PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Como é que é? - Garota de 12 anos rouba autoria de importante descoberta em biologia marinha?

Uma garota de 12 anos filha de cientista - seu pai, D. Albrey Arrington, é ecólogo de peixes - apresentou em 2012 seu projeto de feira de ciências com resultados que mostravam que o peixe-leão (Pterois sp.) é capaz de sobreviver em águas de baixa salinidade (até 5 g/litro). Vários veículos destacaram o feito e a NPR (rádio educativa americana) não foi nada sutil:

"Sixth-Grader's Science Fair Finding Shocks Ecologists" ["Achado de Feira de Ciências de Alunaos de Sexto Ano Deixa Ecólogos Chocados" - mudado agora para "Sixth-grader's science project catches ecologists' attention": "Projeto de ciências do sexto ano chama a atenção de ecólogos."]

A NBC não ficou atrás:

"Sixth-Grader's Lionfish Science Project Stuns Conservation Experts" ["Projeto de Ciências de Sexto Ano sobre Peixe-Leão Espanta Especialistas da Conservação"]

Nem a CBS:

"Sixth grader credited with scientific breakthrough on lionfish" ["Aluna do sexto ano reconhecida com descoberta surpreendente sobre peixe-leão"]

A tolerância à variação na salinidade tem uma implicação ecológica importante. Duas espécies de peixe-leão: P. volitans e miles - nativas das águas do Indo-Pacífico, estão agora invadindo o litoral atlântico americano (inclusive no Brasil), onde não encontra predadores. Se toleram ambientes de baixa salinidade podem invadir também ambientes de água doce.

Seria mais um belo caso de incentivo às crianças - como a das crianças do primário de Blackawton estudando abelhas mamangabas ou das crianças do quinto ano em Ubatuba-SP planejando lançar um satélite, entre outras -, porém parece que a coisa é meio, como diriam os americanos, "fishy" (yay! trocadilho!). Em sua página no facebook, o biólogo marinho Zachary R. Jud reclama para si a autoria da descoberta*.

"My lionfish research is going viral...but my name has been intentionally left out of the stories, replaced by the name of the 12-year-old daughter of my former supervisor's best friend. The little girl did a science fair project based on my PREVIOUSLY PUBLISHED DISCOVERY of lionfish living in low-salinity estuarine habitats. Her story has been picked up nationally by CBS, NPR, and CORAL magazine, and has received almost 90,000 likes on Facebook, yet my years of groundbreaking work on estuarine lionfish are being completely and intentionally ignored. At this stage in my career, this type of national exposure would be invaluable...if only my name was included in the stories. I feel like my hands are tied. Anything I say will come off as an attempt to steal a little girl's thunder, but it's unethical for her and her father to continue to claim the discovery of lionfish in estuaries as her own.

I'm looking towards you - my valued friends and colleagues - for suggestions on how I might be able to remedy this intentional misrepresentation without doing anything to disparage the little girl. Most of you are aware of the massive amount of time I put into exposing kids to science, and I obviously don't want to do anything to diminish this young lady's curiosity or enthusiasm. I'm thrilled that she chose to look at lionfish for her science fair project, but encouraging an outright lie is poor parenting and a horrible way to introduce a youngster to a career in the sciences.

This picture was taken in 2010, when I first discovered lionfish occupying estuarine habitats - 3 years before the little girl's 'discovery'.
"
["Minha pesquisa sobre peixe-leão está viralizando... mas meu nome tem sido intencionalmente deixado de fora nos relatos, substituído pelo nome da filha de 12 anos do melhor amigo de meu antigo orientador. A garotinha fez um projeto de feira de ciências baseado em minha DESCOBERTA ANTERIORMENTE PUBLICADA sobre peixe-leões vivendo em hábitats estuarinos de baixa salinidade. Sua história vem sendo destacada pela CBS, NPR e revista CORAL, e recebeu quase 90.000 curtidas no facebook, porém meus anos de trabalho de base com peixes-leões estuarinos estão sendo completa e intencionalmente ignorados. Neste estágio de minha carreira, esse tipo de exposição nacional seria valioso... se meu nome fosse incluído nos relatos. Sinto como se de mãos atadas. Tudo o que eu disser parecerá como uma tentativa de roubar o brilho de uma garotinha, mas é antiético que ela e seu pai continuem a clamar para si a descoberta de peixes-leões em estuários.

Peço a vocês - meus valorosos amigos e colegas - sugestões sobre como posso remediar essa representação intencionalmente errada sem denegrir a garotinha. A maioria de vocês está ciente da quantidade de tempo que dedico a expor as crianças às ciências e, obviamente, não quero fazer nada para diminuir a curiosidade e o entusiamos da jovem senhorita. Estou emocionado que ela tenha escolhido o peixe-leão para seu projeto de feira de ciências, mas encorajar uma mentira deslavada é um modo errado de se criar filhos e um modo horrível de se introduzir os jovens à carreira nas ciências.

Esta foto foi tirada em 2010, quando descobri pela primeira vez peixe-leão ocupando hábitats estuarinos - 3 anos antes da 'descoberta' da garota."]

O relato original da NPR dizia: "Lionfish had been found to live in water with salt levels of 20 parts per thousand. But no one knew that they could live in water salinity below that" ["Peixes-leões são encontrados em águas com salinidades de 20 partes por mil. Mas ninguém sabia que poderia viver em salinidade abaixo disso"]. Segundo Jud, o trabalho da garota é baseado em seu achado de que os peixes-leões estavam invadindo o ambiente estuarino - onde a salinidade é bem abaixo da de oceano aberto (Jud et al. 2011). Nesse trabalho, um dos co-autores é o pai da menina. No recente artigo de Jud et al. 2014 sobre a eurialinidade das espécies, a menina é citada no corpo do artigo:

"To address our first objective, identifying the long-term effects of reduced salinity on lionfish survival, growth, and behavior, we exposed fish to a salinity of 7‰ for 28 days in a laboratory setting. We chose this salinity based on our findings from the in situ cage study (above), in situ observations of wild lionfish at 8‰ (Z. Jud, unpubl. data), as well as the results of a small pilot study that showed lionfish could survive and feed at 6‰ for short periods of time (L. Arrington, unpubl. data)."

E nos agradecimentos:

"Acknowledgement This project was made possible by a close partnership with the Loxahatchee River District. Lauren Arrington (King’s Academy, West Palm Beach, FL) conducted preliminary laboratory experiments that helped give rise to our experimental design. We thank Joel Trexler for facilitating our use of Florida International University’s aquarium facilities and Diana Churchill for assistance during the laboratory portion of the study. Research protocols were approved by Florida International University’s Institutional Animal Care and Use Committee (IACUC-13-030- AM01), and a Florida Fish and Wildlife Conservation Commission Special Activities License (SAL-13-1487-SR)." [Trecho destacado sem itálico: "Lauren Arrington (King's Academy, West Palm Beach, FL) realizou os experimentos preliminares em laboratório que ajudaram a moldar nosso design experimental."]

Arrington, o pai, disse ao The Scientist que sua filha leu o artigo de 2011 e assistiu às palestras de Jud e Layman explicando os resultados quando elaborou, por conta própria, o experimento de tolerância à variação na salinidade. (Incluindo a citação ao artigo nas referências da apresentação do projeto na feira de ciências.)

Então, o achado é de quem?

A situação pode ser um pouco mais complicada do que se considerar um caso de simples plágio ou roubo de autoria. Poderia, por exemplo, ser o caso de uma percepção diferente do sentido de propriedade da ideia. Do ponto de vista da garota e de seus amigos e parentes pode ser algo assim: "Eu fiz o experimento, então o achado é meu". Do ponto de vista de Jud pode ser: "A concepção do experimento é minha, então a descoberta é minha". Além disso, o objeto é um tanto distinto. Do ponto de vista da Lauren Arrington: "Eu demonstrei que eles vivem em salinidade de até 6 partes por mil"; do ponto de vista de Jud: "Eu demonstrei que eles devem viver em ambientes com salinidade abaixo de 10 partes por mil e de, pelo menos, até 8 partes por mil". E a ênfase é distinta. Ela: "Eles podem invadir os rios"; ele: "Mostrei que já estão nos estuários."

Mas o papel de como a mídia esteve, até então, relatando o caso é, sem dúvida, relevante na percepção de Jud de que estava sendo escanteado.

Arrington sênior afirma, segundo o The Scientist, que em todos os contatos com a imprensa têm mencionado o trabalho em co-autoria com Jud. O orientador de Jud, Craig Layman, escreveu sua versão da história. Sua conclusão é que muito do problema foi gerado pelo sensacionalismo da imprensa: o trabalho da garota é, sim, uma contribuição original para a ciência (uma demonstração mais controlada do que era observacionalmente sugerido), mas não é algo que tenha chocado a comunidade de ecologia de peixes - afinal, já se sabia que os peixes-leões eram capazes de viver em ambiente com salinidade abaixo da do mar aberto (estuarinos, no caso) (descoberta que alguns relatos da imprensa, como a da NPR, erradamente atribuíram à Arrington, a filha, e que irritou profundamente Jud).

Pelo modo como os veículos estão cobrindo o caso agora:
o sensacionalismo continua. Sobretudo transformando uma demanda pela correta atribuição de créditos em uma acusação de roubo.

O blogue Science Sushi está fazendo a cronologia do caso:


(*via Camila Mano facebook)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails