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terça-feira, 9 de abril de 2013

Triunidos erraremos: como NÃO evoluiu o cérebro humano

A Folha Online fez uma resenha do novo livro do físico Leonard Mlodinow: "Subliminar", que destaca o papel do inconsciente e subconsciente nas decisões e escolhas humanas.

Não li o livro. E não contesto a tese (discutida, aliás, na entrevista da Suzana Herculano-Houzel ao Roda Viva).

Acho estranho é o infográfico que acompanha a reportagem-resenha, cujo texto reproduzo abaixo:

"Os três cérebros: Cada parte do órgão tem funções específicas.

1. Reptiliano: Região primitiva presente em vertebrados (aves, répteis, anfíbis, peixes e mamíferos). É responsável por funções de sobrevivência: atividade de órgãos ou reflexos como fugir

2. Sistema límbico. Áreas relacionadas à percepção social inconsciente, à regulação de emoções, aos relacionamentos e ao impulso sexual. Comum a todos os mamíferos.

3. Neocórtex. Massa cinzenta que diferencia os humanos de outros seres vivos. É o lugar relacionado à consciência e ao raciocínio lógico.

Fonte: Leonardo Mlodinow, físico autor de 'Subliminar'"

É basicamente a Teoria do Cérebro Triuno de Paul D. MacLean. Pela teoria, o cérebro humano reflete as relações de ancestralidades carregando estruturas formadas sequencialmente durante sua evolução, com três estágios de estabilidade relativamente longa da evolução do cérebro vertebrado refletindo-se na estruturação do cérebro humano.

A teoria de MacLean tem seus (sérios) problemas, mas o texto acima do infográfico tem mais.

Há questões quase semânticas como o uso do termo primitivo; outras mais graves envolvem erros factuais: o sistema límbico é, de fato, comum a todos os mamíferos, mas não quer dizer que *apenas* mamíferos os tenha, répteis têm também sistema límbico. De fato, Bruce e Neary (1995) concluem que o ancestral em comum dos mamíferos e répteis teria já um sistema límbico bem desenvolvido.

Tampouco o neocórtex é exclusivo de seres humanos, como é dado a entender do texto. Um neocórtex com 6 camadas de células já estaria presente nos primeiros mamíferos (Northcutt e Kaas, 1995). De fato, em humanos é uma camada bem desenvolvida e convoluta. Mas o de golfinhos também é bem desenvolvido (vide, p.e., Figura 2 de Krubitzer e Kahn, 2003).

Mesmo que dividamos o cérebro de humanos nessas três grandes estruturas, elas estava presentes já nos primeiros mamíferos (na verdade já no ancestral em comum entre répteis e mamíferos) - a diferença do cérebro humano, então, reside, não na estruturação, mas na organização e tamanho.

O infográfico credita as informações ao texto de Mlodinow. Se assim for, é um ponto fortemente negativo para o físico. Seu "O Andar do Bêbado" é muito bom e recomendo. Mas, embora não tenha lido "Subliminar", se ele se baseia na teoria do cérebro triuno, torço mesmo o nariz que não tenho.

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