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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 20

Martin W. Bauer analisa a mudança do discurso a respeito da compreensão pública de ciências e os indícios a respeito de sua evolução.

Bauer, M.W. 2009. The evolution of public understanding of science - discourse and comparative evidence. Science, technology and society, 14 (2). pp. 221-240.

Minhas anotações seguem abaixo.
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1. Evolução do discurso

Tabela 1. Paradigmas, problemas e soluções de comunicação pública de ciências
Período Atribuição diagnóstica Estratégia de Pesquisa
Alfabetização científica
1960s-1980s
Déficit público
de Conhecimento
Mensuração de alfabetização
Educação
Compreensão pública
1985-1990s
Déficit público
atitudinal
Conhecimento x atitudes
Mudança de atitudes
Educação
Relações públicas
Ciência na Sociedade
1990s-atual
Déficit de confiança
Déficit de especialistas
Noções de público
Crise de confiança
Participação
Deliberação
Mediadores 'anjos'
Avaliação de impacto
Vide: quadro de modelos de comunicação de ciências de Trench 2008.

O quadro acima não é de progressão, mas de diversificação discursiva ao longo do tempo - discursos posteriores não substituem completamente os anteriores.

Alfabetização científica: Quatro elementos básicos:
a) conhecimento básico de ciências presentes em livros-texto;
b) compreensão de métodos como raciocínio probabilístico e projeto experimental;
c) apreciação de resultados positivos das ciências e tecnologia para a sociedade;
d) rejeição de crenças supersticiosas como astrologia e numerologia.
Crítica: por que as ciências merecem atenção especial? O que dizer de história, contabilidade, direito ou mesmo floricultura?

Compreensão pública de ciências (PUS): relatório da Royal Society of London (1985)
a) falta de apoio popular à empreitada científica;
b) ‘the more you know, the more you love it’ ('quanto mais você conhece, mas você ama');
c) agenda racionalista (atitude: gerada pelo processamento racional de informações -> divulgar informações corretas e raciocínio estatístico rigoroso) e realista (atitude: gerada por relação emocional com o mundo -> 'sexing up': tornar a ciência mais sexy);
Crítica: atitudes negativas não significam falta de conhecimento nem de boa capacidade de raciocínio.

Ciência-e/na-sociedade: relatório da House of Lords (2000)
a) perda de confiança pública de instituições científicas e seus atores: crise da vaca louca, OGMs...
b) concepções falsas a respeito do público entre cientistas e tomadores de decisão levando a uma comunicação errônea, alienando ainda mais o público;
c) ausência de separação entre análise e intervenção -> objetivo: mudar a política científica;
d) aumento da participação popular: audiências públicas, jurados cidadãos, pesquisa de opinião pública deliberativa, conferências de consensualização, rodadas de mesas redondas, exercícios de delimitação de âmbito, festivais científicos, debates nacionais...
Críticas:
i) eventos muito caros e cujas organizações demandam um extenso know-how -> 'anjos' privados substituem servidores públicos e acadêmicos na realização desses eventos; atuam como atravessadores privados entre frustrações públicas e interesses institucionais;
ii) necessidade de mensuração da eficácia e eficiência desses eventos: custos/benefícios, consequências indesejadas a serem evitadas... -> reintrodução de métodos de avaliação de alfabetização científica e atitudes para com as ciências.

2. Indícios de mudança da compreensão pública
Cobertura midiática
Analisando a cobertura de ciências pela imprensa britânica entre 1946 e 1992 e a cobertura de biotecnologia (genética, clonagem, transgenia...) entre 1973 e 2002 de um único jornal britânico, Bauer conclui:
- o fluxo de notícias de ciências e tecnologia na sociedade britânica não é constante (flutua ao longo do tempo - a presença de notícias científicas aumentou dos anos 1940s aos 1960s, declinou na década seguinte, recuperando a partir de então;
- o tom avaliativo também varia (somente durante a década de 1950, as notícias eram, em geral, positivas em relação às ciências; passando a negativas a partir de meados da década de 1960, adquirindo tons positivos novamente próximo aos anos 1990s);
- o tom negativo não é expressão de um complexo anticientífico: enquanto as notícias de ciências em geral ganharam tons mais positivos desde a década de 1970, notícias de biotecnologia tornaram-se mais negativas;
- não há um ciclo de atenção pública, notícias de ciências não evoluem de uma visão inicialmente negativa para uma positiva; a tendência é a oposta: de um hype inicial, em genética, o desenvolvimento posterior foi rumo a uma ponderação maior.

PUS industrial e pós-industrial
A relação "quanto mais você conhece, mais você ama" não é propriamente falsa, mas não é universalmente válida. Em sociedades que fazem a transição da economia industrial para uma pós-industrial com uso intensivo de conhecimento a relação entre conhecimento individual, seus interesses e atitudes em relação às ciências muda.

Figura 1. Correlação entre grau de conhecimento científico e atitudes em relação às ciências na Índia e Europa. Os dados da Índia concentram-se no lado esquerdo da figura e os da Europa, no direito.

Mudanças na Europa
Figura 2. Mudanças intergeracionais de conhecimento, interesse e atitudes em relação às ciências na Europa. D - Alemanha, F - França, UK - Reino Unido, IT - Itália, PORT - Portugal , EU12 - União Europeia de 12 Estados. Fonte: Eurobarômetro.

- as dinâmicas são distintas em diferentes contextos: aparentemente há 'culturas científicas' com dinâmicas específicas  que precisam ser mais bem estudadas;
- o conhecimento está a aumentar entre as gerações em diferentes contextos;
- convergência no grau de interesse entre gerações de diferentes países: em alguns países há tendência de aumento de interesse entre as gerações e de queda em outros países;
- dinâmica intergeracional diferente entre os países para a atitude em relação às ciências.

3. Mapeamento de conversações de ciências na sociedade: distâncias e topografias
- área de pesquisa em PUS tem natureza dupla: atividade de divulgação de ciências para o público x pesquisa científica social;
- público crítico em relação às ciências não é um problema: necessário frente à crescente pesquisa realizada dentro do setor privado - com lógica comercial*;
- indicadores de compreensão pública: necessidade de pesquisas periódicas para acompanhar a evolução temporal e comparação entre diferentes contextos; complementados com monitoramento de mídia e mapeamento de discursos;
- mapear a distância entre as esferas esotérica (dos cientistas) e exotérica (do público em geral) de conversações públicas sobre ciências (modelo de Fleck, 1935, de esferas concêntricas de comunicação de ciências);
- desenvolvimento de Indicador Cultural de Ciências (análogo ao Índice de Desenvolvimento Humano).
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*Obs: Concordo parcialmente. Sim, a fé cega na ciência, a aceitação acrítica do que nos passam os integrantes do estabelecimento científico, é ruim. Concordo se se entende a crítica/ceticismo como uma visão de análise crítica refletida e não simplesmente um negacionismo pétreo. São duas modalidades que tenho por preocupantes: uma é a ideologicamente comprometida que negará os fatos ou os distorcerá (e procurará usar dados científicos - por mais fracos que sejam - que apoiem seu ponto de vista aprioristicamente estabelecido: e.g. os antivax, os negacionistas climáticos, boa parte dos criacionistas...), a outra é a anticientífica propriamente dita: que a ciência inevitavelmente produz o mal e/ou não passa de apenas mais um tipo de mitologia sem qualquer vantagem epistemológica diante de outras formas de conhecimento.

Upideite(22/jun/2016): O blogue From the Lab Bench apresenta um resumo gráfico da evolução dos modelos de divulgação científica para um período mais expandido: do séc. 19 até os dias atuais. via @germanabarata tw

1800s-1900s
Popularização
1739: Algarotti "Newtonianismo para Senhoritas"
Modelo do déficit foca na falta de conhecimentos factuais do público
Ciência pronta para uso ('ready-made science')
1930s-1940
Vendendo a ciência
Ciência como a salvação da sociedade
1960s-1980
Jornalismo de Ciências/Questionando as ciências
1960s: reportagem de ciências se tornam mais críticas
1980s: Retorno da popularização com RP das ciências
Fim do séc. 20
Diálogo
Ciência na Sociedade
Câmara dos Lordes (2000) reconhece os limites da comunicação pública de ciências baseada em uma: "relação ciência-público paternalista, de cima para baixo" (Bucchi & Trench 2014)
2000s
Participação
Foco no cientista cidadão e acesso à ciência em construção ('science-in-the-making')
2006-
Novas mediações
'Crise' dos mediadores tradicionais de ciências: jornais, revistas, TVs, museus (Bucchi & Trench 2014)
Mídia social das ciências
Ascenção dos 'cientistas visíveis' ('visible scientists', Goodell 1977) nas mídias sociais
Futuro
O que virá?
Globalização da comunicação científica
Democratização da expertise
'Todo mundo é cientista agora?'

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