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sexta-feira, 6 de julho de 2012

A oficina do professor

Uma corda atravessava em viés o teto da edícula. Dependurados, dois pêndulos afastados entre si a uma distância de, o quê, metro e meio?

Sob o olhar algo distraído do visitante, ele pegou a esfera de um dos pêndulos e, com um impulso rápido da mão, pô-la a balouçar. A massa oscilava como é de se esperar de qualquer pêndulo. Sem surpresas, aos poucos, o vai-vém foi diminuindo. Alguém mais atento teria notado que a diminuição era mais rápida do que seria de se esperar pela dissipação da energia pelo atrito com o ar e pelo atrito interno na corda que sustentava o sistema.

A energia estava sendo transferida para o outro pêndulo, intocado. À medida em que o primeiro tinha sua amplitude de oscilação cada vez menor, o outro começava a desenhar um arco cada vez mais aberto. Depois de atingir o pico, quando o outro parava completamente; sua oscilação também começou a diminuir. Enquanto isso, o primeiro reiniciava sua oscilação. Esse balanço alternante continuou - claro, a cada vez, a maior amplitude de oscilação diminuía por causa dos mencionados atritos. Uma demonstração simples de sistema de pêndulos acoplados e de ressonância mecânica. Simples e poderosa.

Encostada ao pé da bancada - uma mesa ampla e antiga de madeira sólida - uma roda de bicicleta. O eixo fora estendido com dois pedaços de cano de aço soldados de cada lado. Ele pegou por uma das pontas estendidas, mantendo a roda mais ou menos na horizontal. Com a outra mão, em outro impuso rápido, pô-la a rodar. "Pegue", disse para o visitante, transferindo a roda. Enquanto a visita, meio desajeitadamente, segurava com as duas mãos, instruiu: "Agora deite a roda". "Fácil", pensou o visitador, para rapidamente mudar de ideia quando tentou inclinar o objeto. Quando ele parou o giro da roda com a mão, finalmente o visitante conseguiu realizar o o movimento de pôr o objeto na horizontal. Embora com entendimento teórico prévio, o visitante só então experimentou diretamente o resultado da conservação do movimento angular e o efeito giroscópico. (Na verdade havia, sim, experimentado, na própria bicicleta - embora tudo seja mais complicado.)

Sobre a bancada, entre uma infinidades de objetos, um núcleo de ferro - várias lâminas quadradas vazadas de ferro sobrepostas - com fio de cobre enrolado na parte de cima e de baixo: um transformador elevador de tensão. Limpando a área ao redor, puxou o núcleo de ferro para mais próximo. Pegou duas varetas metálicas conectando-as, em V, ao transformador. Ligando o sistema à tomada e acionando o botão, uma fagulha de eletricidade surgiu na porção inferior do V. Dzzzzzt. O arco subia para se desfazer no alto. Na parte de baixo, um novo arco refazia o caminho do anterior. E outro. E outro. Resistividade elétrica do ar, ionização, indução elétrica, vários conceitos de eletrodinâmica reunidos no chifre elétrico. O visitante observava calado. Mas seus olhos e modos certamente diziam muito mais do que palavras falariam, dado o crescendo do entusiasmo do anfitrião.

Na prateleira - de fato, em *uma* das prateleiras que cobriam três das quatro paredes da edícula - ele buscou um objeto empoeirado. Na base de madeira, um tubo de vidro se prendia por dois grampos metálicos. Uma bolha de ar indicava que o cilindro estava repleto de líquido cristalino. Sim, água. Uma placa deslizante fazia um papel quadriculado passar por sob o cilindro. À medida em que se deslocava a placa, o visitante pôde ver e ler através do vidro as palavras escritas sobre o quadriculado se inverterem. Mas algumas mantinham-se inalteradas. Magia? Não. Pura física óptica, simetria e engenhosidade no uso da lente cilíndrica.

De outra parte da prateleira, um conjunto com dois tubos longos de vidro. Desta vez sem água. Em uma delas, penas; na outra, bolinhas de metal. O ar foi quase todo removido com uma bomba antes de se selarem os tubos. Ele inclina ligeiramente o sistema de modo que bolas e penas se acumulem nas extremidades do mesmo lado. Em característica movimentação lépida da mão, o conjunto é colocado na vertical. Tanto quanto se pode perceber, penas e esferas metálicas alcançam a outra extremidade dos respectivos tubos ao mesmo tempo. Em outro conjunto de tubos, idêntico ao primeiro, exceto pelo fato de o ar não te sido removido, a situação é bem diferente. A demonstração cabal do que Galileu intuiu em seus experimentos com esferas em plano inclinado (e do experimento, reza a lenda, na torre de Pisa): a aceleração idêntica da gravidade para todos os objetos abandonados da mesma altura da superfície da Terra e postos em queda livre.

Esses e vários outros experimentos foram sendo mostrados a mim pelo Prof. Leo durante a tarde em sua oficina em Barretos-SP. Nas prateleiras, além dos dispositivos de demonstrações construídos pelo próprio professor, vidros e vidros com todo tipo de roscas, parafusos, molas, pregos. Como uma coleção taxonômica. Na bancada, morsa, sargento e outras ferramentas com que consertava os objetos estragados e elaborava novos.

Confesso que tendo a ser demasiadamente teórico e que a leitura e a compreensão das teorias me satisfazem quase sempre. Mas ter os fenômenos desenvolvendo-se diante de meus olhos trazia-me uma sensação completamente nova. Curiosamente até a véspera, o próprio Prof. Leo para mim era também algo apenas "teórico". Era nosso primeiro - e infelizmente seria o único - encontro pessoal após anos de correspondência eletrônica. Apesar de ter ido me buscar na rodoviária às 5 da manhã, não parecia nada cansado naquelas demonstrações - bem ao contrário.

À noite ainda se dedicaria a atualizar seu Feira de Ciências (fico feliz de ter ajudado em diminuir um pouco seu trabalho, ao automatizar a atualização de páginas conforme uma página principal era modificada - meus rudimentos de php, permitiu-me encontrar uma função equivalente em asp), responder às dezenas de emails com dúvidas de alunos, professores e curiosos sobre eletrônica, eletricidade, astronomia..., terminar de escrever a coluna sobre, claro, ciências que seria publicada em um jornal local.
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Outras homenagens ao grande Prof. Leo:
A Ciência Fica mais Pobre
Nosso Professor de Ciências
Na Ciência-list: aqui e aqui.
Na profleo.
Tristes notícias ):
Boletim da Sociedade Brasileira de Física: Luiz Ferraz Netto (triste perda)
Morre Professor Léo Ferraz
Falecimento de um grande professor!
Da alegria à tristeza

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