Lives de Ciência

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sábado, 8 de março de 2014

"Mas como tantas?"

Em lembrança ao Dia Internacional da Mulher - data que lembra as lutas das mulheres na conquista da igualdade de direitos - republico um texto meu publicado em janeiro na DiCYT sobre as dificuldades enfrentadas pelas cientistas no meio acadêmico.

Parabéns a todas as mulheres - cientistas ou não - e meus agradecimentos especiais às entrevistadas, que tiveram infinita paciência comigo. (Mais abaixo uma seleção de links de material relacionado.)

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“Mas como tantas?”

A respeito da participação das mulheres na produção científica
Roberto Takata/DICYT A Académie des science de Paris, uma das mais antigas agremiações científicas em funcionamento contínuo, foi fundada em 1666 pelo rei Luís 14. Ela assistiu a uma revolução que derrubou a monarquia, à ascensão e queda do império napoleônico, a duas guerras mundiais, o sufrágio feminino, o maio de 1968, e à descolonização da África e à guerra da independência da Argélia, para, só em 1979 admitir a primeira mulher em seu quadro associativo. Nem os dois nobéis científicos de Marie Curie garantiram-lhe espaço ali. Em 1910, sua candidatura foi rejeitada por dois votos após calorosos debates (em uma votação subsequente a respeito de se mulheres poderiam ser aceitas, o placar foi de 90 contra a 52 a favor - o que talvez diga algo a respeito tanto da enorme contribuição científica de Marie Curie, ainda que insuficiente para dobrar os homens da academia de Paris, quanto ao fato de ela mal ser vista como uma mulher pelos mesmos homens). Em 2008, dos 236 membros da instituição, 18 (7,6%) eram mulheres.

A situação não é muito diferente em outras academias.

A National Academy of Sciences, dos EUA, foi fundada em 1863 e o primeiro membro feminino foi admitido em 1925. Dos 2.038 membros ativos em 2012, 216 (10,6%) são mulheres. Na Academia Brasileira de Ciências, fundada em 1916, elegeu a primeira mulher para seu quadro em 1952. Atualmente 10,4% de seus associados são acadêmicas (50 mulheres em 482 membros). Ainda mais antiga do que a academia francesa, a britânica Royal Society, fundada em 1660, aceitou entre seus pares uma mulher pela primeira vez em 1945, depois de uma alteração em seus estatutos no ano anterior. Mas hoje apenas 99 (6,8%) de seus 1.450 membros são do sexo feminino.

“A academia não foi estruturada prevendo a presença feminina”, observa Mariana Feiteiro Cavalari, doutora em Educação Matemátia pela Unesp, professora de História da Matemática na Federal de Itajubá (UNIFEI) e autora de estudo sobre a presença de mulheres na docência de matemática nas universidades estaduais paulistas (2010, Rev. Bras. Hist. Matem. v. 10, n.19, pp: 89-102).

Mas o fechamento à participação feminina não estava claro entre os séculos 17 e 18, diz Londa Schiebinger em seu “Has Feminism Changed Science?” (1999, Harvard University Press, 252 pp.). Nesse período poucas pessoas eram cientistas profissionais de ocupação em tempo integral. Boa parte da ciência era feita por amadores em laboratórios e observatórios improvisados em suas casas. Muitas esposas atuavam como assistentes de seus maridos e várias conduziam suas próprias pesquisas e observações. Em 1678, a veneziana Elena Cornaro Piscopia foi a primeira mulher a se graduar em uma universidade europeia; em 1732, Laura Bassi, seria a primeira a obter uma cátedra professoral universitária no Velho Continente, na Universidade de Bolonha. As universidades, no entanto, nunca chegaram a ser um ambiente acolhedor à presença feminina. Mesmo assim, como os trabalhos científicos não exigiam uma instrução formal, a maioria dos pesquisadores e das pesquisadoras atuavam por meio da instrução autodidática e por experiência prática. À medida em que surgia a ciência moderna, com o declínio do papel central das universidades e ascensão das academias científicas e em que os cientistas se profissionalizavam - com a pesquisa transferida para centros especializados - as mulheres que quisessem contribuir para a construção do conhecimento científico se viam diante de apenas duas opções: ou perseguiam a graduação nas universidades ou atuavam na esfera privada como assistentes cada vez menos visíveis de seus maridos e irmãos.

A partir de meados do século 19 o ambiente universitário e científico gradativamente passa a se abrir à presença feminina junto com a primeira onda do movimento feminista - como a das sufragistas. Uma segunda onda ocorre entre as décadas de 1960 e 1970, com questionamentos não apenas quanto ao acesso às universidades, mas também aos domínios quase exclusivos de homens em áreas como as ciências exatas. No Brasil, a participação feminina passa a crescer justamente na segunda onda, época também em que a ciência se institucionaliza com o Plano Estratégico do Desenvolvimento Nacional e com a constituição de várias universidades públicas e institutos de pesquisas. Ainda assim, hoje as mulheres ainda são uma minoria dentro do corpo docente no Ensino Superior. Na USP, em 2012, pouco mais de um terço (37,7%, 2.207 entre 5.860 professores no total) dos docentes eram mulheres.

A questão da divisão entre as esferas públicas e privadas, no entanto, parece não estar adequadamente resolvida. “Esse é um aspecto presente em várias pesquisas realizadas sobre a condição da mulher hoje inserida no mercado de trabalho, pois, quando lhe é exigido responder pelas tarefas familiares, se sente numa situação limite”, explica Nadia Regina Loureiro de Barros Lima, psicanalista, doutora em Psicologia pela Universidade do Minho, Portugal, e em Linguística pela UFAL, onde atua no Núcleo Temático de Mulher e Cidadania (NTMC/UFAL). Barros Lima completa: “Se por um lado, o trabalho é fonte de prazer e realização pessoal, por outro, propicia conflitos existenciais, diante da dificuldade de conciliar os espaços público e privado. É como se o e espaço público ocupasse um lugar de fascínio mas, ao mesmo tempo, está sempre em rivalidade com o privado, daí o sentimento de se sentirem divididas.” Fernanda Regina Casagrande Giachini Vitorino, doutora em Farmacologia pela USP, docente de Fisiologia e Farmacologia na UFMT e uma das vencedoras do Prêmio L'Oreal/ABC/Unesco “Mulheres na Ciência” 2013, concorda: “Acho que os dilemas que uma cientista mulher enfrenta são os mesmos que uma funcionária de qualquer área enfrenta. Faltam creches e horários flexíveis para as mulheres em geral, principalmente quando nos tornamos mães. O sistema foi moldado para uma realidade que não existe mais. Temos que repensá-lo de forma a incluir todos de uma maneira mais digna.”

Mas como repensar o sistema científico-acadêmico? Apenas creches e horários flexíveis bastariam? Anayansi Correa Brenes, doutora em História Social pela UFF e professora da UFMG, onde coordena o Núcleo de Estudo da Mulher e Saúde (NEMS/UFMG) crê que não: “Certamente não ter creches criará problemas, mas elas não os resolvem diante da competição. Lembro falas de cientistas de outras épocas que textualmente anunciaram ter nas empregadas domésticas a aliança para chegar onde chegaram. Cuidando da casa, filhos e maridos. Posto isso, hoje, sem esse apoio, o custo da reprodução ficou impossível. Então, certamente, mulheres que desejem galgar poder, se não contarem bom estruturas familiares, evitarão ter filhos, casamentos…”. Cavalari segue na mesma linha: “Penso que a criação de creches, por exemplo, seria uma das possibilidades, mas não a única. Aquelas iniciativas mais organizacionais, me parecem mais adequadas para tentar prover uma relação igualitária para os diferentes gêneros na academia. A questão da produtividade atrapalha o trabalho de homens e mulheres na academia, mas me parece mais cruel as mulheres.” Mas Giselda Durigan, doutora em Biologia Vegetal pela Unicamp e pesquisadora do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, coautora de um trabalho pioneiro sobre a contribuição feminina na produção científica botânica no Brasil (2011, Hoehnea, v. 38, pp: 115-21) discorda: “Acho que os filtros que dificultam a carreira acadêmica feminina são mais culturais do que relativos à infraestrutura organizacional. Há várias alternativas de 'sucesso' feminino na vida que são socialmente reconhecidas, enquanto para os homens o sucesso profissional e um bom salário são quase que um alvo único.”

Durigan, com a graduanda em Ciências Biológicas pela Unesp, Natashi Aparecida Lima Pilon, analisou a autoria dos trabalhos submetidos aos Congressos Nacionais de Botânica da Sociedade Botânica do Brasil. A participação de trabalhos em que um ou mais dos autores eram mulheres aumentou de 51,6% em 1988 para 57,7% em 2009; mas a proporção de trabalhos em que o primeiro autor era do sexo feminino praticamente não se alterou, mantendo-se em torno de 40%. Enquanto isso, trabalhos publicados por mulheres em autoria única recuaram de pouco menos de 60% em 1988 para pouco mais de 40% em 2009. Utilizando-se de uma base de dados maior e cobrindo várias áreas científicas, Jevin D. West e colaboradores (2013, PLoS ONE, v. 8, n. 7, e66212) encontraram o mesmo padrão: aumento da participação feminina como autor, mas redução de trabalhos em que uma mulher é autora única. “Nós fechamos o nosso artigo sem explicar este resultado, que nos pareceu surpreendente, mas não imaginávamos que fosse um fenômeno mundial” - comenta Durigan. “Não saberia dizer se é bom ou ruim um cientista publicar sozinho, mas existe uma diferença importante, que possivelmente passa pelo perfil psicológico distinto entre homens e mulheres. E que deve ser levado em conta na formação de grupos de pesquisa.” - completa.

Segundo censo de 2010 na base do Diretório de Grupos de Pesquisa (DGP) do CNPq, as mulheres constituem metade do total de pesquisadores cadastrados, mas apenas 45% dos líderes de pesquisa. (Ainda que represente uma melhora substancial em relação ao quadro de 1995: 39% dos pesquisadores e 34% dos líderes.) Mulheres predominam em áreas sociais e de saúde como: Fonologia (89% dos pesquisadores são do sexo feminino), Enfermagem (87%), Serviço Social ((81%), Nutrição (81%) e Educação (67%); e estão em minoriais nas exatas: Engenharia Elétrica (13%), Naval e Oceânica (13%), Elétrica (14%), em Física (20%) e Engenharia Aeroespacial (22%). Por que essas diferenças?

Barros Lima descarta explicações puramente biológicas: “Como bem explicita [Sharon Berstch] McGrayne [em sua obra “Nobel Prize Women in Science”, 1993, NAP, 464 pp.], 'pais e professores acreditam plenamente em estatísticas desatualizadas, destinadas a mostrar as meninas como congenitamente incapazes de aprender matemática tão bem quanto os meninos'”.

Para a psicóloga o distanciamento começaria já na própria escola constituindo o “currículo oculto” (elementos fora do currículo oficial que fazem parte da aprendizagem social). Denise Bastos de Araujo, mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela UFBA e professora da Secretaria da Educação e Cultura do Estado da Bahia, também enfatiza o papel negativo que a escola e outras instituições sociais podem exercer: “Escola, família e mídia constroem para que as meninas não assumam posição de destaque e não tenham posição de liderança”. Dá como exemplo dessa construção o filme Gravidade (2013, direção de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney): “Enquanto o artista [Clooney] decide por soltar-se da nave, mesmo sabendo que ia morrer, e faz isso com total segurança e dignidade, a protagonista [Bullock] não apenas chora sem aceitar a decisão dele, como fica desestruturada. Olha só, o fato de ela estar no espaço, presume-se que tenha tido formação e treinamento. Precisa vê-la folheando atarantada as páginas de um manual de orientações, sem saber o que fazer. Essa forma de retratar as mulheres é uma constante em filmes, livros etc.”

Mesmo superando a barreira de entrada, as mulheres ainda sofrem para continuar e progredir na academia: publicam menos, ocupam menos cargos mais altos de direção e estão menos presentes em espaços mais nobres, de mais prestígio - como nas academinas nacionais de ciência. Para Cavalari o foco na produtividade para avaliação dos cientistas é prejudicial particularmente às mulheres que são mães: “Enquanto as mulheres passaram a trabalhar fora de casa, as relações de divisão do trabalho domestico, em geral, não foram redistribuídas. Esta situação faz com que a mulher seja sobrecarregada e, isto atrapalha o seu desenvolvimento profissional em diversas áreas, e, também, na academia. Pois esta exige muito tempo de dedicação, horas de estudo, trabalho, muitas viagens (participação de eventos, bancas). Além disto, cada vez mais, a academia tem exigido dos professores a produtividade... Existe, também, a situação dos filhos, pois os anos de consolidação da carreira, acabam coincidindo com os anos aconselháveis para se ter filhos, neste sentido, as mulheres vivem um dilema. Penso que a produtividade deva ser repensada e não entendo que a as mulheres tenham que se adaptar a ela.”

“Isso é totalmente verdade” - concorda Vitorino. “Por exemplo, a avaliação da nossa produtividade como pesquisadora muitas vezes não leva em conta o período de licença maternidade. O prazo dos meus orientandos do programa de pós-graduação não levam em conta que eu me ausentei por 6 meses pra cuidar do meu bebê. Os editais de pesquisa, tampouco. Para a ciência, prazos são prazos e devem ser respeitados incondicionalmente. A minha produtividade é comparada a de um homem solteiro. Logo, quando decidimos nos casar e ter filhos, isso é quase que tomar uma medida de suicídio de produção, mesmo que de forma temporária. É o preço que pagamos por nossas escolhas.”

“No momento que uma pesquisadora se torna mãe é inevitável que sua produção científica fica prejudicada. Isso deveria ser levado em conta pelas agências de fomento à pesquisa para que os prejuízos não sejam tão grandes.” - diz Raquel Giulian, doutora em Física pela Australian National University, docente da UFRGS e outra ganhadora do Prêmio “Mulheres na Ciência” 2013.

Durigan, no entanto, tem uma visão distinta: “De novo aqui, aparecem preconceitos velados. Por que é que somente as mulheres precisam dividir o tempo entre o trabalho e a família? Por que é que o mundo mudou e as relações entre homens e mulheres dentro de casa continuam arcaicas? As mulheres precisam tratar é de reivindicar divisão equitativa de tarefas dentro de casa. O sistema atual de produtividade acadêmica é tirano porque menospreza a qualidade. Mas esta é uma outra história e não tem nada a ver com as questões de gênero.”

Fatores culturais, históricos, institucionais, de infraestrutura, metodologia da avalição, tudo isso e mais aparecem como obstáculos na caminhada da mulher em sua contribuição para as ciências em geral e para a área de exatas em particular. “Diante das dificuldades que tem de enfrentar pelo caminho na sua carreira científica, faz sentido se dizer que a questão não seria 'por que tão poucas?', mas 'como tantas?'”, conclui Barros Lima de modo provocativo citando McGrayne a respeito da desproporção entre laureadas e laureados com o Nobel.
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Publicado originalmente em "DiCYT: 'Mas como tantas?'". © 2014 Fundación 3CIN 

Veja também (a lista deve ser atualizada posteriormente):

segunda-feira, 3 de março de 2014

Como é que é? - Salmão de cativeiro faz mal à saúde?

O hoax de que o salmão de cativeiro - alimentado com astaxantina sintética - seria cancerígeno não é novo, está circulando pelo menos desde 2011, mas - qual bambolê e cubo mágico - insiste em reemergir de tempos em tempos. Agora, mais uma vez reaparece em uma postagem no facebook.

Então (novamente em autoplágio reciclagem de bits) reposto no GR o que já escrevi na rede do titio Zucko.

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Agora estão com teorias conspiratórios de que salmão de cativeiro é cancerígeno por causa de níveis elevados de astaxantina (http://liasergia.wordpress.com/2011/03/15/a-farsa-do-salmao/).

Sério, não sei de onde essa gente tira tanta desinformação.

A verdade (ao menos o que podemos considerar como verdade considerando-se os melhores dados disponíveis até o momento):

A astaxantina tem sido estudada por efeitos *protetivos* contra o câncer pelas propriedades antioxidandes:
http://www.bv.fapesp.br/pt/auxilios/3602/estudo-atividade-antioxidante-astaxantina-lipossomos/
http://openaccess.uoc.edu/webapps/o2/handle/10609/19841
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-52732007000500009&script=sci_arttext&tlng=es
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Nenhum efeito adverso foi observado em ratos com consumo diário de cerca de 500 mg de astaxantinha por kg de massa corporal:
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0278691508002895
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A concentração muscular de astaxantina em salmões com dieta suplementada fica em torno de 2 a 7 mg/kg.
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2761.1995.tb00308.x/abstract
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A pessoa poderia comer todos os dias mais de 100 QUILOGRAMAS de salmão sem efeito tóxico da astaxantina (mas, claro, aí teria outros problemas).

Reais razões para se preocupar com salmão chileno:
1) Houve episódios de contaminação por vermes parasitas da difulobotríase (o risco é mínimo se o peixe for assado ou tiver sido congelado a 20 graus negativos por uma semana ou mais):http://www.anvisa.gov.br/divulga/imprensa/clipping/2005/maio/110505.pdf
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2) A criação de salmão pode ocasionar danos ambientais:http://www.cetmar.org/DOCUMENTACION/dyp/ImpactoChileacuicultura.pdf
http://noticias.uol.com.br/ultnot/economia/2005/12/02/ult35u44523.jhtm
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3) Parte do salmão era importado fresco. Vem por avião. O salmão fresco, além dos riscos eventuais à saúde por causa da mencionada difulobotríase, contribui sobremaneira com emissão de gases-estufa ao serem transportados por aviões. Em 2005, por causa do verme, a importação de salmão fresco foi proibida (não sei a situação atual).
http://noticias.uol.com.br/economia/ultnot/efe/2005/04/13/ult1767u38303.jhtm
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A importação de salmão chileno passou de 18 mi USD em 2001 (http://www.schualm.com.br/artigos/Chile.pdf) para uma projeção 234 mi USD em 2013 (sobre estimativa de 90 mil toneladas de importação: http://brasileconomico.ig.com.br/noticias/salmon-de-chile-prioriza-o-mercado-brasileiro_127318.html). É um comércio significativo com múltiplos desdobramentos - por um lado compete com produtores e pescadores nacionais de outros pescados, de outro, alivia a pressão sobre os recursos aquáticos brasileiros; o comércio fortalece os laços econômicos entre os países, mas também significa riscos de transporte de doenças, vetores e pragas (no produto, na embalagem, nos veículos - como nos lastros dos navios - e nas pessoas); de um lado, alivia a pressão inflacionária sobre alimentos, mas, de outro, diminui a segurança alimentar (ao aumentar a dependência nacional sobre alimentos importados); de um lado, aumenta a disponibilidade de um alimento nutricionalmente rico, mas, de outro, sem uma correta vigilância pelas autoridades, pode ser uma fonte de contaminação.

A decisão do consumidor, embora frequentemente pouco refletida, envolve todos esses fatores. Mas a astaxantina, pelo que sabemos, NÃO é um motivo para preocupações.*
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Inicio minha campanha: "Vai curtir? Vai compartilhar? Dê um bom google antes." (O "bom" é vital porque não basta jogar na busca e pegar o primeiro resultado. É preciso saber filtrar as fontes.)

*Upideite(03/mar/2014): O jornalista Rafael Garcia, da Folha de São Paulo, pelo facebook lembra da questão do PCB (bifenil policlorado), um composto que, em algumas formas, é associado à dioxina, um potente cancerígeno. O composto está presente em salmões de cativeiro no Chile, mas ainda em um nível (entre 7,8 e 25,5 ng/g de peso úmido para salmão selvagem e de cerca de 25 ng/g de peso úmido para salmão de cativeiro**) abaixo do limite máximo tolerado pela União Europeia (75 ng/g de peso úmido). A recomendação é que se limite o consumo para uma ou duas porções - de cerca de 225 g cada - por mês**. Claro que é um valor que pode variar de produtor para produtor e ao longo do tempo (pode haver, p.e., uma mudança no fornecedor de rações ou algo que mude a exposição dos peixes aos compostos), para isso é preciso que as autoridades façam uma análise constante dos produtos.

**Updieite(03/mar/2014): adido a esta data.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Especulando: Beleza, esporte e dinheiro

Em meio às polêmicas, as Olimpíadas de Inverno Sochi 2014 são desculpas para requentar (pun intended) aquelas materinhas clássicas de eventos esportivos: as beldades nas quadras, pistas, campos...

Assistindo às transmissões, longe de ser um levantamento sistemático estatisticamente válido, reparei mesmo na beleza das atletas. Uma hipótese que já há algum tempo alimento é que atletas de esportes individuais seriam, na média, mais bonitas do que: a) a média das atletas (versão fraca da hipótese); b) a média das mulheres (versão forte).

Fiz uma pequena sondagem da versão fraca entre meus seguidores no twitter. Montei um pequeno formulário online com fotos de tenistas profissionais: as 10 primeiras colocadas (em 9/fev/2014) e outras 10 cujo ranqueamento médio foi de 247,2° (é possível um ranquingue fracionário?) e desvio padrão de 16,1 posições. As médias de idade foram: 27,1±3,31 anos e 25,5±5,25 anos respectivamente e o número de torneios disputados considerados para a classificação: 19,8±2,86 e 20,8±3,19. Para cada uma o entrevistado deveria atribuir uma nota de 0 - nada atraente a 5 - extremamente atraente. Entre 7 respondentes (todos homens)*, o resultado foi:

Tabela 1. Avaliação de beleza física de rostos
de tenistas mulheres profissionais.
Nota Top 10
~247°
0
2
3
1
6 11
2
8 11
3
18 23
4
27 16
5
9 6
Média 3,29±0,75 2,79±0,85

Aplicando-se um teste qui-quadrado, temos p=0,019.

Claro, é apenas um pré-teste, com baixo número de avaliadores, e se refere a apenas uma modalidade.

Se a diferença for real, minha hipótese explicativa (sem exclusão de outras) principal é: esportistas bonitas conseguem obter mais e melhores patrocínios, uma vez que empresas gostam de associar suas marcas a pessoas bonitas; com mais dinheiro, podem se preparar melhor (têm mais tempo para treinar - já que não precisam desenvolver outras atividades para se sustentar; podem pagar treinadores mais qualificados; têm à disposição equipamentos superiores; podem viajar e participar de mais competições; podem ter uma melhor base nutricional...) e ter melhor desempenho.

Hipóteses alternativas podem ser: genes bons (via seleção sexual, genes que proporcionam beleza estariam ligados a genes que promovem uma boa constituição física e fisiológica em geral); socioeconômica (muitos esportes são caros, a prática fica em grande parte restrita à elite socioeconômica, que tem também acesso a mais recursos auxiliares à beleza: cosméticos, cirurgias plásticas, melhor nutrição, menos exposição à doenças... - pode se dar do nascimento ou pela aquisição de melhor status socioeconômico com o desempenho no esporte); condicionamento físico (o preparadoa preparação para o esporte levando a um maior cuidado com o corpo)...

No caso da confirmação da hipótese da beleza/desempenho esportivo via patrocínio, um corolário seria que em esportes de elite - com equipamentos mais caros, como o caso de muitos esportes de inverno - a relação seria ainda mais forte.

Ressaltando mais uma vez que esta é apenas uma especulação com, até o momento, pequeno suporte empírico sistemático (embora não nulo).

Implicações sociais - como referentes a patrocínios não-mercadológicos ao desporto e programas governamentais de incentivo ao esporte amador - podem ser entrevistas. Uma certa relativização da atribuição de meritocracia estrita aos resultados das competições esportivas também seria uma consequência possível.

*Obs: Agradeço à participação dos colaboradores nas respostas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Entrevista com um entomólogo - Elidiomar Silva

O Prof. Dr. Elidiomar Ribeiro da Silva é entomólogo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Recentemente, no XXX Congresso Brasileiro de Zoologia, seu grupo apresentou um trabalho inusitado no sisudo meio acadêmico: uma análise demográfica de personagens de quadrinhos de super-heróis das duas principais editoras do ramo (Marvel Comics e DC Comics) inspirados em aracnídeos. Foi o Luiz Bento, do Discutindo Ecologia, quem me chamou a atenção para o trabalho.

Abaixo reproduzo a íntegra da entrevista gentilmente concedida via email por Elidiomar Silva (e, ao fim, o resumo do trabalho).

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GR. Poderia falar resumidamente (para um público que não é da área) sobre a linha de trabalho desenvolvida por sua equipe?

ES. Sou professor de zoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), lecionando nos cursos de Ciências Biológicas (tanto Bacharelado quanto Licenciatura). Minha pesquisa principal é sobre a taxonomia de determinados grupos de insetos. Recentemente passei a me interessar pela ligação entre o conhecimento científico e as manifestações culturais. Dentro dessa área o tema que mais me interessa de fato é a utilização de animais de um modo geral como inspiração para a criação de personagens de histórias em quadrinhos. O pessoal que me acompanha nessa empreitada (quase todos biólogos, a maior parte cursando Pós-Doc, doutorado ou mestrado) têm diferentes áreas de especialização. Na maioria são entomólogos como eu, mas há também um aracnólogo e até um botânico.

GR. Como surgiu a ideia do trabalho e como ele foi desenvolvido?

ES. Há tempos venho observando algo que me preocupa. O homem sempre foi fascinado pelos animais de um modo geral. Prova desse interesse é o sucesso que fazem os canais por assinatura que têm em sua grade documentários sobre natureza e vida selvagem. É impossível hoje em dia não se impressionar tanto com a qualidade dos vídeos quanto com as informações que eles passam. Isso é Zoologia, uma parte da Ciência extremamente interessante e atrativa até para o público leigo. Porém, nas aulas, o quadro é diferente. Temos um conteúdo técnico vasto (morfologia, fisiologia, taxonomia, filogenia) que deve ser ministrado e, embora a clientela seja amigável (afinal, alunos de Ciências Biológicas naturalmente têm interesse no estudo dos animais), eu percebia que faltava algo em meus alunos, faltava tipo um "brilho nos olhos". Brilho que muitas vezes eu vejo nos telespectadores (eu, inclusive) de documentários da TV. Conversando com colegas e alunos que passaram pelas minhas disciplinas chegamos à conclusão que o caminho é tentar tornar as aulas mais agradáveis, palatáveis (mas sem abrir mão do conteúdo técnico). Assim, de uns tempos para cá, tenho proposto aos alunos uma atividade opcional: escolher um personagem de HQ que tenha sido baseado em algum artrópode e fazer uma análise, à luz dos conhecimentos técnicos obtidos na disciplina, das suas características (poderes, comportamento, vestimentas, etc.). O resultado tem sido bem satisfatório, os alunos se empolgam completamente com a atividade. Aí reuni um pessoal com interesse no tema, pesquisamos e nos impressionamos com a quantidade de personagens. Realmente há muita coisa a fazer.

GR. Quando submeteram o resumo, tinham confiança de que a organização do congresso teria abertura para um trabalho dessa natureza?

ES. O primeiro trabalho que elaboramos dentro desse tema foi centrado em 50 personagens baseados em animais, tendo sido apresentado em um congresso interno da minha universidade. O segundo trabalho foi apresentado no II Entomorio (Simpósio de Entomologia do Rio de Janeiro) e versava sobre personagens baseados em insetos. Houve ainda um terceiro, constituído do relato das atividades dos alunos da minha disciplina, também apresentado internamente na UNIRIO. Os três resumos foram submetidos ao crivo de avaliadores anônimos, mas que certamente me conhecem de alguma forma. Eu achava que talvez isso pudesse ter ocasionado um cenário favorável à aceitação dos resumos. Ao submetermos o trabalho sobre personagens baseados em aracnídeos a um congresso de âmbito nacional, não tínhamos a menor noção do que poderia acontecer. Na verdade, penso que o trabalho tem qualidade, está bem escrito, é relevante e apresenta uma abordagem inédita dos dados, ou seja, considero justíssima sua aprovação por parte da organização do congresso. Mas como normalmente o cientista é um sujeito conservador por natureza (embora paradoxalmente viva de descobertas e novidades) e nosso trabalho não é lá muito convencional, eu tinha um certo receio que ele fosse rejeitado.

GR. Como foi a reação dos participantes do CBZ durante a sessão de pôsteres?

ES. Infelizmente não pude estar presente na apresentação, mas meus colegas me relataram que a reação foi a melhor possível. O trabalho já é por si só atraente por fugir do padrão, mas, além disso, o pessoal conseguiu ver Ciência na nossa abordagem.

GR. Há, claro, um lado inusitado da abordagem da cultura pop dentro de um evento de ciências naturais; mas, para além do inusitado, como seu grupo enxerga a contribuição que o trabalho traz: dentro da academia e em termos de divulgação das ciências?

ES. Estamos muito entusiasmados. Se em uma sala de aula de graduação a incorporação de elementos da cultura pop (ou seja, coisas que estão no nosso dia a dia) se mostrou benéfica, o que dirá no ensino fundamental e médio? Grande parte dos alunos da minha disciplina é formada por licenciandos. Daqui a pouco essa garotada estará lecionando, muitas vezes em locais carentes, e a busca pela atenção dos alunos será um desafio. Esse pode ser um caminho a ser explorado. Quanto à academia, tenho percebido um cenário cada vez mais favorável, vejo com bons olhos o número crescente de publicações que abordam a associação entre ciência e literatura, música, cultura de um modo geral. Estamos finalizando um artigo sobre o tema e, tudo correndo bem, acredito que dentro de 1 ou 2 meses partiremos para a submissão.

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Os Aracnídeos como inspiração para personagens dos Universos Marvel e DC
Elidiomar Ribeiro Da-Silva*, Luci Boa Nova Coelho**, Thiago Rodas Müller de Campos*, Allan Carelli***, Gustavo Silva de Miranda***, Edson Luiz de Souza dos Santos*, Tainá Boa Nova Ribeiro Silva**** & Maria Inês da Silva dos Passos
* Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, **Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro,***Museu Nacional, Rio de Janeiro, ****Sistema Elite de Ensino

A despeito de ser um processo com liberdade criativa, a composição de um personagem das histórias em quadrinhos (HQs) muitas vezes recebe interessantes influências da vida real. Face à forte ligação dos aracnídeos (especialmente aranhas, escorpiões e ácaros) com o ser humano, não é de se estranhar que eles tenham servido de inspiração para muitos personagens da ficção. Considerando apenas as duas principais editoras estadunidenses de HQs, a DC Comics e a Marvel Comics, foi realizado um inventário dos personagens de algum modo inspirados em aracnídeos. Os personagens foram classificados de acordo com a editora, o papel social (herói ou vilão), a classificação taxonômica (ordem) do aracnídeo que o inspirou e a década de criação. Os personagens foram ainda classificados quanto à presença ou ausência de alguma característica popularmente associada a aracnídeos, como produção de teia, inoculação de peçonha, quatro pares de pernas e capacidade de escalar superfícies verticais. As classes foram estatisticamente comparadas por meio do teste do Qui-quadrado de Pearson. Até o presente foram contabilizados 78 personagens da Marvel e 22 da DC com algum tipo de inspiração em aracnídeos. A maioria dos personagens foi criada mais recentemente, a partir dos anos 1990. Como provável consequência do extremo sucesso do Homem-Aranha, sua principal criação e um dos ícones da cultura pop, a Marvel possui significativamente mais personagens aracnídeos que a DC. Quanto à classificação taxonômica, os personagens foram baseados majoritariamente na ordem Araneae, em relação às outras ordens (Scorpiones e Acari). Significativa parcela do montante de personagens é formada por vilões, o que está dentro do esperado, posto que aranhas, escorpiões e ácaros costumam ser considerados “nocivos” pelo público em geral. A esmagadora maioria dos personagens possui pelo menos uma das características consideradas como típicas de aracnídeos. É interessante destacar que, embora os personagens aracnídeos constituam um grupo relativamente numeroso, pouquíssimos são aqueles de reconhecido destaque, todos concentrados na Marvel. Além do já citado Homem-Aranha, suas encarnações em realidades alternativas e universos paralelos, e seus vilões (como Venom, Carnificina, Tarântula e Escorpião), somente a Viúva Negra é bem conhecida por parte do não-aficionados em HQs. Isso devido aos recentes lançamentos da Marvel no cinema. 
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O pôster pode ser melhor visualizado aqui.

Upideite(16/jul/2014): O professor Elidiomar Silva e colaboradores publicaram um novo trabalho: Da Silva, E. R.; Coelho, L.B.N. & Silva, T.B.N.R. 2014 - A Zoologia de 'Sete Soldados da Vitória': análise dos animais presentes na obra e sua possível utilização para fin didáticos. Encicl. Biosf. 10(18): 3502-25.

Upideite(10/out/2015): Leia também "Revista em quadrinhos é objeto de estudo de zoólogos"

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O telefone sem fio: "Não é tubarão elefante, é tubarão elefante"

Não foi exatamente um pressentimento, mas cheguei a comentar no twitter o problema de chamar o Callorhinchus milii, um peixe cartilaginoso holocéfalo (comumente conhecido como quimera), de tubarão elefante, em tradução direta de "elephant shark". "Tubarão elefante", em português, é mais usado para outra espécie, o Cetorhinus maximus, um peixe cartilaginoso elasmobrânquio, também chamado de tubarão-peregrino e, em inglês, mais comumente chamado de "basking shark" (e, ocasionalmente, também de "elephant shark").


Pois eis que vejo que o G1, reproduzindo material da EFE, confundiu as duas espécies (Fig. 1). (Sim,é coisa de janeiro, mas até agora não foi corrigido.*)***
Figura 1. Print de tela da reportagem do G1.

"Pesquisadores da Espanha sequenciaram o genoma do tubarão-elefante (Cetorhinus maximus) e encontraram genes que impedem a calcificação das cartilagens, o que pode abrir novas vias de estudo voltados a doenças ósseas como a osteoporose, de acordo com a revista 'Nature', que teve publicada nesta quinta-feira (9) sua edição impressa."

O artigo na revista cientifica britânica, claramente, denomina Callorhinchus milii. Não sei como se deu exatamente a transmutação: se alguém tentou corrigir o nome científico da espécie ou se o press release não mencionava (acho pouco provável) e isso foi introduzido na reportagem.

Como vários sítios web que reproduzem material da EFE não mencionam o nome científico, apenas "tiburón elefante" (nota, o Cetorhinus maximus, em espanhol é mais comumente chamado de "tiburón peregrino"), por exemplo, este, este e este (repare-se que as redações não são exatamente iguais), parece que a introdução posterior foi realizada pelo próprio G1. A foto usada para ilustrar a reportagem é a mesma que aparece no artigo da Wiki-PT sobre "tubarão elefante" e o artigo da Wiki-PT é o primeiro resultado na busca por "tubarão elefante" no Google. Se foi isso que ocorreu não posso dizer, mas me parece plausível.**

Dá algumas coisas a se pensar a respeito da prática atual do jornalismo sobre ciências. Vai desde a necessidade de se conferir a fonte original, à pressa da apuração, da necessidade de se investir na qualidade do profissional à crise atual do jornalismo em geral (com redações reduzidas, profissionais sobrecarregados, preferência a profissionais inexperientes por mais baratos...)

(Via Victor Rossetti FB.)*

*Upideite(17/jan/2014): adido a esta data.
Upideite(17/fev/2014): Veja se "quimera nariz de arado" não é um nome muito mais descritivo (além de bem menos indutor de erro) na foto abaixo (Fig. 2) do Callorhinchus miliii.

Figura 2. Callorhinchus miliii, nomes populares em inglês: "Australian ghostshark", "elephant shark", "makorepe", "whitefish", "plownose chimaera", "elephant fish". Fonte: Wikimedia Commons.
**Upideite(18/fev/2014): Em contato com o G1, eles informam que o erro foi da Efe.
***Upideite(19/fev/2014): Corrigiram o nome, mas ainda não trocaram a foto.****
***Upideite(19/fev/2014): Já trocaram a foto.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Os senões dos senões da vacina contra o HPV

Eu respeito muito o trabalho da Claudia Collucci na Folha em seu jornalismo de saúde, até por isso me causou uma estranheza maior o espaço que ela deu - sem um contraponto adequado** - às alegações a respeito da eficiência ou não da vacinação contra o HPV.

O entrevistadoespecialista**** diz que há mais de 100 subtipos do vírus HPV, o que é verdade; mas ele não diz que: a) somente cerca de 40 são capazes de infectar o trato anogenital; b) são cerca de 13 subtipos que são considerados oncogênicos (com potencial de causar o desenvolvimento de câncer) e c) dois (os subtipos 16 e 18) estão presentes em 70% dos casos de câncer (Divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica - DARAO/INCA). A quadrivalente oferecida pelo SUS cobre esses dois subtipos, mais o 6 e o 11.

O exame papanicolau é de fato muito importante, ainda assim todos os anos cerca de 17.500 novos casos são detectados (uma incidência de 17 novos casos/ano a cada 100 mil mulheres), dos quais 95% são atribuíveis ao HPV (ou seja, se nem toda infecção por HPV causa câncer - apenas cerca de 5% das mulheres infectadas virão a desenvolver -, a quase totalidade dos casos de câncer de colo deve ser causada pelo HPV). A taxa de mortalidade devido à doença é estimada em torno de 5 mortes a cada 100.000 mulheres: com uma população feminina de 100 milhões de habitantes, isso representa mais de 5.000 mortes por ano.

A vacina não é 100% eficiente (nenhuma é, mais, nenhum procedimento é 100% eficiente, nem o papanicolau: que tem uma eficiência entre 80% e 90%, com cobertura suficiente boa e regularmente realizado) e as mulheres que já têm uma vida sexual ativa muito provavelmente já estão infectadas (80% das mulheres sexualmente ativas estão infectadas por um ou mais subtipos), mas o grupo alvo são meninas de 11 a 13 anos - boa parte das quais ainda não iniciaram sua vida sexual - nas quais a eficiência é de 98,8%.

Ao custo anual de R$ 1,1 bilhão, o programa é o financeiramente mais custoso dentro do Programa Nacional de Imunização. Serão 5,2 milhões de meninas, cobrindo 80% da população na faixa etária. Se (e é um enorme se) as complicações atribuídas por alguns estudos se confirmarem e usarmos a taxa aceita pelo especialista (de 1 caso a cada 30.000), estaremos falando em cerca de 173 casos por ano.

Então temos 173 casos/ano de complicações contra 5.000*0,95*0,7*0,8*0,988=3.7542.628 mortes evitadas (13.1409.198 casos evitados) por ano - cerca de R$ 300.000418.500 por morte evitada. Deal.

As quatro perguntas:
1) Já temos alguma estratégia efetiva na prevenção da doença? O que a vacina traz de novo?
2) A vacina realmente funciona?
3) Ela é segura?
4) Vale a pena substituir a estratégia anterior pela vacina?

Merecem, então, outras respostas:
1) Sim. A vacina ajuda a evitar os casos que o papanicolau não evita;
2) Sim. E tem exatamente como público-alvo da campanha de vacinação aquelas para quem a eficiência foi verificada (meninas de 11 a 13 anos).***
3) Sim. Mesmo admitindo-se o taxa utilizada pelo especialista para tentar sugerir o contrário.
4) Pergunta sem sentido porque a vacinação declaradamente *não* procura substituir o exame papanicolau, mas procura *complementar* a estratégia.

É muito, muito estranho que o especialista se valha de argumentos falaciosos (quando muito dizem apenas meia verdade) para criticar o programa de vacinação contra o HPV. Críticas são importantes para o melhor cálculo de riscos e benefícios e a relação com os custos*, mas devem ser críticas pertinentes. Jornalistas devem estar atentos para evitar armadilhas - a necessidade de ouvir o "outro lado" é compreensível, porém não dá pra ser ingênuo e dar espaço sem exercer uma análise crítica.

(Via @Cardoso)

*Upideite(08/fev/2014): Bom dizer que foi realizado um estudo a pedido do governo brasileiro da eficácia da vacinação e uma análise benefício/custo.
**Upideite(08/fev/2014): No dia seguinte à publicação da coluna, a jornalista publicou um contraponto (não por coincidência exatamente com o mesmo nome que dei a esta postagem - não combinamos, claro, mas é um título bem óbvio).
***Upideite(08/fev/2014): Há estudos mostrando eficiência profilática (para os casos em que as mulheres já estão infectadas pelo HPV) das vacinas (e.g. The Future II Study Group 2007Koutsky & Harper 2006)
****Upideite(09/fev/2014): Especialista em medicina da família.

Upideite(13/mar/2014): Outros blogues estão também comentando sobre a vacinação e a resistência à ela.

Upideite(26/mar/2014): Aqui um estudo de 2007 da OMS sobre o HPV e as vacinas.
*****Upideite(26/abr/2014): Adido a esta dada.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ciência: curiosidade e poder

A Agência Fapesp publicou uma interessante entrevista com o nobelista Erwin Neher. Destaco dois trechos:

"Agência FAPESP – Já que o senhor mencionou o tema educação científica, acredita que o ensino e a divulgação científica são atividades que devem fazer parte da carreira de um cientista? 
Neher – Claro que os cientistas devem fazer um esforço para explicar ao público como o dinheiro está sendo gasto. Também devem contribuir para recrutar jovens cientistas e torná-los interessados em sua pesquisa. Mas nem todo bom cientista é um bom comunicador; não podemos esperar que todos façam isso. Alguns são bons professores, outros apenas entediam sua audiência com detalhes sobre sua pesquisa. E isso não é bom. Por outro lado, na Alemanha, temos um jornalismo científico muito elaborado, com pessoas engajadas e treinadas para comunicar e fazer as coisas parecerem mais interessantes. Minha posição é: sim, é importante divulgar a ciência, mas sem tornar cansativo para o público e sem gastar todo o tempo do cientista com divulgação.

Agência FAPESP – Qual conselho daria aos jovens pesquisadores brasileiros? 
Neher – Para um cientista, é realmente importante ser cativado por um problema e isso significa estar constantemente pensando a respeito desse assunto. É o que chamo de estilo de vida da ciência. Claro que é impossível fazer isso 24 horas por dia; é preciso dormir, interagir com a família e tudo o mais. Mas, pelo menos, sempre que estiver sozinho, nos momentos tranquilos, deve-se pensar sobre seu problema, avaliar os experimentos de seu laboratório em um outro contexto, comparar os resultados com sua hipótese e tentar buscar soluções de diferentes ângulos. O jovem pesquisador deve avaliar se tem essa curiosidade que o cativa. Em seguida, deve avaliar se o problema que o instiga é pelo menos importante o suficiente para lhe prover o sustento. Afinal, não se vive de ar. Uma vez que esses dois requisitos forem atendidos, deve verificar se tem as habilidades que o tornam capaz de alcançar seus objetivos."

Na questão da DC, é coisa a se pensar, mas, porém, todavia, contudo, talvez mesmo uma comunicação entediante por parte de alguns cientistas traria benefícios - de um lado, a prática permite algum grau de aperfeiçoamento; de outro, alguém com mais paciência poderia garimpar informações importantes (os outros sempre poderão recorrer a outras fontes, inclusive os jornalistas de ciências).

Agora, sobre o conselho aos jovens pesquisadores, Neher também associa a prática científica à curiosidade. Vários cientistas - famosos e nem tanto - igualmente fazem essa relação como na série "Por que pesquiso?" deste blogue.

Em uma ação de autoplágio (em uma visão mais autocondescendente: em uma ação ambientalmente correta de reciclagem de bits), irei repetir o que publiquei alhures.

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Se você pede pra um cientista natural definir ciência, muito provavelmente sua definição irá gravitar em torno da palavra "curiosidade". Se você pede pra um cientista social definir ciência, muito provavelmente sua definição irá gravitar em torno da palavra "poder".
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Um cientista social, particularmente um sociólogo das ciências, tende a ser mais leniente com a filosofia. Aceita a frequentemente lembrada história de que para Platão (secundado por Aristóteles) a filosofia começa com o assombro. E só lembra da influência da filosofia nas questões políticas para realçar sua importância - raramente para expressar os perigos potenciais dos processos filosóficos.

As ciências ainda não romperam o cordão umbilical com a filosofia - da qual brotaram como filosofia natural. (Ainda que uma porção não insignificante dos cientistas naturais vejam a filosofia com desdém.)
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O "poder" em si não parece ser um bom elemento definidor de ciência. Sim, a produção das ciências envolve poder. Sim, o poder se vale das ciências. Mas: *toda* ação humana (ação e omissão voluntária) - filosofia, arte, esporte, economia... - envolve poder em sua constituição. E todo elemento de ação humana pode ser cooptado pelo poder - sim, inclusive a arte: toda comunicação governamental que se preze define uma marca estética das peças (logomarcas, paleta de cores, grafismos, trilha sonora...).

O fazer arte é política, apontam sociólogos em exaltação. O fazer ciência é política, apontam sociólogos em censura.

O poder pode ser uma característica necessária das ciências - ainda que seja uma afirmação duvidosa, aceite-se para fins de argumentação. Mas não o é suficiente para caracterizá-la, portanto.
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E "curiosidade" seria um bom elemento definidor de ciência? Não haveria curiosidade na filosofia, na arte, no esporte, na economia...? Sim, claro que há. Mas não é a partir disso que se aproximam das ciências?

Um amante dos esportes não cria uma ciência dos esportes ao tentar descobrir padrões de vitória e derrota? Não temos uma ciência econômica quanto tentamos saber por que o desemprego se mantém baixo mesmo em cenário de baixo crescimento? Não temos uma ciência (psicologia) da arte ao se tentar traçar quais elementos de uma obra levam o público a ter uma reação positiva ou negativa? A filosofia... bem, as ciências são filosofia natural, já disse.
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Então deixem-me valer de uma solução de compromisso.

Ciência é a ação política da curiosidade.
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Upideite(08/abr/2016): Um levantamento com cerca de 400 cientistas americanos membros de associações como a Academia Nacional de Ciências resultou numa lista ordenada dos valores fundamentais ('core values') que subjazem à ciência de excelência (Fig. 1).

Figura 1. Principais valores para a produção de uma ciência de excelência segundo cientistas americanos de elite. (Cada um deveria escolher 3 opções.) Fonte: Reunião Anual 2016 da AAAS.

via @luizbento

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A dura vida de um divulgador de ciências independente - 1

Eu planejava fazer uma postagem a respeito de um trabalho recente sobre evolução de vertebrados.

Para comentar um aspecto queria usar a imagem publicada em outro artigo para apoiar minha interpretação. Como este blogue tem por política respeitar estritamente os direitos autorais, entrei em contato com a revista pedindo a autorização para usar aqui. A maioria desses pedidos é deferida, mas, eventualmente, algum é negado. Faz parte e respeito. É direito dos detentores dos direitos de cópia de um material intelectual conceder ou não autorização para uso - e ditar quais as condições (se pago, se a título gratuito, o limite de tamanho, etc.).

Mas eis que a Oxford University Press resolveu acrescentar um desaforo:
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On Mon, Jan 20, 2014 at 7:25 AM, JOURNALS PERMISSIONS  wrote:

Dear Mr Takata,

Thank you for your request. Unfortunately it is not OUP policy to allow material that appears in our journals to be posted on third party websites. However, we would have no objection if you wish to set up a link to the article on the Oxford Journals website (http://xxx.xxxx.xxx/).

Kind regards,
xxxxx

xxx xxxxx (Ms)
Rights Assistant
Academic Rights & Journals
Tel: xxxxxxxxx
Email: xxx.xxxxx@oup.com
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"We would have no objection if you wish to set up a link to the article on the Oxford Journals website". Muito engraçadinho, senhora dona assistente de direitos. Colocar o link seria um favor que *eu* faria (sim, seria também um elemento de honestidade intelectual de indicar a fonte). A mensagem se resume a: "É nossa política não fazer favores, mas gostaríamos que nos fizesse um favor".

Não fosse essa frase, a minha reação natural seria respeitar a decisão deles de não liberar o uso e eu faria normalmente a citação - com o devido link - via Research Blogging provavelmente. Eu continuarei a respeitar a decisão - não vou publicar a imagem contra a vontade deles (e nem tem a ver com a possibilidade de ser processado - dificilmente eles tomariam ciência e, no máximo, eu teria que remover a imagem) -, mas terei que pensar em outro modo de comentar o artigo que gostaria de analisar sem fazer qualquer menção a qualquer trabalho da OUP. (Não que vá fazer diferença alguma pra eles.)

(Um divulgador ligado a algum veículo comercial ou instituição de pesquisa ainda estaria sendo pago para ler esse tipo de coisa, um amador não tem essae tipo de consolação.)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mapa (interativo) de surtos de doenças preveníveis por vacinação

Mapa interativo de surtos de doenças preveníveis por vacinação.

Via Kentaro Mori FB.

Upideite(22/jan/2013): Dá para correlacionar os mapas de surtos de doenças com o mapa de sentimentos negativos em relação à vacinação. (Dados de monitoramento de redes sociais entre julho e novembro de 2013. Fonte: Healthmap.org)

Upideite(24/jan/2013): Considerando-se apenas os países para os quais houve registros de sentimentos negativos em relação à vacinação, podemos correlacionar o número de comentários negativos (ND) com: a) o total de atingidos casos nos episódios de surtos em cada país (NC) e b) o número de usuários de redes sociais (no caso, o Facebook - fonte: Internet Wolrd Stats) em cada país (FB). Na figura abaixo, os números foram transformados em logaritmos naturais e tomaram-se a média entre os países com o mesmo número de comentários negativos.


Não é de se surpreender a correlação entre o número de comentários negativos e o total de usuários de redes sociais (r = 0,85) , mas há correlação também entre o número de usuários de redes sociais e o total de pessoas atingidas nos episódios de surto (não mostrado, r = 0,73). Uma explicação possível é que, de modo geral, países com maiores populações têm mais usuários de redes sociais e também em populações maiores episódios de surtos podem fazer mais vítimas. Assim, o número de comentários negativos pode ter pelo menos duas explicações: simplesmente o tamanho populacional, quanto mais pessoas, haverá mais pessoas criticando ou os episódios de surtos podem levar a uma piora na avaliação das vacinas. Uma relação invertida também pode ser aventada: mais comentários críticos seriam um indicador de uma menor disposição à vacinação, aumentando a exposição aos casos de surto.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os antivacinistas no blogue do Nassif - 2

Espero que os leitores do GR tenham aproveitado melhor o período entre o Natal e o Ano Novo. Eu ganhei um princípio de tenossinovite na munheca - não, seus mente suja, foi por digitação furiosa (eu juro!), em função da publicação de uma postagem antivacinista no blogue do Luis Nassif.

Retrabalhei 11.838 pontos de dados de 193 países sobre índices de vacinação (3a. dose) e incidência de poliomielite ao longo de mais de 30 anos no banco de dados da OMS (desconsiderei os dados de Niue por não haver dadosinformação sobre a população de até 5 anos). A partir disso, calculei a população de até 5 anos para os períodos de 1981 a 1989, 1991 a 1999 e de 2001 a 2007 por interpolação linear, para calcular a incidência de poliomielite por 100.000 crianças de até 5 anos. Agrupei os valores de incidência correspondentes a intervalos de cobertura vacinal: de 0 a 9%, de 10 a 19%, de 20 a 29%... de 90 a 99% e acima de 100%. Cobertura vacinal acima de 100% é possível quando se vacinam mais indivíduos do que a população alvo - geralmente crianças nacionais de até 5 anos: incluindo crianças mais velhas (até adultos) e estrangeiras. O resultado está na Figura 1 abaixo.

Figura 1. Correlação entre cobertura vacinal e incidência de poliomielite. Fonte: OMS.**

Há um excelente ajuste por meio da curva exponencial (r2 = 0,9580,942) - para cada aumento de 1 ponto percentual na cobertura vacinal há uma redução de cerca de 54% na incidência de pólio. Sem vacinação, a incidência média é de cerca de 3015 casos a cada 100 mil crianças de até 5 anos.** Em um país como o Brasil, com aproximadamente 14,5 milhões de crianças de até 5 anos, a vacinação de 100% tem significado evitar algo como 4.3502.175 casos por ano - eu acho que isso mais do que compensa os R$ 55 milhões* investidos na campanha (entre vacinas, publicidade e outras despesas): imagine se pudéssemos fazer uma criança paralítica voltar a andar por apenas R$ 8.50012.60025.300. (Estou falando de média, como a barra de erro no gráfico indica - aqui representando o desvio padrão -, há uma variação substancial - isso se dá por diversos fatores: o trânsito de pessoas vindas de locais de ocorrência endêmica de pólio, o estado da imunidade natural da população - que pode ser influenciada por condições de alimentação e clima, fatores genéticos e outros. Não mostrei a barra de erro dos três primeiros pontos: 58,23; 77,43 e 24,36 casos por 100 mil.)

Esse fato os jornalistas precisam ter em mente antes de cogitar em dar espaço para teses malucas e altamente perigosas. Piora quando se dá o mesmo peso para ambos os lados - deixando à parte o vasto suporte empírico a respeito da eficiência das vacinas. É perigosa porque a exposição a ideias sem sentido as naturalizam para o grande público - que passam a considerá-las aceitáveis: afinal, se está na imprensa, deve ter um fundo de verdade. Criando uma brecha na qual os antivacinistas podem se instalar e crescer - angariando mais visibilidade midiática, angariando mais apoio popular e ameaçando políticas de sucesso como as campanhas de vacinação.

Isso não é apenas um horror imaginário, aconteceu com a política de combate à Aids na África subsaariana, em particular, na África do Sul, onde a hipótese sem nenhum fundamento de que o HIV não causa Aids foi acolhida, resultando no agravamento do quadro - medidas eficientes de incentivo ao uso de preservativos, de tratamento aos HIV positivos foram deixadas de lado, aumentando o espalhamento do vírus e a manifestação da doença - como lembra o diretor de redação da Superinteressante ao se desculpar por haver a revista dado trela aos negacionistas da relação HIV/Aids.

É em função disso que eu me senti obrigado a perder horas e horas de descanso e lazer, coligindo os melhores dados disponíveis, para desmontar a bobagem antivacinista - não é que suas bobagens devam ser, por si, levadas a sério, esse trabalho não é demonstração de que suas alegações são suficientemente elaboradas que só um trabalho mais pesado possa refutar: não, as bobagens podem ser rebatidas de bate-pronto, mas aí ficaria apenas palavra contra palavra e isso é vantagem para essa gente. É vantagem para eles que querem reduzir tudo a uma questão de discurso e retórica.

Não é uma questão de apenas discurso e retórica. É uma questão de dados. Como os dados estão do lado da vacinação, a eles só restam o palavreado sem substância na realidade. Reforço meu apelo a todos os jornalistas e profissionais de mídia - façam a conferência de dados. Sim, dá trabalho, mas não expõe a população a perigos absurdos e plenamente evitáveis com uma simples ida ao posto de saúde para receber, gratuitamente, as vacinas.

*Upideite(03/jan/2014): Corrigido a esta data. O valor anterior, de R$ 37 milhões, não considerava o valor das vacinas.
**Upideite(08/jan/2014): Os cálculos foram refeitos após correção dos dados relativos à Albânia - eu havia repetido os valores de incidência no Afeganistão. Não houve, no entanto, alteração substancial nos resultados - mesmo a redução da média estimada para o caso de ausência total de vacinação de cerca de 30 casos em 100 mil para 15 casos em 100 mil está dentro do erro estimado anteriormente.
**Upideite(17/mai/2014): Um artigo revisando os fatores que influenciam as atitudes em relação à vacinação na Europa. (via @Karl_MD)

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