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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Como é que é? - Zoológicos fazem mais mal do que bem para a conservação? O caso do gorila Harambe.

Na trilha do triste episódio do abatimento de um gorila no zoológico de Cincinnati para o resgate de um menino de quatro anos, alguns protestos foram gerados tanto em relação ao sacrifício do animal quanto, mais genericamente, aos zoológicos.

Já tratei aqui no GR a respeito das críticas aos zoos; mas volto ao tema em função de um texto que vi compartilhado no facebook.

Antes, duas observações menores. A primeira: O texto diz que há somente 700 gorilas no mundo. Parece que confundiram com o gorila das montanhas (Gorilla beringei beringei), com uma população em torno de 880 indivíduos. Mas o gorila das montanhas *não* é mantido em zoos. Programas de captura para criação em cativeiro fracassaram. A espécie de gorila que vemos nos zoos é o das planícies (Gorilla gorilla), é espécie criticamente ameaçada, mas tem uma população provavelmente muito maior do que 700 indivíduos na natureza. A subespécie ocidental (G. g. gorilla) parece ter uma população de cerca de 90.000 a 100.000 indivíduos.

A segunda: Também é dito que o gorila não agrediu o garoto nos 10 minutos em que ele ficou no habitáculo dos animais. É verdade, mas bom dizer que embora o gorila não tenha agredido o menino, estava arrastando-o pra lá e pra cá, inclusive na água, onde a criança corria o risco de se afogar. Se a decisão de abater o animal em vez de tentar sedá-lo (o argumento é que levaria tempo até o efeito se fazer notar) ou descer pessoal para tentar afastar o bicho do garoto (com o risco de assustar o animal e ferir o menino) foi a melhor, é passível de discussão. Embora meu desejo seja de que o primata não fosse morto, não tenho condição de avaliar a correção da decisão pelos elementos disponíveis.*

Agora o ponto principal. Para o autor do texto, o incidente é um exemplo de que os zoológicos são danosos à preservação dos animais. Bem o parque zoológico (e botânico) de Cincinnati é dos zoos modernos (apesar de ser o segundo mais antigo dos EUA) com ambientes enriquecidos e 'humanizados'. Um de seus programas de conservação envolve a reabilitação e liberação de manatis. Outro projeto é o de reprodução de gorilas. E, em agosto de 2015, comemorou-se o nascimento do 50o. (quinquagésimo) bebê gorila no zoo de Cincinnati desde o início do programa de reprodução da espécie em 1970. O tamanho do sucesso levou à necessidade de *desacelerar* o programa para impedir a introdução de um número grande de indivíduos geneticamente próximos, o que poderia reduzir a variabilidade genética da população de gorilas mantida nos EUA.

Quando se pensa no fechamento de zoos, pensa-se em sua substituição por santuários - basicamente áreas protegidas particulares. A comparação normalmente é feita com base em zoos precários contra santuários bem estruturados. Mas assim como há zoos em condições terríveis e zoos bem estruturados (caso do de Cincinnati), também há uma variedade de condições entre os santuários: dos com boa infraestrutura e pessoal capacitado a meros depósitos de animais.

Em uma análise das reservas privadas, Langholz & Lassoie (2001) concluem:
"Private reserves are no panacea for the world's biodiversity conservation woes. The total amount of land they currently protect is unknown, but it certainly represents less than 1% of the Earth's land area, with undetermined potential for expansion. As is the case with community-based natural resource management, integrated conservation and development projects, and other recent conservation themes, private protected areas represent but one option in the conservation toolbox. Like all tools, they are best used in situations that maximize their particular strengths while minimizing their weaknesses.

Privately owned parks will not and should not replace government parks. Likewise, governments should resist pressure to privatize existing public protected areas. Biodiversity benefits from having a core constituency within the government, a public agency capable of battling against competing ministries such as forestry, mining, fishing, agriculture, tourism, and other sectors that can disrupt park protection. Too much reliance on the private sector could erode crucial internal support provided by a fully staffed park agency. Similarly, excessive clamoring over private parks runs the risk of lowering political will to support publicly protected areas."
["Reservas particulares não são nenhuma panaceia para as misérias da conservação da biodiversidade mundial. A área total atualmente protegida por essas reservas é desconhecida, mas certamente representa menos de 1% da área total da Terra, com potencial não determinado para expansão. Como é o caso de manejo de recursos naturais centrado nas comunidades, projetos integrados de conservação e desenvolvimento e outros temas recentes de conservação, áreas protegidas particulares são apenas uma das opções na caixa de ferramentas da conservação. Como toda ferramenta, elas são mais bem utilizadas em situações que maximizem seus pontos fortes e minimizem seus pontos fracos.

Parques privados não devem e não irão substituir parques estatais. Assim, os governos devem resistir à pressão de privatizar as áreas públicas protegidas existentes. A biodiversidade se beneficia da existência de um núcleo representante permanente no governo, uma agência pública capaz de lutar contra ministérios adversários como das florestas, minas, pesca, agricultura, turismo e outros setores que podem contestar a proteção do parque. A dependência excessiva do setor privado pode corroer o apoio interno crucial dado por uma agência de parques completamente provida de recursos humanos. Igualmente, a grita excessiva em prol de parques privados leva ao risco de diminuir a vontade política em apoio a áreas públicas protegidas."]

Nota: O material genético do corpo de Harambe, o gorila morto, foi recolhido e pode ajudar no programa de reprodução da espécie.

*Upideite(31/mai/2016): O primatólogo Frans de Waal fala mais em sua página no facebook sobre a dificuldade da decisão tomada pela direção do zoo em sacrificar o gorila. via Andressa Menezes fb.

Upideite(31/mai/2016): O que a DCsfera está falando sobre o assunto?
31.mai.2016 Papo de Primata: Quem será responsabilizado pela morte do gorila Harambe?
02.jun.2016 Canal do Pirula: O gorila e o dilema dos zoológicos (vídeo, não vi)

Upideite(31/mai/2016): Yara de Melo Barros, do Parque das Aves, também fala sobre o episódio, sobre as dificuldades da decisão tomada e da importância dos zoo na conservação dos gorilas. via @discutindoeco tw.

4 comentários:

Murdock disse...

E a opinião de que esse contato com os animais faz com que as pessoas tentem preservá-los?

none disse...

Caro Murdock,

Grato pela visita e comentário.

Sobre isso, comento rapidamente no texto anterior sobre o papel dos zoo:
http://genereporter.blogspot.com.br/2015/08/zoologico-prisao-animal.html

A Melo de Barros tb aborda isso no texto dela:
http://www.oeco.org.br/colunas/colunistas-convidados/abate-de-animais-em-zoologico-facil-julgar-dificil-agir/
-------

Não me aprofundei na questão, mas há artigos sobre ela. P.e.:
http://online.liebertpub.com/doi/abs/10.1089/eco.2010.0079
http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.2752/089279395787156301
----

[]s,

Roberto Takata

Lucas Conrado disse...

Meu incômodo com os zoos (pelo menos os últimos que visitei - Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu) era o estado dos animais. Aqui no Rio, um tigre estava numa jaula que era menor do que o meu quarto, que já não é muito grande. Em Foz do Iguaçu, era uma onça pintada na mesma situação. Ambos animais já estressados por estarem em espaços muito pequenos e ainda sofrendo com visitantes que ficam gritando e tentando chamar atenção deles.

Li um texto que dizia que os zoológicos serviam, entre outras coisas, para despetar empatia. Pois é, empatia foi o que senti pelos felinos que vi naquelas condições. Me coloquei no lugar deles e me senti sufocado, me senti mal mesmo. Saí dos zoos até um pouco triste.

Os zoos não têm que terminar. Eles fazem um grande trabalho sim de preservação e pesquisa. Mas esse modelo de pegar um animal acostumado a grandes espaços e jogar num cubículo, pra ficar sendo provocado por seres humanos é cruel.

none disse...

Caro Conrado,

Pois é, infelizmente há sim não poucos zoo sem condições adequadas ou mesmo mínimas de funcionamento - seja no cuidado dos animais, seja na segurança do público. Essas unidades precisam de readequação urgente ou, no limite, devem ser fechadas.

Não é, até onde sei, o caso do zoo de Cincinnati - nunca estive lá, mas pelo que se depreende das informações disponíveis na internet. Podem ser necessárias alterações em algumas medidas de segurança - talvez colocar barreiras de vidros - mas, no geral, os habitáculos dos animais têm espaço e são enriquecidos.

Alguns zoos públicos no Brasil sofrem abandono até criminoso. Há quem diga que de modo deliberado para facilitar a transferência da administração para a iniciativa privada. Como foi feito recentemente no Rio. Não tenho elementos suficientes para embasar essas suspeitas.

Obrigado pela visita e comentário.

[]s,

Roberto Takata

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