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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Entrevista com um historiador: Danilo Albergaria

Historiador formado pela Unimep, com especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp e professor da rede pública de Campinas, Danilo Nogueira Albergaria Pereira defendeu recentemente sua dissertação de mestrado (também pelo Labjor/Unicamp) intitulada "A Visão de Ciência Propagada por Carl Sagan".

E é sobre essa pesquisa que o GR entrevistou por email o historiador, a quem agradeço imensamente pela gentileza em responder.

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GR. Como foi seu primeiro contato com a obra de Carl Sagan? Você acompanhou o trabalho acadêmico dele também?

DA. Li meu primeiro livro de Sagan relativamente tarde. Eu tinha uns 18 anos e ganhei de presente do meu pai o livro póstumo Bilhões e Bilhões, que era lançamento. Eu havia lido A Dança do Universo, do Marcelo Gleiser, um livro de que gostei muito. Em discussões sobre esse livro, alguns amigos que já haviam lido Sagan me recomendaram a sua obra. Eu só o conhecia de nome, principalmente pela fama que sua série Cosmos ainda tinha. Meu pai diz que eu assistia à série com ele quando criança pequena mas, claro, não me lembro.

Logo, me apaixonei pela obra de Sagan depois de ele ter morrido e não pude acompanhar seu trabalho acadêmico.

GR. Qual o aspecto que você considera o mais importante do trabalho de divulgação científica de Sagan?

DA. Para mim, há dois aspectos fundamentais.

Primeiro, as obras de divulgação de Sagan consistem na abertura de uma janela para a percepção pública do potencial humanista e democrático contido na abordagem racional científica. Ainda há preconceitos muito arraigados que representam a ciência e a própria racionalidade como formas frias, desumanas ou imorais de resolver os dilemas que encontramos. Ao mesmo tempo, as sociedades modernas estão mergulhadas numa relação de subserviência e reverência à ciência e, por isso, a recepção de suas descobertas e construções teóricas ocorre frequentemente de maneira acrítica e irrefletida. Conta muito para isso a falta de disseminação de informações sobre como o conhecimento científico é produzido, como uma hipótese pode ser testada, como e porque uma teoria atualmente aceita é a melhor opção em comparação com outras. Também são muito pouco exploradas as implicações sociais e políticas da ciência, suas limitações e becos sem saída. Nesse estado de coisas, o público acaba ficando com duas imagens contraditórias e igualmente caricatas da ciência. Muito do que Sagan escreve parece ter o intuito de desfazer esses perigosos mal-entendidos e propor um ponto de vista em que a ciência e a razão emergem como forças libertadoras e emancipatórias, permanecendo como a melhor aposta para a diminuição do sofrimento humano e dos abusos de poder.

O segundo aspecto fundamental é que a clareza da linguagem e o apuro estético dos textos de Sagan continuam insuperáveis na tarefa de despertar nos leitores um sentimento de admiração e êxtase com a realidade descortinada pela ciência, com espantosos fatos – coisas que sabemos com razoável segurança – como a existência de 100 bilhões de galáxias com centenas de bilhões de estrelas, ou o abismo de tempo que nos precede, ou a vida microscópica, ou a genética, ou a energia nuclear. Há quem trate com desdém os conhecimentos científicos, necessariamente falhos, imprecisos e incompletos, sobre esses aspectos da realidade (sem mencionar os outros tantos que serão objetos da ciência no futuro, dos quais sequer podemos fazer ideia)**. Há quem negue a essa visão a capacidade de progredir, de nos permitir saber mais, conhecer aspectos da realidade que ainda ignoramos, aprimorar ou modificar o que já conhecemos. E há quem veja na diversidade de povos e culturas apenas uma sucessão de visões de mundo estanques, sem tradução ou comunicação possível, como se cada visão de mundo codificasse de maneira diferente tudo o que fosse passível de ser conhecido pelo ser humano. Nesse último ponto de vista, cada visão de mundo aprisiona a forma como vemos a realidade, como se habitássemos pequenos aquários. Por isso, para mim, nessa visão a aventura do conhecimento não faz o mínimo sentido. Na visão defendida por Sagan e tantos outros, o mundo é um oceano aberto e a ciência é uma forma eficaz de explorá-lo. Sagan foi responsável por apresentar essa visão e sua estética a milhões.

GR. Que outros autores destacaria e por quais qualidades?

DA. Por mais que, hoje, seja muito fácil criticar Richard Dawkins e desdenhar de sua visão de mundo, sua obra de divulgação é cheia de passagens brilhantes. Dawkins apresenta o ponto de vista materialista neodarwiniano com clareza e estilo difíceis de superar. Os capítulos de abertura de Desvendando o Arco-Íris, por exemplo, são inesquecíveis ao conectar a visão de mundo ateísta à plena possibilidade de satisfação simbólica do indivíduo, e lembra muito os melhores momentos de Sagan.

Os livros e ensaios de Stephen J. Gould, se não superam, chegam a igualar os de Sagan em termos estilísticos e impressionam pela erudição, mas talvez tenham menos penetração no público mais jovem e menos afeito a um estilo ensaístico mais maduro. Seus textos são geniais. Qualquer pessoa interessada em perceber como a ciência nunca existe isoladamente e sempre esteve entremeada por diversas dimensões culturais, morais e religiosas, deveria ler seu livro Seta do Tempo, Ciclo do Tempo. Sob esse aspecto, sua obra tem maior estatura que a de Sagan.

Os livros do Marcelo Gleiser são bem escritos e merecem ser considerados por alguém que queira começar a ter contato com livros de divulgação, como foi o meu caso com A Dança do Universo. Dos que estão tendo destaque há pouco tempo, lembro que Brian Cox faz um trabalho bastante decente na BBC, embora seu tom seja um pouco exagerado em tentar transmitir a admiração com o universo – algo que Sagan fazia com mais naturalidade. Também para a BBC, Jim Al-Khalili fez um excelente documentário sobre cosmologia, Everything and Nothing, e sua abordagem parece destinada a um público mais maduro do que a de** Cox. Neil de Grasse Tyson tem uma forma de falar mais magnética que a de Sagan e transmite um entusiasmo genuíno com a astronomia. Espero ansiosamente por sua continuação de Cosmos. Phil Plait, o Bad Astronomer, é um excelente blogueiro e seu livro Death from the Skies é um dos mais divertidos que li nos últimos tempos. Para qualquer divulgador, escrever bem, com clareza e simplicidade, parece ser um pré-requisito.

GR. Que pergunta você gostaria de ter tido oportunidade de fazer a Sagan? Por quê?

DA. Acho que eu teria perguntado: “se você soubesse que não encontraria evidências de vida extraterrestre durante toda a sua carreira, ainda assim teria se dedicado a pesquisas quase sempre muito próximas ao tema?” O motivo é que ele parece ter (erroneamente) percebido desde cedo que a grande descoberta de seu tempo seria a da vida extraterrestre. Embora o assunto tenha genuinamente motivado Sagan a perseguir uma carreira científica, eu gostaria de saber o quanto seus interesses científicos dependeriam da perspectiva de fazer uma descoberta estonteante ou não. Provavelmente, a resposta seria um meio-termo: ele obviamente tinha um interesse genuíno na questão e, ao mesmo tempo, mirava a descoberta que poderia colocar seu nome na galeria de grandes descobertas da história. Em suma, o desejo de saber não estaria desconectado da vaidade.

GR. Uma pergunta feita por um leitor do GR [reformulei o enunciado, espero não ter distorcido muito a questão - para comparação, ao final desta postagem reproduzo a formulação original da pergunta*]: "A obra de divulgação do Sagan não induz as pessoas a pensarem que a ciência é a única forma de produção de conhecimento válido?"

DA. O que a obra de divulgação de Sagan pode induzir no leitor é a percepção de que a ciência é a melhor forma de produção de conhecimento, não a única. Mesmo assim, na obra de Sagan, ciência é um termo interpretado em sentido bastante amplo. Não há em seus livros uma defesa de alguma idealização ou formulação sintética de algum conjunto de práticas chamado método científico. Simplificadamente, o que ele chama de ciência é um prosaico amálgama de imaginação livre, abertura à crítica e pendor para a experimentação e a observação. A ciência moderna, por exemplo, não aparece como detentora exclusiva dessa maneira de pensar.

GR. E a pergunta mais importante: se Sagan fosse campineiro, ele seria Bugre ou Macaca?

DA. Obviamente, Sagan seria pontepretano. Conhecendo sua postura política, bastaria que ele soubesse a história da Ponte – time pioneiro em aceitar negros num esporte elitista, teve seu estádio erguido com a ajuda dos braços e dos recursos da própria torcida – para que virasse um macaco de alambrado.
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Veja também a palestra de Danilo Albergaria para alunos do curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp proferida no último dia 26/ago/2013.

*Obs: Formulação original da pergunta enviada por Nayton Claudinei Vicentini: "Conheci Carl Sagan ainda muito novo, sua forma de apresentar o conhecimento é surpreendente, mas de certa forma ao assisti a serie cosmos percebi que nela ela deixa claro que a única forma que conhecimento valido é a que tem o crivo científico. Com essa capacidade de comunicação poderia ele nos induzir a acreditar que a ciência é uma forma de conhecimento valido?"

**Upideite(06/seg/2013): Alterações realizadas a esta data a pedido do entrevistado.

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