Lives de Ciência

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Entrevista com um neurocientista - Márcio Flávio Dutra Moraes

Com a publicação do manifesto "Eu apoio a Ciência Brasileira" em que um grupo de pesquisadores brasileiros na área de neurociências criticam o Prof. Dr. Miguel Nicolelis, quis esclarecer alguns pontos.

Por email, entrei em contato no dia 23/fev/2013 com um dos signatários do manifesto, o Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes, da UFMG, cuja equipe também desenvolve projeto de neuroprótese de sensor de infravermelho. Abaixo segue a entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Moraes.

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GR. Antes de mais nada, poderia nos contar resumidamente a trajetória de Núcleo de Neurociências da UFMG e como foi o convite para sua participação no comitê gestor do INCeMaq?

MM. Muito resumidamente, o NNC é um grupo de pesquisa multidisciplinar formado atualmente por 5 docentes, 17 alunos de pós-graduação, 3 pós-docs além de vários alunos de IC e estagiários. O grupo foi formalmente criado em 2000 com o seu credenciamento no Diretório de Grupos de pesquisa do CNPq. (ver www.nnc.ufmg.br para mais detalhes). O grupo possui diversas cooperações nacionais e internacionais, está vinculado a uma PG nível 7 CAPES e possui diversos projetos aprovados em andamento (p.e. participação na criação-implementação e coordenação do Centro de Tecnologia e Pesquisa em Magneto Ressonância – CTPMAG: http://www.nnc.ufmg.br/CTPMAG).
Quanto ao convite, eu estava fazendo um sabático na Inglaterra (King’s College London) quando fui convidado pelo Prof. Dr. Sidarta Ribeiro para fazer parte da escrita e submissão ao CNPq de um projeto para o INCT (o INCeMaq). Para contextualizar, na época, um ex-aluno meu de doutorado realizava seu Pós-Doutorado no ELS-IINN; hoje o Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota é docente da Universidade Federal de São João del Rei. Uma vez aprovado o INCT, os líderes de grupos de pesquisa que empenharam suas equipes para executar partes do projeto foram convidados a compor o CG.

GR. Quais eram exatamente as atribuições e o modo de funcionamento do comitê gestor do INCeMaq? Somente o coordenador convocava as reuniões? Havia comunicação fora das reuniões - por meio de e-mails, telefones, pessoalmente?

MM. Quanto às atribuições do CG de qualquer INCT, peço gentilmente que consulte o CNPq e/ou outros INCTs que possuam páginas na internet. O INCeMaq foi formado por um grupo de colegas pesquisadores com os quais me sentia muitíssimo à vontade, extremamente competentes, abertos à colaboração e promoviam um ambiente informal e agradável. Já conhecia pessoalmente alguns dos membros do CG; os demais conhecia pela reputação na comunidade científica nacional. Dito isto, apesar das comunicações e convocações formais serem feitas pelo coordenador, que era também muito acessível, todos mantínhamos um relacionamento profissional e pessoal muito saudável.

GR. No manifesto é revelado que houve apenas duas reuniões entre 2010 e 2012. O que foi tratado na segunda reunião?

MM. Sobre o assunto do INCT, especificamente, peço que procure o Prof. Dr. Antônio Roque (também do CG) para esclarecimentos. Sinto-me pouco à vontade de falar sobre reuniões reservadas que envolvem outros colegas cientistas colaboradores do INCeMaq.

GR. No comunicado do desligamento dos membros do comitê gestor foi mencionada a razão do ato? O senhor tem informações a respeito do funcionamento atual do INCeMaq? Houve algum desentendimento anterior ao desligamento entre os membros do comitê gestor e o coordenador do INCeMaq?

MM. Novamente, não gostaria de mudar o foco do problema em questão. A carta divulgada não fala sobre isto.

GR. Qual foi a reação de V. Sra. e equipe diante do anúncio do trabalho de Nicolelis com implantes intracranianos ligados a sensores de infravermelho? O senhor chegou a entrar em contato com Nicolelis?

MM. Fiquei muito surpreso. O trabalho que vinculamos ao INCeMaq no início da escrita do projeto (meados de 2008) estava relacionado à utilização de estimulação elétrica profunda para supressão e predição de crises epilépticas. Esta escolha era mais lógica pois já tínhamos resultados positivos e, portanto, uma maior segurança quanto à prestação de contas do projeto. De fato, publicamos vários trabalhos com esta ideia nos anos seguintes, todos com reconhecimento declarado ao INCT (ver publicações no meu CV). Contudo, depois da aprovação do INCeMaq, nos reunimos em 2010 e decidi mostrar algo em que estávamos (no NNC) trabalhando, que considerávamos de mais alto risco de sucesso mas de grande repercussão para as neurociências. Não houve apoio para incorporar isto ao INCT e portanto, retornei para meu grupo de pesquisa dizendo que não havia interesse de vincular o referido projeto ao INCT. Não escrevi diretamente para o Prof. Nicolelis pois considerei que não havia muito o que conversar. Entenda, os aspectos legais deste processo me interessam muito pouco, estava entre colegas de trabalho, comungando de um mesmo projeto, com financiamento comum e, sem nenhum outro comunicado, vi uma de nossas linhas de pesquisa publicadas em âmbito internacional. Nossa equipe de trabalho no NNC é muito motivada, o que ajuda a lidar com o baque desta ordem, mas ainda assim é muito desagradável. Se o Prof. Nicolelis tivesse me dito na época que a ideia era interessante e que gostaria de compartilhar resultados, o que era exatamente o que eu estava fazendo (reunião de 2010) sobre uma linha que NÃO SABIA E AINDA NÃO POSSO AFIRMAR QUE ESTAVA SENDO FEITA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO GLOBO, nós poderíamos ter discutido parcerias e estreitado colaborações. Nunca sofri situação parecida na minha carreira (sou Pesquisador Produtividade I do CNPq), não é o caso de publicar em congresso e ter seu trabalho feito por outro grupo, o trabalho foi apresentado a portas fechadas para colegas colaboradores de um mesmo projeto INCT.

GR. Como surgiu a ideia em sua equipe do experimento de neuroprótese com sensor de infravermelho? No projeto de sua equipe, o estímulo dá-se na região do complexo amigdaloide; no trabalho da equipe de Nicolelis, na região do córtex táctil. Essa diferença pode ser considerada significativa nos designs dos projetos?

MM. A realidade da pesquisa em território brasileiro é bem diferente. A UFMG não tem ainda uma estrutura de apoio técnico em bio-engenharia para construir equipamentos, software e eletrônica embarcada para um experimento customizado em neurociências. Desta forma, os amplificadores que registram o sinal captado do receptor de IV(infra-vermelho), os estimuladores de IV, o sistema de recompensa e estimuladores elétricos controlado por computador tiveram que ser desenhados e construídos no NNC. A ideia do experimento é antiga, anterior a 2009, discutida em reuniões com alunos de PG do NNC na época; contudo, os primeiros resultados são de 2009 quando a primeira versão do Harware e Software ficaram prontas. Com relação à sua pergunta sobre a metodologia e o alvo anatômico da estimulação, permita-me fazer uma analogia didática da razão da escolha de uma área poli-modal. Imagine se você tivesse um celular que vibrasse toda vez que você apontasse ele para um determinado emissor de IV, mexendo o celular seria possível encontrar a origem do sinal emitido, correto? Contudo, isto não seria exatamente um sexto-sentido, pois o que existe é a percepção de um tremor (estímulo tátil) que controla sua interação sensório-motora para otimizar a resposta do sinal captado pelo sensor. O experimento do Prof. Nicolelis estimula diretamente o córtex primário deste sentido sensorial. Nossa escolha de uma área poli-sensorial, que recebe informação de todos os demais sistemas sensoriais, foi baseada na ideia de verdadeiramente construir um sentido sensorial novo (artificial) que poderia se integrar aos demais 5 sentidos. Nesta linha de raciocínio, o termo sexto-sentido para o caso de estimulação de uma área sensorial primária seria inadequado; sinestesia, ainda que discorde, talvez fosse mais apropriado. Apesar desta ser uma importante diferença conceitual, a metodologia é muito parecida e se baseia fortemente em uma integração sensório-motora complexa que resulta do implante físico do receptor de IV cirurgicamente na cabeça do animal. Uma informação importante sobre a metodologia é que posso garantir e comprovar que o que foi feito e está em andamento na UFMG não recebeu qualquer interferência internacional e, sem questionar o mérito de uma afirmação de igual teor de outros grupos, é original e concebida integralmente em território nacional.

GR. Os pesquisadores signatários do manifesto mantêm alguma rede entre suas equipes coordenando seus trabalhos em um projeto maior fora do INCeMaq?

MM. Não posso e não devo responder em nome dos outros signatários. Mas posso dizer que o NNC possui vários projetos financiados, que somados são muitíssimo inferiores ao liberado para qualquer INCT, mas que nos permitem investir em alguns protocolos/experimentos de alto risco.

GR. Gostaria de acrescentar alguma observação a respeito do que não foi abordado acima?

MM. Não quero deixar você esperando mais tempo por uma resposta, por isto paro por aqui. Mas me faço disponível para continuar esta conversa em outra ocasião. Ressalto, contudo, que o objetivo de divulgar o incidente não foi a de contestar o trabalho científico de um excelente pesquisador (prova disto é que o Prof. Nicolelis é uma das principais referencias citadas em nossos trabalhos e é citado em diversas palestras que dou ao redor do Brasil); mas de proteger grupos de pesquisa brasileiros muito competentes, assegurando um financiamento contínuo e duradouro, que independa do Líder ou do indivíduo para garantir seu sucesso. O INCT foi idealizado exatamente para este fim, o episódio mostra que o Brasil tem que tomar muito cuidado com investimentos que podem acarretar conflito de interesse entre a promoção pessoal do coordenador e a finalidade última de crescimento institucional com formação de recursos humanos (no caso, alunos envolvidos no projeto aqui no NNC).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ex-integrantes do comitê gestor do INCeMaq lançam séria acusação contra Miguel Nicolelis

Em manifesto reproduzido no blogue coNeCte (da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), pesquisadores brasileiros, ex-integrantes do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) "Interfaces Cérebro-Máquina" (INCeMaq), acusam o neurocientista Prof. Dr. Miguel Nicolelis, coordenador do INCeMaq, de agir em proveito próprio em prejuízo da ciência brasileira. Textualmente, dizem: "Ao privar a Ciência Brasileira de uma parceria justa e prometida, o INCeMaq, na figura do seu coordenador Prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, mas exclusivamente em proveito próprio."

Um projeto similar ao divulgado recentemente pela equipe de Nicolelis sobre implante de sensor de infravermelho conectado ao cérebro teria sido apresentado em 1 de julho de 2010 durante reunião inicial do comitê gestor do INCeMaq. Pelo manifesto, Nicolelis à ocasião nada teria comentado a respeito de desenvolvimento do trabalho que viria a ser publicado na Nature Communications.

Os pesquisadores tomam o cuidado de não imputar acusação de plágio ou roubo de ideias. Mas se questionam por que Nicolelis nada teria dito, nem proposto uma parceria com a equipe do Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes da UFMG.

A perna de indício que usam para sustentar a acusação de se aproveitar do INCeMaq para proveito próprio, no entanto, parece-me infundada. Diz o manifesto: "Utilizar a produção de um laboratório no exterior como justificativa para prestação de contas de um financiamento nacional tem grande potencial de comprometer o trabalho sério e sólido das agências de fomento brasileiras nas últimas décadas" - em relação à indicação da afiliação do primeiro autor, Eric Thomson, como quadro do IINN-ELS. Em primeiro lugar, Eric Thomson faz parte do quadro do IINN-ELS como pesquisador associado desde agostosetembro de 2011*. Mas, principalmente, qual o indicador de que Nicolelis esteja utilizando produção no exterior como justificativa em prestação de contas de financiamento nacional?

Tentarei obter mais detalhes com os envolvidos. Caso consiga, publicarei as informações e versões aqui  no GR.

(Via @besteves.)

Upideite(23/fev/2013): Nicolelis informa, via twitter, que enviará resposta para o blogue da SBNEC.
Upideite(25/fev/2013): Na página do IINN-ELS no facebook, a equipe de Nicolelis publica respostas ao manifesto dos ex-integrantes do INCeMaq. Um assinado pelo diretor do instituto, Rômulo Fuentes**, e outro, por Eric Thomson. Em relação à neuroprótese de sensor de infravermelho, o grupo de Nicolelis vêm desenvolvendo a ideia desde pelo menos 2006.
Upideite(25/fev/2013): corrigido a esta data.
Upideite(25/fev/2013): O Prof. Dr. Márcio Dutra dá mais detalhes sobre a questão.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar, do Estadão, publica reportagem sobre o manifesto e entrevista com Nicolelis.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar publica resposta do CNPq referente ao INCeMaq.
Upideite(27/fev/2013): Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota (orientado do Prof. Dr. Márcio Dutra e do Prof. Dr. Sidarta Ribeiro*), da UFSJ, faz sua análise do caso.
Upideite(01/mar/2013): O Prof. Dr. Antonio Roque dá mais detalhes da questão.
*Upideite(01/mar/2013): adido a esta data.
**Upideite(01/mar/2013): O texto de Fuentes foi editado para correção da separação dos parágrafos e republicado aqui.
Upideite(03/mar/2013): Reportagem da Folha de São Paulo sobre o caso.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Satélite Coletor de Dados 1: 20 por 1

O Satélite Coletor de Dados 1 (SCD-1) completou, dia 9 de fevereiro, 20 anos do lançamento. E continua na ativa, coletando e retransmitindo dados ambientais de mais de 500 plataformas terrestres em território brasileiro. 19 anos além do projetado inicialmente.


Não é o primeiro satélite brasileiro em órbita - em 1985 o satélite Brasilsat 1 (mais tarde renomeado Brasilsat A1) foi lançado por um foguete francês Ariane 2/3 a partir da Guiana Francesa. Mas o Brasilsat 1, assim como o 2, foi comprado de uma empresa canadense (Spar Aerospace). Os quatro satélites Brasilsat da série B foram parcialmente construídos no Brasil - sendo os B1 e B2 testados no Laboratório de Integração e Teste do Inpe. O SCD-1 foi o primeiro totalmente produzido no Brasil.

Até agora o SCD-1 é o ponto alto do Programa Espacial Brasileiro, iniciado em 1961 como Missão Espacial Brasileira e substituída em 1979 pela Missão Espacial Completa Brasileira, que tinha como um de seus objetivos, o desenvolvimento de quatro satélites inteiramente nacionais: na concepção, produção e lançamento. Embora concebido, produzido, testado e operado em solo nacional, o lançamento foi realizado pela Nasa por meio de um foguete Pegasus disparado a partir de um B52, por conta dos atrasos no desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélite nacional.

Seu irmão gêmeo, o SCD-2 foi lançado com sucesso em 22 de outubro de 1998. A bordo de um Pegasus.

O domínio do ciclo completo, com lançamento através de tecnologia nacional tem encontrado vários problemas: de contratempos a desastres. Em 2 de novembro de 1997, o SCD-2A foi destruído junto com o VLS-1 logo após lançamento. Em 11 de dezembro de 1999, o Satélite de Aplicações Científicas 2 (Saci-2) foi perdido com a destruição do VLS-1 também pouco após o lançamento. (O Saci-1 havia sido perdido pouco antes, após uma lançamento bem sucedido, a bordo do foguete chinês Longa Marcha 4B, em em 14 de outubro de 1999.) A tragédia sobreveio em 22 de agosto de 2003, com a explosão em solo do VLS-1 na base de Alcântara-MA, matando 21 pessoas participantes do projeto. De acordo com o Programa Nacional de Atividades Espaciais 2005-2014, o VLS-1 deveria estar operacional a partir de 2007, o que, sabemos, não ocorreu. Em 2010, a nova previsão para o primeiro lançamento do VLS-1 com colocação de satélite em órbita era para 2014.

Considerando-se, ainda, todas as limitações orçamentárias ao longo desses anos e os embargos das nações detentoras da tecnologia, o fato de haver dois satélites inteiramente tupiniquins em órbita - um deles há duas décadas - é surpreendente. Não fora essa hora extra, hoje não haveria mais nenhum satélite 100% brazuca funcional em órbita - os CBERS, família bem mais sofisticada, são fruto da cooperação sino-brasileira.

A saga do Programa Espacial Brasileiro é uma grande representação da capacidade brasileira em C&T. De um lado mostra a qualidade e capacidade dos recursos humanos - que extraem leite de pedra conseguindo resultados inacreditáveis frente ao que tem disponível; de outro, mostra toda a limitação material e financeira a que está sujeita a ciência verde-amarela, mesmo em áreas consideradas sensíveis e estratégicas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

interCiência: calibrando os chutes

O Gene Repórter participou da ação interCiência do Scienceblogs Brasil. Como os textos enviados não foram identificados, a brincadeira é adivinhar quem é o autor de cada um.

Nos textos há pistas variadas, como escolha dos temas e dos termos, estilo de escrita e composição do texto, uso de imagens, etc. Mas não são fáceis de se usar por portarem uma ampla variação: muitos blogueiros ocultos saíram de sua área de conhecimento habitual para escrever um tema mais adequado ao blogue receptor (como um ou uma profissional da área de psicologia a falar sobre biologia sintética), podem ainda ter misturado com o estilo do autor do blogue receptor e incluído pistas falsas.

  1. 42 vezes 42 - Gene Repórter 
  2. A dança do sexo (com vídeos!) - 42
  3. As Origens do Emaranhamento - Ecce Medicus
  4. Em algum lugar do passado… molecular - Ciência ao Natural
  5. Injustiça Fisiológica - Ciensinando
  6. Os meus dias já foram mais pequenos - Curioso Realista
  7. Neurobiologia Sintética - SynbioBrasil
  8. Por quem os sinos dobram. Longa vida a Bell. - Caderno de Laboratório
  9. Procrastinação, ou o porquê desse post estar dois dias atrasado - CogPsi
  10. Rastro de Mercúrio - Rastro de Carbono
  11. São Michael, padroeiro dos inventores - O Divã de Einstein
  12. Walt Disney, Motörhead e Fungos - Rainha Vermelha

Abaixo uma nuvem de palavras das postagens mais recentes dos blogues e dos textos publicados através do interCiência.




Figura 1. Nuvens de palavras dos textos dos blogues participantes (à esquerda) e do texto do blogueiro oculto (à direita) no blogue correspondente. Nuvens geradas com o Wordle.

Visualmente é difícil associar qual texto do interCiência pertence a qual blogue. Mas é possível se fazer uma comparação quantitativa, sob o raciocínio de que a escolha de palavras em um texto, em parte, está ligada ao autor (seu vocabulário operacional, seus modos característicos de expressão). Também é possível fazer uma comparação quantitativa de parâmetros de complexidade do texto: tamanho dos parágrafos, uso de parênteses, comprimento das sentenças, igualmente sob o raciocínio de que tais características não são aleatórias e revelam o estilo de expressão do autor. Na Figura 2, o resultado de uma análise comparativa de complexidade.

Figura 2. Análise de complexidade (parâmetros utilizados: tamanho de frase, de parágrafo, pontuações - vírgulas, dois pontos, ponto e vírgulas e exclamações). Em vermelho, valores acima de valor arbitrário de corte; em azul, valores abaixo de valores arbitrário de corte: quanto mais próximo de 0, mais similares os parâmetros de complexidade dos textos.

Em termos de complexidade*, o texto do interCiência publicado no blogue Rastro de Carbono (RC) é mais similar aos textos normalmente publicados no blogue SynbioBrasil (SB - e menos similar aos textos publicados aqui no GR). O texto no Ecce Medicus (EM) tem uma complexidade mais parecida com a dos textos do Caderno de Laboratório (CL - e mais diferente dos textos publicados no Rainha Vermelha - RV). E assim por diante.

Obviamente aqui é uma análise bastante simplificada. O tamanho amostral dos textos também é bastante limitado (10 textos normais dos blogues e apenas um texto do interCiência). É possível maior sofisticação, com calibração de pesos de cada fator - p.e., procedendo-se à maximização da verossimilhança com teste contra outros textos dos blogues - e uma amostragem mais ampla.

Veremos como esta análise se sai caso os verdadeiros autores dos textos sejam revelados futuramente. Algumas comparações podem ser feitas com outras informações:
1) a estrutura do texto publicado no RC é muito similar aos textos do SB (textos divididos por intertítulos e estes com determinado tamanho de fonte e em negrito);
2) o texto publicado no Curioso Realista (CR) está em português de portugal e, entre os participantes, é a variante usada nos textos do Ciência ao Natural (CN): a similaridade na complexidade, no entanto, não foi das maiores (na verdade, os textos de CN se aproximam mais ao texto publicado aqui no GR);
3) o texto no RV foi produzido por alguém ligado à microbiologia (além do próprio autor do RV, o autor do CR é microbiólogo): o índice de complexidade também não foi particularmente similar;
4) o único que trabalha com física entre os participantes da primeira rodada é o autor do CL; a similaridade maior é com o texto publicado no EM (que é sobre física; outro texto com a mesma temática foi publicado no próprio CL);
5) O texto publicado aqui no GR é mais similar aos textos do blogue 42 e a temática são exatamente curiosidades sobre o número 42;
6) O texto no SB foi escrito por alguém ligado à psicologia e à neurobiologia; entre os blogues participantes, são psicólogos os autores de O Divã de Einstein (DE) e de CogPsi (CP). Os textos de CP têm uma boa similaridade com o publicado no SB;
7) No CP, o texto é sobre psicologia, mas não é particularmente similar aos textos de DE (é mais similar aos textos de CR em complexidade);
8) No 42, o tema de sexo de animais e vídeos de aranhas remete ao RV; embora não seja particularmente similar no índice, a maior similaridade é com os textos do RV (e muito próximo com os do RC);
9) No Ciensinando (CE), o texto é sobre fisiologia, tema explorado no EM. Mas o valor não é muito similar, aproxima-se mais do 42.

Se essas informações estiverem corretas, mesmo uma análise bastante simples como a feita aqui, embora muito longe da perfeição, parece não ser completamente furada.

E você, leitor, leitora, quais os seus chutes? (Os dados brutos que usei para a análise estão aqui.) O Scienceblogs Brasil dará um exemplar de O Livro dos Milagres (de Carlos Orsi) para quem acertar o maior número de autores: saiba mais aqui.

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*A metodologia foi bastante simples - ainda que um tanto braçal. Foram contados (com ajuda da função de busca em processadores de texto) os números de palavras, parágrafos, linhas e pontuações. Parâmetros como tamanho de frase (dividindo-se o número de palavras pelo número de pontos), tamanho de parágrafo (dividindo-se o número de linhas pelo de parágrafos), índice de vírgulas (número de palavras sobre o de vírgulas), de parênteses, de dois pontos, de ponto e vírgula e de exclamações foram calculados e comparados: para cada par de blogue e texto do interCiência publicado, foi considerada a soma dos módulos das diferenças relativas entre os parâmetros. Se a complexidade for exatamente a mesma, a soma deve ser zero. Quanto maior a diferença, maior a soma.

Upideite(05/fev/2013): Aqui como seria a previsão final baseada unicamente em critérios de complexidade:
Será? (Tem pelo menos um que muito provavelmente está errado, no entanto.)

Upideite(06/fev/2013): As chances de se acertar ao acaso ao autores dos textos:

0 (acerto): ~34%; 1: ~37%; 2: ~20%; 3: ~7%; 4: ~2%; 5: ~0,4%; 6: ~0,07%; 7: ~0,01%; 8: ~0,002%; 9: ~0,0003%; 10: ~0%; 11: 0% (exatamente 0, é impossível se errar somente 1); 12: 1/12! = 1/479.001.600

Abaixo, tabela com as previsões e os resultados do interCiência:

Tabela 1. Desempenho da análise de complexidade na atribuição de autoria aos textos do interCiência.
blogue previsão resultado acerto
42 RC
CE DE EM 0
CL GR
CN CE CE 1
CP CR 0
CR RV CN 0
DE CN 42 0
EM CL
GR 42 0
RV EM CR 0
RC SB
SB CP CP 1

total

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

interCiência: 42 vezes 42

O Scienceblogs Brasil está promovendo um amigo secreto científico com troca de textos anônimos entre os blogues participantes, o interCiência. Confira abaixo o que meu cientófilo oculto coligiu de curiosidades sobre a resposta para a vida, o universo e tudo mais. Quem será o autor ou a autora desta quadrigintadueta compilação?

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42 vezes 42

A célebre frase "com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação. Eu ouso dizer que este é o programa da República" foi proferida por Rui Barbosa, aos 42 anos.

Um taco oficial de beisebol pode ter no máximo 42 polegadas.

Quando Edwarda O'Bara morreu no final de 2012, ficou estabelecido um novo recorde para coma mais longo: 42 anos.

O seriado de animação Os Simpsons é escrito e produzido no prédio 42 do pátio da Fox Broadcasting Company.

O elemento de número atômico 42, molibdênio, é o 42° elemento mais comum no sistema solar.

A média de duração dos álbuns (de estúdio, não-póstumos) do Led Zeppelin é 42 minutos.

O primeiro livro impresso em massa, a famosa Bíblia de Gutemberg, tinha 42 linhas por página.

Tradicionalmente, uma viola (da família do violino e não o exemplar de dez cordas parente do violão) tem um comprimento médio de 42 centímetros.

A nota máxima na Olimpíada Internacional de Matemática é 42 pontos.

Em 1971, 42 anos atrás, ocorreu o infame experimento da prisão de Stanford.

O ângulo máximo de refração da luz (em gotas d’água) que forma os arco-íris é 42 graus.

Em 2010, a revista Forbes classificou Steve Jobs como o 42ª americano mais rico. No ano seguinte foi lançada sua biografia autorizada com 42 capítulos.

Marie Curie isolou o rádio metálico puro com sucesso aos 42 anos.

Segundo o FBI, no ano de 2011, a cada 42 segundos em média uma pessoa foi presa nos EUA por porte de maconha.

Uma tonelada de petróleo libera uma energia equivalente a aproximadamente 42 gigajoules.

Uma regra geral em locução profissional de rádio diz que um spot de dez segundos contém 42 sílabas.

De acordo com a edição de novembro de 2012 do "Boletim do Desmatamento" do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), 42% da área desmatada na Amazônia Legal se deu em assentamentos de reforma agrária.

No ano passado, a aranha Nefertiti foi lançada ao espaço (e trazida de volta em segurança), onde percorreu aproximadamente 42 milhões de milhas.

Carl Sagan ajudou a desenhar os discos de ouro que foram levados pelas sondas Voyager I e II, lançadas quando ele tinha 42 anos.

Existem 42 territórios no jogo de tabuleiro War.

Dia 15 de janeiro de 2013, Kimiko Date-Krumm se tornou a tenista mais velha a ganhar uma partida no Australian Open, aos 42 anos.

No filme de animação Procurando Nemo, o endereço do consultório odontológico onde Nemo está sendo mantido é 42 Wallaby Way, em Sydney.

O tamanho médio do pé masculino europeu é pouco mais que 26 centímetros, ou, um sapato de número 42.

Em dois clássicos da ficção científica vitoriana, a página 42 traz revelações importantes da trama: em Dracula, Jonathan Harker descobre que é prisioneiro de um vampiro e em Frankenstein, o cientista epônimo revela ser capaz de criar vida.

Ainda em outro clássico, Romeu e Julieta, a poção que a trágica heroína toma para ficar “num estado semelhante à morte”, a deixaria em coma por 42 horas.

Durante um julgamento em Alice no País das Maravilhas, o rei afirma que a regra 42, que reza “todas as pessoas com mais de uma milha de altura devem abandonar a corte” é o “artigo mais antigo do código”.

Cães adultos têm 42 dentes, sendo 12 incisivos, 4 caninos, 16 pré-molares e 10 molares.

O percurso de uma maratona é de pouco mais de 42 quilômetros.

De acordo com cálculos, uma viagem num trem gravitacional (hipotético meio de transporte entre dois pontos da superfície do planeta através de um túnel em linha reta) duraria aproximadamente 42 minutos.

O estado australiano da Tasmânia, cortado pelo paralelo 42 sul, é assim nomeada por causa de Abel Tasman, primeiro europeu a registrar sua existência, em 1642. Duzentos anos depois, em 1842, sua capital, Hobart, é declarada como cidade.

O ponto de ebulição do propano também é 42 graus centígrados negativos.

42 é o resultado da soma de três quadrados: 1² + 4² + 5².

Na tabela ASCII, o asterisco (comumente conhecido em computação como "caractere coringa" por seu uso em substituições de outros caracteres) ocupa a posição 42.

De acordo com um documentário do canal National Geographic, houve 42 tentativas de assassinar Hitler.

42 é um número esfênico - ou seja, é igual ao produto de três números primos (2, 3 e 7).

O 42º dígito de Pi e seu subseqüente formam o par 93. O 93º dígito de Pi e seu antecedente formam o par 42.

O calendário islâmico (ou hegírico), por ser estritamente baseado no ciclo lunar, está aproximadamente 42 anos defasado em relação ao ciclo solar (estações do ano).

11 de fevereiro, o 42º dia do ano, é lembrado internacionalmente como o dia da libertação de Nelson Mandela (1990) e da posse da Dama de Ferro, Margareth Thatcher (1975).

Em contraponto, a 42 dias do fim do ano (19 de novembro), é observado no Brasil o Dia da Bandeira e, ao redor do mundo, o peculiar Dia Internacional do Homem.

O período Paleógeno, que viu a explosão evolutiva dos mamíferos, durou 42 milhões de anos.

Apesar da miríade de partidos políticos que surgiram e se desmancharam no Brasil ao longo os anos, nunca houve um de número 42.

Aos 42 anos, Douglas Adams escalou o Monte Kilimanjaro vestindo uma fantasia de rinoceronte.
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[Este texto é parte da primeira rodada do InterCiência, o intercâmbio de divulgação científica. Saiba mais e participe em: http://scienceblogs.com.br/raiox/2013/01/interciencia/]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

P: Quanto vale um cientista? R: Menos do que você e eu esperávamos, ao menos para a Elsevier.

A mesma Elsevier que é alvo de boicote por um grupo de pesquisadores pelo que consideram prática abusiva de comercialização de conhecimento científico resolveu dar uma investida para adquirir o serviço de compartilhamento de artigos científicos, o Mendeley.

A possível aquisição já levanta discussões: por exemplo, a editora nederlandesa pode encrencar com a questão dos copirráites e tornar o compartilhamento bastante restrito e fica também a questão dos dados pessoais, como a publicadora os usará? Uma comparação interessante, no entanto, pode ser feita com a cartada da Elsevier.

O Facebook teve seu capital aberto no primeiro semestre de 2012, com uma IPO (oferta pública inicial de ações) no montante de 104 bilhões de dólares. O número de usuários era estimado em 995 milhões de pessoas por todo o mundo. O que significava um valor de US$ 104 per capita.

A oferta pelo Mendeley, com uma base de 2,1 milhões de usuários, é de US$ 100 milhões. Isto é, US$ 47,6 per capita.

Claro que há vários aspectos que precisam ser levados em conta na comparação dos valores. Fiz um resumo com minha avaliação de alguns parâmetros (Figura 1).

Figura 1. Análise comparativa de parâmetros comerciais para o Mendeley e o Facebook.

Poder aquisitivo
Obviamente não sou um especialista de mercado, mas me parece que a comunidade de usuários do Mendeley (ML) tem um poder aquisitivo médio maior do que o dos usuários do Facebook (FB). A maioria dos usuários do ML têm nível de ensino superior, trabalham em universidades e centros de pesquisa, esse grupo costuma ter uma renda mais alta nas sociedades. Além disso, têm acesso a verbas de pesquisa, podendo usá-las para equipar e abastecer os laboratórios em que trabalham.

Gama de produtos e serviços
O público do FB é mais amplo tanto numericamente como socioeconômica, cultural e etariamente. Uma gama maior de produtos e serviços tendem a ser demandados. Mais empresas podem se interessar em suprir essas demandas.

Preço unitário
Em parte está ligado ao poder aquisitivo - quem tem mais dinheiro pode comprar produtos mais caros. Mas produtos para pesquisa tendem a ter um preço unitário maior do que produtos consumidos no dia a dia. Sim, um carro é muito mais caro do que uma caixa de eppendorf; mas, na média, o valor do tíquete dividido pela quantidade de itens tende a ser maior.

Segmentação
De um lado, a maior homogeneidade do público do ML significa uma variedade menor dode gama de produtos e serviços. Por outro, significa que as empresas terão uma vitrine bem mais focada. Em parte essa vantagem do ML pode ser compensada pelo FB ao permitir filtrar o público pelos dados do formulário de cadastro.

Conversão em vendas
Uma segmentação maior pode significar uma exposição mais bem focada e, portanto, maior probabilidade de conversão em vendas de produtos e serviços. Mas também tem o fator de compra por impulso. Produtos para pesquisa tendem a ter baixa probabilidade de compra por impulso ("olha, eu vi no catálogo um envelope com 10 mg de Taq liofilizada e não resisti"). Em parte pode ser compensada com produtos de consumo pessoal de linha bem especializada (como sabonetes alusivos a culturas microbiológicas e outras quinquilharias nerdes).

Fidelidade
Maior foco permite a apresentação de produtos mais bem direcionados, o que facilita a fidelidade. Cientistas não trocam de fornecedor a toda hora - em parte, por causa dos preços não variarem tanto assim (há cartelização forte em muitos setores ou mesmo oligopólios e monopólios, com as patentes); em parte porque não são eles que estão pagando, então a outros fatores como qualidade, agilidade e confiabilidade pesam mais.

Exposição
Naturalmente, com um número de usuários muito maior, tende a haver maior exposição no FB. Além disso, a mídia de noticiário geral tende a cobrir melhor os eventos que ocorrem no FB do que em redes sociais menores e mais segmentadas.

Viralização
Maior exposição e maior base de usuários facilitam a viralização. Embora em um público mais homogêneo algo que seja viral tende a se espalhar mais completamente e ter maior penetração relativa.

Prestígio
Com um público que tende a ter uma melhor posição socioeconômica, o prestígio da rede tende a ser maior.

Há vários outros fatores que não foram levados em conta - como facilidade da plataforma para ecommerce e o modelo de negócio aplicável - e outros que nem sequer imagino que existam e influenciem.

Mas, no geral, acho que a Elsevier está jogando o preço do Mendeley muito para baixo. Um cientista valer, comercialmente, menos da metade do que um cidadão aleatoriamente* tomado da população é forçar a amizade.

*Upideite(18/jan/2013): Não é tão aleatório, claro, já que a distribuição de acesso à internet é heterogênea.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Isto é um experimento: As postagens menos visitadas do Gene Repórter

Rankings existem em quase todo lugar sobre quase todo assunto - futebol, economia, universidades, mulheres, homens, livros... Com música não é diferente e quase toda, senão toda, rádio tem sua lista de mais pedidas. Mas o quanto uma música não ganha destaque justamente por aparecer entre as mais pedidas? O chamado jabá é muito conhecido - dinheiro ou outra forma de bonificação dado às rádios pelas gravadoras para divulgar certos trabalhos e artistas. E no filme Dois Filhos de Francisco há uma cena em que o pai (Francisco) faz com que amigos liguem sem parar para uma rádio local pedindo para que uma canção de seus filhos (Zezé di Camargo e Luciano) seja tocada - levando a parada de sucessos. Então o quanto que o consumo de uma música - por exemplo, a compra de álbuns ou download de arquivo - está vinculado à qualidade musical percebida e o quanto está ligado à exposição dada por listas de mais vendidas, tocadas, pedidas?

A equipe liderada por Duncan Watts criou o projeto MusicLab, que permitiu medir a influência da exposição às listas. Funcionava como uma rede social em que os usuários podiam baixar arquivos de áudio. A quantidade de downloads era medida e uma lista das mais baixadas era exibida aos usuários. O MusicLab, no entanto, era dividido em "mundos" isolados - várias comunidades fechadas, em que usuários de uma comunidade não tinham acesso ao que ocorria em outra. Cada "mundo" funcionava como uma repetição independente. A quantidade de downloads nas comunidades quando a lista não era exibida serviu como um indicador de qualidade intrínseca de cada obra. Quando os usuários tinham acesso à lista, apesar de haver alguma tendência de músicas mais bem qualificadas estarem mais bem posicionadas, isso nem sempre ocorria. Com frequência a ordem de consumo era alterada, indicando a influência da simples listagem. Em cada comunidade, a influência social produzia listas bastante distintas de músicas mais baixadas.

É possível, então, que listas de textos mais lidos em sítios web tenham o mesmo efeito de retroalimentação positiva ou profecias autorrealizadoras (ou o segredo de Tostines): textos mais lidos tenderiam a ser os textos ainda mais lidos e se eternizarem em uma lista global (sítios e portais de notícias ressetam a lista de tempos em tempos para evitar esse feito, mas não evitam o efeito da pura influência social) e ampliar o fosso entre os mais e os menos lidos. Uma forma alternativa de fazer listas de textos em uma retroalimentação negativa seria listar os textos *menos* lidos.

Do GR, os dez textos menos lidos de todos os tempos são:

  1. Semana Darwin 200 - II
  2. The burdens of being upright*
  3. The Greatest Show on Earth: Resultado do sorteio
  4. Mala influenza - 2
  5. Mala influenza - 10
  6. Mala influenza - 5
  7. Mala influenza
  8. Mala influenza - 12
  9. Mala influenza - 9
  10. Sing Along: Science is golden

Serão ruins - ou piores do que os mais lidos - ? Talvez uma variação do paradoxo dos números desinteressantes possa ser formulada: em uma lista de textos desinteressantes, haverá um texto menos interessante, o que faz dele um texto interessante, logo deve ser tirado da lista; na nova lista, haverá um novo texto menos interessante e assim por diante...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Nem tudo que doureja é lúzio 4

Mais gaiata ciência.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Não deixemos o Rock com Ciência morrer

O programa de rádio e podcast Rock com Ciência, criado, produzido e mantido pelo Prof. Dr. Rubens Pazza (que também comanda o blogue DNA Cético) da Universidade Federal de Viçosa vai ser encerrado por... falta de espaço (físico).

Não foi cedida para a produção do programa uma simples salinha nas instalações do câmpus do Rio Paranaíba para os equipamentos e gravação dos episódios.

Você que curte ciências e/ou roque; você que sabe da importância da divulgação científica; você ouvinte do Rock com Ciência; você membro da comunidade da gloriosa Federal de Viçosa; você que está preocupado com a educação no país; você metazoário cordado mamífero primata; precisamos deixar bem claro para a direção do câmpus do Rio Paranaíba e outras instâncias da UFV que não concordamos com esse fim.

Proteste (sempre com o devido respeito, claro):
(34) 3855-9300
diretoriacrp@ufv.br* (direitoria do câmpus do Rio Paranaíba)
dex@ufv.br (pró-reitoria de extensão da UFV)

Eu enviei a mensagem abaixo:
===========
From: Roberto Takata 
Date: 2012/12/20
Subject: Sobre o fim do programa Rock com Ciência
To: diretoriacrp@ufv.br

Excelentíssimo Diretor Geral do Campus de Rio Paranaíba Prof. Dr. Luciano Baião Vieira,

Soube que o valiosíssimo trabalho de divulgação científica Rock com Ciência produzido no câmpus do Rio Paranaíba será descontinuado por falta de espaço para acomodação de equipamentos de produção e sala para a gravação do programa.(1)

Gostaria assim de registrar meu profundo pesar e protesto pela perda de mais um meio para a tão necessária popularização das ciências. No momento em que um presidiário**, acompanhando as transmissões, inspira-se em retomar os estudos para ingressar no ensino superior, não há como negarmos o caráter transformador (e até revolucionário) da iniciativa do Prof. Dr. Rubens Pazza.

Queria instar a toda a comunidade do câmpus do Rio Paranaíba a rever essa decisão e também colocar-me a disposição para tentar encontrar uma solução e a colaborar para a viabilidade da continuidade do projeto Rock com Ciência.

Cordialmente,

Roberto Takata

===========

*Upideite(20/dez/2012): Rubens Pazza informa que a diretoria do câmpus de Rio Paranaíba está solidária.
**Upideite(20/dez/2012): Rubens Pazza corrige, era funcionário de um presídio, não presidiário - não, o feito não é menor (em certo sentido, até maior, já que tem menos tempo livre para estudar).
Upideite(17/jun/2013): O Rock com Ciência está de volta!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Brasil precisa de um apagão científico como o do IINN-ELS

Antes de mais nada, dois avisos necessários: respeito o trabalho do jornalista Herton Escobar, a quem não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele em um evento sobre Origem da Vida na USP e acompanho seus textos no Estadão e ocasionalmente comento suas postagens no blogue Imagine Só!) e respeito o trabalho do Prof. Dr. Miguel Nicolelis, a quem também não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele no lançamento de Muito Além de Nosso Eu em Belo Horizonte e converso por meio do twitter).

O Estadão publicou uma matéria a respeito da produção científica do Instituto Internacional de Neurociências de Natal - Edmond e Lily Safra - IINN-ELS após a saída de pesquisadores em meados de 2011 por uma série de divergências. Um ano e meio depois ainda há disputa entre o que podemos chamar de dissidentes e a equipe de Nicolelis, por exemplo, em relação a alguns equipamentos.

Mas, palavras da reportagem do jornal paulista: "Após saída de boa parte da equipe, há 18 meses, IINN nada produziu, mas neurocientista continua recebendo volumosas verbas do governo." e "Desde então, o IINN não publicou nenhum trabalho científico novo." Para o Estadão, isso seria o "apagão científico".

Em resposta, Nicolelis divulgou no sítio web do IINN-ELS lista dos artigos publicados entre 2011 e 2012.

O Estadão voltou à carga, dizendo que os artigos são referentes aos trabalhos pré-racha.

Bem ,o fato é que o IINN-ELS *publicou* artigo novo. Sim, são referentes a trabalhos pré-racha. Porém, o que era de se esperar? Há um lapso de tempo provocado pelo processo de submissão e análise de manuscritos até a publicação - só entre a recepção e aceite, em uma Nature, o tempo médio é de cerca de 200 dias, mas pode passar de 20 meses para outras publicações.

Considere então o cenário: há um racha, chegam novos integrantes, que começam a fazer seus trabalhos, obtêm seus resultados, preparam seus manuscritos, submetem, fazem as correções e finalmente é publicado (isso sem contar eventuais rejeições dos manuscritos). Não é mesmo de se esperar que trabalhos iniciados pós-racha sejam publicados em revistas indexadas antes de 2012 - devem começar a ser publicados a partir de 2013.

Assim, o melhor indicador da produção pós-racha são os resumos em congressos, são 16 no período: 10 em congressos internacionais, 6 em nacionais. Isso em 18 meses para uma equipa de 6 pesquisadores e 3 pós-graduandos: 1,18 resumo por integrante-ano.

Sério, isso é apagão onde? Bom seria se tivéssemos esse índice de produtividade em boa parte dos laboratórios e institutos de ciências - públicos ou privados.

Só posso expressar minha perplexidade com a má vontade do Estadão (aumentada justamente pelo meu respeito ao trabalho de Herton Escobar). Ok, o Dr. Nicolelis não quis responder às perguntas feitas e para algumas seria muito interessante que houvesse uma resposta (por exemplo, a Raytheon está bloqueando a publicação dos dados sobre pernas robóticas controladas a distância com ondas cerebrais de uma macaca na esteira? - isso tem implicações bastante sérias); no entanto, não é dizendo mentiras como "Nicolelis usa trabalhos antigos para mostrar nova produção de instituto" que se vai resolver a questão.

Upideite(19/dez/2012): Profa. Dra. Ângela Paiva, reitora da UFRN, fala sobre o rompimento entre os professores da universidade e a equipe de Nicolelis.
Upideite(19/dez/2012): Vale muito a pena ler também o texto de Bernardo Esteves para a Revista Piauí de um ano atrás sobre a "mitose" dos grupos e os planos de Nicolelis.
Upideite(21/dez/2012): Herton Escobar responde a algumas questões que fiz sobre o desenvolvimento da reportagem.
Upideite(14/fev/2013): Herton Escobar volta à carga. Segundo o jornalista, o recente trabalho sobre processamento pelo córtex tátil de ratos de sinais infravermelhos captados por sensores artificiais não teria sido produzido em Natal, a despeito da filiação dos autores indicada no artigo. Nicolelis responde que daqui a duas semanas sairá artigo na Nature com resultados de trabalhos em Duke e em Natal.
Upideite(14/fev/2013) Segundo Miguel Nicolelis, essas acusações levaram à perda de doação de R$ 300 mil ao programa de pré-natal de alto risco.

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