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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Olha a cabeleira do Zezé...

G1: Descoberto aminoácido, elemento fundamental para a vida, em um cometa
Estadão: Descoberto ingrediente da vida em poeira de cometa
Último Segundo: Astrônomos encontram agente "formador da vida" em cometa
Google Notícias: Descoberta em cometa molécula básica à vida
Folha Online: Nasa descobre substância para formação de vida em amostras de cometa
Agência Fapesp: Cometa tem aminoácido

De longe, o mais sóbrio, preciso e correto é o título da Agência Fapesp. Sim, descobriram moléculas de glicina em meio à poeira desprendida por cometas. A pergunta que devemos fazer é: e daí?

Mas antes de prosseguirmos. Agente formador da vida é um termo errôneo - um agente formador é algo que ativamente conduz um processo, glicina - importante o quanto seja para a nossa vida - não tem essa propriedade. Elemento *fundamental*? Molécula *básica* à vida? Substância *para formação*? *Ingrediente* da vida? Com exceção do colágeno, a maioria das proteínas contém apenas uma pequena quantidade de glicina - como seria esperado considerando-se o número de códons correspondente ao aminoácido.

E daí? O achado é interessante, foi a primeira vez que observaram um aminoácido em cometas. Em outras tentativas não se conseguiu detectar tal composto. No entanto, seguem-se afirmações do tipo: "Encontrar glicina em um cometa apoia a ideia de que os blocos básicos da vida são prevalentes no espaço e reforça o argumento de que a vida no Universo pode ser mais comum do que rara" (declaração de Carl Pilcher à Agência Fapesp).

Bem, bom lembrar que já faz 30 anos (isso mesmo, trinta) que descobriram diversos aminoácidos (incluindo glicina, alanina, ácido glutâmico e vários outros) no meteorito Murchison. No espaço interestelar também já foram detectados aminoácidos, ao menos por meio de análise espectrográficas. Então... a novidade é tão grande assim?

A ideia de que compostos orgânicos estão amplamente espalhados no espaço, então, já era muito bem estabelecida e corroborada. Seria como dizer que os ataques talebãs no Afeganistão apoiam a ideia de que explosivos são perigosos. Até apoiam, mas não era preciso isso para saber que explosivos podem matar.

Agora, será que encontrar aminoácidos em cometas apoia a ideia de que a vida é comum no universo?

Comparando muito mal, é como dizer que o fato de ontem um fulano ter morrido atropelado demonstra que todo corintiano é pobre. *Supomos* que fulano era corintiano e tentamos mostrar que o fato dele ter sido atropelado indica que ele era pobre e com isso dizemos que está corroborada a hipótese de que todo corintiano é pobre.

*Supomos* que a vida se originou a partir de aminoácidos, tentamos mostrar que encontrar aminoácidos em cometa indica abundância deles no universo e com isso dizemos que está corroborada a hipótese de que a vida é abundante no universo.

Para que um indício seja factível de ser chamado como apoio a uma hipótese é preciso que, se se provasse que o indício era impossível de existir ou estar correto, então a hipótese teria que ser falsa. Não é o caso do aminoácido no cometa. Digamos que *não* se encontrassem aminoácidos em cometa, em nenhum cometa, ao contrário, se provassse que é impossível que cometas tivessem aminoácidos - vamos supor, cometas fossem muito frios para permitir qualquer reação de produção de aminoácidos ou a reação com a água sólida danificasse a estrutura do aminoácido, qual a impacto disso na idéia de que a vida é ubíqua no universo? Eu diria que teria um impacto zero - ainda mais com o histórico de que em meteoritos e no espaço interestelar há aminoácidos, não haveria impacto nem mesmo na tese de que compostos orgânicos estão espalhados pelo cosmo.

De outro modo, pensemos no problema de Monty Hall. Depois de pensarmos um pouco, fica claro que o fato de uma das portas ter sido revelada vazia *não* aumenta as chances da porta inicialmente escolhida ter o prêmio - continua sendo de 1/3. Em nenhum momento a porta escolhida inicialmente foi testada - o teste ocorreu entre as outras duas portas, a que não foi aberta, portanto, leva sozinha a probabilidade da outra porta: 1/3 + 1/3 = 2/3. A porta escolhida só aumentaria suas chances para 1/2, se ela também pudesse ser aberta e se mostrar vazia - aí, sim, ao não ser aberta, receberia metade da probabilidade de ganho associada à porta aberta: 1/3 + 1/6 = 1/2. A outra metade, naturalmente, iria para a outra porta que não foi aberta.

Não há como aumentar a probabilidade de estar certa a hipótese de que a vida seja abundante no universo com base no achado.

5 comentários:

abc disse...

Oláá! Gostaria de um email pra contato, por favor! Obrigado!! Abraço

none disse...

Caro, abc,

Obrigado pela visita.

Você pode enviar um email para minha conta no hotmail.com. O nome do usuário é rmtakata.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata, vc tem um gráfico atualizado dos obitos por gripe suina, junto com a sua curva de ajuste?

Estou dando uma disciplina de Metodologia Científica e o seu post me chamou atenção.

Me parece que para um dado ser uma "evidencia a favor" de uma hipotese não é necessário que a negação do dado diminua a probabilidade da hipótese. Evidencia a favor não equivale a corroborar (pelo menos nao no sentido usado por você como sinonimo de demonstrar ou provar).

Existem teorias de que os cometas trazem água para os planetas rochosos. Se além disso trazem aminoácidos, me parece que este fato aumenta sim a probabilidade ou plausibilidade de que cometas catalizem a origem de vida baseada em água e aminoácidos. Vida baseada em outras coisas não entra no raciocínio.

Embora glicina seja um aminoácido pouco importante, encontrar glicina
aumenta a probabilidade de que outros aminoácidos ainda não detetados estejam presentes em cometas.

Talvez nossas diferenças metodológicas tenham origem no fato de que eu seja um Bayesiano e você um empiricista.

A pergunta sobre este dado novo é: ele muda a probabilidade posterior de abundancia de vida na galáxia, ou seja P(Vida|AM,GC) > P(Vida|AM), onde AM é aminoácidos em meteoritos e GC é glicina em cometas. Me parece óbvio que sim...

Eu me lembro de um meu estudante (de doutorado!) que encontrou por ajuste de curvas que uma grandeza caía com x elevado a menos 2,01 e se recusava (por falta de "evidencia empírica", segundo ele) a admitir que o expoente devia ser exatamente 2.

Se dependesse de empirismo, Newton nunca teria afirmado que a força da gravidade cai com o inverso do quadrado da distência, mas sim que o expoente era 2,0 +- 0,1 (pelos dados da época).

Na verdade, Newton fazia hipóteses, e o "hypothesis non fingo" era mais retórica do que metodologia séria...

none disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
none disse...

Salve, Kino,

Eu não sou tão não-bayesiano quanto pensa (até incluo uma visão bayesiana em parte de um ensaio que estou preparando).

O problema da glicina nos cometas é que tanto faz se havia ou não glicina nos cometas: a hipótese "a vida é abundante no universo" é compatível tanto com uma como com outra situação. Podemos falar que ela prevê as duas coisas. E, fazendo uma rápida análise bayesiana, vemos como nessas situações, a probibilidade a priori não muda qualquer que seja o resultado.

[]s,

Roberto Takata

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