Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.

segunda-feira, 27 de março de 2023

A DC visita o ChatGPT: O que a comunidade de divulgação científica tem falado sobre a ferramenta?

Irei atualizando a lista conforme tomo conhecimento de mais textos, áudios e vídeos a respeito do GPT-3 e ChatGPT (e eventualmente temas correlacionados) produzidos pelos divulgadores científicos brasileiros.

Blogs e outros textos:

09.fev.2023: Univates (Mateus Roveda): ChatGPT: o que é e quais são seus impactos (via Lucas Wendt)*

07.mar.2023. Portal Deviante (Michelle Mantovani): Química Verde, Sustentabilidade e o ChatGPT

08.mar.2023. Portal Deviante (Andre Trapani): Descomplicando a ciência: como o Chat GPT pode te ajudar a entender tudo sobre tecnologia, inovação e muito mais!

08.mar.2023. Portal Deviante (Lênin Machado Lopes): A ciência de alimentos e o ChatGPT

10.mar.2023. Portal Deviante (Andre Trapani): O chat GPT e o futuro

13.mar.2023. Portal Deviante (Samantha Martins): O ChatGPT no planejamento de aulas de Geografia

Podcasts:

14.fev.2023. Dragões de GaragemChatGPT #261

Vídeos:

11.ago.2020. Peixe Babel (Camila Laranjeira/Virginia Mota): Essa Inteligência Artificial Sabe TUDO? | Conheça a GPT-3

17.ago.2020. Peixe Babel (Camila Laranjeira/Virginia Mota): Neurocientista comenta Inteligência Artificial #GPT3 

14.jun.2021. Peixe Babel (Camila Laranjeira/Virginia Mota): Conversando com uma I.A. | O que a GPT-3 sabe fazer?

30.jan.2023. Universo Discreto (Lucas Lattari): Entenda como ChatGPT funciona de maneira SIMPLES! 🤖

31.jan.2023. Manual do Mundo (Iberê Thenório/Mari Fulfaro): Colocamos Inteligência artificial pra fazer ENEM: Olha no que deu!

07.fev.2023. Universo Discreto (Lucas Lattari): O impacto de ChatGPT no trabalho ()e na educação

24.fev.2023. Ponto em Comum (Davi Calazans): como o ChatGPT vai ROUBAR seu EMPREGO! (e você vai gostar)

09.mar.2023. Prazer, Karnal (Leandro Karnal): Leandro Karnal desafia o ChatGPT

21.mar.023. Universo Discreto (Lucas Lattari): ChatGPT faz TCC? O segredo para a formatura perfeita! 

27.mar.2023. Atila IamarinoEste vídeo não foi feito pelo ChatGPT

25.jul.2023. Chutando a EscadaChute 314 – Papagaios probabilísticos e alucinações

*Upideite(29.mar.2023): incluído a esta data.

terça-feira, 7 de março de 2023

Como é que é? - Aranha-armadeira é a aranha mais letal do mundo?

No twitter, o Iberê Thenório, do Manual do Mundo, questionou uma reportagem sobre a captura de um exemplar de aranha-armadeira em uma cidade catarinense.

O título original da reportagem parece ter sido: "Aranha mais letal do mundo é capturada em casa em Santa Catarina".

O título atual é "Aranha com veneno mais letal do mundo é capturada em casa em Santa Catarina".

E no primeiro parágrafo da reportagem está escrito: "Foi capturada em uma casa em Vitor Meireles (270 km de Florianópolis) uma aranha-armadeira —considerada a mais perigosa do planeta, segundo informes do Instituto Butantan."

Antes de mais nada, como notado por Iberê, o encontro de aranhas-armadeiras é algo bastante comum - mesmo que seja uma aranha perigosa (e logo analisaremos se é mesmo a "mais perigosa", "mais letal", com "veneno mais letal" e as diferenças dessas expressões") - a ponto de ser bastante questionável o alarde do título da notícia - e mesmo se merece ser notícia. Meio como publicar uma notícia como: "Encontrado o mosquito mais letal no mundo em casa de Santa Catarina [ou qualquer outro local do Brasil]" para se referir a focos de Aedes aegypti.

Um segundo ponto a se notar é que, apesar do título sensacionalista, a reportagem em si acaba prestando um bom serviço ao enfatizar o modo como o caso foi solucionado: chamaram-se os bombeiros, a aranha foi capturada com segurança e depois solta em local em que teria menos chances de causar problemas a alguém. Armadeiras têm um papel importante tanto como predador de pequenos vertebrados (como rãs e sapos) quando como presa de outros vertebrados (como quatis e gambás) e invertebrados (como vespas caçadoras).

Mas é motivo para alarde? Não. Embora, sim, a picada seja um acidente grave e que mereça cuidados médicos - o paciente deve ser levado rapidamente a uma unidade de saúde -, a letalidade é baixa. Pelo boletim epidemiológico no. 31 v. 53 de agosto de 2022, da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, dos casos registrados de 2017 a 2021, dos 23.016 casos de acidentes com a armadeira, houve 11 mortes, uma taxa de letalidade de 0,05%. Ela é menor do que a taxa de letalidade da aranha-marrom: de 0,09% e da viúva-negra: de 0,12%. Então, certamente não é a aranha mais letal do mundo.

Seria o veneno dela o mais letal do mundo? Aí teríamos que comparar a dose necessária para causar um dado nível de letalidade. Um padrão para compostos tóxicos é a dose letal 50 (DL50), que é a dose que provoca a morte de 50% dos organismos em que foi aplicado. Certamente não é algo que se faça em humanos experimentalmente: normalmente se utilizam organismos modelos como ratos e camundongos. (Eventualmente é possível se calcular em humanos se houver registros adequados de acidentes, mas é bastante complicado avaliar qual a dose injetada, por exemplo.).

Em camundongos, a DL50 do veneno da armadeira da espécie Phoneutria nigriventer foi de 0,63 mg de veneno/kg de massa corporal do roedor para aranhas fêmeas e 1,57 mg/kg para veneno de machos (em injeção intravenosa). (Herzig et al. 2002.) Já para a aranha-marrom da espécie Loxosceles similis, a DL50 para camundongo foi estimada em 0,32 mg/kg. (Horta 2012.) Isto é, com uma dose que é a metade da armadeira, o veneno da marrom causa estrago equivalente entre camundongos.

Então, tampouco a armadeira teria o veneno mais letal entre as aranhas. (Não necessariamente que a marrom teria, então, o veneno mais letal que todas as outras aranhas.)

Considerando o total de casos, no Brasil, tampouco a armadeira é a que causa mais mortes. Pelo boletim epidemiológico no. 31 v. 35, no período analisado foram 11 mortes no total atribuídas às picadas de armadeiras, contra 37 mortes atribuídas aos casos com aranhas marrons.

A reportagem cita como fontes o Instituto Butantan e algum artigo não especificado da revista Nature. Não cheguei a fazer uma busca mais aprofundada de se, de fato, textos do Butantan e na Nature fazem essas afirmações a respeito da armadeira. Se o fizeram, como indicado pelos números acima, estarão errados.

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Upideite(07.mar.2023): Claro que a análise aqui está restrita ao Brasil. Então, o número total de casos será diferentes e possivelmente os números relativos a esses totais (mas suspeito que as aranhas do gênero da viúva-negra, de distribuição mundial mais ampla estarão na frente nesse quesito). A DL 50, porém, não deve ser afetado por isso. A letalidade da picada pode variar com as condições locais e da susceptibilidade da população (idade, estado nutricional e existência de atendimento médico adequado nas imediações, p.e.), mas não deve ser tão diferente assim.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Divagação Científica - divulgando ciências cientificamente 40: efeito de comunicação estática e dinâmica em mídias sociais

Habibi SA & Salim L 2021. Static vs. dynamic methods of delivery for science communication: A critical analysis of user engagement with science on social media. PLoS ONE 16(3): e0248507. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0248507

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As autoras analisaram o efeito de estratégias de comunicação dinâmica e estática na interação de postagens de conteúdos científicos no Instagram e Tik Tok.

No Tik Tok, foram avaliadas as interações com três tipos de vídeos, totalizando 40 publicações:
- vídeos longos (40 a 60 segundos de duração) do tipo aula, em que conceitos científicos específicos eram explicado primariamente por meio da fala;
- vídeo curtos (~15 segundos de duração) do tipo aula, com explicações dadas como fatos rápidos;
- vídeos longos (40 a 60 s) experimentais, como demonstrações práticas e série de passos de experimentos.

No Instagram, foram dois tipos de publicações, totalizando 20 postagens:
- imagens estáticas: fotos dos pesquisadores no laboratório;
- vídeos dinâmicos: experimentos executados em ritmo rápido fora do ambiente de laboratório.

Ambos os tipos são acompanhados de descrições de 200 a 400 palavras com mais detalhes sobre o tema científico relacionado.

Os parâmetros de interação levantados foram: total de visualizações por postagem/vídeo; número de curtidas; número de comentários; número de compartilhamentos; porcentagem da duração total do vídeo assistida; número de salvar da postagem.

Tabela 1. Resultados obtidos de parâmetros de interação de publicações por tipo de conteúdo de ciências no Tik Tok e Instagram. (* - significativamente maior a alfa=0,05 do que os demais valores no mesmo grupo: mesmo parâmetro na mesma plataforma.)

Plataforma Tipo de conteúdo Visualizações totais (média)
Curtidas
(% de visualizações totais)
Comentários
(% de visualizações totais)
Compartilhamentos
(% de visualizações totais)
Tempo de visualização
(média de % da duração total)
Salvar
(% de visualizações totais)
Tik Tok aula longa 29576 9,86 0,39* 0,16 28,10 nd
aula curta 55914 10,74 0,22 0,16 68,85* nd
experimental longo 248819* 13,04 0,20 0,33* 48,62 nd
Instagram estático 14834 7,56 0,32 0,24 nd 0,36
dinâmico 14598 9,04 0,72 2,27* nd 1,87*

No Tik Tok:
- caso o objetivo seja alcançar o maior número de pessoas, vídeos experimentais têm mais chances de obter resultados melhores;
- para uma visualização mais completa, vídeos curtos de até 15 segundos têm maior retenção;
- para uma maior interação com comentários, vídeos de aulas mais longos de cerca de 40 a 60 segundos;

No Instagram:
- postagens de vídeos têm melhores resultados, em particular, em termos de compartilhamento.

Entre Tik Tok e Instagram:
- os vídeos têm mais alcance no Tik Tok, mas maior interação no Instagram.

limitações:
- as publicações foram feitas em perfis preexistentes (a conta no Instagram tinha já cerca de 2 anos e a do Tik Tok, 5 meses, no início da avaliação);
- o estudo foi feito durante o auge da pandemia de covid-19, em 2020, o que pode ter levado a um número excepcionalmente grande de acessos;
- os algoritmos de entrega das plataformas são diferentes, os perfis dos públicos não são necessariamente iguais

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Divagação Científica - divulgando ciências cientificamente 39: efeito de treinamento

Rubega, MA, Burgio, KR, MacDonald, AAM, Oeldorf-Hirsch, A, Capers, RS, & Wyss, R. 2021. Assessment by Audiences Shows Little Effect of Science Communication Training. Science Communication, 43(2), 139–169. doi.org/10.1177/1075547020971639

Parte dos autores criaram um curso de comunicação pública de ciências (CPC) voltado para alunos da área de STEM - ciência, tecnologia, engenharia e matemática - (cerca de 10 por período) e de jornalismo (outros 10 alunos). A duração do treinamento foi de 4 meses. O primeiro mês dedicado à introdução à área de CPC com leituras e discussões. Os três meses seguintes foram de atividades práticas, incluindo entrevistas dos alunos de STEM para os colegas de jornalismo e análises dos vídeos das entrevistas e dos textos produzidos a partir delas. Antes e depois do curso, os estudantes gravaram um depoimento de até 3 minutos para a pergunta “como o processo científico funciona?”, tema que não era abordado no curso.

Como grupo controle foram recrutados estudantes da mesma universidade de áreas correlatas, que gravaram depoimentos sem passarem pelo treinamento.

Os vídeos com as explicações foram avaliados por outros alunos de graduação. 16 itens foram avaliados em pontos de 1 (“discordo totalmente”) a 7 (“concordo totalmente”) sobre três características: clareza (p.e. “a apresentação foi clara”), engajamento (p.e. “a pessoa parece entusiasmada com o tema”) e credibilidade do depoente (p.e. “a pessoa parece conhecer do assunto”). (Tabela 1.)

Tabela 1. Itens de avaliação dos vídeos (pontuados de 1 a 7).

categoria número item
clareza 1 a apresentação foi clara
2 foi fácil de acompanhar a apresentação
3 o(a) apresentador(a) usou de termos confusos
4 eu me senti confuso(a) em um ou mais pontos da apresentação
5 o(a) apresentador(a) usou de exemplos e/ou analogias para melhorar minha compreensão da informação
6 eu me distraí com a falta de fluência do(a) apresentador(a) (p.e. pausa, gaguejada, repetições, etc.)
engajamento 7 o(a) apresentador(a) parece entusiasmado(a) com o tema
8 o(a) apresentador(a) prendeu minha atenção
9 estou mais interessado(a) no assunto após assistir à apresentação
10 quero saber mais sobre o assunto
11 o(a) apresentador(a) usou de comunicação não-verbal (e.g. expressões faciais, gestos, linguagem corporal) que melhorou a apresentação
12 eu me distraí com a comunicação não-verbal do(a) apresentador(a) (e.g. expressões faciais, gestos, linguagem corporal)
credibilidade 13 o(a) apresentadora parece conhecer do assunto
14 o(a) apresentador(a) é simpático(a)
15 o(a) apresentador(a) faz o assunto parecer importante
16 o assunto é relevante para meus interesses

Os itens 3, 4, 6 e 12 tiveram a pontuação revertida na análise.

Após o curso, os trainees tiveram a seguinte avaliação:
- clareza: externa - média 4,73±0,81 (mediana: 4,76); autoavaliação: 5,53±0,97 (5,60);
- engajamento: 3,56±0,65 (3,40); 5,32±0,94 (5,37);
- credibilidade: 4,41±0,70 (4,30); 5,91±0,78 (5,95). 

Tanto no grupo teste quanto no controle, o segundo vídeo teve uma melhor avaliação do que o primeiro. Mas os alunos do curso tiveram uma melhora maior. Ainda assim o incremento foi de menos de 1 ponto na escala utilizada: a maior parte ficou entre 0,25 e 0,5 ponto de aumento antes e depois das aulas. (Fig 1.)

6 painéis de desempenho: 3 de alunos do curso e 3 de controle - nas dimensões de “clareza”, “engajamento” e “credibilidade”, cada painel exibe a nota mediana de um dos 16 itens do questionário. No painel de alunos do curso na dimensão “clareza”, as notas vão de cerca de 3,5 a 5 para cerca de 3,75 a 5,5; entre as pessoas do controle, a variação vai de cerca de 3,5 a 5 para cerca de 3,6 a 5,25. Na dimensão “credibilidade” as notas são similares. Na dimensão “engajamento” o padrão é similar, mas com notas mais baixas.

Figura 1. Evolução da avaliação do desempenho de comunicação em função do treinamento/tempo. 

Os autores também discutem a possibilidade de o instrumento de avaliação utilizado poder não ser o mais adequado para captar a qualidade do comunicador - houve uma grande variação nas pontuações, o que pode indicar que o que se entende por uma “boa comunicação” varia muito de pessoa para pessoa, tornando a tarefa de se avaliar o desempenho do comunicador bastante complexa.

Os autores notam também a grande diferença de desempenho entre as avaliações feitas por terceiros e as notas de autoavaliação - nestas últimas, o efeito do curso foi bem maior, com aumento de 1 a 2 pontos. Para os autores isso indica a necessidade uma avaliação externa e não apenas de autoavaliação dos alunos para se medir o impacto do treinamento em CPC.

Um curso de maior duração teria maior efeito? Mais oportunidade de os alunos treinarem e receberem feedback (duas vezes no curso) permitiria um desenvolvimento mais visível?


Upideite(11.jan.2023): Um artigo um pouco mais otimista sobre os efeitos de treinamento em DC.

Capers, RS et al. 2022. What Did They Learn? Objective Assessment Tools Show Mixed Effects of Training on Science Communication Behaviors. Front. Commun. 6: art. 805630.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Divagação Científica - divulgando ciências cientificamente 38: incertezas

Gustafson, A & Rice, RE. 2020. A review of the effects of uncertainty in public science communication. Public Understanding of Science, 29(6), 614–33. doi.org/10.1177/0963662520942122

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Abel Gustafson, da Universidade de Yale, e Ronald Rice, da Universidade da Califórnia, ambas dos Estados Unidos, fizeram uma revisão da literatura sobre os efeitos que a menção a incertezas nas mensagens ao público não-especializado tinha em vários parâmetros de confiança, persuasão e comportamento.

Tipos de incertezas:

  • Deficitária: incerteza comunicada com frequência como conhecidas lacunas no conhecimento. Por falta de pesquisa na área, pelo problema não poder ser desvendado nem em princípio ou pela expansão do universo do problema ('cada resposta gera múltiplas novas questões'). Ex. "...embora muitas coisas ainda não sejam conhecidas e mais pesquisas sejam necessárias".
  • Técnica: erros de medida, aproximações de modelos, pressupostos estatísticos... Exs. amplitude(range): 7-15 cm; probabilidade: 65% de chance; estimativas com intervalos de confiança e barras de erro...
  • De consenso: (in)certeza em torno de uma teoria, descoberta ou previsão dada pelo acordo/desacordo coletivo a respeito delas - seja por grupos de interesse (cientistas, representantes do governo, público...), seja pelo corpo de evidências. Similar os conceitos coloquiais de "desacordo", "conflito" ou "controvérsia". Ex. "99% dos estudos publicados em revistas indexadas e revisadas por pares concluem que há um aquecimento global antropogênico em curso".
  • Da ciência: todo conhecimento científico, em princípio, pode ser modificado por descobertas futuras. Ex. "estas informações representam os melhores dados disponíveis no momento, mas as coisas podem mudar no futuro".

Tipos de efeitos:

  • negativos: efeitos que reduzem a confiança nas ciências - aumento de dúvida sobre segurança de vacinas, menor percepção de credibilidade de pesquisa, menor intenção de se adotar comportamentos saudáveis, redução na própria certeza sobre algo, menor confiança na fonte da mensagem...
  • positivos: efeitos que aumentam a confiança nas ciências - aumento da percepção de credibilidade de jornalistas e cientistas, aumento da crença na certeza dos cientistas sobre a ausência da relação entre vacinas e autismo, redução da crença no desacordo entre os cientistas, pessoas com atitudes mais negativas em relação aos OGMs passam a ser mais favoráveis a propostas de aplicação de OGMs, aumento na confiança nos cientistas, aumento da percepção da certeza dos cientistas quanto à realidade do aquecimento global...
  • nulos: ausência de efeitos significativos (aumento ou redução) em crenças, confianças, apoio, percepção de perigo, etc...

Resultados:

  • A comunicação de incertezas de consenso se associa mais a resultados de efeitos negativos;
  • A comunicação de incertezas técnicas não apresenta efeitos negativos, variando de efeitos positivos a nulos;
  • A comunicação de incertezas deficitárias e da ciência têm efeitos variados entre os estudos: negativos, positivos e nulos;
  • As incertezas podem levar a vieses de confirmação e raciocínio motivado (em que a pessoa argumenta com a intenção de provar um ponto pré-estabelecido) de acordo com a existência de visões de mundo e opiniões sobre o tema prévias;
  • A (des)confiança na ciência e nos cientistas interferem nos efeitos das incertezas: entre os que confiam na ciência, o relato de um alto nível de consenso entre especialistas sobre uma política ambiental se associa a um maior apoio a essa política, enquanto que, entre os que não confiam na ciência, isso tende a ter um efeito de menor apoio (talvez por aumentarem a percepção prévia de existência de uma conspiração);
  • Entre os que enxergam a ciência como um empreendimento que sempre está sujeito a algum nível de incerteza, a comunicação de incertezas tende a ter efeitos mais positivos; já entre os que enxergam a ciência como reveladora de verdades absolutas, isso tende a ter efeitos mais negativos;
  • Temas podem afetar o efeito da comunicação de incertezas: p.e. a incerteza de consenso parece afetar o resultado da comunicação de aquecimento global, mas não de rotulagem de OGMs e perigos de maquinários.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Alfabetização científica ou letramento científico?

>Laugksch, RC. 2000. Scientific literacy: a conceptual overview. Science Education 84(1): 71-94.

Interpretações da palavra letrado/alfabetizado ('literate'):

Instruído ('learned'): conhecer sobre fatos científicos e processos, valor do próprio conhecimento científico (conhecimento pelo conhecimento);
Competente ('competent'): contexto em que o cientificamente letrado precisa operar ou desempenho de atividades e funções específicas: ler uma notícia científica no jornal, resolver problemas práticos sobre alimentação, saúde e habitação, pensar de modo crítico e independente em questões envolvendo lógica, quantificação, evidências... (conhecimento aplicado em situações específicas);
Minimamente funcional como consumir e cidadão ('able to function minimally as consumer and citizen'): usar a ciência para uma melhor tomada de decisão no dia a dia (conhecimento aplicado na melhora da qualidade de vida);

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>Roberts, DA. 2007. Scientific literacy/science literacy.  In S. K. Abell & N. G. Lederman (eds.) Handbook of research on science education. Lawrence Erlbaum Associates. 1345 pp. Pp. 729–80.

>Roberts, DA & Bybee, RW. 2014. Scientific Literacy, Science Literacy, and Science Education. In Lederman, NG & Abell, SK (eds.) Handbook of research on science education vol. II. Routledge. 970 pp. Pp: 545-58

Visão I: estudante como um cientista novato; objetivo de dominar o básico da ciência para poder encarar material mais avançado; um olhar para dentro da própria ciência (nos cânones das ciências naturais ortodoxas), para os produtos e processos da ciência - aquisição de conhecimento sobre ciências dentro da própria ciência.

Visão II: estudante como cidadão; ênfase nos componentes científicas nos fenômenos do dia a dia; aquisição de conhecimento sobre ciências em situações em que considerações além da ciência são também importantes - olhar para a ciência a partir de fora.

As visões I e II são extremos de um contínuo de posicionamentos sobre a importância do letramento científico.

"science literacy"->visão I;
"scientific literacy"->visão II;

Relações com: "la culture scientifique" (Canadá francófono), "public understanding of science" (em declínio - consideram que PUS implicaria em um público e uma compressão homogêneos)/"public engagement of science" (Reino Unido). ["scientific temper" (Índia)]

[Nessa distinção entre "science literacy" e "scientific literacy", proponho "letramento para a ciência" no primeiro caso e "letramento sobre ciência" no segundo.]

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>Cunha, RB. 2017. Alfabetização científica ou letramento científico?: interesses envolvidos nas interpretações da noção de scientific literacy.  Rev. Bras. Educ. 22 (68).

Literacy: alfabetização vs letramento

alfabetização: saber ler e escrever - ruptura entre os que sabem ler e escrever (alfabetizados) e os que não sabem (analfabetos);
letramento: uso efeito da escrita e leitura nas práticas sociais - contínuo de níveis de complexidade do uso da escrita.

"Enquanto os que tratam de alfabetização consideram fundamental o ensino de conceitos científicos, os que optam por letramento priorizam, no ensino, a função social das ciências e das tecnologias e o desenvolvimento de atitudes e valores em relação a elas." (Cunha 2018)

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>Sasseron, LH & Carvalho, AMP 2011. Alfabetização científica: uma revisão bibliográfica. Investigações em Ensino de Ciências – V16(1), pp. 59-77.

Alfabetização científica: Paulo Freire "alfabetização é mais que o simples domínio psicológico e mecânico de técnicas de escrever e de ler. É o domínio completo destas técnicas em termos conscientes. [...] Implica numa autoformação de que possa resultar uma postura interferente do homem sobre seu contexto".

Enculturação científica: permitir que os alunos façam parte de uma cultura em que noções e conceitos científicos são parte do corpus (ao lado de outros aspectos: religião, arte, história...)

Letramento científico: Kleiman & Soares (1998) definem letramento como 'resultado da ação de ensinar ou aprender a ler e escrever: estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita"

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[No fim acaba sendo escolha ao gosto do freguês. Particularmente acho interessante a proposta de fazer uma distinção entre os termos, na medida em que temos expressões diferentes e há nuances a se cobrir.]

sábado, 26 de novembro de 2022

Gene Repórter ano 15

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Hoje se completam 14 anos da primeira postagem no blog. Em comemoração, a equipa do GR lança um boletim - sem periodicidade definida - compilando algumas informações a respeito do universo da Divulgação Científica: o Coaxo Caixeiro Coaxo Caixeiro*.

Em sua primeira encarnação, deve contar com anotações de algum artigo de pesquisa em DC, indicações de projetos interessantes, agenda de eventos na área, glossário da DC e coisas correlatas. Ao longo do tempo, se houver fôlego para continuar, a formatação e o tipo de conteúdo deve evoluir - para atender melhor à demanda do público - se algum houver - do boletim e à capacidade da equipa editorial.

*Upideite(26.dez.2022): Como o Revue será descontinuado pelo twitter, migrei o boletim para o Substack.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Ver pra crer? A retórica dos diferentes estilos de mapas

Em um trabalho publicado em 2012, o cartógrafo Ian Muehlenhaus, da University of Wisconsin, examinou os efeitos que diferentes modos de apresentar informações em mapas tinham sobre a percepção das pessoas. Os estilos cartográficos utilizados foram o de autoridade, discreto, propagandista e sensacionalista.

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De autoridade (authoritative): estilo de visualização científica, segue as normas acadêmicas para gráficos e mapas. Exemplo de uso: maioria dos mapas produzidos por órgãos governamentais com fins de legais e de subsídio a políticas públicas. (Fig. 1.)

Fig 1. Exemplo de mapa de autoridade. Muehlenhaus 2012.

Discreto (understated): estilo minimalista; dados são simplificados e em pequena quantidade, mostrados de modo básico, deixando de lado nuances e informações adicionais; a aparência é limpa e sem texturas. Exemplo de uso: maioria dos mapas vetoriais da Wikipédia. (Fig. 2.)


Fig 2. Exemplo de mapa discreto. Muehlenhaus 2012.

Propagandista: os dados são apresentados de modo altamente enviesado (ainda que possam ser cartograficamente adequados) com ênfase no extremo da hierarquia visual para que a mensagem não seja perdida. Textos com palavras fortes são usados nos títulos, legendas e outros locais do mapa. Exemplo de uso: mapas governamentais divulgados para angariar apoio da população para os esforços contra o inimigo durante a Segunda Guerra Mundial. (Fig. 3.)

Fig 3. Exemplo de mapa propagandista. Muehlenhaus 2012.

Sensacionalista: combina a sobrecarga de informações de um mapa de autoridade com o viés de apresentação do mapa propagandista. Exemplos de uso: ilustrações acompanhando peças publicitárias. (Fig. 4.)

Fig 4. Exemplo de mapa sensacionalista. Muehlenhaus 2012.

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Um mapa de cada estilo foi produzido representando os níveis de radiação em diferentes áreas dos Estados Unidos que seriam atingidas em um hipotético acidente nuclear em uma usina no estado de Washington. Voluntários visualizavam os mapas e respondiam a um questionário online que avaliou: 1) a crença nos dados mostrados nos mapas; 2) o impacto dos mapas nas visões pessoais sobre a energia nuclear; 3) a confiança nos mapas; 4) a preferência sentimental pelos mapas e 5) o quão memoráveis eram os mapas. As questões dos itens 1 e 2 foram respondidas após os voluntários verem um dos quatro tipos de mapa; as de 3 a 5 após verem os quatro tipos de mapa.

Das 112 respostas válidas, cerca de 2/3 eram de homens e 1/3 de mulheres. E cerca de 80% eram jovens de 18 a 25 anos. 8% eram extremamente contrários à energia nuclear, 18% contrários, 18% um pouco contrário; 20% indiferentes; 25% um pouco a favor e cerca de 11% a favor. Não houve nenhum que se declarasse extremamente a favor.

A crença em que a região em que o respondente morava seria atingida no caso do hipotético acidente foi similar aos que viram os mapas do tipo: discreto, sensacionalista e de autoridade; mas a crença de "certeza absoluta" chegou a 60% entre os que viram o mapa propagandista, contra cerca de 20 a 27% entre os que viram outros estilos de mapa. Em todos os tratamentos houve um aumento da posição de oposição à energia nuclear. Em ordem crescente de aumento da oposição: de autoridade, discreto, propagandista e sensacionalista.

65% dos respondentes consideraram estilo de autoridade como o mais confiável, seguido do sensacionalista: 23%, discreto: 7% e propagandista: 5%. 36% gostaram mais do de autoridade, 26% do sensacionalista, 20% do propagandista e 18% do discreto. 46% consideraram que o tipo propagandista era o mais memorável, 28% o discreto, 14% o sensacionalista e 12% o de autoridade.

Em relação à retórica dos mapas, Muehlenhaus conclui que:

  1. "O feio é memorável." Mapas com design desagradável mais provavelmente se fixam por mais tempo na memória.
  2. "O viés é atrativo." Mapas apresentação de dados mais ostensivamente enviesados são mais bem apreciados.
  3. "Ignorância é confiança." Mapas com menos detalhes e menos dados são mais convincentes para a maioria dos leitores.

Referência

Muehlenhaus, I. 2012. If Looks Could Kill: The Impact of Different Rhetorical Styles on Persuasive Geocommunication, The Cartographic Journal 49(4): 361-375, DOI: 10.1179/1743277412Y.0000000032

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Upideite(17.nov.2022): Há, claro, algumas limitações em relação ao estudo. Não apenas a restrição do fato de amostra não ser aleatória nem representativa (as repostas das mulheres, p.e., são diferentes das respostas dos homens e há um viés de maior participação de homens entre os voluntários, além da maior concentração etária na faixa dos jovens adultos em relação à população em geral); mas a natureza do questionário é de autoavaliação. P.e., o fato de as pessoas dizerem que algo é memorável, não quer dizer necessariamente que esse algo será o mais lembrando depois de um tempo. Isso seria um ponto a se testar.

domingo, 19 de setembro de 2021

Como é que é? - Houve um aumento da Divulgação Científica com a pandemia? R: Parece que sim, a se ver.

É quase um lugar comum nas discussões a respeito da Divulgação Científica (p.e. aqui) que, durante a pandemia de covid-19, houve um aumento nos projetos de DC, em particular de perfis nas mídias sociais - em boa medida, seria para saciar a necessidade da população por informações confiáveis sobre a doença.

Fiz um levantamento incompleto que pode ajudar a responder se tal percepção de aumento da intensidade das atividades de DC e do número de divulgadores corresponde à realidade ou se é apenas uma impressão.

Busquei por perfis brasileiros no twitter relacionados à divulgação das ciências por meio de palavras chave como "divulgação científica", "divulgador científico", "divulgadora científica", "divulgação de ciências", "jornalista científico" e outros correlacionados - além de acrescentar ao resultado alguns que não usam nenhum termo específico que se possa relacionada à DC, mas que sei que tuitam sobre ciências para o público não-especialista, e também alguns perfis que constam em outras bases de mídias sociais de atores de DC (em particular o Diretório de Divulgadores Científicos).

 

Figura 1. Ano de ingresso no twitter de perfis relacionados à Divulgação Científica.

Nota-se, de fato, um grande pico correspondente ao ano 2020 (Fig. 1). Se destrincharmos a entrada em meses para os anos de 2019 a 2021, temos um pico no mês de abril de 2020 - pouco depois da declaração pela OMS de pandemia de covid-19 (Fig. 2).

 

Figura 2. Mês de ingresso de perfis relacionados à Divulgação Científica no twitter entre 2019 e 2021 (até meados de setembro).

Não dá para cravar, mas é um bom indício de que houve, sim, uma entrada de novos atores em decorrência da pandemia. Para saber se para preencher o espaço informativo a respeito da doença seria preciso uma análise mais detalhada do conteúdo divulgado por esses perfis (alternativamente, ainda que não de modo mutuamente excludente, poderia ser p.e. em decorrência da suspensão das atividades presenciais - o uso de mídias sociais poderia ser um meio de manter contatos durante a suspensão inicial das aulas e atividades de pesquisa)*.

Bom ter em mente que a época de ingresso não corresponde necessariamente ao início das atividades de comunicação pública da ciência pelos perfis, mas pode ser um proxy no conjunto. A suposição também é de que a busca, embora certamente não captando todos os perfis e talvez nem mesmo a maioria deles, gere uma amostra representativa do universo de divulgadores no twitter. E, por fim, há a suposição de que o padrão encontrado no twitter valha para outras mídias também: blogs, facebook, youtube, whatsapp, tiktok, etc. Seria preciso um levantamento sistemático também nas demais redes sociais, portanto, para se ter uma ideia mais completa. (O mais correto seria aplicar um tratamento estatístico adequado, mas considero que a análise meramente visual aqui seja suficiente para os propósitos.)

O tamanho amostral obtido até o momento é de 404 perfis que se dividem entre perfis pessoais (236 no total), projetos de grupo (perfis de iniciativas conduzidas por duas ou mais pessoas; 48), projetos institucionais (perfis de iniciativas relacionadas a instituições de pesquisa e ensino, incluindo grupos de pesquisa, centros, projetos acadêmicos, etc.; 47), projeto individual (perfis de iniciativas conduzidas por apenas uma pessoa), perfis comerciais (de lojas e outros empreendimentos que comercializem produtos e serviços como camisetas personalizadas de temática científica; 6) e um certo número de perfis sem informações suficientes para se incluir nas categorias anteriores (26).

O interessante é que parece haver um declínio da entrada de novos perfis após o pico de 2009 - em uma certa emulação da possível crise de blogs de ciência após um pico entre os anos de 2009 e 2010. Uma das hipóteses da queda de atividade dos blogs de ciência era de que haveria uma migração para outras mídias, mas, ao menos neste caso do twitter, parece que o ritmo também diminuiu nas demais formas de comunicação na internet. A crise pode ter sido mais geral e não meramente concentrada nos blogs. Há uma aparente retomada de ingresso de novos perfis de DC no twitter a partir de 2013 a 2014, o que coincidiria com o início da crise política no país e, sobretudo, nos cortes sucessivos nos investimentos em C&T no país. Poderia ter havido um incentivo para os cientistas buscarem as redes para defender a ciência. Um aumento em 2019 poderia estar ligado a razão similar, somado a uma intensificação do ataque à academia desde as eleições presidenciais no ano anterior por parte de integrantes do governo eleito.

Pode valer um levantamento mais abrangente - incluindo também perfis de outros temas não ligados às ciências - para se testar essas possibilidades.

Upideite(20.set.2021): Um padrão de pico e declínio não é observado, p.e., nos podcasts brasileiros de ciência - mas se deve levar em conta que, entre o período de 2009 e 2010, ainda eram poucos. Nota-se uma grande aceleração entre 2018 e 2020. Mas pode-se dizer que, desde os primeiros podcasts de ciência brasileiros por volta de 2008, a mídia vem experimentando um crescimento exponencial (equação não mostrada aqui). A figura abaixo representa o padrão obtido a partir de uma base de 131 podcasts (os números exatos dos segmentos ativos, inativos/extintos precisam de atualização).

 

*Upideite(23.set.2021): A equipe do Science Pulse fez uma análise dos tweets compartilhados por cientistas em sua base e identificou que picos correspondiam a eventos importantes durante a pandemia - como o início da vacinação contra a covid-19. É um reforço à hipótese de aumento da DC durante a pandemia para preencher uma necessidade de comunicação sobre a doença. Embora, claro, também com suas limitações - quem os cientistas estão alcançando? que linguagem estão usando? Poderia ser uma comunicação com outros técnicos, por exemplo.

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