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domingo, 18 de setembro de 2016

Um, dois, quatro, seis, oito... a confusa vida taxonômica da dona girafa

A recente publicação do resultado de uma análise genética que concluiu pela existência de quatro espécies distintas de girafas teve uma boa repercussão - considerando que é um trabalho científico (claro que não dá pra competir com a atenção dispensada a divórcios de personalidades).

Ficando só na primeira página de resultados do Google pra "girafa quatro espécies" (sem aspas) entre sites noticiosos:
08.set.2016. Terra. Análise genética revela a existência de 4 espécies de girafas
08.set.2016 Estadão. Cientistas descobrem que existem quatro espécies de girafas
08.set.2016 Yahoo! Existem quatro espécies de girafa e não uma como se pensava
09.set.2016 Correio Braziliense. Cientistas descobrem que existem quatro espécies de girafas
12.set.2016 Superinteressante. Existem quatro espécies de girafa - e não uma só
12.set.2016 BuzzFeed. Cientistas acabaram de descobrir que existem quatro espécies diferentes de girafa

Todos destacaram a implicação que a descoberta pode ter para a conservação - sendo várias espécies com populações restritas e não uma única com diferenciações regionais, os esforços devem ser aumentados para preservar a biodiversidade; programas de reprodução em cativeiro também podem necessitar de maior atenção quanto às características genéticas dos indivíduos (e, além disso, o reconhecimento de uma nova espécie pode despertar a sanha de colecionadores de troféus de caça como anotam Zachos et al. 2013). Mas, desses seis veículos, somente o (quem diria) BuzzFeed destacou que foi um resultado na verdade já previsto.

A culpa da ênfase no ineditismo do achado da multiplicidade de espécies parece se dever ao press release da Cell, cujo resumo é: "Up until now, scientists had only recognized a single species of giraffe made up of several subspecies. But, according to the most inclusive genetic analysis of giraffe relationships to date, giraffes actually aren't one species, but four. The unexpected findings highlight the urgent need for further study of the four genetically isolated species and for greater conservation efforts for the world's tallest mammal, the researchers say." ["Até hoje, os cientistas têm reconhecido apenas uma única espécie de girafa composta de várias subespécies. Mas, de acordo com a análise genética mais abrangente até agora das relações das girafas, elas na verdade não são uma espécie, mas quadro. O achando inesperado destaca a necessidade urgente de se estudar mais a fundo as quadro espécies geneticamente isoladas e de maiores esforços de conservação do mamífero mais alto do mundo, dizem os pesquisadores."] (grifos meus.)

O fato é que o estudo de 2007 de Brown e cols. (citado pelo artigo de Fennessy et al. 2016, que ganhou as manchetes agora) com genes mitocondriais e regiões de microssatélites do ADN nuclear (pequenas sequências repetitivas e que podem variar bastante de indivíduo para indivíduo ou de população para população, servindo de marcadores genéticos) havia identificado 5 linhagens que se constituíam em populações discretas - isto é, com fluxo gênico muito restrito, se não ausente. Padrões de pelagem ou diferenças no tempo de reprodução poderiam levar a acasalamentos preferenciais na ausência de barreiras físicas. Groves & Grubb 2011 listam oito espécies. O trabalho de Fennessy et al. 2016 utilizou também genes mitocondriais, mas também nucleares, e basicamente corroborou os achados de Brown e cia., mas confirmou apenas quatro - e talvez uma quinta. Se Fennessy e cia.incluíram sequências intrônicas de genes nucleares e amostras da girafa núbia; a amostragem de Brown e colegas foi maior: 266 contra 105 nuclear e 190 mitocondrial de Fennessy et al.

A história taxonômica da girafa é bastante convoluta conforme resumida por Seymour 2012 e Peterson 2015. Inicialmente, foi classificado por Lineu em 1758 como Cervus camelopardalis baseado em uma descrição feita pelo viajante e naturalista francês Pierre Belon de um exemplar em cativeiro que viu no Cairo, Egito, por volta de 1547*. Sim, Lineu agrupou  a girafa junto com outros cervídeos, como o veado vermelho. Coube ao zoólogo francês Mathurin Jacques Brisson, em 1762, atribuir um gênero próprio à girafa: Giraffa. (Brisson nomeou a espécie G. giraffa. Só em 1848 corrigiram para G. camelopardalis seguindo as regras da nomenclatura zoológica - quando uma espécie ganha um próprio gênero ou é transferido para outro, o epíteto específico válido mais antigo é conservado)  O vice-rei do Egito sob o Império Otomano, Muhammad Ali (não confundir com um famoso boxeador), havia enviado de presente três girafas para a Europa (as últimas girafas vivas na Europa eram do tempo da Florença de Medici, presentadas ao todo poderoso florentino por volta de 1486); uma fêmea foi dada para o Carlos X da França (os outros foram parar nas cortes de Jorge IV do Reino Unido e Francisco I da Áustria). A 'le bel animal du roi' ('belo animal do rei', como a chamou Saint-Hilaire) foi acompanhada em seu deslocamento de Marselha para Paris em 1827 por ninguém menos que Geoffroy Saint-Hilaire. Comparando o animal com peles preservadas num museu parisiense provenientes da África do Sul, o naturalista francês concluiu pela existência de duas espécies de girafas. Outros, no entanto, como o zoólogo sueco Carl Jakob Sundevall, consideravam que eram apenas duas raças ou subespécies - a diferença seria apenas do comprimento do pelo. A disputa entre um ou duas espécies adentrou o século 20 e prosseguiu. A partir de 1971, com a revisão da zoóloga canadense Anne Innis Dagg, passou a predominar o consenso pela monotipia do gênero Giraffa. Seymour, em sua tese de 2001 (cujos resultados seriam publicados em 2007), concluiu pela análise morfológica, de padrões de pelagem e dados moleculares a partir de espécimes de museu que seriam duas espécies.

O fato de a maioria dos zoólogos classificarem como uma única espécie não deve mascarar o reconhecimento de uma diversidade interna - pelas mais de seis (até 27) denominações específicas e subespecíficas propostas ao longo do tempo.

Um ponto que cabe ressaltar também é que não parece haver isolamento reprodutivo absoluto entre as populações das espécies propostas. Em cativeiro, certamente há intercruzamento com a produção de híbridos viáveis (fato notado por Fennessy et al. 2016 e listado como motivo para considerar o resultado deles como "inesperado"). Há também registros de híbridos na natureza. Lönnig 2008 cita vários exemplos. Isso não inviabiliza a existência de espécies distintas, mas depende da definição de espécie adotada - a mais restritiva do chamado "conceito biológico de espécie" (que se baseia em um isolamento reprodutivo completo) certamente não cabe. O fluxo, no entanto, parece ser baixo o suficiente para que as populações sejam geneticamente distintas. O fato de Fennessy et al. 2016 terem utilizados sequências nucleares intrônicas (partes dos genes que normalmente não contribuem com a sequência das proteínas codificadas) diminui a possibilidade de as diferenças detectadas no estudo deverem-se diretamente à seleção diferencial dos genes estudados - embora não elimine de todo, poderia se dar por efeito carona: isto é, regiões mais ou menos neutras são mantidas distintas entre as populações por causa de regiões não-neutras (selecionadas positiva ou negativamente) adjacentes. Os autores, no entanto, não discutem a seleção no estudo.

Fennessy et al. 2016 estimam o tempo de divergência entre espécies entre 1,25 e 2 milhões de anos atrás, mas também não discutem as causas dessa divergência. O estabelecimento das savanas no leste da África dá se entre 8 e 5 milhões de anos atrás; com três breves períodos úmidos (entre 2,7 e 2,5 maa; 1,9 e 1,7 maa e 1,1 e 0,9 maa) interrompendo a tendência geral à aridificação. Embora não seja necessário um fator externo para a especiação, é tentador associar a diversificação intra e/ou interespecífica da girafa a essa alteração paleoclimática: que pode alterar a distribuição das florestas e rios - tanto modificando a disponibilidade de recursos quanto podendo isolar populações.

Veja também
22.dez.2007. GrrlScientist. Living the Scientific Life. There Are More Giraffe Species Than You Think.
13.set.2016 Reinaldo J. Lopes. Darwin e Deus. As quatro girafas. (Cuidado! Contém paywall poroso.)
19.set.2016 Cientistas Feministas. E aí, e as girafas?
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Fonte: Staxx
*Belon 1554 descreveu mais ou menos assim: "Vi um animal no castelo de Cairo, chamado comumente de Zurnapa, os antigos romanos chamavam-no de Camelopardalis, nome composto de leopardo e camelo, por ser salpicado de manchas como o primeiro e ter um longo pescoço como o último. É um animal de bela forma, delicado como um carneiro, e mais manso que qualquer besta selvagem: sua cabeça é quase igual a de um veado, exceto pelo tamanho; sobre ela há dois pequenos cornos, cerca de um pé de comprimento, coberto de pelos; os do macho mais longo do que os da fêmea: ambos têm suas orelhas tão grandes quanto as de uma vaca; a língua é preta e similar a de um boi; a cauda é longa, reta e fina; sua crina é solta e 'rond' ['redonda'?]; suas pernas são finas e longas, altas na frente e se rebaixam atrás; seus pés são como as do boi; sua cauda desce quase até seu casco; é cilíndrica e seus pelos são três vezes mais espessos do que os de um cavalo; seu corpo é bastante esguio, e a cor dos pelos é branco e vermelho; sua maneira de lutar é como a dos camelos;  quando corre, suas duas pernas dianteiras vão juntas; ele se deita com a barriga no chão, e tem uma substância calosa em seu peito e articulações como aquele animal. Quando pasta, é obrigado a espalhar bem suas pernas dianteiras, e mesmo assim alimenta-se com grande dificuldade; então devemos imaginar que prefira as folhas das árvores para se alimentar do que pastar nos campos, especialmente porque seu pescoço é muito comprido e pode atingir a altura de uma lança."

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