Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Alfabetização científica ou letramento científico?

>Laugksch, RC. 2000. Scientific literacy: a conceptual overview. Science Education 84(1): 71-94.

Interpretações da palavra letrado/alfabetizado ('literate'):

Instruído ('learned'): conhecer sobre fatos científicos e processos, valor do próprio conhecimento científico (conhecimento pelo conhecimento);
Competente ('competent'): contexto em que o cientificamente letrado precisa operar ou desempenho de atividades e funções específicas: ler uma notícia científica no jornal, resolver problemas práticos sobre alimentação, saúde e habitação, pensar de modo crítico e independente em questões envolvendo lógica, quantificação, evidências... (conhecimento aplicado em situações específicas);
Minimamente funcional como consumir e cidadão ('able to function minimally as consumer and citizen'): usar a ciência para uma melhor tomada de decisão no dia a dia (conhecimento aplicado na melhora da qualidade de vida);

-----

>Roberts, DA. 2007. Scientific literacy/science literacy.  In S. K. Abell & N. G. Lederman (eds.) Handbook of research on science education. Lawrence Erlbaum Associates. 1345 pp. Pp. 729–80.

>Roberts, DA & Bybee, RW. 2014. Scientific Literacy, Science Literacy, and Science Education. In Lederman, NG & Abell, SK (eds.) Handbook of research on science education vol. II. Routledge. 970 pp. Pp: 545-58

Visão I: estudante como um cientista novato; objetivo de dominar o básico da ciência para poder encarar material mais avançado; um olhar para dentro da própria ciência (nos cânones das ciências naturais ortodoxas), para os produtos e processos da ciência - aquisição de conhecimento sobre ciências dentro da própria ciência.

Visão II: estudante como cidadão; ênfase nos componentes científicas nos fenômenos do dia a dia; aquisição de conhecimento sobre ciências em situações em que considerações além da ciência são também importantes - olhar para a ciência a partir de fora.

As visões I e II são extremos de um contínuo de posicionamentos sobre a importância do letramento científico.

"science literacy"->visão I;
"scientific literacy"->visão II;

Relações com: "la culture scientifique" (Canadá francófono), "public understanding of science" (em declínio - consideram que PUS implicaria em um público e uma compressão homogêneos)/"public engagement of science" (Reino Unido). ["scientific temper" (Índia)]

[Nessa distinção entre "science literacy" e "scientific literacy", proponho "letramento para a ciência" no primeiro caso e "letramento sobre ciência" no segundo.]

-----

>Cunha, RB. 2017. Alfabetização científica ou letramento científico?: interesses envolvidos nas interpretações da noção de scientific literacy.  Rev. Bras. Educ. 22 (68).

Literacy: alfabetização vs letramento

alfabetização: saber ler e escrever - ruptura entre os que sabem ler e escrever (alfabetizados) e os que não sabem (analfabetos);
letramento: uso efeito da escrita e leitura nas práticas sociais - contínuo de níveis de complexidade do uso da escrita.

"Enquanto os que tratam de alfabetização consideram fundamental o ensino de conceitos científicos, os que optam por letramento priorizam, no ensino, a função social das ciências e das tecnologias e o desenvolvimento de atitudes e valores em relação a elas." (Cunha 2018)

-----

>Sasseron, LH & Carvalho, AMP 2011. Alfabetização científica: uma revisão bibliográfica. Investigações em Ensino de Ciências – V16(1), pp. 59-77.

Alfabetização científica: Paulo Freire "alfabetização é mais que o simples domínio psicológico e mecânico de técnicas de escrever e de ler. É o domínio completo destas técnicas em termos conscientes. [...] Implica numa autoformação de que possa resultar uma postura interferente do homem sobre seu contexto".

Enculturação científica: permitir que os alunos façam parte de uma cultura em que noções e conceitos científicos são parte do corpus (ao lado de outros aspectos: religião, arte, história...)

Letramento científico: Kleiman & Soares (1998) definem letramento como 'resultado da ação de ensinar ou aprender a ler e escrever: estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita"

-----

[No fim acaba sendo escolha ao gosto do freguês. Particularmente acho interessante a proposta de fazer uma distinção entre os termos, na medida em que temos expressões diferentes e há nuances a se cobrir.]

sábado, 26 de novembro de 2022

Gene Repórter ano 15

play, green, color, frog, toy, happy birthday, art, happy, funny, joy, kermit, birthday, luck, greeting, greeting card, congratulations, birthday card, stuffed toy, birthday wishes, wish congratulations, Free Images In PxHere

Hoje se completam 14 anos da primeira postagem no blog. Em comemoração, a equipa do GR lança um boletim - sem periodicidade definida - compilando algumas informações a respeito do universo da Divulgação Científica: o Coaxo Caixeiro Coaxo Caixeiro*.

Em sua primeira encarnação, deve contar com anotações de algum artigo de pesquisa em DC, indicações de projetos interessantes, agenda de eventos na área, glossário da DC e coisas correlatas. Ao longo do tempo, se houver fôlego para continuar, a formatação e o tipo de conteúdo deve evoluir - para atender melhor à demanda do público - se algum houver - do boletim e à capacidade da equipa editorial.

*Upideite(26.dez.2022): Como o Revue será descontinuado pelo twitter, migrei o boletim para o Substack.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Ver pra crer? A retórica dos diferentes estilos de mapas

Em um trabalho publicado em 2012, o cartógrafo Ian Muehlenhaus, da University of Wisconsin, examinou os efeitos que diferentes modos de apresentar informações em mapas tinham sobre a percepção das pessoas. Os estilos cartográficos utilizados foram o de autoridade, discreto, propagandista e sensacionalista.

---------

De autoridade (authoritative): estilo de visualização científica, segue as normas acadêmicas para gráficos e mapas. Exemplo de uso: maioria dos mapas produzidos por órgãos governamentais com fins de legais e de subsídio a políticas públicas. (Fig. 1.)

Fig 1. Exemplo de mapa de autoridade. Muehlenhaus 2012.

Discreto (understated): estilo minimalista; dados são simplificados e em pequena quantidade, mostrados de modo básico, deixando de lado nuances e informações adicionais; a aparência é limpa e sem texturas. Exemplo de uso: maioria dos mapas vetoriais da Wikipédia. (Fig. 2.)


Fig 2. Exemplo de mapa discreto. Muehlenhaus 2012.

Propagandista: os dados são apresentados de modo altamente enviesado (ainda que possam ser cartograficamente adequados) com ênfase no extremo da hierarquia visual para que a mensagem não seja perdida. Textos com palavras fortes são usados nos títulos, legendas e outros locais do mapa. Exemplo de uso: mapas governamentais divulgados para angariar apoio da população para os esforços contra o inimigo durante a Segunda Guerra Mundial. (Fig. 3.)

Fig 3. Exemplo de mapa propagandista. Muehlenhaus 2012.

Sensacionalista: combina a sobrecarga de informações de um mapa de autoridade com o viés de apresentação do mapa propagandista. Exemplos de uso: ilustrações acompanhando peças publicitárias. (Fig. 4.)

Fig 4. Exemplo de mapa sensacionalista. Muehlenhaus 2012.

---------

Um mapa de cada estilo foi produzido representando os níveis de radiação em diferentes áreas dos Estados Unidos que seriam atingidas em um hipotético acidente nuclear em uma usina no estado de Washington. Voluntários visualizavam os mapas e respondiam a um questionário online que avaliou: 1) a crença nos dados mostrados nos mapas; 2) o impacto dos mapas nas visões pessoais sobre a energia nuclear; 3) a confiança nos mapas; 4) a preferência sentimental pelos mapas e 5) o quão memoráveis eram os mapas. As questões dos itens 1 e 2 foram respondidas após os voluntários verem um dos quatro tipos de mapa; as de 3 a 5 após verem os quatro tipos de mapa.

Das 112 respostas válidas, cerca de 2/3 eram de homens e 1/3 de mulheres. E cerca de 80% eram jovens de 18 a 25 anos. 8% eram extremamente contrários à energia nuclear, 18% contrários, 18% um pouco contrário; 20% indiferentes; 25% um pouco a favor e cerca de 11% a favor. Não houve nenhum que se declarasse extremamente a favor.

A crença em que a região em que o respondente morava seria atingida no caso do hipotético acidente foi similar aos que viram os mapas do tipo: discreto, sensacionalista e de autoridade; mas a crença de "certeza absoluta" chegou a 60% entre os que viram o mapa propagandista, contra cerca de 20 a 27% entre os que viram outros estilos de mapa. Em todos os tratamentos houve um aumento da posição de oposição à energia nuclear. Em ordem crescente de aumento da oposição: de autoridade, discreto, propagandista e sensacionalista.

65% dos respondentes consideraram estilo de autoridade como o mais confiável, seguido do sensacionalista: 23%, discreto: 7% e propagandista: 5%. 36% gostaram mais do de autoridade, 26% do sensacionalista, 20% do propagandista e 18% do discreto. 46% consideraram que o tipo propagandista era o mais memorável, 28% o discreto, 14% o sensacionalista e 12% o de autoridade.

Em relação à retórica dos mapas, Muehlenhaus conclui que:

  1. "O feio é memorável." Mapas com design desagradável mais provavelmente se fixam por mais tempo na memória.
  2. "O viés é atrativo." Mapas apresentação de dados mais ostensivamente enviesados são mais bem apreciados.
  3. "Ignorância é confiança." Mapas com menos detalhes e menos dados são mais convincentes para a maioria dos leitores.

Referência

Muehlenhaus, I. 2012. If Looks Could Kill: The Impact of Different Rhetorical Styles on Persuasive Geocommunication, The Cartographic Journal 49(4): 361-375, DOI: 10.1179/1743277412Y.0000000032

----

Upideite(17.nov.2022): Há, claro, algumas limitações em relação ao estudo. Não apenas a restrição do fato de amostra não ser aleatória nem representativa (as repostas das mulheres, p.e., são diferentes das respostas dos homens e há um viés de maior participação de homens entre os voluntários, além da maior concentração etária na faixa dos jovens adultos em relação à população em geral); mas a natureza do questionário é de autoavaliação. P.e., o fato de as pessoas dizerem que algo é memorável, não quer dizer necessariamente que esse algo será o mais lembrando depois de um tempo. Isso seria um ponto a se testar.

domingo, 19 de setembro de 2021

Como é que é? - Houve um aumento da Divulgação Científica com a pandemia? R: Parece que sim, a se ver.

É quase um lugar comum nas discussões a respeito da Divulgação Científica (p.e. aqui) que, durante a pandemia de covid-19, houve um aumento nos projetos de DC, em particular de perfis nas mídias sociais - em boa medida, seria para saciar a necessidade da população por informações confiáveis sobre a doença.

Fiz um levantamento incompleto que pode ajudar a responder se tal percepção de aumento da intensidade das atividades de DC e do número de divulgadores corresponde à realidade ou se é apenas uma impressão.

Busquei por perfis brasileiros no twitter relacionados à divulgação das ciências por meio de palavras chave como "divulgação científica", "divulgador científico", "divulgadora científica", "divulgação de ciências", "jornalista científico" e outros correlacionados - além de acrescentar ao resultado alguns que não usam nenhum termo específico que se possa relacionada à DC, mas que sei que tuitam sobre ciências para o público não-especialista, e também alguns perfis que constam em outras bases de mídias sociais de atores de DC (em particular o Diretório de Divulgadores Científicos).

 

Figura 1. Ano de ingresso no twitter de perfis relacionados à Divulgação Científica.

Nota-se, de fato, um grande pico correspondente ao ano 2020 (Fig. 1). Se destrincharmos a entrada em meses para os anos de 2019 a 2021, temos um pico no mês de abril de 2020 - pouco depois da declaração pela OMS de pandemia de covid-19 (Fig. 2).

 

Figura 2. Mês de ingresso de perfis relacionados à Divulgação Científica no twitter entre 2019 e 2021 (até meados de setembro).

Não dá para cravar, mas é um bom indício de que houve, sim, uma entrada de novos atores em decorrência da pandemia. Para saber se para preencher o espaço informativo a respeito da doença seria preciso uma análise mais detalhada do conteúdo divulgado por esses perfis (alternativamente, ainda que não de modo mutuamente excludente, poderia ser p.e. em decorrência da suspensão das atividades presenciais - o uso de mídias sociais poderia ser um meio de manter contatos durante a suspensão inicial das aulas e atividades de pesquisa)*.

Bom ter em mente que a época de ingresso não corresponde necessariamente ao início das atividades de comunicação pública da ciência pelos perfis, mas pode ser um proxy no conjunto. A suposição também é de que a busca, embora certamente não captando todos os perfis e talvez nem mesmo a maioria deles, gere uma amostra representativa do universo de divulgadores no twitter. E, por fim, há a suposição de que o padrão encontrado no twitter valha para outras mídias também: blogs, facebook, youtube, whatsapp, tiktok, etc. Seria preciso um levantamento sistemático também nas demais redes sociais, portanto, para se ter uma ideia mais completa. (O mais correto seria aplicar um tratamento estatístico adequado, mas considero que a análise meramente visual aqui seja suficiente para os propósitos.)

O tamanho amostral obtido até o momento é de 404 perfis que se dividem entre perfis pessoais (236 no total), projetos de grupo (perfis de iniciativas conduzidas por duas ou mais pessoas; 48), projetos institucionais (perfis de iniciativas relacionadas a instituições de pesquisa e ensino, incluindo grupos de pesquisa, centros, projetos acadêmicos, etc.; 47), projeto individual (perfis de iniciativas conduzidas por apenas uma pessoa), perfis comerciais (de lojas e outros empreendimentos que comercializem produtos e serviços como camisetas personalizadas de temática científica; 6) e um certo número de perfis sem informações suficientes para se incluir nas categorias anteriores (26).

O interessante é que parece haver um declínio da entrada de novos perfis após o pico de 2009 - em uma certa emulação da possível crise de blogs de ciência após um pico entre os anos de 2009 e 2010. Uma das hipóteses da queda de atividade dos blogs de ciência era de que haveria uma migração para outras mídias, mas, ao menos neste caso do twitter, parece que o ritmo também diminuiu nas demais formas de comunicação na internet. A crise pode ter sido mais geral e não meramente concentrada nos blogs. Há uma aparente retomada de ingresso de novos perfis de DC no twitter a partir de 2013 a 2014, o que coincidiria com o início da crise política no país e, sobretudo, nos cortes sucessivos nos investimentos em C&T no país. Poderia ter havido um incentivo para os cientistas buscarem as redes para defender a ciência. Um aumento em 2019 poderia estar ligado a razão similar, somado a uma intensificação do ataque à academia desde as eleições presidenciais no ano anterior por parte de integrantes do governo eleito.

Pode valer um levantamento mais abrangente - incluindo também perfis de outros temas não ligados às ciências - para se testar essas possibilidades.

Upideite(20.set.2021): Um padrão de pico e declínio não é observado, p.e., nos podcasts brasileiros de ciência - mas se deve levar em conta que, entre o período de 2009 e 2010, ainda eram poucos. Nota-se uma grande aceleração entre 2018 e 2020. Mas pode-se dizer que, desde os primeiros podcasts de ciência brasileiros por volta de 2008, a mídia vem experimentando um crescimento exponencial (equação não mostrada aqui). A figura abaixo representa o padrão obtido a partir de uma base de 131 podcasts (os números exatos dos segmentos ativos, inativos/extintos precisam de atualização).

 

*Upideite(23.set.2021): A equipe do Science Pulse fez uma análise dos tweets compartilhados por cientistas em sua base e identificou que picos correspondiam a eventos importantes durante a pandemia - como o início da vacinação contra a covid-19. É um reforço à hipótese de aumento da DC durante a pandemia para preencher uma necessidade de comunicação sobre a doença. Embora, claro, também com suas limitações - quem os cientistas estão alcançando? que linguagem estão usando? Poderia ser uma comunicação com outros técnicos, por exemplo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Como é que é? - Só especialistas podem fazer Divulgação Científica? Spoiler: Não.

A resposta à pergunta do título desta postagem é um sonoro não. Mas é uma questão que parece ressurgir de tempos em tempos - talvez quando neófitos, pouco afeitos às pesquisas na área de Divulgação Científica (DC), chegam na área.

A prédica de que a somente quem entende do assunto poderia falar sobre ciência vem em dois grandes sabores:

a) só quem tem formação em ciência pode falar sobre ciência (parece ser a variante mais comum, mas  seria preciso um levantamento sistemático para se confirmar ou não a impressão);

b) só quem tem formação em comunicação pode falar sobre ciência (e, na verdade, sobre qualquer coisa) para o público;

Lá em 2009, durante o 2o Euclipo, em uma das sessões essa pergunta foi colocada - mais de modo retórico - e a conclusão também foi a de que há espaço para todos - e, mais do que espaço, a necessidade de que todos contribuam na divulgação das ciências. E certamente discussões e conclusões parecidas foram feitas e tomadas muitas vezes antes também.

Há vários motivos pelos quais todos - e não apenas cientistas e profissionais da comunicação - podem (e, de um certo modo, até devem) comunicar sobre ciências.

1) A comunicação é um direito fundamental. Feita de modo responsável e correta não há que se cercear a liberdade das pessoas em falar sobre o que quiserem; do contrário incorremos em censura. A informação também é um direito - e que garante outros -, cerceando a liberdade de comunicação, também estaremos diminuindo o direito à informação.

2) Os públicos são diversos e cada público responde de modo diferente a diferentes ações de comunicação: que são feitas com diferentes enfoques, com diferentes linguagens, por diferentes meios, com diferentes referências, sobre diferentes temas, etc. Diferentes atores são capazes de atingir diferentes públicos com diferentes efeitos. Uma música feita por uma personalidade admirada por um determinado público, pode atingir de modo que nenhum cientista ou jornalista seria capaz. O remix da música "Bum Bum Tam Tam" do MC Fioti, enaltecendo o trabalho do Instituto Butantan (um trocadilho irresistível) na produção de vacina contra a covid-19, com vídeo lançado em janeiro de 2021, em agosto do mesmo ano já contava com mais de 13 milhões de visualizações: poucos canais de divulgação científica no Youtube (incluindo os grandes americanos) alcançam tamanha façanha. Sem falar em toda a questão da identificação, da sensação de proximidade e confiança que determinados atores podem ter junto a seu público (há todo um campo de estudo em comunicação, sociologia e psicologia sobre confiabilidade - trustworthiness e.g. NASEM 2015; Blöbaum, 2016; Weingart & Gunther 2016).

3) Ligada com o ponto 2, temos a pluralidade dos pontos de vistas. A comunicação se enriquece quando diferentes ângulos - claro, desde que sejam válidos e dentro do que se pode considerar ético e democrático (p.e. uma divulgação científica preconceituosa - digamos, uma que tente se valer de determinismo genético para implicar um ordenamento racial - não deve ser incentivada). Cientistas tenderão a ter uma visão mais voltada para interesses acadêmicos e podem deixar de prestar atenção para as preocupações mais imediatas do público não especializado. É bastante estudado, p.e., a diferença de percepção de riscos de diversas tecnologias entre especialistas e não-especialistas (e.g. Sjöberg 1999, Perko 2014): um especialista pode falar tudo de modo tecnicamente correto sobre a tecnologia e deixar de responder as dúvidas que o público realmente tem sobre a questão; em um ecossistema diverso que permita a participação de outras vozes, tais preocupações podem ser trazidas à tona e trabalhadas.

4) Ligada aos pontos 2 e 3, temos a complementaridade. Cientistas de modo geral não são treinados para a comunicação com o público não-especialista em situações que não a de ensino formal (com frequência nem para ensino formal); jornalistas e demais profissionais de comunicação normalmente não são treinados para analisar pesquisas científicas (noções de estatística, estrutura de um artigo científico, organização social da ciência e da academia, valores e critérios de validade de um estudo, etc). Seja trabalhando em conjunto, seja atuando separados, a deficiência de um pode ser compensada pela capacidade de outro.

5) Ligadas aos pontos 2, 3 e 4, temos a concorrência e independência - que, para os públicos, pode funcionar também como uma forma de complementaridade. Interesses diversos entre cientistas e jornalistas podem levar a comunicações que não abarcam todo os ângulos necessários se apenas um grupo ou outro for o único responsável pela comunicação pública da ciência. Os cientistas, de modo geral, acabam mais comprometidos com as relações acadêmicas - malfeitos, defeitos, limitações do processo científico e acadêmico podem deixar de ser devidamente comunicados ao público (há uma certa frequência de escândalos internos que a academia procura encobrir). Por outro lado, jornalistas, especialmente os que estão vinculados a determinados veículos, podem ficar limitados à linha editorial da publicação ou mesmo pode acabar preso aos interesses da empresa para a qual trabalha (com certa frequência anunciantes com interesses contrariados procuram pressionar os veículos a punir os jornalistas responsáveis pela apuração das informações que não queriam que fossem publicadas).

6) Número. Cientistas e jornalistas não são apenas em um número relativamente reduzido: são cerca de 200 mil pesquisadores e pouco mais de 40 mil jornalistas ativos no país. A maioria tem um grande número de afazeres - a maioria dos pesquisadores são também docentes e precisam se encarregar da burocracia e administração de suas instituições; jornalistas, em número cada vez mais reduzido nas redações, precisam fazer um grande número de matérias (dos mais variados temas) em um único dia. Não conheço um estudo sistemático, mas possivelmente não seriam muitos os que teriam disposição e disponibilidade para fazer DC.

7) Aproveitamento de talento. Há personalidades de divulgação da ciência tanto entre cientistas quanto entre comunicadores de reconhecida qualidade. Iberê Tenório, no Manual do Mundo, o maior canal de divulgação científica em língua portuguesa no Youtube com quase 15 milhões de inscritos, é jornalista de formação, sem treinamento formal em ciências; Atila Iamarino, outro grande exemplo atual de divulgação científica em termos de alcance e qualidade, atinge mais de 3 milhões de assinantes no canal Nerdologia (também no Youtube) e mais de 1,5 milhão em seu canal pessoal, tem formação em Ciências Biológicas e não em Comunicação. E há várias pessoas que não são formadas nem em uma coisa nem em outra que contribuem bastante e bem com a divulgação da ciência, inclusive alunos do ensino básico. Não faz muito sentido fechar o "mercado" a qualquer um deles apenas por falta de um diploma ou treinamento especializado.

-----------------------------
A falta de treinamento formal não significa necessariamente falta de capacidade ou conhecimento. Há inúmeros meios informais, à parte talentos que podemos chamar de inatos, pelos quais uma pessoa pode adquirir habilidade suficiente: no caso da DC, o próprio consumo de materiais de divulgação científica ajuda a criar um repertório. [Não me entendam mal: treinamento especializado tende a ajudar e podem contribuir muito; incentivo que, se tiverem a oportunidade, façam sejam especializações (como as oferecidas pelo Labjor/Unicamp, Museu da Vida/Fiocruz, Amerek/UFMG, LAbI/UFSCar), disciplinas especiais na graduação ou cursos livres e de extensão.]

Há riscos envolvidos na comunicação pública de ciências? Sim. Comunicação mal feita pode causar danos e até matar (como muitas páginas que espalham desinformação sobre vacinas). Alguns veem nisso justificativa para a restrição da comunicação (no caso, de ciências) a profissionais habilitados - como a prática de medicina é restrita a diplomados médicos, p.e. A história da regulação da medicina é relativamente intrincada, mas, simplificando bastante (talvez demais), começa por volta do fim da Idade Média, em parte por interesse das guildas médicas em deter o poder, em parte por interesse dos pacientes em ter um modo mais fácil de eleger médicos confiáveis (Park 2013). A obtenção de licença para exercer a medicina - condicionada em particular aos que tinham formação nas universidades -, no entanto, não eliminou de imediato as práticas curativas realizadas por outros atores (de religiosos a curandeiros, de apotecários a práticos). De certo modo até hoje há uma pletora de profissionais de saúde que não são médicos: enfermeiros, técnicos em radiologia, fisioterapeutas, psicólogos e até biólogos. Em parte isso motiva os grupos de pressão médicos por iniciativas como o Ato Médico - que tenta delimitar quais práticas seriam de exclusividade do profissional médico (em prejuízo das demais profissões, no entender das associações não-médicas) - e mesmo atores sem formação especializada ainda têm papel a desempenhar (mães que compram antitérmicos para seus filhos, vendidos sem receita, estão exercendo uma prática curativa dentro da liberdade que lhe cabe). De qualquer modo, *hoje* podemos justificar a regulamentação parcial do exercício de ações de saúde e, particularmente, das ações médicas - vedando sua prática a pessoas sem a devida habilitação e registro - não simplesmente porque há qualquer grau de risco, pois, p.e., o preparo de alimentos também envolve um grau de risco (intoxicação alimentar é uma consequência bastante comum de alimentos mal preparados e um certo número de pessoas morrem todos os anos); mas porque, sopesando os riscos e benefícios da regulação e de sua ausência, considera-se melhor que as ações médicas sejam regulamentadas e restritas; já no caso de preparo de alimentos, considera-se que a liberdade de que qualquer pessoa possa preparar os alimentos traz mais benefícios do que prejuízo.

Além disso, há outras formas de se circunscrever os riscos que não pela simples restrição do exercício da atividade para um determinado grupo. A principal certamente é a responsabilização pelas consequências - se alguém for negligente no preparo dos alimentos e isso resultar na intoxicação grave de pessoas, esse alguém pode ser condenado criminalmente. Outro modo é a conscientização das pessoas que pretendem preparar alimentos, com campanhas que enfatizem a necessidade de cuidado e higiene com alimentos (isso é ensinado nas escolas nos programas de educação em saúde).

Uma DC que possa ser realizada por qualquer interessado e que seja responsabilizado pelas consequências, em um ambiente em que haja troca de informações para que as pessoas possam selecionar comunicadores mais confiáveis (e.g. o selo dos Science Vlogs Brasil), educação midiática e científica, tende a trazer mais benefícios (como os listados acima) do que prejuízos (que podem ser circunscritos com essas medidas de responsabilização e conscientização socioeducativa).

Além disso, embora eu tenha enfatizado apenas dois elementos: a ciência e a comunicação - a DC se vale, pelo menos, de mais dois fatores fundamentais: a educação e os estudos sociais da ciência (Mulder et al. 2008). Ou seja, não faz muito sentido restringir a prática a apenas uma parte dos especializados em um desses fatores - estará deixando de fora 3/4 dos componentes importantíssimos para a boa DC; mas também não faz sentido restringir a prática apenas para aqueles que dominem as 4 grandes áreas que subsidiam a DC: praticamente ninguém é expert em todas elas. Faz mais sentido, novamente, que todos possam exercer a comunicação pública da ciência, havendo colaboração mútua - idealmente os projetos devem ser multidisciplinares, mas não é preciso que haja profissionais das 4 áreas em um dado projeto, é possível consultar especialistas e trocar experiências. Isso tende a criar um ecossistema comunicacional mais saudável, diverso e livre; minimizando os riscos - e permitindo que os problemas que ocorram sejam sanados mais prontamente.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Divulgação Científica em Mídias Sociais

 No dia 04.fev.2021, fiz a apresentação online abaixo para alunos da disciplina de "Divulgação Científica: Princípios e Práticas", do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade de Ambientes Costeiros, do câmpus Litoral Paulista, da Unesp, ministrada pelos professores Odair José Garcia de Almeida e Valdir Lamim Guedes Junior, a quem agradeço o convite para a palestra.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails