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segunda-feira, 12 de maio de 2014

P: Quando se engajar em debate com negacionistas? R: Não sei.

Uma definição de negacionismo é a empregada pelos irmãos Hoofnagle: "employment of rhetorical arguments to give the appearance of legitimate debate where there is none, an approach that has the ultimate goal of rejecting a proposition on which a scientific consensus exists". ["emprego de argumentos retóricos com fim de proporcionar a aparência de debate legítimo onde não existe nenhum, abordagem que tem como objetivo último rejeitar uma proposição em torno da qual há consenso científico."] (Diethelm & McKee 2009)

Diethelm & McKee 2009 listam 5 características comuns aos argumentos negacionistas (não estão necessariamente todos presentes ao mesmo tempo):
a) Conspiracionismo: se quase todos os cientistas acreditam em A, para o negacionista isso indica que houve um grande, complexo e secreto acordo escuso entre as partes, e não que chegaram a conclusões similares por exame independente da mesma questão. A revisão por pares seria um meio para suprimir o dissenso. (Certamente conspirações ocorrem no mundo real, mas é difícil uma que envolva praticamente toda a comunidade científica.)
Fenômeno relacionado: inversionismo - atribuir aos outros as próprias características e motivações (ex. companhias fumígeras diziam que havia uma *índústria* antitabagista, *verticalmente integrada*, *altamente concentrada*, *oligopolista e cartelizada*, em ação conjunta com monopólios públicos, a *fabricar indícios* de ligação entre o fumo e doenças como o câncer *alardeando publicamente* os supostos achados.
b) Uso de falsos especialistas: recorrer a quem se diz especialista em um dado tema, mas cuja visão é totalmente contrária ou inconsistente com o conhecimento estabelecido.
Fenômeno relacionado: conspurcação e desmerecimento de especialistas e pesquisadores estabelecidos, acusações e insinuações que procuram desacreditar seus trabalhos ou colocá-los sob suspeita e dúvida.
c) Seletividade dos indícios: usar artigos isolados que desafiam o consenso dominante ou destacar as falhas nos trabalhos menos significativos na tentativa de desacreditar todo o campo de estudos.
Fenômeno relacionado: complexo ou gambito de Galileu - implicação falaciosa de que, se uma ideia é combatida e tida por errada, então ela é certa (tal qual as ideias de Galileu frente à censura religiosa).
d) Expectativas irrealistas sobre o que as pesquisas científicas podem oferecer: p.e. negar os registros de aquecimento global porque não há medidas tão precisas como as atuais antes da invenção do termômetro.
Fenômeno relacionado: exploração das incertezas associadas a modelos matemáticos - como *todo* modelo traz consigo um certo grau - maior ou menor - de incertezas, joga-se com isso exigindo padrões de confiabilidade irrealisticamente altos.
e) Deturpações e falácias lógicas: p.e. grupos pró-fumo usavam do argumento ad Hitlerum - como Hitler era contra o fumo, então os antitabagistas eram nazistas e, portanto, errados. Mas há toda uma fauna de distorções lógicas: red herring, espantalhos, falsas analogias, falácia do terceiro excluído (ou falsa dicotomia), etc, etc.
*Fenômeno relacionado: trolagem e ameaças - de floods de timeline e caixas de comentários e editawars até ataques cibernéticosassédio pessoal, intimidações físicas ou pior. [*Acréscimo por minha conta.]

Intemann & Melo-Martín 2014** analisaram os dois critérios mais defendidos para a decisão do engajamento na discussão por parte dos cientistas com os negacionistas (dentro do chamado "dissenso normativamente apropriado") e não chegaram a uma conclusão animadora.
1) o negacionista deve se esforçar em compreender as críticas a sua própria visão: levar as críticas a sério e reanalisar seus argumentos ou explicar por que as críticas são infundadas;
Problema: muitas vezes o negacionista *acredita* estar se esforçando em compreender as críticas e *acredita* ter rebatido satisfatoriamente às críticas, mas isso ocorre por falhar em compreender de modo apropriado as críticas - ao fim, é preciso que ele compreenda os critérios para avaliação das críticas dentro do campo científico;
2) o negacionista deve compartilhar parte do padrão de avaliação de teorias científicas: um acordo sobre o que é ou não um bom indício.
Problema: naturalmente se houvesse acordo total sobre os padrões de avaliação, não haveria dissenso; em havendo total desacordo, não há diálogo possível (sendo um critério de recusa a desperdiçar tempo discutindo); a questão que surge, então, é qual o grau de sobreposição de padrões é necessário.

Os autores fazem distinção entre desacordo e dissenso científicos: um dissenso é a visão contrária ao que é amplamente estabelecido na comunidade científica; caso a questão ainda esteja em debate ou haja uma incerteza grande dentro da comunidade científica relevante, é um desacordo não dissentâneo (todo dissenso é um desacordo, mas nem todo desacordo é um dissenso). Outra distinção é entre o dissenso científico e o dissenso público ou leigo.

Não se deve deixar de enfatizar que a discordância é essencial para o avanço do conhecimento científico. É a base do exame crítico. A questão é quando se deixa de ser ceticismo saudável e se embarca no negacionismo - fase em que se nega um fato ou teoria *a despeito* do corpo de indícios favoráveis à tese que rejeita (e da inexistência de um corpo consistente de indícios contrários). Naturalmente é preciso combater o negacionismo, mas os critérios normalmente considerados para se avaliar se vale a pena (o negacionista é bem intencionado, apenas mal informado) ou se é só uma perda de tempo (ele é mal intencionado ou está irremediavelmente comprometido com sua visão) são, pelo visto, problemáticos. #comofaz?

Qual a sua experiência no debate com negacionistas?

**via Adalberto Cesari.

2 comentários:

Alexandre disse...

Eu tive uma fase ingênua de me engajar em qualquer debate a respeito de aquecimento global, achando -ingenuamente- que as evidências falariam por si. Ledo engano, claro.

Uma tática bem comum são os "moving goalposts": se eles dizem que não está aquecendo e vc mostra dados de várias fontes ou mesmo marcadores biológicos mostrando o contrário, eles dizem que não é essa a questão, e que o que se discute é a causa. Se você mostra evidências da causa, eles dizem que a mitigação vai destruir a economia. Se vc mostra dados a respeito de problemas similares resolvidos sem nenhuma tragédia econômica, eles dizem que não está aquecendo - e inclusive negam que estão andando em círculos.

Ou, em casos menos elaborados, apenas se aferram à primeira idéia, evocando as teorias conspiratórias para descartar as contraevidências.

Das 300 pessoas com quem já debati a respeito disso, talvez com duas ou três tenha valido a pena - houve troca genuína de informações, e um novo entendimento da questão foi alcançado.

Mesmo assim, eu responderia à pergunta do teu título dizendo que vale a pena se engajar até o ponto em que vc percebe os primeiros sinais de que evidências não vão mudar a convicção do interlocutor. Normalmente, esse ponto não demora muito a chegar.

none disse...

Salve, Alexandre.

O problema é este:
http://xkcd.com/386/
----

[]s,

Roberto Takata

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