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domingo, 7 de agosto de 2016

Especulando: revisitando o efeito Dunning-Kruger

Em 1999, os pesquisadores Justin Kruger e David Dunning, da Universidade de Cornell, publicaram um trabalho seminal (com 2.872 citações até o momento em que escrevo este texto, segundo o Google Scholar) em que descrevem o fenômeno em que pessoas que se saem pior em um teste tendem a superestimar seu desempenho - enquanto os com melhores resultados tendem a subestimar (Fig. 1). Essa relação passou a ser conhecida como efeito Dunning-Kruger.

Figura 1. Efeito Dunning-Kruger. Quanto pior o desempenho real (linha tracejada), maior a superestimativa da própria habilidade (linha contínua). Fonte: Kruger & Dunning 1999.


Para os autores do achado, o efeito seria dado em boa parte por um déficit metacognitivo (isto é, habilidades mentais de perceber o próprio grau de conhecimento): quando uma pessoa não tem conhecimento suficiente sobre um tema, também não tem as ferramentas mentais para avaliar o grau de conhecimento nesse tema. (Também formulado como "ignorância a respeito da própria ignorância".)

Mas (devo salientar que psicologia *não* é minha área de formação), para mim, esse mecanismo deveria levar também - e principalmente - a uma maior *variação* da própria percepção do desempenho: a falta de ferramentas cognitivas faria com que errassem o resultado tanto para mais quanto para menos. Em uma analogia, uma pessoa com pouca habilidade em tiro ao alvo, após uma série de tiros, acertaria vários pontos espalhados em torno da mosca.

Por outro lado, a diferença entre os valores de autoavaliação dos grupos com melhor e pior desempenho é menor do que a diferença entre os desempenhos reais. E, como dito, os com melhor desempenho tendem a subestimar seu próprio resultado. Pode ser que um mecanismo que faça com que as pessoas tendam a se equiparar à média esteja agindo.

Infelizmente, no artigo original, K&D não apresentam dados de dispersão dos valores em torno dos pontos, apenas valores de medida de tendência central. (Vários outros estudos, e não apenas do grupo de Krueger e Dunning, também deixam de reportar medidas de dispersão.)

Mas Pazicni & Bauer (2014) reproduziram o estudo de K&D com estudantes de química em 9 turmas (Fig 2). A distribuição das médias de desempenho percebido parece bem homogênea entre os estudos para os diferentes quartis de desempenho real.

Figura 2. Efeito Dunning-Kruger em 9 turmas de Introdução à Química. Linhas coloridas: previsões de desempenho; linha preta: desempenho real. Fonte: Pazcini & Bauer 2014.

Essa variação homogênea das médias das estimativas para diferentes quartis de desempenho não é muito compatível com um efeito predominante da falha metacognitiva.

Vale notar também que o efeito pode variar de acordo com a área do conhecimento (Fig. 3). O que indica que não seria um mecanismo geral de metacognição.

Figura 3. Variação do efeito Dunning-Kruger de acordo com as disciplinas. Linhas coloridas: previsões; linha preta tracejada: desempenho real. Fonte: Erickson & Heit 2015.


Reproduções independentes (residentes de medicina Hodges et al. 2001, estudantes de aviação Pavel et al.2012) parecem indicar que o efeito é real. Mas há divergência em relação ao mecanismo gerador do padrão. P.e. Krueger & Mueller (2002) acham que o efeito pode resultar de um artefato estatístico; para Krajc & Ortmann (2007), há uma diferença no nível de dificuldade de inferência, sendo mais difícil para os de menor desempenho; Simons (2013) considera que o efeito DK ou "incompetente e inconsciente" ("unskilled and unaware") é em função de um otimismo irracional por parte dos menos habilitados; segundo Kim et al. (2015), os menos capazes ativamente rejeitam essa condição por autopreservação da imagem .

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Agradeço a @EliVieira pela ajuda na bibliografia.

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