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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um simples educador

O Prof. Luiz Ferraz Netto faleceu hoje, no mesmo dia em que físicos do CERN anunciam a descoberta de uma partícula "consistente com o bóson de Higgs".

O Prof. Leo, como todos o chamávamos, definia-se como um "simples educador". Era isso, simples e educador. Mas também foi muito mais do que isso.

Nascido em Bebedouro-SP e formado em Física na USP, foi professor em diversas escolas e faculdades; apresentou o quadro "Oficina de Física" no programa infanto-juvenil Revistinha da TV Cultura e teleaulas de física no Vestibulando da mesma emissora; colaborou com diversos jornais com textos sobre ciências e escreveu diversos livros didáticos e paradidáticos de física. Assessorou o Laboratório de Demonstrações do IF-USP e a Estação Ciência, desenvolvendo diversos aparatos que apresentam aos visitantes vários princípios físicos.

Esses conhecimento e experiência acumulados foram coligidos no sítio web www.feiradeciencias.com.br - com diversos projetos a serem realizados tanto por alunos, para expandirem seus conhecimentos (e concorrer em feiras científicas), quanto por professores, para demonstrações.

O grande projeto em que estava empenhado agora era construir um parque científico em Barretos-SP, onde estava radicado, deixando disponível para o público sua extensa coleção de instrumentos e experiências didáticas. Houvera um pouco mais de visão e boa vontade dos políticos locais, certamente a cidade ganharia uma atração muito mais rica do que os rodeios anuais.

Foi assistindo ao Revistinha e ao Vestibulando que conheci o Prof. Leo - seria injustiça com ele chamá-lo de Beakman brasileiro, o mais correto seria inverter, chamando o personagem de Paul Zaloom de Prof. Leo americano - e através do ciência-list do Luis Brudna, pude trocar ideias (sempre com desvantagem nessa troca para o professor, evidentemente), o que me valeu, nos fins da década passada, um convite para visitá-lo e conhecer sua fabulosa coleção didática*.

Um fim de semana inesquecível, em que ganhei lições de ciência e de vida. Um bate-papo incrível em que ele contava sua experiência de vida - como antigamente ele precisava tirar água do poço, e, sem geladeira (nem energia elétrica), a comida era preservada mergulhando-se em um balde com banha solidificada de porco. Conheci seus adoráveis filhos menores - e o mais novo, com cinco anos, já se metendo entre experiências científicas de eletricidade e química (terá inventado o soro do supersoldado a esta altura?). Da horta ao fundo de sua casa, desencavamos a mandioca que seria servida frita no dia seguinte.

Voltei de lá com uma pequena lista de compras: o professor Leo havia me incumbido a arranjar-lhe algumas peças que não se achava por lá, apenas em Santa Ifigênia em São Paulo. Acabei por nunca lhe enviar peça nenhuma.

Prof. Leo não tinha nenhuma paciência com bobajadas pseudocientíficas e misticóides, com sua ironia afiada (e desbocada) destroçava qualquer tentativa de distorção das ciências como apropriação indébita da física quântica por sectários da Nova Era (embora ele mesmo torcesse um tanto o nariz para a física quântica atual). Mas era um monge de tranquilidade para explicar conceitos científicos complicados para quem tivesse dúvidas sinceras. Pessoalmente era alguém com quem você conversaria a noite toda e ouviria com brilho nos olhos todos os causos, um mais fascinante do que o outro - acompanharia vivamente as transformações passadas pela cidade de São Paulo na segunda metade do século 20, bem como as mudanças tecnológicas vivenciadas pelo mundo no período.

Meu amigo, não lamentarei o quanto a ciência e a educação brasileiras perdem com sua morte. Celebrarei o quanto elas ganharam com sua vida.

*Upideite(06/jul/2012): Detalho aqui meu contato com a coleção didática. Imagens de vários dos equipamentos e dispositivos foram publicadas pelo Prof. Leo em seu Feira de Ciências.

6 comentários:

Alvaro Augusto W. de Almeida disse...

É uma pena. Eu já sabia da idade razoavelmente avançada do prof. Léo, mas esperava que nossas brigas fossem se prolongar por mais uns vinte anos, pelo menos.

none disse...

Salve, AAA,

Amigos deveriam ser imortais.

Espero que os familiares mantenham o www.feiradeciencias.com.br

[]s,

Roberto Takata

Verner Stranz disse...

Fiquei sabendo agora, e por mais que a gente saiba que é assim mesmo, chega a hora de partir e nos pega de surpresa. Compartilho da tristeza de todos.

none disse...

Salve, Stranz,

Realmente é algo que a gente nunca espera.

[]s,

Roberto Takata

Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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