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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Medicina vs. terapias alternativas: mal menor?

Venho adiando a publicação desta postagem por vários motivos: necessidade de uma investigação maior, superveniência de outros temas mais candentes, outras tarefas... Mas com a publicação da postagem de Carlos Orsi sobre um novo estudo da influência (negativa) do uso de terapias alternativas e complementares no tratamento do câncer, creio que este texto possa servir como um bom... ahem, complemento.

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Críticos das ciências (ou do cientificismo), com razão, apontam para os perigos da crença cega no conhecimento científico. Por outro lado, a rejeição cega às ciências também é danosa.

Uma pergunta que lancei há algum tempo era: o que é pior, acreditar cegamente nas ciências ou adotar uma postura de rejeição automática a ela?
Um campo potencial de se tentar responder a isso é a medicina. Há perigo maior, por exemplo, em seguir todas as recomendações médicas (incluindo exames desnecessários, remédios e procedimentos errados e outras iatrogenias - doenças e problemas de saúde causadas pelos próprios agentes de saúde) ou ignorá-las e seguir terapias alternativas?

Levantamentos a respeito do uso de técnicas classificadas como "medicina complementar e alternativa" (CAM, "complementary and alternative medicine") resultam em uma fração variada de prevalência entre pacientes de câncer (dependendo, por exemplo, da definição adotada de CAM). Uma variação de 7% a 64% tem sido obtido - com valor médio de 30 a 35%.

Há uma visão da população em geral - e de muitos políticos e autoridades sanitárias - de benignidade da CAM: no pior dos casos, não funcionariam, mas serviriam de alento aos pacientes. Um estudo com pacientes noruegueses publicado em 2003 mostra, no entanto, o perigo dessas técnicas. Pacientes com câncer que lançam mão delas têm um risco 30% maior de morrer do que pacientes que não as usam.

Mas e quanto aos problemas causados pela própria medicina - como erros médicos, excessos, negligências, ganâncias, informações incompletas e outros -?

Só nos EUA, estimam-se as mortes iatrogênicas como algo entre 44.000 a 225.000 casos por ano. Algo entre 1,7 a 8,7% do total de mortes nos EUA. Muita coisa.*

E no caso de câncer? Um estudo com câncer testicular nos EUA, de 1982, detectou uma razão de morte iatrogênica de 6%. Outro, de 2004, no Japão, com carcinoma esofágico, reportou 1 caso iatrogênico em 43 mortes relatadas (2,3%).

Considerando-se as cerca de 590 mil mortes em 2015 por câncer nos EUA, em pouco menos de 14,5 milhões de pacientes com a doença por lá; aplicando-se uma prevalência de 30% no uso de CAM e a razão de perigo de 1,3 em seu uso, por ano teremos cerca de 48.700 mortes atribuíveis ao uso de técnicas ditas alternativas em pacientes de câncer. Ao mesmo tempo, considerando uma razão de 6% de morte iatrogênica, serão 35.400 mortes atribuíveis a diversos erros e negligências médicas em pacientes com câncer.

O risco, pelos melhores dados que temos, é substancialmente maior no uso de CAM do que em decorrência de problemas iatrogênicos: 30% vs. 6%. Em termos absolutos, parte disso é compensado pela maior base de casos de pacientes submetidos a procedimentos médicos - virtualmente 100% - do que a procedimentos ditos alternativos: cerca de 30%.
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Hendriks et al. (2015) desenvolveram um teste para diagnosticar as características que as pessoas leigas usam (um dia entro na polêmica sobre o uso do termo 'leigo' para se referir às pessoas sem especialização em um dado tema) como critério para confiar ou não em especialistas. Talvez seja o caso de aplicar tal teste para orientar como os especialistas que usam métodos cientificamente validados possam se apresentar como mais confiáveis do que terapeutas ditos alternativos.

*Upideite(17/mai/2016): Para uma visão crítica em relação estes números, uma postagem do Respectful Insolence. (via @carlosom71)

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