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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Normas sociais nas ciências? E daí?

O jornalista especializado em ciências, saúde e viagens Chris Woolston escreveu para a seção de notícias da Nature sobre uma discussão iniciada há pouco mais de um mês.

O geneticista Yoav Gilad publicou no twitter sua reanálise dos dados publicados em um artigo da PNAS contestando as conclusões do estudo.
A isso seguiu-se toda uma discussão. Woolston crê que isso éseja uma demonstração de como as mídias sociais estão mudando o modo como a ciência é discutida. Há três anos, sobre um artigo reportando a capacidade de bactérias de usarem arsênio, a microbióloga Rosie Redfield fez boa parte da discussãocrítica em seu blogue. Para mim, então, a participação das mídias sociais no (post-publication) peer review é uma notícia um tanto velha.

O que me chamou a atenção foi a declaração de um dos co-autores do artigo para contra-argumentar Gilad. Relata Woolston: "Michael Snyder, a geneticist at Stanford University in California and co-author of the original paper, stands by his team’s study and its conclusions and says that Gilad broke the 'social norms' of science by initially posting the critique on Twitter." ["Michael Snyder, geneticista da Stanford University na Califórnia e co-autor do artigo original, defende o estudo de sua equipe e suas conclusões e diz que Gilad quebrou as 'normas sociais' da ciência ao postar inicialmente as críticas no Twitter."]

Não é novidade a identificação da existência de 'normas sociais' nas ciências. Os sociólogos das ciências, pelo menos desde Thomas Kuhn (e talvez antes), vêm denunciando a existência dela deste a década de 1960. Porém, notemos, a existência dessas normas é alvo de denúncia: não é esperado a existência de tais normas no fazer científico. O discurso é que o processo é objetivo, só os fatos contam. Ok, há questões éticas: não fazer os sujeitos experimentais sofrerem inutilmente e, no caso de humanos, sem consentimento prévio; não forjar dados, não plagiar... Há questões de validação: prioridade da descoberta para a publicação mais antiga, nome científico só válido com publicação oficial, aceitação de artigos publicados somente em revistas indexadas para fins de avaliação de produção... Mas regras sociais construídas na forma que seja um tabu abertamente reprovável a não conformidade a elas?

Não é usual o caminho da publicação de contestação pelo twitter? Não, não é. Até porque, dentro da tradição multicentenária da comunicação científica, as mídias sociais são uma novidade recentíssima. No entanto, qual é realmente o problema de tal caminho, ainda mais para se levantar a bandeira das 'normas sociais'?

Poderia se dizer que responderia após a publicação formal. Não haveria mal nisso. Contudo, ao criticar via 'normas sociais' está deixando de responder à crítica não pelo que ela realmente é - se as contestações são ou não procedentes, no caso, se a análise feita apoia ou não a conclusão -, mas simplesmente por causa da forma.

'Normas sociais' podem ser levantadas no sentido de tentar explicar a forma como determinados cientistas ou grupos de cientistas agem: compadrio, moda, formalidades, manias, rapapés... não como exatamente 'normas': regras (mais ou menos arbitrárias e não validadas cientificamente, contando apenas com o peso da tradição e da ditadura da maioria) às quais as pessoas *devem* se conformar.

Em geral, quebrar 'normas sociais', em ciências, deveria ser alvo até de admiração, não de censura.

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