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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Microcefalia x Piriproxifem: sem correlação

O tema já está bem esclarecido, espero, a esta altura. Não apenas com as negativas do MS, como da própria Abrasco, a quem se atribuiu a relação entre o piriproxifem e o surto de microcefalia.

Rebati a hipótese também na segunda parte da compilação de mitos a respeito do ZIKV e da microcefalia. Os testes realizados até o momento não detectaram a produção de filhotes com microcefalia quando administrados em ratas e coelhas grávidas; tampouco há registro de surto de microcefalia nos demais países em que o produto é utilizado (inclusive para tratamento de água para beber).

Tentei obter, ainda sem sucesso, dados oficiais do MS do uso do composto. Porém consegui dados parciais - de apenas algumas unidades federativas - do consumo de piriproxifen para tratamento de água em 2015 - que dá para pescar no site do ministério (tabela 1).

Tabela 1. Consumo de piriproxifem e casos de microcefalia no Brasil. 2015/6.
UF piriproxifem
(ton. 2015)
microcefalia
(notificações 2015-6)
RJ 4,1 256
MG 10 65
RS* 0,96 31
AL 6,6 212
BA 29 775
CE 17,3 335
MA 4,5 181
PB 6,55 790
PE 21 1.601
PI* 1,5 127
RN 11,4 374
SE* 7,84 188

Considerando apenas os estados do NE (a situação não muda muito se incluirmos RJ e MG), a correlação entre consumo de piriproxifem e casos notificados de microcefalia é muito baixa: R2 = 0,29 (Fig. 1). Se o consumo de composto fosse a causa da má-formação, haveria de se esperar uma correlação muito alta.

Figura 1. Relação entre consumo de piriproxifem e microcefalia em estados nordestinos. Note a correlação muito baixa: R2 = 0,29.

Compare-se, por exemplo, com a correlação entre casos de dengue e notificação de microcefalia para as UFs da região (restringi a comparação apenas à região NE porque, por provavelmente haver começado ali a epidemia de zika, nas demais regiões, a dengue não ser um bom proxy para a infecção por ZIKV). Sendo o ZIKV transmitido pelo Aedes aegypti, em área em que o vírus ocorre, quanto maior a população do mosquito, maior deve ser sua transmissão. E, se o ZIKV se liga (causalmente ou não) aos casos de microcefalia; quanto maior a taxa de infecção pelo vírus, maior o número esperado da má-formação.(Alguns fatores intervenientes podem alterar - como diferenças à *exposição* ao mosquito: em algumas regiões, apesar de uma população maior do inseto, as pessoas podem estar mais bem protegidas - por exemplo, melhor acesso a repelentes; então, os casos de dengue podem ser um bom indicador que leve em conta essa diferença de exposição: se as pessoas estão expostas a picadas de A. aegypti para pegar DENV, tendem a estar igualmente expostas a serem infectadas por ZIKV.) A correlação obtida é muito alta: R2 = 0,95.


Figura 2. Correlação entre casos de dengue e de microcefalia em estados do NE.

Caso eu tenha acesso a dados mais completos, atualizo a análise. Mas parece bem claro que a anunciada correlação entre piriproxifen e microcefalia não existe - ou, se existe, ela é muito pequena e deve-se ao fato de que, em áreas com maior infestação de mosquitos, tende-se a usar mais do produto para controle do animal, também é usado em áreas mais precárias (onde não há, p.e., água encanada), onde também estão presentes outros fatores causadores de microcefalia: desnutrição materna, citomegalovírus, sífilis...

*Upideite(29/fev/2016): adido a esta data.
Upideite(29/fev/2016): Considerando os dados de RJ, MG, RS, PI e SE, a correlação entre piriproxifem e microcefalia dá um R2 = 0,43 (Fig. 3).
Figura 3. Relação entre consumo de piriproxifem e microcefalia.

3 comentários:

Felipe Campelo disse...

Não valeria comentar que mesmo essa pequena correlação pode ser explicada por uma variável oculta (tipo a correlação entre o uso do larvicida e a ocorrência do Aedes)?
Abração.

Felipe Campelo disse...

Não valeria comentar que mesmo essa pequena correlação pode ser explicada por uma variável oculta (tipo a correlação entre o uso do larvicida e a ocorrência do Aedes)?
Abração.

none disse...

Salve, Campelo,

Valeu pela visita e comentário.

Sim, pode se dever a isso. Abordo essa possibilidade no parágrafo final: "se existe, ela é muito pequena e deve-se ao fato de que, em áreas com maior infestação de mosquitos, tende-se a usar mais do produto para controle do animal".

[]s,

Roberto Takata

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