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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Hiperautoria: crescei e multiplicai

O artigo "Drosophila Muller F Elements Maintain a Distinct Set of Genomic Properties Over 40 Million Years of Evolution" de Wilson Leung et al. 2015 chamou a atenção pelo tamanho do "et al.": com um total de 1.014 coautores. De acordo com a história da seção de notícias da Nature, nos blogues e nas redes sociais foram publicados vários comentários questionando a necessidade e legitimidade de tantos autores relacionados para um mesmo estudo. Como através das redes sociais fiquei sabendo da história publicada na Nature e me vi meio que instado a comentar no blogue, temos uma volta quase completa - faltando apenas um outro artigo multiautoral analisando o episódio.





Segundo o texto na Nature, um dos questionamentos é se realmente é possível acreditar que tanto de gente contribuiu de modo decisivo para a produção do artigo. A Nature lembra que, por exemplo, o artigo sobre a detecção do bóson de Higgs teve quase 3.000 autores. Mas, assim, como outras pessoas a quem chamei atenção para esse detalhe, o texto diz que é "uma tradição" na física artigos com tantos autores. Implicando que, como não o é na pesquisa biológica e biomédica, o inusitado é suspeito.

Acho "tradição" um argumento fraco para ficarmos encucados - e, ainda mais, abismados ou, pior, indignados - com artigos quiloautorados em biologia/genética, enquanto ficamos sussa com artigos quiloautorados em física.

Não considero que biólogos sejam mais suspeitos do que físicos. "Tradição" quer dizer pouca coisa nesse caso. Há tradições corretas e incorretas, aceitáveis e inaceitáveis. E, do modo como a História das Ciências costuma ser narrada, a ênfase é justamente na batalha do conhecimento científico contra o conhecimento tradicional: as "verdades" passadas de geração a geração apenas por se acreditar nelas.

Se essa quantidade de autores é, por si mesma, um indício de atribuição errônea de autoria - um trem da alegria, um bonde da felicidade para incluir quem pouco ou nada fez de verdade, apenas para agradá-los e turbinar seus currículos, não há motivos para se suspeitar de biólogos/geneticistas, mas não de físicos de alta energia.

E acredito que não seja indício por si só. O importante não é apenas o número bruto de autores listados, mas também a complexidade relativa da empreitada. Estudos multicêntricos, multidisciplinares, com técnicas variadas e complexas, com grande número de dados... tendem a exigir um maior número de pessoas diretamente envolvidas.

Tampouco acho muito correto dizer que haja uma *tradição* de hiperautoria em física. A definição operacional de hiperautoria (ou mega-autoria) pode variar (p.e. Knudson 2011 define como 6 ou mais autores; Morris & Goldstein 2007, como 20 ou mais autores). De fato, há uma tendência de haver um maior número médio de autores em trabalhos de física do que em ciências biológicas; mas usando o critério de 1.000 autores ou mais - já que foi esse valor que chamou a atenção para esse estudo de genoma de drosófilas - obtive a lista abaixo (certamente não é exaustiva, mas, suponho, algo representativa).

ano no. de autores área página web
referente
Artigo
2015 5.154 física alta energia @RobertGaristo Physical Review Letters*
2015 1.014 genômica
2012 2.932 física alta energia Nature Physics Letters B
2011 3.179 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.221 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.172 física alta energia Pubmed Physical Review Letters
2010 1.055 física alta energia Vivek Haldar European Physical Journal C
2008 3.101 física alta energia Science Watch Journal of Instrumentation
2007 2.011 física alta energia Science Watch Journal of Physics G
2006 2.517 física alta energia Science Watch Physics Reports
2004 2.459 biomedicina Science Watch Circulation Journal
2001 2.851 genômica Quora Nature

Uma "tradição" de cerca de 10 anos. Uma "tradição" com menos de 1 artigo por ano. Uma "tradição" centrada em uma subárea bem específica: "física de alta energia/partículas" (HEP). Uma tradição que envolve basicamente um projeto: os aceleradores do Cern.

Segundo Cronin (2001), a área da HEP é particularmente rica em parcerias institucionalizadas em função da escala e do montante de investimentos necessários. Com a concentração dos recursos em grandes laboratórios como o Cern e o Fermilab, é preciso uma colaboração distribuída de vários outros centros para lidar com problemas básicos. Envolvendo também o financiamento em vários níveis. Esse arranjo instrumental, operacional, administrativo e científico complexo envolve, então, facilmente centenas de especialistas e pesquisadores. (Note-se que o trabalho é de 2001, quando boa parte desses artigos na ordem de 10^3 autores ainda não havia sido publicada; mas já havia vários com 10^2 autores.)

Isso tende a ocorrer também na pesquisa biomédica/genômica. A diferença é que a comunidade biomédica - particularmente as publicações na área - criaram um sistema para inibir a hiperautoria. Até 2002, o New England Journal of Medicine,  p.e., limitava o número de autores por artigo a 12. E, mesmo tendo levantado a barreira, a revista ainda discute com os autores sempre que acha que o número é excessivo.

Para Cronin, a diferença da abertura da comunidade HEP à hiperautoria e a resistência da comunidade biomédica está na força relativa da socialização e comunicação oral e sistema de valores das áreas. P.e., na HEP, um artigo só é publicado após um intenso escrutínio interno entre os colaboradores e comitês das instituições envolvidas, o pre-print como no arXiv.org é incentivado, tudo é discutido abertamente, deixando pouca margem para fraudes sistemáticas. A pesquisa biomédica, frequentemente envolvendo patentes, tende a ser bem menos transparente, dificultando a avaliação do papel de cada um dos envolvidos na pesquisa.

Então, ao contrário das vozes desconfiadas e preocupadas com a dissolução do sentido da autoria, eu vejo com bons olhos a hiperautoria também no mundo da genética e biomedicina. Salvo a existência de indícios em contrário, menos do que significar atribuição liberal de autoria para quem pouco ou nada vez, tende mais a significar que os autores - e o investigador principal - têm confiança o suficiente para defender os papéis relativos das contribuições individuais.

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Para quem quiser brincar de análise de tendências a multiautorias e hiperautorias Robert Boukhalil, de The Winnower, disponibilizou seu programa para análise de autoria na base de dados Pubmed. Chirstopher King, do Science Watch, fez uma análise usando, claro, a base da Thomson Reuters.

Upideite(15/mai/2015): O André Carvalho, do Ceticismo, também escreveu um texto. Ele, como se percebe pelo tweet acima, tem uma opinião oposta à minha. Além disso, eu também não chamaria o artigo de meia boca. Não é um breakthrough, mas tem uma contribuição original.
*Upideite(15/mai//2015): Via @SibeleFausto.

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