Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

#fbciencia: uma (outra) proposta modesta (agora pra usar no facebook)

Nascida de uma discussão entre tuiteiros de ciências, a tag #twitciencia tem sido usada há quase dois anos no twitter para compartilhar conteúdos sobre ciências.

Talvez seja hora de criarmos um mecanismos similar no facebook. A plataforma tem sido bastante usada para divulgar conteúdo de ciências - sendo apontada como uma possível causa da crise no ritmo de postagens em blogues filomáticos.

O amplo alcance potencial do facebook, no entanto, tem como contrapartida a volatilidade dos conteúdos, que surgem e somem rapidamente das linhas de tempo dos usuários, perdendo-se para sempre no mar de atualizações. Problema não diferente do que ocorre no twitter. Como este também há um sério problema de indexação e um péssimo sistema de busca.

Mas, com a implementação há algum tempo das hashtags no facebook, sugiro que as atualizações na rede do tio Zucko sobre temas de ciência sejam marcadas com a tag: #fbciencia.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pesquisa "Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia" - primeiros resultados

Antes de mais nada, gostaria de agradecer muitíssimo aos que colaboraram com a pesquisa, seja respondendo-a, seja divulgando-a.

Apesar de alguns esforços para diminuir o desvio da razão sexual dos respondentes - como apelos públicos voltados às mulheres e tentativas de divulgar em blogues e perfis de rede social voltados ao público feminino -, não teve jeito. 72,1% dos respondentes foram do sexo masculino, apenas 28,8% do feminino (apesar de haver opção para responder outra coisa, ninguém respondeu fora dessas alternativas).

O gráfico abaixo (Figura 1) resume os meios declarados pelos quais os participantes tomaram ciência da pesquisa.

Figura 1. Meios pelos quais os participantes da pesquisa tomaram conhecimento dela. Respostas espontâneas.

Não há muita surpresa pela grande concentração das respostas na web 2.0 - afinal, foi concebida, gerida e anunciada quase que exclusivamente na web 2.0. Boa parte souberam pelo próprio blogue do GR [preciso parar com a piada de ter apenas um casal de leitores : )], mas a maior fração por outros blogues. Do twitter, onde também concentrei bastante esforço de divulgação e o facebook. Além dos próprios esforços, a natureza das redes sociais certamente contribuíram - uma boa fração nas redes sociais souberam através de terceiros (bem mais do que diretamente pelos perfies do GR e meu).

Na Figura 2, estão destrinchados as referências nos blogues.

Figura 2. Blogues pelos quais os respondentes ficaram sabendo da pesquisa.

Nos blogues da Folha (no Mensageiro Sideral, do Salvador Nogueira,  e no Darwin e Deus, de Reinaldo José Lopes) e no blogue do Luís Nassif publiquei um comentário em algumas postagens. Não foram os únicos blogues em que publiquei comentários sobre a pesquisa, claro. Mas nos demais casos, não houve retorno. Nos blogues Álvaro Augusto, Carlos Orsi, Dragões de Garagem e O Telhado de Vidro (do Daniel Bezerra) foram publicadas postagens com links para a pesquisa.

Na Figura 3, está a distribuição das fontes no twitter.


Figura 3. Perfis do twitter pelos quais os participantes souberam da pesquisa.

Em um terço dos casos, nenhum perfil foi especificado. O principal perfil individual foi o do @cardoso, seguido de @ceticismo, @scienceblogsbr, @acidocetico e @ciencianamidia.

No caso do facebook (Figura 4), em mais de 3/5 dos casos, não houve menção a um perfil em específico. Minha interpretação tentativa é que no FB, a autoria das postagens e, principalmente, da fonte primária de menção tende a se diluir.

Figura 4. Perfis do facebook por intermédio dos quais os respondentes ficaram sabendo da pesquisa.

O padrão nada surpreendente, dada a natureza da pesquisa, é que os canais condutores mais eficientes são os ligados às ciências.

(O leitor ou a leitora atenta terá notado que não segui as melhoras práticas preconizadas para a produção de gráficos do tipo pizza - como a ordenação decrescente das classes.)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Especulando: Que história é essa de storytelling? - parte 3

Vimos que "storytelling" é uma buzzword que estourou na última década, e que tem alguma base factual.

O conceito de Homo narrans (ou Pan narrans, como preferem Pratchett, Stewart e Cohen) parece ter sido cunhado em algum momento entre a década de 1960 (algumas dfontes atribuem a criação do termo a Ranke 1967) e 1990 (outras a Fisher 1987), mas o início da sistematização da aprendizagem por narração se dá por volta do começo dos anos 2000 ("teoria narrativa") e até arriscam a uma ciência da narração: a narratologia.

Uma das mais antigas menções ao termo "storytelling" no contexto de divulgação/comunicação científica é de 1978, por Stephen J. Gould. E uma associação negativa: "Sociobiology: the art of storytelling", em uma de suas tradicionais críticas aos "just so stories" de tentativas de explicar características presentes em organismos atuais com base em cenários evolutivos.

Isso nos diz algo a respeito de problemas potenciais de "storytelling" em DC que precisa ser mais bem analisado. Douglas Allchin, da University of Minnesota, analisa o uso dos enquadramentos históricos da ciência pelos professores em suas aulas. Sua conclusão é que, contrário ao discurso predominante, não é que seja necessário mais história na educação científica, mas um uso diferente da história para uma melhor caracterização das ciências no processo de ensino.

Allchin alerta para o perigo da mitificação da ciência no processo narrativo, por uso de recursos e enquadramentos, em nome de se contar uma boa história.

Diane Winston, da University of Southern California, considera um perigo potencial associado: a distorção causada pela narrativa sob enquadramento do conflito. Nem toda narrativa científica pode ser encaixada no esquema "fulano disse isso, beltrano acha isso", forçando a equivalência entre argumentos epistemologicamente díspares (e eu diria, com embasamento factual completamente díspar - como igualar os argumentos de negacionistas climáticos com os da maioria dos climatologistas).

Mas qual a efetividade de sua aplicação na divulgação científica? A resposta é... não sabemos. Não muita coisa pelo menos.

Aliás, como boa parte do que se aplica em DC, é mais uma questão de arte do que de ciência. A maior parte dos estudos de DC são mais conceituais do que testes experimentais das técnicas sugeridas.

Um dos poucos testes sobre o efeito do uso de narrativas na aprendizagem é de McQuiggan et colaboradores, da North Carolina State University, publicado em 2008. 88 alunas e 91 alunos do 8o ano (entre 12 e 15 anos de idade) foram divididos aleatoriamente em 4 grupos após completarem o currículo mínimo legal do Estado da Carolina do Norte em microbiologia: um controle (que não receberam nenhuma intervenção) e três que foram apresentados a uma narrativa da Ilha Cristal. Em um dos grupos, a narrativa era completa, apresentando casos de envenenamento, as histórias pregressas das personagens e ricos detalhes das personalidades; em outro grupo, a narrativa foi resumida, apresentando apenas pontos de apoio ao currículo mínimo; em um terceiro grupo, a narrativa foi apresentada por meio de uma apresentação de Power Point.

Infelizmente, os pesquisadores não avaliaram o ganho de aprendizagem no grupo controle. Nos demais grupos, os alunos aprenderam mais com a apresentação Power Point, seguida da narrativa resumida e aprenderam menos com a narrativa completa. O ganho do uso da narrativa em lugar das técnicas tradicionais se deu na dimensão motivacional dos alunos.

Não digo que não se deva aplicar o "storytelling" na DC - na falta de informações mais substanciais, defendo a pluralidade de técnicas para se tentar atingir uma gama mais ampla de pessoas -, mas também diante da falta de informações mais substanciais, permaneço reticente quanto à eficiência da abordagem.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Especulando: Que história é essa de storytelling? - parte 2

"Storytellling" é, como vimos na postagem anterior, uma buzzword. Não é um termo novo: "storyteller" tem seu primeiro uso registrado na língua inglesa datado de 1709. Mas o auê em torno da expressão em tempos recentes - especialmente nos últimos 10 anos - deve-se ao mercado publicitário. Meio que de repente (como a maioria das modas teóricas), os mercadólogos descobriram que envolver o consumidor com uma mitologia em torno da marca levaria a uma fidelização (outra buzzword do marketing) e identificação (sim, também).

Essa mitologia seriam histórias a serem contadas nas peças publicitárias e propagandísticas, histórias envolventes, que toquem os sentimentos do consumidor (o que não quer dizer que sejam peças necessariamente emotivas, piegas - há vários sentimentos a serem explorados, nem todos nobres: sensação de poder, de ser especial e diferente...).

(Mercadólogos são especialmente antenados com buzzwords. Já criaram cursos que juntam dois conceitos hypados: "inovação em storytelling".)

Escrevo isso com uma certa pitada de menoscabo. Mas por trás da importância inflada há *alguma* base psicológica séria (o que não quer dizer que tudo seja cientificamente embasado).

Histórias, sim, ajudam a marcar. A criação de narrativas em torno de elementos que são desconjuntados isoladamente ajuda a fixar na memória e é uma das técnicas mais eficientes. Dada uma lista aleatória de itens, digamos: fonógrafo, lixa, címbalo, pavão, plugue, ferro de passar, nariz, plaina, rinoceronte; é mais fácil de nos lembrarmos dos itens se os conectarmos dentro de uma historinha mais ou menos realista e compacta do que tentar pura e simplesmente decorar a lista item a item. Algo como: "Fui mexer em um velho fonógrafo, mas ele estava quebrado. Usei uma lixa para tirar a ferrugem e o atrito fazia um som de címbalo. Por baixo da ferrugem apareceu uma imagem de um pavão. Peguei o plugue do ferro de passar pra tirar uma peça. Estava suja que nem o nariz. Tentei passar uma plaina, mas era mais dura que pele de rinoceronte."

Histórias também compelem o nosso modo de pensar a certas direções. Em seu livro "O Andar do Bêbado" (2008, Ed. Zahar, 261 pp.), o físico Leonard Mlodinow saca o resultado de um experimento publicado em 1952 por Daniel Kahneman e Amos Tversky. 36 alunos de graduação eram informadaos sobre a história de Linda: "31 anos, solteira, sincera e muito inteligente. Cursou filosofia na universidade. Quando estudante, preocupava-se profundamente com discriminação e justiça social e participou de protestos contra as armas nucleares." A partir disso, tiveram que atribuir notas de 1 (mais provável) a 8 (menos provável) a três de afirmações a respeito de Linda afirmações (ordenados na ordem do mais provável para o menos provável de acordo com os respondentes):

1. Participa do movimento feminista
2. É bancária e participa do movimento feminista
3. É bancária

Em um raciocínio estritamente lógico-probabilístico, a probabilidade de Linda ser A *e* B deve ser *menor* do que a probabilidade de qualquer uma das condições isoladamente: de ser A ou de ser B. A probabilidade de uma pessoa qualquer ser corintiana e careca deve ser, no máximo, igual à probabilidade de ser corintiana ou de ser careca. Mas 31 consideraram a afirmação 2 como mais provável do que a afirmação 3.

(Há, no entanto, uma interpretação alternativa que os entrevistados podem ter dado à afirmação "Linda é bancária": como há a opção "Linda é bancária e participa do movimento feminista", podem ter interpretado inicialmente que a afirmação "Linda é bancária" corresponderia a "Linda é bancária e não participa do movimento feminista", em vez de "Linda é bancária e pode ou não participar do movimento feminista". Porém, mesmo depois de esclarecidos sobre a questão da probabilidades de eventos disjuntos, 2 alunos permaneceram considerando que a afirmação 2 era mais provável do que a 3.)

Embora cada detalhe não consubstanciado nos dados acrescentado na descrição efetivamente *diminua* a probabilidade geral do relato ser verdadeiro, as pessoas parecem considerar que detalhes que não sejam flagrantemente contraditórios com o que se sabe aumentam a verossimilhança do relato.

Tendo jogado só a água suja, pegando o bebê de banho tomado e fralda trocada, o que resta de efetivamente aplicável no "storytelling" na divulgação científica?

Continuo depois.

Parte 3.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Especulando: Que história é essa de storytelling? - parte 1

Pelo Ngram Viewer do Google, o uso do termo "storytelling" tem crescido desde a década de 1940 e um alcançou um súbito aumento - especialmente em línguas europeias não-inglesas - a partir dos anos 2000.

Inglês


Francês


Alemão


Italiano


Espanhol


Infelizmente a base do Ngram Viewer não conta com a língua portuguesa.

O Google Trends tem uma base temporalmente mais curta - dados a partir de 2004.

Mundo/Brasil

Os dados de citações do termo "storytelling" nos principais jornais brasileiros (Estadão - OESP; O Globo e Folha de São Paulo - FSP) são um pouco mais confusos.



Removendo os dados de 2001 e 2002 para os jornais O Globo e Folha de São Paulo que excedem em muito a contagem dos demais anos, temos um padrão mais consistente de crescimento.


Então parece que temos um aumento geral do interesse pelo termo "storytelling" - no mundo e no Brasil - especialmente a partir da década de 1990 e particularmente na última década.

Continuarei a desenvolver o tema na próxima postagem.

(Esta discussão nasceu no facebook do Carlos Hotta a respeito de uma citação de Jonathan Gottschall sobre como somos uma espécie animal que adora contar e ouvir histórias e como isso se aplicaria no contexto da divulgação de ciências.)

*Upideite(04/dez/2013): No caso da Folha, aparentemente os picos de 2001 e 2002 se deve ao filme "Storytelling" ("Histórias Proibidas") de Todd Solondz e o subsequente álbum homônimo de Belle & Sebastian.

Upideite(04/dez/2013): Parte 2.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Gene Repórter Ano 6



Hoje*, faz 5 anos da primeira postagem no GR.

Quem quiser concorrer a um exemplar de "Pura Picaretagem" de Daniel Bezerra e Carlos Orsi - com autógrafo deste-, tem até a meia noite (hora de Brasília) de hoje para responder à pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia (não se esqueça de usar o código "genereporter" no campo correspondente).**

Nestes últmos 12 meses, o GR recebeu mais de 65 mil visitas - um recorde doméstico. (Obrigado a todos os leitores - mesmo os que só passaram e saíram imediatamente -!)

O GR - juntamente com outros blogues de ciências - foi analisado em:
Oliveira, SM. 2013. Ciência, mídia, estado e sociedade: o discurso de divulgação científica na Internet. Rev. cienti. ci. em curso. v. 1 n. 2.

É o segundo trabalho acadêmico a citar o GR, e o primeiro a analisá-lo - ainda que apenas um trecho. O trabalho procurou estudar, como o nome indica, o discurso de DC, no contexto da gripe A pandêmica de 2009. A autora conclui que os blogues se resumem a praticamente copiar e colar o que é encontrado em outras fontes. Discordo amplamente da conclusão, claro.

A autora diz ainda: "A primeira coisa a observar é que a palavra 'divulgação' não aparece nos blogs selecionados." Considerando-se que a pandemia foi declarada pela OMS como tendo início em 11/jun/2009 e término em 10/ago/2009, para o GR, a afirmação é tecnicamente correta, mas a primeira menção ao termo ocorre já na primeira postagem; a última menção *antes* do período pandêmico é de 13/mai/2009 - pouco mais de um mês antes da pandemia - e a primeira *depois* é de 27/ago/2009 - pouco mais de duas semanas após a pandemia. E a série específica que discute as bases da divulgação científica se inicia em 10/set/2009.

Obviamente por gripe - ainda mais a pandêmica de 2009 - não ter sido meu objeto de estudo, não poderia dar nenhuma informação que não a disponível a partir dos estudos de quem trabalhava com isso. Mas isso é longe de ser um mero "copia e cola".

Em primeiro lugar, despreza todo o trabalho de garimpagem das informações e do retrabalhamento. Só por isso o "copia e cola" seria altamente ofensivo, além de ser uma acusação de plágio. Em segundo lugar, insinua uma visão acrítica em relação às fontes.

Quando julguei que era o caso, uma crítica foi feita, p.e., sobre a alteração do modo de cálculo:
"No Brasil, são, hoje, 45 mortes confirmadas, em 1.566 casos confirmados: 2,87% ou 287 mortes a cada 10 mil casos.

Seria leviano se eu dissesse que foi por isso que o MS adotou uma nova fórmula de cálculo. Distinguindo letalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de casos *graves*, da mortalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de *habitantes*. Tem, aparentemente, anuência da OMS, mas isso tem um potencial de gerar uma distorção mais séria.

No momento, segundo dados do MS, 14,2% dos pacientes diagnosticados com a gripe A(H1N1) desenvolveram um quadro considerado moderado a grave (com sintomas além da febre e da tosse), e 17% dos pacientes diagnosticados com a gripe sazonal evoluíram para o mesmo quadro. No entanto, esses números são dinâmicos - dependendo de uma série de fatores, incluindo o quanto a rede médico-hospitalar está preparada para receber os pacientes, qual será a dinâmica do espalhamento da doença, se o clima será mais severo ou menos rigoroso, se haverá grandes engarrafamentos ou não...

No caso, da mortalidade, de um lado, o número de habitantes no país pode acabar achatando demais os números. 0,015 óbitos por 100 mil habitantes pode não parecer muito. Uma doença com 1 morte por 100 mil habitantes pode parecer mais assustadora. Mas isso pode não se refletir na letalidade da doença - e que tem a restrição acima mencionada.

Verdade que nenhum número por si só dará o quadro completo, mesmo uma coleção de números pode ser enganosa. Mas quando o sistema de cálculo muda, quando as regras do jogo mudam no meio do caminho, isso pode causar confusão de um lado e desconfiança de outro."

Os gráficos todos da série Mala Influenza baseavam-se em dados oficiais - e quais mais eu usaria? -, mas sua feitura (e feiura, admito) envolvia um trabalho original.

Falo pelo meu trabalho aqui no GR, mas certeza que críticas similares à conclusão injusta da autora podem ser feitas pelos autores dos demais blogues estudados.

O GR é pobre, mas é limpinho.

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*Infelizmente em um dia muito triste. Condolências aos familiares das vítimas.

**Upideite(28/nov/2013): Tivemos 63 concorrentes - que preencheram o campo de código com a palavra promocional - e o sorteio foi realizado. O ganhador já foi contatado por email para manifestar o interesse. Caso não haja resposta dentro de uma semana (7 dias corridos), um novo sorteio será realizado.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Recadinhos pré-níver

Quarta-feira: 27 de novembro, o GR faz seu 5o aniversário. Quem quiser concorrer a um brinde, tem até lá para responder à pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia - mas tem que usar o código "genereporter" no campo correspondente.

O prêmio será o livro "Pura Picaretagem" de autoria do físico Daniel Bezerra e do jornalista Carlos Orsi - o exemplar será autografado pelo segundo autor. (Se o ganhador já tiver o título, poderá trocar por outra obra de Orsi: "O Livro dos Milagres" - mas sem garantia de autógrafo.)
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Aproveitando uma discussão iniciada por Mauro Rebelo no Você que é Biólogo, criei um grupo no Facebook para servir de base para a futura criação de uma Rede Nacional de Professores Pesquisadores - uma rede para gerar dados para fundamentar uma "Educação Baseada em Evidências". Testar, na prática, as diversas propostas de metodologias educacionais e ver o que funciona e o que não funciona. A espinha dorsal serão professores que dão aulas (na rede pública e particular) no ensino básico e superior. É uma ideia que nutro há algum tempo, vamos ver se funciona.
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Vocês já devem ter visto, mas os Scienceblogs Brasil estão com um concurso: "Explique sua tese para a vovó!". As três melhores transposições de títulos herméticos de teses e artigos para o registro coditiano concorrem a um exemplar do acima mencionado "O Livro dos Milagres". Vale só para pesquisadores e estudantes (de graduação ou pós-graduação) que tenham um TCC, dissertação, tese ou artigo.
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Já estão acompanhando os agregadores de blogues de ciências: Bolsão de Blogs, do Rubens Pazza, e o Periódico, do Filipe Saraiva?
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Pessoal da turma de 2013 do curso de Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp fez um vídeo para o Festival do Minuto Ciência (votem lá):
(Produzido por: Ana Paula Zeguetto Alves, Cassiana Purcino Perez, Fabiano Pereira, Fernanda Domiciniano, Janaina Quiterio, Juliana Passos, Keila Baraldi Knobel e Roberto Takata.)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desmatamento na Amazônia aumentou 28% depois do Novo Código Florestal. O que isso quer dizer?

Provavelmente não muita coisa.

O desmatamento na Amazônia Legal Brasileira, felizmente vem caindo desde 2002há uns 10 anos segundo levantamentos do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites (Prodes) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - erroneamente chamado de Instituto Nacional de Pesquisa e Estatística pela reportagem da EBC - Figura 1).

Figura 1. EBC erra de Inpe.

Desde 2004, as taxas anuais de desmatamento vêm caindo (Figura 2).

Figura 2. Variação da taxa anual de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira. Fonte: Prodes/Inpe.

Fazendo uma regressão exponencial com os dados desde 2003, obtemos uma curva de muito bom ajuste (R2=0,94) (Figura 3).

Figura 3. Curva de regressão exponencial para variação do desmatamento amazônico desde 2003.

Fazendo um teste Z para o resíduo (diferença absoluta entre o valor previsto pela curva e o valor real) de 2013 em relação aos resíduos dos anos anteriores, temos que não há uma diferença significativa: p = 0,42. Se eliminarmos o resíduo de 2004 (o maior da série), ainda assim a diferença não é significativa p < 0,95 (p=0,946).

*Fazendo um teste t para os resíduos, o valor crítico para α=0,05, unicaudal, com ν=9, é de 1,833. Para os dados de 2003 a 2012 contra 2013, t = 0,21; ignorando-se 2004, t=1,61. Não se rejeita em nenhum dos casos que o valor de 2013 esteja dentro do esperado na curva de redução do desmatamento.

Uma interpretação possível, então, é que a variação está dentro da normalidade dos últimos anos. Os 28% de aumento não podem ser atribuídos à alteração da norma legal de proteção da cobertura vegetal. Não temos, ainda, nem mesmo um indício de que a saudável e saudada tendência de declínio da taxa de desmatamento da região tenha sido interrompida.

Deve-se ter em mente, no entanto, que isso não quer dizer que esteja tudo bem, nem que a fragilidade introduzida pelo Novo Código Florestal não tenha efeito deletério - seja na própria Amazônia, seja nos demais biomas brasileiros. A queda que vem ocorrendo só se dá pela estrita vigilância e ação dos órgãos governamentais com a fiscalização das ONGs e da sociedade civil (além dos avanços das técnicas de produção agrícola que aumentam a produtividade e diminuem a pressão por novas áreas) e mais esforços precisam ser dispendidos para que o desmatamento finalmente caia a zero - e que possa haver até mesmo recuperação das áreas perdidas.

*Upideite(08/dez/2013): Como são relativamente poucos dados, o correto é aplicar o teste t no lugar do Z.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Slow like honey, heavy with mood: Dawkins e o mel. Ou: Imagina na Copa

O biólogo britânico Richard Dawkins narrou em seu twitter sua desventura no aeroporto de Edinburgo por causa de um pote de mel.



Irritado com a galhofa que se seguiu por lá sob a hashtag #honeygate (e compilada pela Rebecca Watson no Skepchick) escreveu um artigo no The Guardian. Não tenho os detalhes do incidente. Pelas regras britânicas, qualquer produto de origem vegetal ou animal (incluindo mel) pode transitar livremente entre os países da União Europeia - mas se tiverem origem em países fora da UE, só por meio de importação controlada e certificada. (Segundo Dawkins, o veto foi pelo frasco exceder o volume permitido.)

No Brasil, também produtos de origem vegetal e animal de procedência estrangeira não podem ser admitidos em território nacional. Somente por meio de importação legal seguindo os trâmites estabelecidos por leis e outros regulamentos. Uma cartilha elaborada pelo Mapa lista uma série de produtos agropecuários vetados:
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Quais produtos agropecuários não podem ingressar no Brasil sem autorização?
• Frutas e hortaliças frescas.
• Insetos, caracóis, bactérias e fungos.
• Flores, plantas ou partes delas.
• Bulbos, sementes, mudas e estacas.
• Animais de companhia, como cães e gatos, pois podem transmitir a raiva, entre outras doenças.
• Aves domésticas e silvestres, pois podem albergar o vírus da influenza (gripe aviária).
• Espécies exóticas, pescados, aves ornamentais e abelhas, pois podem transmitir doenças que não existem no Brasil.
• Carnes de qualquer espécie animal, in natura ou industrializadas (embutidos, presuntos, defumados, salgados, enlatados), pois podem conter agentes infecciosos.
• Leite e produtos lácteos, como queijos, manteiga, doce de leite, iogurtes, pois, além de necessitarem de condições especiais de conservação, ainda podem conter agentes infecciosos.
• Produtos apícolas (mel, cera, própolis etc.) porque podem albergar agentes infecciosos.
• Ovos e derivados, pois também requerem condições especiais de conservação e podem conter agentes infecciosos.
• Pescados e derivados, pela mesma razão anterior.
• Sêmen e embriões, considerados materiais de multiplicação animal, potencializando o risco de disseminação de doenças.
• Produtos biológicos, veterinários (soro, vacinas e medicamentos) requerem registro junto ao MAPA.
• Alimentos para animais (ração, biscoitos para cães e gatos, courinhos de morder) requerem registro junto ao MAPA.
• Terras.
• Madeiras brutas não tratadas.
• Agrotóxicos.
• Material biológico para pesquisa científica, entre outros, como amostras de animais, vegetais ou suas partes e kits para diagnóstico laboratorial.
• Comida servida a bordo.
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Em linhas gerais, todos esses produtos podem ser focos de entrada de agentes infecciosos que causem danos seja à saúde humana, seja à saúde animal, seja à saúde vegetal. Mesmo se for produto da Europa, dos EUA, do Japão e outro locais com fiscalização sanitária rígida? Sim, mesmo desses locais.

Isso porque a legislação sanitária de cada país se adéqua à situação local: se um determinado micro-organismo não causa nenhum problema ali, não há razão para que as regras exijam seu controle. Mas o fato de tal agente não causar um problema em um local, não quer dizer que não possa causar problema em outro. Um micro-organismo, em seu local de origem, pode não causar problemas por diversos fatores: seus hospedeiros estarem adaptados evolutiva ou fisiologicamente, contarem com presença de competidores, parasitas, predadores... que controlem sua população. Fatores que muitas vezes estão ausentes fora dali.

Outro problema é que muitas vezes não é possível se ter controle da origem do produto adquirido pelo passageiro: pode ser que o mel (ou o salame ou o queijo ou o pacote de tremoço, etc.) comprado não tenha passado pelos processos exigidos.

Mais um fator é que, estando o agente presente de modo espalhado no país de origem (e não seja causador de doença humana ou não seja alvo de programas de erradicação ou controle mais rígido - p.e., o país se contenta em manter um certo nível de incidência da doença em plantas ou animais, já que os custos para sua erradicação não compensaria), não faz muito sentido uma norma sanitária de produção e trânsito interno tão rigorosa: a circulação interna do produto não vai causar mais prejuízo do que já ocorre. Outra é a história quando o produto é deslocado para fora do país - ou da área de incidência.

A circulação dentro da UE é mais ou menos livre porque o bloco adota protocolos sanitários uniformes. Vários outros blocos de união comercial e/ou econômica também adotam regulamentos uniformizados. Mas a circulação é restrita se um surto de doença ocorre em um dado local dentro do bloco: por exemplo, quando houve casos de mal da vaca louca em países da União Europeia, os países em que houve detecção da doença não podiam exportar carne para outros países da UE. Até dentro de um mesmo país a circulação é restrita: se há foco de aftosa em um município no Brasil, os animais de lá e sua carne não podem circular para outros municípios.

Sim, pessoas também transportam germes de doenças. Mas é mais complicado restringir a circulação de pessoas - a vinda de turistas é uma grande fonte de receita para muitos países, incluindo o Brasil. A restrição se dá quando a pessoa apresenta sintomas de doenças infecciosa ou têm origem em países com surtos ou onde a doença é endêmica. (Claro, falando de países democráticos.)

Agora pensemos no seguinte. O país deve receber somente este ano algo como 6 milhões de turistas. E, entre Copa do Mundo e Olimpíadas, a projeção é de atrair 10 milhões de estrangeiros por ano. Imagine-se a estrutura necessária para examinar as bagagens não apenas atrás de drogas, armas, valores não declarados... mas também todos os produtos da lista acima. Em 2011, somente nos aeroportos de Guarulhos e de Galeão foram apreendidos, 45,5 e 8,5 toneladas de alimentos e cargas proibidas.

Essa lista pode parecer exagerada. "Como? Comida de bordo? Mas a gente come isso, como pode ser perigoso, fora o fato de ser insosso e custar os olhos da cara?" Pois até 1978, restos de comida de bordo de voos vindo de Portugal e de Espanha eram dados como alimentos para porcos aqui no Brasil. O resultado foi a introdução da peste suína africana por estas paragens - doença que seria erradicada daqui em 1984. O vírus pode ser transportado também por embutidos como salame.

"Ah, mas eu sempre levei e nunca me deu problema." Isso exatamente pelo grande volume de passageiros e bagagens que circulam. Com a estrutura atual é impossível de se vistoriar tudo, é preciso atuar por amostragem. Mas isso significa que a maior parte do volume de carga entra e sai sem ser adequadamente vistoriada. É um perigo real. E provavelmente tem introduzido muitas e muitas doenças humanas, animais e vegetais no país - sem falar nas pragas como a Helicoverpa armigera, de introdução recente (identificadoa pela primeira vez no país no primeiro semestre deste ano), com custo atualmente projetado de US$ 5 bilhões/ano entre gastos com controle e perdas de produção.

O caso específico de Dawkins talvez não se encaixe na questão da barreira sanitária - aparentemente era um voo doméstico e não sei se há atualmente algum problema com o mel escocês -, mas parece ser o mesmo caso de desinformação quanto às regras. Quero dizer, pode até estar ciente quanto às regras em si, mas não quanto as bases das regras. Esse é um problema sério que é mais culpa das autoridades do que dos cidadãos. Nos aeroportos eu recebo folhetos dizendo que não posso transportar tubos de pasta de dentes com volume maior do que 100 ml. Mas por quê? O veto a armas de fogo, venenos, explosivos, material inflamável, objetos perfurocortantes ou capazes de contundir, além de sprays de pimenta, tasers e outros imobilizadores (como fitas adesivas) são de fácil entendimento. Agora, pasta de dente? Isso não é explicado nos folhetos.

Bem, em 6 de outubro de 1976, o voo 455 da Cubana de Aviación, que ia de Barbados à Jamaica, foi interrompido por uma explosão. Todos os passageiros a bordo e a tripulação morreram, totalizando 73 vítimas. Explosivo plástico havia sido colocado dentro de um tubo de pasta de dente.

O problema do mel de Dawkins não era o mel. Explosivos plásticos e líquidos podem ser disfarçados sob praticamente qualquer aparência. Explosivo como o C-4 tem uma densidade energética de cerca de 10 kJ/ml. Um tubo de 100 g é o suficiente para causar um belo estrago. É preciso, então, pesar a segurança contra a comodidade.

O evolucionista melífago não é o único a achar, porém, que há exagero. O economista americano Steven Levitt também considera as precauções excessivas.O biólogo PZMyers, no twitter, também reclama que as medidas de segurança são um absurdo.

Talvez haja um zelo demasiado. Talvez esforços e recursos estejam sendo desperdiçados com uma paranoia. Mas como saber? Bem, podemos acompanhar a evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Na Figura 1, plotei os casos cumulativos ao longo dos anos de ataques bem sucedidos (em que ocorreu explosão - com ou sem morte) e os casos de tentativas frustradas (em que o plano foi desbaratado a tempo).

Figura 1. Evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Ataques bem sucedidos: em azul, eixo vertical principal; ataques frustrados: em laranja, eixo vertical secundário. Fontes: Wikipedia e TSA.

As tentativas desbaratadas seguem uma curva exponencial. As tentativas bem sucedidas crescem mais ou menos exponencialmente até o atentado de Lockerbie, Escócia, em 1988; há uma redução no ritmo dos atentados até que, a partir de 2004 ocorre o último caso, um duplo atentado em Moscou. O processo de modificação dos protocolos de segurança é contínuo ao longo da história da segurança da aviação, mas as alterações mais substanciais ocorrem justamente pós-Lockerbie e pós-11 de setembro. Desde 1949, vivemos o mais longo período sem ocorrência de atentados bem sucedidos. Minha interpretação é que atentados continuam a ser planejados - e em número cada vez maior -, mas as medidas de segurança têm evitado que se concretizem em aeronaves despencando dos céus ou realizando pousos de emergência com buracos na fuselagem e passageiros a menos.

Se pegarmos o ritmo dos casos de atentados de 1989 a 2004, algo como 2,34 atentados bem sucedidos foram evitados de lá para cá. Considerando-se uma média de 61,83 mortos por atentado, 144,69 mortes foram evitadas - algo como 16 pessoas deixaram de morrer por ano.

Com cerca de 3 bilhões de passeiros aerotransportados por ano, 16 pode parecer um número pequeno. Por outro lado, será mesmo que abrir mão de um pote de mel, de um tubo maior de pasta de dente, ou ter que passar a bagagem de mão pelo raio-X é um preço tão alto?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A visão de ciências de Carl Sagan

Reproduzo uma reportagem minha (sim, agora "Gene Repórter" é um nome só meio enganoso - ainda não falo muito de genes...) que saiu no sítio web da Agência Iberoamericana para a Difusão da Ciência e da Tecnologia (DiCYT) - o texto foi produzido originalmente como trabalho na disciplina de Seminários de Ciência e Tecnologia do curso de Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp e reporta palestra feita pelo historiador Danilo Albergaria.

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A visão de ciências de Carl Sagan

O autor defendia a ação do papel autocorretivo da ciência que depuraria as ideias incapazes de explicar adequadamente os fenômenos naturais
Roberto Takata/Labjor/DICYT - No mesmo ano em que um astronauta americano dava um pequeno passo para o homem e um gigantesco salto para a humanidade, simbolizando um dos marcos da era da tecnociência, um anônimo trintenário escrevia um relato – publicado dois anos mais tarde – sobre os efeitos do uso da maconha em sua produção científica. Incidentalmente o autor, denominado “Mr. X”, considerou positiva a influência – adiantando muito do debate que seria travado 30 anos mais tarde sobre os benefícios da Cannabis sativa. Três anos após sua morte, a identidade do polêmico ensaísta foi revelada em uma importante biografia: Carl Sagan: a Life(Keay Davidson, 1999, John Willey & Sons., 512 pp.).

Esse episódio é muito revelador do caráter do astrônomo e divulgador da ciência americano. “Embora necessariamente filtrada por uma rigorosa crítica e pelo exame empírico, seu ponto de partida é a elaboração das mais ousadas, imaginativas e 'loucas' hipóteses”, diz Danilo Nogueira Albergaria Pereira, historiador pela Unimep e mestre em divulgação científica e cultural pelo Labjor-Unicamp.

No dia 25 de agosto, durante a palestra “A visão de ciência propagada por Carl Sagan”, baseada em sua pesquisa de mestrado, Pereira procurou trazer aos alunos do curso de especialização em Jornalismo Científico, do Labjor, a filosofia do apresentador da aclamada série de TV Cosmos sobre a natureza do processo científico que pode ser entrevista em sua vasta obra de divulgação científica.

Pereira desconstrói a imagem de Sagan como um materialista, ateu, antirreligioso. Sim, ele era materialista, talvez ateu – mais provavelmente agnóstico –, mas não antirreligioso. Para o historiador, Sagan tinha, na verdade, uma visão de ciência bastante religiosa: “Sagan dizia que nós [formas de vida inteligente evoluídas da matéria gerada no interior das estrelas] somos a forma que o Universo encontrou para entender a si mesmo. Essa é uma visão metafísica, não exatamente racional que se esperaria de um cientista que fosse um defensor apaixonado da racionalidade científica”.

Essa visão que se tem do cientista como um ateu militante seria derivada de uma leitura equivocada de uma de suas obras mais conhecidas, o livro O mundo assombrado pelos demônios. É verdade que nele o astrônomo combate a irracionalidade e uma série de sistemas de crenças não-científicas: a Nova Era, parapsicologia, óvnis, etc. – e isso, explica Pereira, gerou uma resistência entre religiosos e mesmo em setores acadêmicos anticientíficos. O equívoco também teria sido reforçado pela apropriação da obra por grupos denominados céticos, adotando-a como uma espécie de bíblia.

O historiador observa o caráter matizado da concepção de ciência e de seu papel na sociedade conforme apresentado por Sagan: “Isso que é legal você analisar a fundo um personagem como esse. Você percebe que existe uma série de tensões no próprio pensamento dele, que não é uma coisa quadradinha, preto no branco.”

A obra de divulgação do cientista é também uma expressão de um projeto político. Para Sagan, afirma Pereira, a difusão do conhecimento científico é uma questão de sobrevivência da própria democracia: “Se o público não está munido de uma capacidade de refletir criticamente, e pra isso a ciência seria uma ferramenta que municiaria o público dessa capacidade crítica de separar o joio do trigo em linhas gerais, a democracia em si não funciona”. Questões como transgênicos e aquecimento global são exemplos evocados por Pereira de temas prementes que exigem a participação popular e demandam um certo grau de familiaridades com conceitos científicos.

Ainda que reconhecesse a forte influência de fatores como jogos de poder e preconcepções no processo científico, Sagan defendia a ação do papel autocorretivo da ciência que depuraria as ideias incapazes de explicar adequadamente os fenômenos naturais. Hipóteses, por mais malucas que pareçam à primeira vista, devem ser examinadas criteriosa e criticamente antes de serem aceitas ou rejeitadas. Exemplo dessa visão ocorreu no debate público entre o astronômo e o psiquiatra russo Immanuel Velikovsky sobre a origem do planeta Vênus. Velikovsky, interpretando uma série de mitos de diversas origens, apregoava que Vênus teria sido ejetado da atmosfera de Júpiter até sua órbita atual. A academia não apenas rejeitava terminantemente tal hipótese como pretendia censurá-la, impedindo sua publicidade. Sagan discutia os erros publicamente acreditando que o simples exame de evidências e contraevidências seria o suficiente para escanteá-las. "Pior do que alguém dizer um monte de besteiras é a comunidade científica tentar suprimir a liberdade de expressão", resume Pereira.

A disposição para o debate, a abertura da mente para aceitar o novo e submetê-lo ao exame crítico é a imagem que emerge do trabalho de Danilo Pereira a respeito de Carl Sagan. Isso sem abandonar a paixão pelas ciência e otimismo quanto a suas possibilidades.

A palestra de Danilo Albergaria Pereira pode ser assistida pelo vídeo disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=4-RGBId4N5U#t=247.
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Publicado originalmente em "DiCYT: A visão de ciências de Carl Sagan". © 2013 Fundación 3CIN

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