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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Perdendo-se na linha fina: como o G1 atribuiu o aquecimento global a causas naturais

Divulgação científica não é tarefa fácil. Trabalho com isso há quase vinte anos e ainda não sei nem um terço dos macetes. Mas ela é fundamental sobretudo em temas que afetam diretamente a vida dos indivíduos. Louvo o trabalho dos jornalistas de ciências que têm um alcance (e uma responsabilidade) muito maior do que a maioria dos blogues (não dá nem para colocar o GR na brincadeira, apesar de contar com a ilustre audiência da fiel leitora e do fiel leitor).

Um desses temas relevantes - e mais ou menos intensamente trabalhado aqui - é a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. E muitas vezes os jornalistas têm pisado na bola ao dar espaço, além do devido, aos negacionistas climáticos. A situação piora quando cometem erros de divulgação que invertem completamente o sentido de um trabalho (erros de divulgação na mídia, infelizmente, é frequente, a nos valermos de análise do jornalismo de ciências norueguês sobre o clima).

A nos valermos do basearmos no título e dna linha fina (frases auxiliares de menor destaque que se seguem ao título complementando a informação) de uma reportagem no G1 sobre um trabalho recém-publicado do grupo PAGES (Pasto Global Changes 2k Consortium), seríamos levado a crer que o aquecimento global do último século deve-se às causas naturais (não-antropogênicas).

"Temperatura global no século 20 foi a maior em 1.400 anos, diz estudo
Cientistas analisaram as temperaturas no planeta nos últimos 2 mil anos.
Fato é atribuído a ciclo natural do Sol e a flutuação de erupções vulcânicas."

O primeiro parágrafo fica algo misterioso de entender diante disso:
"Estudo publicado neste domingo (22) na revista 'Nature Geoscience' reconstruiu em escala global as temperaturas do planeta dos últimos 2 mil anos e constatou que o século 20, período em que a influência humana se tornou mais significativa, foi o mais quente em todo o planeta em 1.400 anos."

Se a influência humana se tornou mais significativa, como o Sol e erupções vulcânicas explicam?

Mas segue o texto:
"De 1971 a 2000, a temperatura média ponderada foi maior do que em qualquer outro momento em cerca de 1.400 anos, diz o estudo.

A pesquisa da 'Nature' mostra que o fato pode ser atribuído a ciclos naturais na órbita planetária e a flutuações causadas por erupções vulcânicas e variações na atividade solar."

Ou seja, o G1 reforça o que sugere no título: o aquecimento do último século, em especial dos últimos 30 anos do século passado, seria mesmo causado por fatores naturais e não pela intervenção humana.

Porém, essa leitura é completamente equivocada frente ao que o estudo realmente diz.

A atividade solar e as erupções vulcânicas são mesmo atribuídas como causas da variação de temperatura estudada pelo grupo, mas para explicar o *resfriamento* entre os anos de 1580 e 1880: uma *menor* atividade solar e uma *maior* emissão de partículas por erupções vulcânicas.

No FAQ da página do grupo é explicado:
"The results show that some regions were likely warmer during some decades of the medieval period and Roman times than they were in 1971-2000. Does this suggest that recent warming is part of a natural cycle? 

Determining the extent to which recent temperature changes are unusual is different than ascribing them to natural or anthropogenic causes. Because temperatures have been higher during past periods of Earth’s history does not imply that humans activities are not presently influencing climate. The global warming that occurred in the 20th century reversed a long-term global cooling trend. This pre-industrial cooling trend was likely caused by natural factors that continued to operate through the 20th century, making the 20th century warming more difficult to explain without the likely impact of increased greenhouse gasses."
["Os resultados mostram que algumas regiões provavelmente foram mais quentes durante algumas décadas do período medieval e em tempos romanos do que foram em 1971-2000. Isso sugere que o aquecimento recente é parte de um ciclo natural?

Determinar em que extensão as alterações recentes de temperaturas são incomuns é diferente de atribuí-las a causas naturais ou antropogênicas. As temperaturas serem maiores durante períodos anteriores na história da Terra não implica que as atividades humanas não estão influenciando o clima hoje em dia. O aquecimento global que ocorreu no século 20 reverteu uma longa tendência de resfriamento global. EstaEssa tendência de resfriamento pré-industrial provavelmente foi causada por fatores naturais que continuaram a atualatuar através do século 20, fazendo com que o aquecimento do século 20 seja mais difícil de explicar sem o provável impacto de gases-estufa."]

O painel g da figura 4 do trabalho (Figura 1 abaixo) mostra a variação estimada das forçantes radiativas (o quanto contribuem para o aquecimento) dos diferentes fatores.

Figura 1. Reprodução parcial da figura 4 de PAGES 2k Network Consortium 2013. Note no painel g, a linha verde (forçante radiativa de gases-estufa).

O vulcanismo e o Sol tiveram valores de forçante oscilante, mas sem tendência de aumento ou diminuição. (Episódios seguidos de baixa na forçante desses fatores puderam ser identificados entre os anos de 1200 e 1800 - que devem ter contribuído para as baixas temperaturas entre 1580 e 1880*.) Somente a forçante de gases-estufa apresenta uma tendência clara de crescimento, sobretudo a partir do século 19.

O aquecimento global e mudanças climáticas já ésão um tema um tanto árido para o público. Piora com o ruído gerado pelos negacionistas. E fica impossível de se compreender corretamente com esse tipo de erro de divulgação.

Obs: Agradecimento a @oatila por ajudar na obtenção do artigo.

*Upideite(23/abr/2013): Adido a esta data.

6 comentários:

Alexandre disse...

De maneira geral, gosto de presumir a boa-fé.

Entretanto, em alguns casos referentes a "erros" na hora de fazer declarações ao público sobre o aquecimento global, presumir a boa-fé me exige um ENORME malabarismo mental...

none disse...

Salve, Alexandre,

Valeu pela visita e comentário.

É o preço que se paga pela política da imprensa de demitir jornalistas mais experientes para reduzir custos.

E a conta vai pra sociedade, que fica desinformada.

[]s,

Roberto Takata

Unknown disse...

Sr. Takata,

creio que denominar cientistas com termos preconceituosos não seja um comportamento digno de um bom cientistas. Alcunhá-los de "negacionistas" convenhamos é uma prática um tanto quanto antiquadra.

Toda teoria, por mais robusta que seja, pode e deve ter falhas que motivam outros cientistas falseá-las. Este é o maravilhoso ciclo dialético da ciências.

Por falar nisto aqui: http://www.drroyspencer.com/research-articles/global-warming-as-a-natural-response/

um contraponto à teoria do aquecimento global antropogênico.

Abraços,

Izabela.


none disse...

Cara Izabela,

Grato pela visita e comentários.

Sim, concordo quando você diz: "denominar cientistas com termos preconceituosos não seja um comportamento digno de um bom cientistas". Eu amplio: denominar qualquer grupo de indivíduos com termos preconceituosos é ruim.

Mas discordo desta parte: "Alcunhá-los de 'negacionistas' convenhamos é uma prática um tanto quanto antiquada." Deve-se ter em mente que o termo 'negacionista', de um lado, não se refere somente a cientistas, de outro, não inclui qualquer cientista (ou pessoa) que discorde da hipótese do AGA.

O negacionismo consiste na negação (especialmente a enfática) de um fenômeno ou hipótese, *a despeito* dos indícios em contrário. É o que os negacionistas climáticos fazem: contestam a ocorrência do AGA a despeito dos indícios de sua ocorrência.

[]s,

Roberto Takata

Franklin Silva Araújo disse...

"Se a influência humana se tornou mais significativa, como o Sol e erupções vulcânicas explicam?"

Sol e erupções vulcânicas são infinitamente mais relevantes que a influência humana??

none disse...

Salve, Franklin Araújo.

Sol e erupções vulcânicas são importantes. No que se refere à tendência dos últimos séculos de aumento da temperatura global média, no entanto, eles não têm poder explicativo maior - suas atividades se mantêm mais ou menos constantes.

Valeu pela visita e pela pergunta.

[]s,

Roberto Takata

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