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terça-feira, 16 de junho de 2015

Divulgação científica = relações públicas das ciências?

O jornalista Bernardo Esteves, da Piauí, faz uma interessante reflexão, em seu blogue "Questões da Ciência", sobre o papel do jornalista de ciências a partir de debate ocorrido na Conferência Mundial dos Jornalistas de Ciências - WCSJ 2015. A necessidade de se postar criticamente em relação ao conhecimento científico e de tornar o processo de produção desse conhecimento mais transparente ao público.

Discordo apenas de um ponto em que ele contrapõe jornalismo de ciências e divulgação científica: "Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos". Esteves não é nem de longe o único a fazer, mais do que distinção, uma antítese entre os dois conceitos.

No meu entender, o jornalismo de ciências *é* uma *forma* de divulgação científica, uma modalidade dela. No GR, na primeira postagem da série sobre divulgação científica expressei a relação aninhada em termos de meios/agentes. Na terceira postagem trouxe definições acadêmicas das expressões, reproduzo-as novamente:

"Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica."

"Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002."

Essas definições preservam a missão que muitos jornalistas, incluindo Esteves, atribuem ao jornalismo: de visão crítica dos processos sociais e instrumentação (atenção, não instrumentalização, que seria quase o oposto) cognitiva dos leitores para que possam se posicionar em relação aos temas que os afetam.

Mas, de um lado, não se pode dizer que seja uma missão que se possa (nem que se deva) atribuir exclusivamente ao jornalismo. De outro, não vejo como uma missão necessariamente vinculada ao jornalismo. Não entendo que a distinção seja em termos de objetivos almejados. Para mim, a distinção é tão somente de processos (a distinção mencionada acima de meio pode ser vista como condicionante do processo e/ou condicionado por este) envolvidos na elaboração do texto/mensagem. O jornalismo de ciências é uma modalidade de divulgação científica que lança mão de um conjunto de técnicas e instrumentos jornalísticos como: montagem de pauta, entrevistas com fontes, apuração das informações... (o condicionamento pelo meio pode ser visto por tais técnicas e instrumentos serem demandados pelo ofício em jornais, revistas, canais de rádio e TV em programas de jornalismo... o condicionamento do meio pode ser visto por tais técnicas transformarem os canais efetivamente em um canal jornalístico: digamos um blogue irá assumir uma cara de jornal com textos/mensagem geradas com o uso de tais instrumentos, ao mesmo tempo em que o blogueiro estará atuando como um jornalista).

A transmissão (essencialmente) passiva) do conhecimento científico, a função de aproximação entre ciência e sociedade, sim, são objetivos compatíveis com a divulgação de modo geral, mas não são definidoras dela. Isso é mais uma caracterização da ação de relações públicas. Sim, a divulgação científica *pode* assumir a forma de relações públicas das ciências, mas *não necessariamente* precisa assumir tal feição.

Se se contrapõe jornalismo de ciências à divulgação de ciências, está a se reduzir a última a ação de RP. É mais útil pensar que a DC engloba tanto o JC quanto o RPC (e mais coisas). Do mesmo modo como tanto jornalismo quanto relações públicas pertencem ao grande campo da comunicação social (que inclui ainda outras coisas como publicidade).

A DC tanto pode como muitas vezes assume a forma de crítica às ciências. P.e., o caso mais recente das declarações sexistas do nobelista Timothy Hunt, no mesmo WCSJ 2015, foi bastante analisados por vários blogues de divulgação científica. PZ Myers, em seu Pharyngula, não é e não atua como jornalista ao opinar sobre o caso. Ben Goldacre não é e geralmente não atua como jornalista ao criticar a Big Pharma e a indústria autointitulada "medicina alternativa complementar" (que, via de regra, não é nenhuma das três coisas). Mas ambos estão, sim, atuando como divulgadores de ciências.

Mostrar os intestinos das ciências é uma tarefa nobre do bom jornalismo de ciências, mas não é uma tarefa que só o JC saiba fazer, nem que só ele deva fazer. Não há oposição. Deve haver complementaridade. E essa complementaridade não se dá por um ser uma coisa e outra ser outra coisa. Se, no geral, é mais fácil ao jornalista de ciências ter o afastamento necessário; ao cientista, no geral, é mais fácil ter acesso em primeira mão. Um não jornalista e não cientista também pode contribuir com a DC fazendo a sua análise na posição de cidadão - ou de sua outra expertise (filósofo, cozinheiro, político, dono de casa, empresário, banqueiro, limpador de piscinas...). Se o cientista pode estar preso dentro dos interesses da academia  - ou do complexo político-industrial que sustenta sua pesquisa -, há que se considerar que o jornalista tampouco será necessariamente isento dos interesses que seu veículo representa. Interesses que podem perfeitamente ser legítimos, diga-se. (Idem para outros atores da DC.)

4 comentários:

Carlos Orsi disse...

Uma coisa que me incomoda um pouco nessas discussões é o uso impreciso da palavra "ciência". Que pode ser referir à busca de conhecimento sobre o mundo material, pode se referir aos instrumentos e métodos usados nessa busca, pode se referir às instituições e às pessoas que, na civilização atual, são encarregadas de usar esses instrumentos e executar essa busca. Muito do debate sobre jornalismo científico, principalmente o inspirado no meio acadêmico "de humanas", tente a tomar a terceira acepção pelo todo: a ideia da "construção social forte" das ciências ainda paira muito por aí.

Verônica Soares disse...

Tem um aspecto interessante nessa discussão que raramente é abordado: o fato de que muitas assessorias de imprensa e programas de divulgação das instituições se apropriam das técnicas do jornalismo para divulgar ciência (principalmente em revistas especializadas). Mas, nesses casos, nem sempre há uma busca pelo contraditório, nem sempre há um questionamento mais contundente ao cientista, porque o jornalismo praticado é um jornalismo "institucional", de release, pautado pelas instituições de fomento, por exemplo. Particularmente, acho que esse tipo de divulgação também tem seu lugar e não há demérito em fazer assessoria de imprensa para a ciência, mas o quadro demonstra que há jornalismos, plurais, ou seja, não é só uma questão de fazer a pauta, entrevistar, apurar, mas de identificar de que jornalismo estamos falando. Infelizmente, acho que há cada vez menos espaço para a produção de um jornalismo crítico como o que o Bernardo Esteves defendeu e crescem os Programas e Projetos relacionados ao jornalismo mais institucional, feito no âmbito das assessorias.

none disse...

Orsi, Soares,

Obrigado pela visita e comentários. Mais tarde subo suas observações em uma postagem.

[]s,

Roberto Takata

Anônimo disse...

NOVO OLHAR SOBRE A MATEMÁTICA, Jornal Beira do Rio, UFPA, Abril 2011, www.jornalbeiradorio.ufpa.br/novo/index.php/2011/124-edicao-93--abril/1189-novo-olhar-sobre-a-matematica

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