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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 21

Eugen Glavan e Alexandru Cernat (2010), ambos da Universidade de Bucareste, Romênia, fizeram uma análise de uma pesquisa de opinião entre os romenos sobre ciência religião.

Baseados nas respostas de 1.161 adultos, fizeram uma análise das correlações entre diversos fatores e o grau de alfabetização científica. Essa análise é resumida na Figura 1 abaixo, adaptada de sua apresentação na "Science and the Public 2010", realizada na Imperial College de Londres, RU.

Figura 1. Correlação entre dimensões de atitudes sobre ciências e religião e alfabetização científica entre os romenos. Linhas vermelhas, correlação negativa; linhas azuis: correlação positiva. Glavan &Cernat 2010.

Um aspecto que se destaca é a correlação negativa entre alfabetização científica e a visão de que a ciência e a religião se opõem (necessariamente ou frequentemente). Não é propriamente uma surpresa, porém é reforço para a visão pessoal que tenho (e divido com algumas pessoas boas) de que a ênfase no embate entre ciência e religião - como levada a cabo por Richard Dawkins e outros céticos racionalistas antirreligiosos - é deletéria para a compreensão e aceitação do conhecimento científico.

Sim, é uma correlação, não necessariamente uma relação de causa e efeito. Mas atente-se ao fato que o fator "ciência x religião" também se correlaciona positivamente com a visão de que o conhecimento científico tem pouca importância na vida das pessoas ("irrelevância científica") e que a ciência costuma trazer problemas ("riscos").

Esse embate parece servir mais para alienar uma fração considerável de pessoas religiosas - no Brasil, algo como 84% a 99% das pessoas acreditam em alguma divindade e 92%93%, tem alguma filiação religiosa. Claro, é uma pesquisa que se refere apenas à Romênia. Infelizmente não temos uma pesquisa ampla de caráter nacional por aqui - pretendo analisar essas dimensões e correlações nos resultados da Pesquisa Gene Repórter: Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia, mas ela tem limitações como autosseleção dos respondentes, de todo modo alguns dados preliminares parecem ser consistentes com o quadro romeno.

Outro elemento que se pode destacar é a correlação *negativa* entre alfabetização científica e o idealismo científico (a visão de que a ciência e a tecnologia resolverão todos os problemas do mundo). Quanto mais o indivíduo conhece as ciências e suas práticas, mais realista fica sua visão a respeito das potencialidades e limitações científicas. Na Romênia, pessoas mais alfabetizadas científicas, sem surpresas, apoiam menos a ideia de que a ciência seja irrelevante, por outro lado, não há um maior apoio de que as ciências tragam muitos benefícios, nem que os riscos sejam desprezíveis. O que talvez permita afastar a preocupação de certo setor pós-modernista (e pós-conceitualistas) de que a divulgação científica tenda a ser alienante, exaltando as maravilhas científicas e ocultando os problemas (éticos, ambientais, culturais, sociais, econômicos...) decorrentes da pesquisa e aplicação tecnológica mal planejada - ou significa que pelo menos que em alguma coisa os romenos estão acertando.

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