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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Por que Voyager-1 é um ótimo nome para uma banda musical?

Notícias sobre a sonda Voyager em diversas publicações:
Voz da Rússia: Voyager deixa o Sistema Solar
Galileu: É oficial: a Voyager 1 saiu do Sistema Solar
Info: Sonda Voyager-1 sai do Sistema Solar
Info: Voyager 1 deixou o sistema solar, diz novo estudo
G1: Sonda Voyager é 1º objeto feito pelo ser humano a deixar o Sistema Solar

Normal, afinal um evento com algum significado - primeiro objeto feito pelo homem a ir para além das fronteiras de nosso sistema solar - chama mesmo a atenção e tenderá a ser coberto por vários veículos.

O problema: as datas. Cada uma dessas notícias são de dias diferentes - e distantes vários meses um dos outros: 16/jun/2012, 25/ago/2012, 21/mar/2013, 16/ago/2013, 12/set/2013. Seriam veículos retardatários a descobrirem só depois um evento ocorrido já há algum tempo?

Imagem: xkcd

Não. Cada uma delas relata um evento distinto. "Distinto?" - coçará, com razão, a cabeça o par de leitores deste blogue (sim, nossa audiência dobrou - agora não temos mais apenas um leitor solitário). "Como pode isso? Quantas vezes algo - que não faz retorno - pode sair de um mesmo sistema?"

"Apenas uma vez", respondo eu. "WTF!" - exclama.

Há vários fatores que parecem ter levado a esta situação.

O limite do Sistema Solar não é bem definido. Não existe uma barreira propriamente física estabelecendo que a partir dali estar-se-á no espaço interestelar. A convenção do limite é de uma região chamada heliopausa - onde haveria uma rápida queda na temperatura das partículas carregadas do vento solar, um grande aumento de partículas do raio cósmico intergalático e mudança na direção do campo magnético (isso de dentro para fora do Sistema Solar)*.

A heliopausa até então nunca havia sido atingida diretamente com instrumentos - era uma construção teórica baseada no que se sabe sobre as interações físicas e propriedades do Sol e da Via Láctea. Suas reais características podiam apenas ser estimadas, havendo espaço para discrepâncias com medidas reais.

Essa variação embora aguda - considerando-se o estado em regiões mais próximas ao Sol - é contínua. Uma detecção de uma rápida queda estabelece a pergunta de a partir de onde considera-se que houve uma queda significativa - já que pode haver flutuação.

A variação desses três fatores - temperatura de partículas carregadas, variação da intensidade dos raios cósmicos galáticos e das linhas do campo magnético não coincidem exatamente no espaço.

Em quinto lugar, é esperada uma variação nessa região limite - conforme, por exemplo, haja uma variação na intensidade do vento solar.

Há uma variação na própria medição - como por limitação de precisão dos instrumentos.

Mas, possivelmente, os dois principais fatores sejam:
1) A imprecisão da comunicação pelos cientistas, incluindo exageros declaratórios;
2) A imprecisão da comunicação pelos meios de comunicação, incluindo sensacionalismos e má compreensão do que ocorreu.

Entre junho de 2012 e março de 2013, as manchetes mais comuns eram mais prudentes. Falavam em estar a sonda na "iminência de deixar o Sistema Solar" ou "próxima ao limite": o que se havia detectado eram a queda do número de partículas solares e o aumento da intensidade dos raios cósmicos, além da conexão entre as linhas do campo magnético solar e do espaço interestelar - mas não a mudança na direção dessas linhas. Os veículos que anunciaram a saída da Voyager-1 se precipitaram.

Alguns veículos voltaram a noticiar a saída da Voyager-1 por volta de julho de 2013. Mas não havia fato propriamente novo, apenas a publicação dos achados do segundo semestre de 2012.

*Agora* há um anúncio *oficial* da Nasa de que, pelas análises dos dados, a Voyager-1 deixou o sistema solar em *agosto de 2012* (por volta do dia 25).

Não me espantaria, porém, se, como aquelas bandas que fazem seu último show de despedida por vários anos, houver futuramente mais um anúncio de outra saída da nave de nosso sistema.

*Upideite(17/set/2013): Outra convenção a respeito dos limites do Sistema Solar é o cosmográfico. Nesse caso, a nuvem de Oort - formada por plaenetesimais orbitando em torno do centro do nosso sistema - é o limite teórico. Para essa nova saídao da Vger-1, a data é de cerca de 30 mil anos no futuro. Tempo para muitas despedidas mais.

*Upideite(26/abr/2014): Mais um quadrinho sobre as saídas da Voyager-1 de nosso sistema. Via Hypercubic fb.


Fonte: Tom Gauld.

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