportunidades de emprego, networking, etc. A stricto sensu envolve mais a cultura da pesquisa acadêmica, no Brasil e em vários lugares do mundo, restrito ou a instituições públicas ou cujo funcionamento dependa enormemente de verbas públicas para o financiamento.

No Brasil, certamente a dinâmica que envolve a valorização de títulos de mestrado e doutorado stricto sensu não envolve grande participação de mecanismos tipicamente do mercado de trabalho. As IES privadas estão longe de cumprirem a determinação legal de 70% do corpo docente formado por mestres e doutores - e, sempre que possível e necessário, lançam a mão de reduzir seus quadros de professores titulados para diminuir custos.


Assim, faz pouco sentido valorar a pós-graduação a partir de dados mercadológicos: o quanto mestres e doutores recebem mais e são mais procurados do que os que são apenas graduados. Ademais a empregabilidade de doutores no Brasil é bem menor do que a média do mercado de trabalho: quase 30% não trabalham na área em que se especializaram.

Uma saída é recorrer a dados econométricos sobre o quanto os pós-graduandos contribuem para o PIB com seus trabalhos. Isso incluiria até gastos com a impressão da tese, inscrição em congressos, viagens de coleta, etc. O grande porém é: não existem tais dados (pelo menos acho que não, se alguém souber de algum estudo, por favor, dê-me um toque ali nos comentários). Mal há dados sobre o quanto a pesquisa acadêmica se reverte em ganhos econômicos no Brasil: há dados isolados como no caso da Embrapa e programas da Fapesp de fomento à pesquisa nas indústrias - variando entre 6 e 9 vezes o valor investido inicialmente. Os investimentos em P&D no país ficam em torno de 1,2% do PIB (e deve cair este ano), o setor público responde por cerca de 0,64% (ou 53,3% dos investimentos totais). Assim, em uma estimativa bem grosseira, os ganhos resultantes do investimento em pesquisa acadêmica no país fica em torno de 3,84% a 5,76% do PIB (de mais ou menos R$ 4 trilhões) - ou algo como R$ 160 bilhões.

O número de alunos de doutorado deve estar na ordem de 70.000 e de mestrado, 100.000. Considerando a média das IFES de 1,5 aluno de pós-graduação por docente, são cerca de 110.000 docentes registrados em programas de pós-graduação. Se distribuíssemos 10% dos R$ 160 bi em bolsas e salários, seria uma média de R$ 4.700,00 para cada um. Mantendo-se a distribuição proporcional atual: salário docente médio de R$ 4.200,00, bolsa CNPq de doutorado de R$ 1.800,00 e de mestrado de R$ 1.200,00; teríamos: salário docente médio de R$ 7.700; bolsa doutorado de R$ 3.300 e bolsa mestrado de R$ 2.200 como um pagamento mais justo em relação ao que seus trabalhos revertem em desenvolvimento econômico do país.

Upideite(27/set/2012): Suzana Herculano-Houzel faz seu desabafo - a situação da desvalorização das ciências vai além das bolsas de pós-graduação: "Você quer mesmo ser cientista?"

domingo, 1 de abril de 2012

É mentira, Terta? - Sexo, mentiras e videotape

ResearchBlogging.orgVárias espécies de plantas dependem dos insetos em sua reprodução através da polinização. É muito comum que haja atração dos polinizadores por meio de recompensa como o néctar. Mas, em diversas floríferas, os polinizadores são atraídos de um modo mais sensual e ardiloso - as flores têm um aspecto (na forma e no cheiro) similar a de fêmeas de vespas e abelhas, induzindo os machos a realizarem suas acrobacias sexuais que redundam na adesão de polens a seu corpo (liberados mais tarde quando o incauto don juan hexápodo for novamente enganado por outra planta). Esse processo recebe uma variedade de denominações como polinização por logro (deceit pollination ou pollination by deceit ou deceptive pollination - que envolve não apenas logro sexual - sexual deceit -, mas também alimentar - food deception - em que a planta exibe falsos sinais ligadasos à alimentação do polinizador) ou pseudocópula (embora o termo seja usado em outras situações - como os rituais de cópulas entre indivíduos de lagartos partenocárpicospartenogenéticos).

A quase totalidade dos casos conhecidos de logro sexual ocorre em espécies de orquídeas (espalhados por cerca de 400 espécies - Cozzolino & Widmer 2005- em 18 gêneros - Jersáková et al. 2006) com machos de abelhas e vespas, mas há pelo menos um caso em uma espécie de asterácea, a Gorteria diffusa, com uma mosca bombilídea, a Megapalpus capensis - curiosamente, uma mosca que imita uma abelha (Ellis & Johnson 2010).

Há pelo menos duas hipóteses (não mutuamente excludentes) sobre a vantagem evolutiva (naturalmente para a planta) do sistema de logro: a) liberação de recursos investidos na produção de recompensas para a produção floral e de sementes e b) maior índice de polinização cruzada em decorrência dos polinizadores visitarem um menor número de flores em uma planta que não recompensa, levando a uma prole resultante de fertilização cruzada com maior frequência e uma maior eficiência no transporte de polens (Jersáková et al. 2006). Os polinizadores, por outro lado, não parecem ter nenhuma vantagem e podem mesmo ter um custo alto - há casos em que o polinizador ejacula na flor, desperdiçando recurso e energia (Gaskett et al. 2008).

Em orquídeas, várias linhagens evoluíram independentemente a síndrome da polinização por logro sexual. provavelmente a partir de uma condição de logro alimentar (Cozzolino & Widmer 2005).

Scopece e cols (2010) compararam a eficiência de polinização (PE) entre espécies de orquídeas com diferentes estratégias: com recompensa em néctar ao polinizador, com logro alimentar e com logro sexual. A eficiência de polinização foi medida pela relação entre o número de flores com presença de polens (ou massa de polens) no estigma e o de flores de que as polínias foram removidas. A PE das logradoras sexuais foi menor, mas comparável à das recompensadoras; enquanto a PE das logradoras alimentares foi bem menor que ambas. (Os dados foram corrigidos para a comparação a fim de se eliminar o efeito da proximidade ou distância genética entre as espécies - parte dos valores de PE poderia se dever simplesmente a uma partilha de uma história evolutiva em comum relativamente recente em vez de a uma partilha de mecanismos similares de reprodução.) Os autores sugerem que essa diferença de PE entre as logradoras alimentares e as logradoras sexuais explique a recorrência de evolução de linhagens logradoras sexuais a partir de logradoras alimentares. Pode explicar também a evolução de linhagens recompensadoras a partir de logradoras alimentares. Mas como explicar a persistência de logradoras alimentares? As plantas recompensadoras encontram um limite nos gastos envolvidos na produção de recompensas como o néctar, além disso, os polinizadores tendem a visitar mais as flores de uma mesma planta e flores de plantas relativamente próximas, aumentando as chances de fertilização entre indivíduos geneticamente próximos; as logradoras sexuais não enfrentam esses problemas, mas apresentam uma taxa geral baixa de polinização (embora a eficiência de polinização seja alta, poucas flores têm seus polens removidos e poucas flores são polinizadas).

Abaixo um vídeo, narrado por Sir David Attenborough, com o logro sexual em ação.


Sabe aquela história de florezinhas e abelhas? Pois é, pelo jeito o tema rende.

Referências
Cozzolino S, & Widmer A (2005). Orchid diversity: an evolutionary consequence of deception? Trends in ecology & evolution, 20 (9), 487-94 PMID: 16701425

Ellis AG, & Johnson SD (2010). Floral mimicry enhances pollen export: the evolution of pollination by sexual deceit outside of the orchidaceae. The American naturalist, 176 (5) PMID: 20843263

Gaskett AC, Winnick CG, & Herberstein ME (2008). Orchid sexual deceit provokes ejaculation. The American naturalist, 171 (6) PMID: 18433329

Jersáková J, Johnson SD, & Kindlmann P (2006). Mechanisms and evolution of deceptive pollination in orchids. Biological reviews of the Cambridge Philosophical Society, 81 (2), 219-35 PMID: 16677433

Scopece, G., Cozzolino, S., Johnson, S., & Schiestl, F. (2010). Pollination Efficiency and the Evolution of Specialized Deceptive Pollination Systems The American Naturalist, 175 (1), 98-105 DOI: 10.1086/648555

sábado, 24 de março de 2012

Por que investir em ciências? Uma palavra: Embrapa

Complementando a postagem anterior em que comento de passagem minha preocupação com os cortes de investimentos em CT&I.

Mês que vem deve ser publicado o Balanço Social da Embrapa de 2011. No de 2010, registra-se que os R$ 1.941.173.948,11 aplicados no orçamento da empresa corresponderam a um valor de R$ 17.672.803.529,00 de retorno em tecnologias desenvolvidas e transferidas. Mais de 9,1 vezes o valor investido. O gráfico abaixo mostra a evolução do investimento realizado na Embrapa e o retorno obtido.


Figura 1. Evolução dos investimentos e retornos na Embrapa. ROL - receita operacional líquida (repasses da União, receita com vendas de produtos e serviços, restituições e outros); TD - valores correspondentes à tecnologia desenvolvida e transferida à sociedade. Fontes: Balanços Sociais da Embrapa.

Havia analisado antes a importância de se investir em ciências. O exemplo da Embrapa é bem ilustrativo. Em uma avaliação do projeto Fapesp PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) entre 2007 e 2009, cada real investido resultou em um retorno de 6 reais.

Gostaria de ver balanços sociais de outras instituições de pesquisa e desenvolvimento - especialmente as públicas. Alguém sabe se tem de universidades federais e estaduais (da USP em particular)? Claro, fazer balanço de universidades de pesquisa deve ser bem mais complicado, especialmente para avaliar os inúmeros projetos de extensão. (Sim, há dimensões outras a se considerar além dos ganhos econômicos, porém mesmo aqui é possível vislumbrar que os cortes no orçamento de CT&I realizados nos últimos anos poderá ter um impacto negativo bem maior.)

Upideite(24/mar/2012): Via @ciencianamidia, editorial do Estadão sobre os 30 anos da Embrapa, sua importância e os desafios frente às multinacionais e a tecnologia transgênica.

terça-feira, 20 de março de 2012

Ciência nos bRiCs

Brasil
Depois de atingir um pico de 7,9 bilhões de reais em 2010 (e um crescimento constante desde 2003), o orçamento do MCTI vem minguando cerca de 20% ao ano; para 2012 o orçamento será de apenas R$ 5,2 bilhões. O gráfico abaixo mostra a evolução orçamentária para CT&I com valores corrigidos pela inflação oficial.



Figura 1. Evolução do orçamento do MCTI. Valores corrigidos. Diversas fontes. LOA - orçamento aprovado no congresso após emendas parlamentares. pós-corte - valores após contingenciamentos anunciados.

Os cortes são justificados em função da crise econômica mundial, mas criticados pelas entidades científicas por minar a capacidade brasileira de inovação - componente essencial para o desenvolvimento econômico sustentado. Alguns efeitos do contingenciamento são observados como a participação brasileira na construção do telescópio ESO. Em franco constraste com a expectativa que havia há dois anos, como no editorial da Nature (High hopes for Brazilian science) e da Science (no embalo também da descoberta das reservas de pré-sal, Brazilian science: riding a gusher).

Ainda durante a gestão Mercadante à frente do MCT (que ele rebatizou de MCTI), foi criado o programa Ciência Sem Fronteiras, oferecendo bolsas para estudantes brasileiros no exterior e financiamento para pesquisadores estrangeiros no Brasil. Mas as bolsas de pós-graduação dos programas federais estão há quatro anos sem reajustes.

Rússia
O recém-eleito presidente russo Vladmir Putin anunciou a pretensão de dar um gás na ciência do país com um ambicioso programa que pretende implantar várias universidades de pesquisa de ponta até 2020. Diz ainda que dará transparência ao processo de financiamento às pesquisas e aumentará o orçamento das agências de fomento de US$ 500 milhões para US$ 830 milhões, descentralizando a receita das mãos da Academia Russa de Ciências. Segundo a Nature, no entanto, o anúncio é recebido com bastante ceticismo pelos cientistas.

Índia
O vigoroso crescimento dos investimentos em ciência nos últimos 5 anos (incremento de cerca de 25% anuais) também foi afetado pela crise econômica mundial. Não haverá cortes como no Brasil, mas o aumento mais modesto previsto para o biênio 2012-13, entre 2% e 18%, deverá ser comido pela inflação anual na casa de 7%.

China
Em termos orçamentários, a ciência chinesa continuará muito bem, obrigado. Em 2012, os investimentos governamentais em C&T deverá ser de US$ 36,1 bilhões - cerca de 12,6 MCTIs - aumento de mais de 12% em relação ao ano passado.

África do Sul
O orçamento sul-africano deve sair em maio. Ano passado as verbas públicas para C&T foram de US$ 628 milhões, aumento de 7,3% em relação aos valores de 2010/11.
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As situações atuais e as perspectivas para o futuro próximo das ciências nos países do BRICS são bastante heterogêneas - como são em diversas outras áreas. Em termos relativos, a situação brasileira é a mais preocupante e os esforços da academia e instituições científicas como a ABC e a SBPC parecem não surtir muito efeito na sensibilização do governo para a questão.

Upideite(21/mar/2012): Nos comentários, Sibele Fausto, sugere o sítio web SJR para comparar dados cientométricos (ou cienciométricos como preferem alguns). Bastante interessante. Embora seja uma pena que os dados sejam referentes somente até 2010, não permitindo ainda analisar os efeitos dos cortes orçamentários no Brasil, mostra algumas tendências. A produção científica, desde 1996, aumentou modestamente na África do Sul, de modo mais vigoroso no Brasil e na Índia, explodindo na China e estagnando-se na Rússia. Os índices de citações caíram de modo correspondente - o que leva à discussão da quantidade x qualidade (o que leva à discussão dos índices de citação como medida de qualidade). Medida de colaboração internacional nos artigos tem oscilado entre os BRICS.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 17

Uma importante questão a respeito da divulgação científica é como os diferentes discursos afetam a visão do público a respeito de um determinado tema.

Seguem minhas anotações a respeito de um artigo que testa a questão da contextualização e da controvérsia a respeito da certeza do público sobre o aquecimento global.

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Corbett, J.B. & Durfee, J.L. 2004. Testing Public (Un)Certainty of Science: Media Representations of Global Warming. Science Communication 26(2): 129-51. doi: 10.1177/1075547004270234

209 voluntários (alunos de curso de Comunicação) foram divididos em quatro grupos que leram artigos noticiosos sobre aquecimento global: A) 53, sem contextualização nem apresentação de controvérsias (controle); B) 54, sem contextualização e com apresentação de controvérsias (controvérsia); C) 51, com contextualização sem apresentação de controvérsias (contexto) e D) 51, com contextualização e apresentação de controvérsias (c&c).

Depois todos responderam a um questionário com 19 questões*:
4 demográficas;
2 (combinada na análise em um único fator) mediam o grau de certeza sobre o aquecimento global (em uma escala de 1 a 6 de nível de concordância)
- uma especificamente sobre aquecimento global ("According to this news story, global warming is a scientific certainty." ["Segundo a notícia, o aquecimento global é uma certeza científica."]) e
- outra sobre mudanças climáticas ("In this article, scientists are unsure whether global climate change is occurring." ["Neste artigo, os cientistas estão incertos se mudanças climáticas globais estão em curso."]);
4 avaliaram o grau de ideologia ambiental dos respondentes
- "When humans interfere with nature, it very rarely produces bad consequences." ["Quando os seres humanos interferem na natureza, isso muito raramente tem consequências ruins."],
- “Economic growth should be given priority even if the environment suffers to some extent.” ["O crescimento econômico deve ser prioritário mesmo se o ambiente sofrer um pouco."],
- "Would you say that the amount of money we spend as a nation on the environment is too little, too much, or about the right amount?" ["Você diria que a quantia de dinheiro que gastamos como nação para o meio ambiente é muito pouco, em excesso ou mais ou menos adequada."],
- "The balance of nature is delicate." ["O equilíbrio da natureza é delicado."]
1 foi a respeito do posicionamento do indivíduo sobre o tema antes da leitura do texto
- "Before you read this article today, how sure were you that global climate change was taking place?"["Antes de ler o artigo de hoje, quão certo você estava de que as mudanças climáticas globais estavam ocorrendo?"]

Na ordem decrescente, os grupos que apresentaram mais incertezas a respeito do aquecimento global foram: 'A' (controle); 'B' (controvérsia); 'D' (c&c); 'C' (contexto). Houve diferenças significativas entre A e D, A e C e B e C. (Figura 1)


Figura 1. Efeito de apresentação de contexto e controvérsia no grau de certeza dos leitores. Modificada de Corbett & Durfee 2004.

Ignorância: sentido amplo, inclui ausência de conhecimento, incerteza, incompletude, viéses, erros e irrelevância. (Stocking and Holstein 1993)
Incerteza: construto social, negociado entre os atores de um sistema social com vários públicos; manifestada por indivíduos de vários modos diferentes, por diferentes razões e com variados resultados. (Einsiedeland Thorne 1999)

*Obs (09/mar/2012): naturalmente, estão faltando 8 que não foram listadas pelosas autoresas no artigo.
**Upideite (09/mar/2012): As autoras detectaram um efeito da ideologia ambiental no grau de incerteza. Esse fator interagia com os tipos de tratamento, diminuindo o efeito deste. Porém, a diferença no tratamento se constituiu no principal fator. (Ideologia política, ativismo ambiental, idade, gênero, hábito de leitura de jornais ou número de horas trabalhadas por semana não tiveram nenhum efeito observado no grau de incerteza.)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eva mitocondrial: por que não é a primeira mãe?



Há vários equívocos muito comuns quando se fala em Eva mitocondrial (ou equivalente para outros organismos não-humanos), um modo relativamente fácil de se desfazer alguns desses mal-entendidos é visualizar uma figura esquematizando uma hipotética árvore genealógica. A Figura 1 representa uma população de tamanho constante com 10 indivíduos - 5 fêmeas (à esquerda) e 5 machos (à direita) - ao longo das gerações. A geração inicial 00 está na base da figura, sucedidas por gerações de descendentes (sem sobreposição de gerações) - a mais recente está no topo (geração 18). Cada indivíduo é representado por um genótipo: um lócus diploide do tipo autossômico representados por letras (com o fator herdado da mãe à esquerda e o fator herdado do pai à direita) e um lócus haploide de herança exclusivamente materna (representando, a herança mitocondrial) simbolizado por um número de 0 a 9. As linhas representam as relações de ancestralidade/descendência dos alelos/haplótipos. As linhas rosas indicam as relações de ancestralidade dos haplótipos mitocondriais dos indivíduos da geração 18; as linhas azuis, as relações de ancestralidade dos alelos autossômicos presentes na geração 18.


Figura 1. Genealogia de uma população hipotética diploide de reprodução sexual.

Repare que chamar a Eva mitocondrial (ou o equivalente para outras espécies) de "primeira mãe" passa uma noção equivocada. Há várias outras fêmeas anteriores ao indivíduo III da geração 13 (destacado em amarelo) que fazem parte das linhagens de ancestralidade-descendências dos indivíduos da geração 18. Além disso, contemporaneamente à fêmea III-13 (a "Eva mitocondrial" dessa população hipotética), há outras fêmeas - inclusive uma que contribui geneticamente com os indivíduos da geração 18: com parte dos alelos E (6 dos 20 alelos da geração 18 provêm da fêmea V-13). Em outras populações, a "Eva mitocondrial" poderia não ter nenhuma outra contribuição genética a não ser com as próprias mitocôndrias.

Dizer que a "égua ancestral viveu há 140 mil anos" não é incorreto. Mas é tão correto quanto dizer que viveu há 10 mil anos ou há 200 mil anos - naturalmente, não será a mesma égua - pelo simples fato de que há mais do que uma égua ancestral.

Na população que usamos como exemplo, o indivíduo V-00 é também uma fêmea ancestral de todos os indivíduos da geração 18. Assim como V-12.

É preciso também ter cautela quanto à interpretação de estudos sobre Eva mitocondrial (e equivalentes em outras espécies). A suposição básica é que a herança é exclusivamente materna e não há recombinação. Mas se sabe que ocorre recombinação do ADN mitocondrial (inclusive em humanos). Supõe-se que seja a uma taxa baixa o bastante para não afetar significativamente a técnica. Porém isso não está bem estabelecido.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

2012: O Último Carnaval? Spoiler Alert====>Não!

Blogagem coletiva Fim do Mundo
"Berros, súplicas, sangue, apitos sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas — e era bom evitar opiniões."
Graciliano Ramos, 1957. "Carnaval 1910."


Já definiram bem a história do fim do mundo em dezembro de 2012 como "o bug do milênio Maia" (acrescentaria, "aliado ao sistema internacional de unidades da Nasa").

A civilização maia teve seu auge entre os anos correspondentes a 300 e 900 d.C., mas os registros arqueológicos se estendem de 800 a.C. a 1520 d.C. na Mesoamérica, indo das terras da península do Iucatã no atual México até Honduras e El Salvador (Navarro 2008). Durante sua história desenvolveu três sistemas de contagem de tempo: a) um ciclo de 260 dias; b) um de 365 dias e c) um de contagem longa.

O de 260 dias, chamado pelos estudiosos de Ciclo Sagrado Maia ou tzolk'in, teve origem possivelmente no paralelo 15°N - onde o intervalo correspondia à passagem do tempo entre duas datas nas quais o Sol passava pelo ponto zenital - isto é, nas duas ocasiões consecutivas de Sol a pino em um ano solar (Malmstrom 1973). Os dias eram contados pela combinação entre ciclos de 13 e de 20 dias. No ciclo de 20 dias, cada dia recebia um nome: na sequência, Imix, Ik, Akbal, Kan, Chicchan, Cimi, Manik, Lamat, Muluc, Oc, Chuen, Eb, Ben, Ix, Men, Cib, Caban, Eznab, Cauac e Ahau. O de 13 dias eram designados por números. Assim, um, digamos, 10 Muluc, se seguiria a 11 Oc, este a 12 Chuen, aí 13 Ed, então 1 Ben, 2 Ix etc. (Naturalmente, os maias usavam números em sua própria escrita e cada um com seu próprio nome.) O uso do tzolk'in estava fortemente vinculado às práticas religiosas. (Smiley 1962.)

O de 365 dias, claro, correspondia ao Ciclo Solar, também designado pelos estudiosos de haab'. Aqui, os dias eram contados pela combinação de 18 ciclos de 20 dias (de 0 a 19) - cada ciclo correspondendo a um mês (Pop, Uo, Zip, Zotz, Tzee, Xul, Yaxkin, Mol, Chen, Yax, Zac, Ceh, Mac, Kankin, Muan, Pax, Kayab, Chumhu) - mais um mês de 5 dias (de 0 a 4): Uayeb. P.e. 18 Chumhu era seguido de 19 Chumhu, depois 0 Uayeb, 1 Uayeb... 4 Uayeb, 0 Pop, 1 Pop, etc.

Combinando-se o tzolk'in com o haab', dois dias que recebiam os mesmos nomes nos dois ciclos eram separados pelo mínimo múltiplo comum entre 260 e 365, o que dava 18.980 dias ou 52 anos solares - formando o ciclo calendárico.

Para evitar confusão entre dias com os mesmos nomes entre ciclos calendáricos diferentes, o maias desenvolveram o Ciclo de Contagem Longa: uma contagem contínua dos dias a partir de um dia inicial remoto no tempo. A unidade básica era o kin, 20 kins correspondiam a um uinal; 18 uinals a um tun; 20 tuns a um katun e 20 katuns a 1 baktun. Um baktun correspondia, então, a 20 x 20 x 18 x 20 = 144.000 dias, pouco mais de 394 anos e meio. (Smiley 1962.)

O maior número que poderia ser representado por esse sistema seria então: 19 baktuns, 19 katuns, 19 tuns, 17 uinals e 19 kins. Ou seja, 2.879.999 dias.

O dia do nosso sistema de calendário que corresponderia ao início do Ciclo da Contagem Longa é incerto. Ao longo do tempo várias datas foram defendidas com base na correspondência de algumas datas com eventos astronômicos conforme os registros maias. As estimativas da correspondência do dia zero do ciclo longo tem variado entre 3645 a.C. e 2593 a.C. (Smiley 1962.)

Ou seja, a contagem dos ciclos longos deve terminar entre os anos de 4494 e 4772 da nossa era (e não em 2012 - a "previsão" de 2012 coincide com o fim do 13° baktun para uma certa estimativa do início da contagem longa)*. Isto é, teremos nosso último carnaval anual pelo menos pelos próximos 2.482 anos. E certamente além: se não por uma versão estendida da contagem longa, por qualquer outro evento, profecia ou coisa que o valha. Números redondos - sejam no sistema vigesimal modificado dos maias, sejam no sistema decimal sobre o calendário gregoriano (haja vista as inúmeras profecias apocalípticas milenaristas) - ou próximos a eles costumam ser palpites bastante populares.

Por exemplo, em 1910, a passagem do cometa Halley parece ter causado algum alvoroço com a especulação de que a cauda gasosa contaminaria a atmosfera com o venenoso cianogênio (além de outros efeitos como terremoto), no Canadá, nos EUA, e também no Brasil. Sua nova passagem, em 1986, apesar do grande interesse, parece não ter despertado a mesma apreensão. Porém, em 1997, desta vez com o cometa Hale-Bopp, especulações catastrofistas novamente ressurgiram (com direito a um episódio particularmente trágico) . À época da ativação do LHC, em 2008, mais destaque a preocupações com o fim do mundo: o acelerador criaria um buraco negro que terminaria por engolir o planeta. Em 2011, mais uma interpretação milenarista: uma não, duas (e do mesmo autor).

Há que se encarar, no entanto, o retrato dado pela mídia da reação popular a esses eventos com um certo grão de sal. Uma leitura pelo valor de face das narrativas jornalísticas nos passa a impressão de uma histeria generalizada. Um futuro historiador que se valer dos textos da imprensa de hoje, imaginaria que todo mundo em 2012 acreditava mesmo que 21 de dezembro era (será) a data do Armagedão. Certamente há indivíduos e grupos alarmados - mas parte deles estão alarmados exatamente em função do destaque (com registro tirante ao sensacionalismo, quando não descaradamente sensacionalista) dado. Mais uma vez, em nome de uma pretensa isenção, quase sempre sem nenhuma visão crítica, dão voz a grupo minoritário e um tanto excêntrico de profetas do apocalipse - quando uma contraposição é feita, muitas vezes, a refutação racional e factualmente embasada tem, no máximo, o mesmo peso do nostradamus de plantão.

Quando digo que certamente prognósticos sobre o fim do mundo continuarão a ocorrer para além do fim da contagem longa maia, não acho que eu esteja arriscando muito - mesmo sendo uma previsão de longuíssimo prazo: há muito dinheiro envolvido (alguém quer apostar?). Creio que o material a respeito do fim dos tempos possa ser considerado praticamente uma subindústria do filão místico.

Mas, com tal persistência, um dia acabam acertando a data.

Referências
Malmstrom, V.H. 1973. Origin of the Mesoamerican 260-day calendar. Science :181: 939-41.
Smiley, C. H. 1962. The Mayan calendar. Astronomical Society of the Pacific Leaflets 8: 327-34.

Obs: Esta postagem faz parte da blogagem coletiva organizada pelo Scienceblogs Brasil.

*Upideite(13/fev/2012): Carlos Orsi, em comentário a uma postagem dele, chama a atenção para o fato de aparentemente os maias considerarem apenas 13 baktuns.**
**Upideite(11/mai/2012): Um registro recém-anunciado, mostra um calendário do séc. 9 em que se contam pelo menos 17 baktuns.

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