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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Como é que é? - Prêmios de loteria sempre saem para cidades pequenas e desconhecidas?

SempreToda vez que um prêmio gordo é sorteado na loteria - especialmente a Mega Sena acumulada - há comentários de que sempre é sorteado algum bilhete vendido no cafundó do Judas (mesmo quando sai para a capital - seria a exceção apenas).

Fazendo um levantamento dos últimos 100 ganhadores (concursos 1530 a 1764), sem surpresas (ao menos do ponto de vista matemático, mas para os que defendem que apenas apostas feitas em cidades perdidas do interior do Brasil são premiadas - geralmente atreladas a suspeitas de fraudes - um resultado difícil de explicar), a cidade com mais bilhetes premiados é São Paulo, SP (com 15 bilhetes ganhadores), seguida de Rio de Janeiro, RJ (com 9 apostas vencedoras).

Se usarmos o tamanho populacional como proxy do número de apostadores por localidade, teremos o gráfico da Fig. 1.



Figura 1. Relação entre tamanho populacional e número de ganhadores. Cidades com mais habitantes têm um número maior de ganhadores na Mega Sena.

Uma simples correlação linear com coeficiente de determinação de 94,22% é obtida. Ou seja, o número de ganhadores por cidade parece seguir a proporcionalidade do número de habitantes - quanto maior a cidade, mais ganhadores - como esperado ao acaso, com a suposição de que a fração de apostadores seja mais ou menos constante entre as cidades.

Alguns fatores podem explicar a persistência do mito de que nunca - ou quase nunca - os prêmios saem para cidades maiores. De um lado, realmente os prêmios saem com mais frequência para cidades *menores* (ao menos menores do que as megacidades com mais de 1 milhão de habitantes). Como assim? Não acabamos de mostrar que quanto maior a cidade, maior o número de ganhadores? Sim, mas, em conjunto, há mais pessoas em cidades menores do que em cidades maiores no Brasil. Dos cerca de 205 milhões de brasileiros (cuidado! contém paywall poroso), 22% moram em uma das 17 cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Muito, mas isso significa que 78% moram em um dos 5.553 municípios com menos de 1 milhão de almas. 29,9% dos brasileiros vivem em um dos 41 municípios com mais de 500 mil habitantes; 56% em uma das 304 cidades com mais de 100 mil habitantes.

[Na verdade, na nossa amostra, há uma tendência a haver um número *maior* de ganhadores nas cidades *maiores* do que o que seria o esperado apenas pelo tamanho da população se o número de apostadores fosse proporcional ao número de habitantes.  41 das apostas são de cidades com mais de 1 milhão de habitantes; 13 em cidades entre 500 mil e 1 milhão; 15 de cidades entre 100 mil e 500 mil e 44 de cidades com menos de 100 mil habitantes.

Aparentemente, não apenas a noção comum de que tendem a ganhar as apostas feitas em pequenas cidades não se verifica, como se verifica o *oposto*. (Claro que aqui não se está analisando diretamente se a probabilidade de uma aposta unitária varia de acordo com o tamanho da população, bom que se diga. Ou seja, não deve adiantar, então, apostar em lotéricas de cidades grandes esperando que, com isso, suas chances aumentem.) Considerando-se que isso seja generalizável, isso poderia se dar por diferentes motivos (não mutuamente excludentes): em grandes cidades, pode ser mais fácil o acesso a lotéricas (do que em cidades em que a maioria da população viva na zona rural, p.e.); pode haver mais dinheiro circulando de modo a que os atuais R$ 3,50 na aposta simples da Mega Sena não signifiquem uma sacrifício muito grande nas finanças pessoais; a cultura pode ser mais conservadora, condenando apostas, em cidades interioranas pequenas...]

Mas o grosso do efeito da persistência do mito pode ser pela seleção de indícios. Só nos lembramos das vezes em que os prêmios saem em cidades de que nunca ouvimos falar. E a cada vez que um prêmio sai de lá, consideramos isso um reforço à hipótese. Ignorando as vezes em que sai para grandes cidades - considerando os casos como exceção.

Uma parte secundária deve ser pelo reforço gerado pelas vezes em que o mito é repetido - criando uma sensação de que a concordância geral implica na veracidade da afirmação. Parte das pessoas também têm uma tendência a acreditarem em teorias da conspiração: para estas talvez tentativas como esta de análise objetiva não apenas sejam infrutíferas como sirvam como reforçadores de crença (podem considerar que esforços em refutar mitos sejam provas de que há uma conspiração em curso, havendo esforços para desacreditar quem denuncia a trama).

Upideite(29/nov/2015): Aqui o gráfico (Fig. 2) contando todos os 283 ganhadores a partir do concurso 1077 (na base de dados da Caixa, o local de venda do bilhete premiado é identificado apenas por estados).
Figura 2.  Relação entre tamanho populacional e número de ganhadores. Em azul claro, média dos tamanhos populacionais das cidades com o mesmo número de ganhadores; notar a escala logarítmica do eixo x - a curva descreve uma relação linear entre as variáveis. 

Upideite(29/nov/2015): Gráfico similar (Fig. 3) é obtido quando plotamos a população das cidades contra o montante total de prêmios da sena.

Figura 3. Relação entre tamanho populacional e o montante de prêmios da sena. A relação é linear, maior a cidade, mais dinheiro recebe em prêmios - valores atualizados pelo IPCA (a escala x está em log).

Se consideramos a média dos valores da premiação, não notamos nenhuma tendência (Fig. 4).

Figura 4. Tamanho da população contra os valores médios da premiação. Escala dilog. Notar o baixo coeficiente de determinação, indicando a ausência de correlação.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Os antivacinistas no blogue do Nassif - 2

Espero que os leitores do GR tenham aproveitado melhor o período entre o Natal e o Ano Novo. Eu ganhei um princípio de tenossinovite na munheca - não, seus mente suja, foi por digitação furiosa (eu juro!), em função da publicação de uma postagem antivacinista no blogue do Luis Nassif.

Retrabalhei 11.838 pontos de dados de 193 países sobre índices de vacinação (3a. dose) e incidência de poliomielite ao longo de mais de 30 anos no banco de dados da OMS (desconsiderei os dados de Niue por não haver dadosinformação sobre a população de até 5 anos). A partir disso, calculei a população de até 5 anos para os períodos de 1981 a 1989, 1991 a 1999 e de 2001 a 2007 por interpolação linear, para calcular a incidência de poliomielite por 100.000 crianças de até 5 anos. Agrupei os valores de incidência correspondentes a intervalos de cobertura vacinal: de 0 a 9%, de 10 a 19%, de 20 a 29%... de 90 a 99% e acima de 100%. Cobertura vacinal acima de 100% é possível quando se vacinam mais indivíduos do que a população alvo - geralmente crianças nacionais de até 5 anos: incluindo crianças mais velhas (até adultos) e estrangeiras. O resultado está na Figura 1 abaixo.

Figura 1. Correlação entre cobertura vacinal e incidência de poliomielite. Fonte: OMS.**

Há um excelente ajuste por meio da curva exponencial (r2 = 0,9580,942) - para cada aumento de 1 ponto percentual na cobertura vacinal há uma redução de cerca de 54% na incidência de pólio. Sem vacinação, a incidência média é de cerca de 3015 casos a cada 100 mil crianças de até 5 anos.** Em um país como o Brasil, com aproximadamente 14,5 milhões de crianças de até 5 anos, a vacinação de 100% tem significado evitar algo como 4.3502.175 casos por ano - eu acho que isso mais do que compensa os R$ 55 milhões* investidos na campanha (entre vacinas, publicidade e outras despesas): imagine se pudéssemos fazer uma criança paralítica voltar a andar por apenas R$ 8.50012.60025.300. (Estou falando de média, como a barra de erro no gráfico indica - aqui representando o desvio padrão -, há uma variação substancial - isso se dá por diversos fatores: o trânsito de pessoas vindas de locais de ocorrência endêmica de pólio, o estado da imunidade natural da população - que pode ser influenciada por condições de alimentação e clima, fatores genéticos e outros. Não mostrei a barra de erro dos três primeiros pontos: 58,23; 77,43 e 24,36 casos por 100 mil.)

Esse fato os jornalistas precisam ter em mente antes de cogitar em dar espaço para teses malucas e altamente perigosas. Piora quando se dá o mesmo peso para ambos os lados - deixando à parte o vasto suporte empírico a respeito da eficiência das vacinas. É perigosa porque a exposição a ideias sem sentido as naturalizam para o grande público - que passam a considerá-las aceitáveis: afinal, se está na imprensa, deve ter um fundo de verdade. Criando uma brecha na qual os antivacinistas podem se instalar e crescer - angariando mais visibilidade midiática, angariando mais apoio popular e ameaçando políticas de sucesso como as campanhas de vacinação.

Isso não é apenas um horror imaginário, aconteceu com a política de combate à Aids na África subsaariana, em particular, na África do Sul, onde a hipótese sem nenhum fundamento de que o HIV não causa Aids foi acolhida, resultando no agravamento do quadro - medidas eficientes de incentivo ao uso de preservativos, de tratamento aos HIV positivos foram deixadas de lado, aumentando o espalhamento do vírus e a manifestação da doença - como lembra o diretor de redação da Superinteressante ao se desculpar por haver a revista dado trela aos negacionistas da relação HIV/Aids.

É em função disso que eu me senti obrigado a perder horas e horas de descanso e lazer, coligindo os melhores dados disponíveis, para desmontar a bobagem antivacinista - não é que suas bobagens devam ser, por si, levadas a sério, esse trabalho não é demonstração de que suas alegações são suficientemente elaboradas que só um trabalho mais pesado possa refutar: não, as bobagens podem ser rebatidas de bate-pronto, mas aí ficaria apenas palavra contra palavra e isso é vantagem para essa gente. É vantagem para eles que querem reduzir tudo a uma questão de discurso e retórica.

Não é uma questão de apenas discurso e retórica. É uma questão de dados. Como os dados estão do lado da vacinação, a eles só restam o palavreado sem substância na realidade. Reforço meu apelo a todos os jornalistas e profissionais de mídia - façam a conferência de dados. Sim, dá trabalho, mas não expõe a população a perigos absurdos e plenamente evitáveis com uma simples ida ao posto de saúde para receber, gratuitamente, as vacinas.

*Upideite(03/jan/2014): Corrigido a esta data. O valor anterior, de R$ 37 milhões, não considerava o valor das vacinas.
**Upideite(08/jan/2014): Os cálculos foram refeitos após correção dos dados relativos à Albânia - eu havia repetido os valores de incidência no Afeganistão. Não houve, no entanto, alteração substancial nos resultados - mesmo a redução da média estimada para o caso de ausência total de vacinação de cerca de 30 casos em 100 mil para 15 casos em 100 mil está dentro do erro estimado anteriormente.
**Upideite(17/mai/2014): Um artigo revisando os fatores que influenciam as atitudes em relação à vacinação na Europa. (via @Karl_MD)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Como o Grinch roubou o Natal ou Os antivacinistas no blogue do Nassif

Pra estragar minha comemoração da Saturnália do Natal, fiquei sabendo hoje que um texto antivacinista ganhou espaço no blogue do jornalista Luis Nassif.

A lenga lenga é que, na Índia, os casos de poliomielite induzidos pela vacina Sabin seriam em maior número do que os casos de pólio de ocorrência natural (por linhagens selvagens). É bem possível que isso seja verdade, mas e daí? E daí nada. A questão é menos a relação entre casos de pólio induzidos e casos naturais em situação de vacina por si mesma do que em comparação entre o número de casos de pólio em situação de cobertura vacinal adequada contra o número de casos de pólio em situação de cobertura vacinal inadequada ou inexistente.

Casos de indução de poliomielite por vacina Sabin ocorrem - por usar vírus atenuados e não desativados -, mas são raríssimos: da ordem de 1 caso a cada milhão de pessoas vacinadas. Se 30 milhãoões de crianças são vacinadas, é de se esperar que algo como 30 casos de pólio ocorram. Mas se nenhuma é vacinada, o número pode ser muito maior - na ordem de milhares a dezenas de milhares.

Reproduzo abaixo um texto que publiquei em 2001 no Observatório da Imprensa (infelizmente é outro texto que se perdeu nas mudanças do sítio web do OI, mas este ainda é encontrável no Internet Archive) a respeito de um texto antivacinista publicado na Superinteressante (a revista se retratou recentemente de abrigar a tese de que a Aids não seria causada pelo HIV; poderia aproveitar e fazer um mea culpa também por dar corda à turma contra as vacinas).

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SUPERINTERESSANTE
A volta do velho bacilo
Roberto Takata (*)

A propósito do artigo do médico José Antonio Palhano neste O. I., sobre problemas epidemiológicos [1], há outro produto – a santa paciência – que, devido aos usos e abusos, tem perdido a eficácia contra um outro grande agente infeccioso de alta periculosidade a dar as caras por aí: o bacilo da irresponsabilidade.

Mais uma vez a Superinteressante presta um desserviço a seus leitores. Em matéria de capa da última edição (fevereiro de 2001), a revista apresenta de modo leviano acusações levantadas contra a validade da vacinação [2]. Em outra ocasião, a revista já havia apresentado em seção dedicada a assuntos supostamente polêmicos espaço para argumentações semelhantes [3a-c].

A reportagem é um desserviço na medida em que comete erros crassos, desinformando o leitor em vez de esclarecê-lo. Os erros são muitos, enumero alguns mais evidentes (todos interrelacionados):

* Ausência de senso crítico
A reportagem procura dar uma demonstração de "imparcialidade". Faz suspensão de juízo. Ora, suspende-se o juízo quando não há indícios claros suficientes para se apoiar um lado em detrimento de outro – não é certamente o caso.

* Uso de referências inadequadas
A certa altura da reportagem, o repórter faz menção a Fritjof Capra, autor entre outros de "O tao da física" e "O ponto de mutação" (esta última, a obra citada na matéria), livros que deturpam conhecimentos científicos para que se encaixem na visão mística do autor [4]. Passagem do livro de Capra é utilizada como suporte de argumentação da própria reportagem.

No livro "O ponto de mutação", no qual discute, entre outros temas, o atual modelo médico, o físico americano Fritjof Capra afirma que, mais tarde, Pasteur reconheceu a importância do "terreno" [i.e., do corpo] para as enfermidades, tendo ressaltado a influência dos fatores ambientais e dos estados mentais na resistência às infecções. O químico, porém, segundo Capra, não teve tempo para empreender novas pesquisas, e seus seguidores persistiram na trilha original.'

* Ausência de apuração dos fatos e informações
É dado espaço para que os antivacinistas dêem seus argumentos sem qualquer verificação posterior de validade ou não. Um deles diz que 95% dos casos de sarampo nos EUA teriam sido eliminados entre o início e os meados do século passado, antes da adoção da vacinação contra a doença, simplesmente em função das melhorias sanitárias e alimentares. Uma rápida pesquisa mostra que isso é uma mentira que não foi contestada na reportagem, embora já tenha sido refutada alhures [5a,b]. E mais: na versão impressa essa informação recebeu destaque, sem identificação, adquirindo status de informação bem-estabelecida:

"'As mortes por sarampo caíram 95% antes da criação da vacina."

* Mistura de contestações válidas com acusações sem base
A reportagem não distingue preocupações procedentes (como a contaminação esporádica das vacinas, o que deveria levar à exigência de uma fiscalização mais severa dos fornecedores dos produtos) de discussões em andamento – ocorrência, caracterização e causa do chamado "Mal do Golfo" (também denominado "Síndrome do Golfo"; recentemente, tem-se atribuído o mal até a munições de urânio empobrecido) –, ou de especulações sem base alguma (a de que o HIV seria um vírus da poliomielite mutante utilizado em vacinações no Congo em meados do século passado); e das mentiras deslavadas (as estatísticas sobre o sarampo apresentadas). Essa colagem mal-engendrada acaba emprestando de preocupações legítimas ares de validade aos livres desvarios.

* Adoção de teorias conspiratórias
As frases seguintes são afirmações do próprio autor da reportagem:

"Ressalvas às imunizações são tema tabu na maioria dos círculos médicos. De um lado, não são raros os casos de pediatras que, de forma quase clandestina, aconselham pais a moderar a vacinação dos filhos ou a simplesmente evitá-la. De outro, as divergências com o pensamento médico hegemônico, que manda vacinar a qualquer custo, acontecem sempre de forma discreta e subterrânea."

"Em quase todos os casos, os círculos oficiais da ciência, os governos e os técnicos em saúde pública optaram por desconhecer a polêmica, no pressuposto de que o atual modelo de imunização é inquestionável."

* Tendenciosidade injustificada
Este último item – haveria muitos mais possíveis – pode ser visto como fruto da confluência dos cinco itens anteriores. Na parte das leituras recomendadas ao leitor para se aprofundar mais no tema aparecem apenas livros e sítios web que são francamente contrários à vacinação, quebrando a suposta imparcialidade da reportagem. Poder-se-ia justificar a indicação apenas de fontes de visão contrária se os leitores estivessem totalmente a par da visão corrente. Mas certamente não é o caso do público-leigo brasileiro e leitor da revista. Além disso, os destaques estão quase todos fora de contexto, distorcendo-os contra a vacinação.

"O Brasil utiliza vacinas e substâncias proibidas nos Estados Unidos"

Meia-verdade, ou nem isso. Não informam que a decisão sobre a substituição da vacina Sabin pela Salk se deu justamente porque garantiu-se uma baixa incidência de poliomielite na população americana, de forma que uma vacina menos eficaz, mas com menos riscos (o risco nos dois casos é proporcionalmente pequeno – um caso de paralisia a cada 2,4 milhões de doses aplicadas ou um caso a cada 750 mil crianças que recebem a primeira dose, no caso de vacinas do tipo Sabin; com vírus atenuado [6]) passa a ser mais vantajosa. É quase o equivalente a alarmar-se porque no Brasil aplica-se vacina contra febre amarela e nos EUA não. Não tem nada a ver com proibição. Sobre o Timerosal, aparentemente, também não houve nenhuma proibição, mas uma recomendação para a eliminação do produto [7a,b]. No Congresso americano houve discussão sobre o tema, mas não há nada no sítio indicando a conclusão pela proibição [8].

"Vacinar é adoecer, só que brandamente, sob controle médico."

Meia-verdade. Citação fora de contexto, como se percebe no corpo da reportagem. A afirmação é de um pró-vacinação, e não é um reconhecimento da ineficácia da vacina em nenhum sentido. A descontextualização leva a uma distorção que permite erros de interpretações.

"No Iraque, os soldados americanos tomaram 17 vacinas. Metade adoeceu"

Falácia de falsa implicação de causalidade. "Depois disso, então por causa disso" é o que se sugere nessa frase destacada. É tão descaradamente falaciosa que, caso fosse válida essa inferência, sua contrapartida também teria que ser verdadeira: "No Iraque, os soldados americanos tomaram 17 vacinas. Metade não adoeceu." Adoeceram por causa das vacinas? E se não tivessem tomado as vacinas? É preciso haver parâmetros de comparação para saber se esse número significa alguma coisa em relação a uma variável – no caso, as vacinas. Não há nada, até o momento, que indique claramente essa conexão causal [9a-i]. Eventualmente, pode ser que estabeleçam essa conexão, mas isso não desmentirá os dados de que os programas de vacinação em massa são eficazes e, embora possam ser melhorados, certamente são muito melhores do que a alternativa de abandoná-los.

"As mortes por sarampo caíram 95% antes da criação da vacina."

Isso, como dito acima, é uma mentira deslavada, que foi aceita sem contestação ou questionamento.

É sintomático também que os dados numéricos citados ao longo da reportagem refiram-se praticamente apenas aos utilizados e manipulados pelos contrários à vacinação. E o único número apresentado nas falas dos pró-vacinação é:

"Aguinaldo e Cláudio admitem que não existem vacinas 100% seguras."

Como dito, não é a primeira vez que a SI comete esse atentado à saúde da população, desinformando-a a respeito de um assunto de grande seriedade. Em relação à Aids e ao HIV também foram cometidos os mesmos equívocos. Ela já apresentou a tese de que Aids não seria causada por HIV – tese que considera tão consistente como a de que a causa seria virótica, desconsiderando a montanha de indícios favoráveis à última hipótese em detrimento da primeira [10].

Isso tudo faz lembrar a piada da campanha pelo banimento do monóxido de hidrogênio, também chamado de hidróxido de hidrogênio ou ácido hidroxílico. Uma substância causadora de freqüentes mortes por asfixia, lesões ao contato com a forma gasosa e sólida, sendo o principal componente da chuva ácida, causando corrosão de construções e estruturas de ferro. Apesar de tudo isso, o governo não impede que as indústrias lancem essa substância em nossos rios e no ar. A danada que faz tudo isso tem singela fórmula: H2O – a água, que causa afogamentos, queimaduras na forma de vapor e lesões na forma de gelo, obviamente é o principal componente das chuvas (ácidas ou não), que por sua vez causam paulatina degradação dos edifícios e enferruja metais. [11a,b]

Na carta do editor dessa edição, a revista volta a se gabar dos números de exemplares vendidos: "A capa de dezembro, 'Aids: o HIV é inocente?", vendeu 106.000 exemplares em banca. É a primeira vez na história da revista que essa venda rompe a barreira dos seis dígitos. O que permite à Super ingressar num clube bastante seleto, do qual fazem parte apenas uma dúzia de publicações no Brasil", "[...] A capa de janeiro, "O fim do câncer?", tem números preliminares que apontam para uma venda também superior a 100.000 exemplares". Gostaria de acreditar que a ética jornalista, a busca da informação acurada e o compromisso com o leitor ainda tenham espaço frente a uma análise puramente financeira, a busca do lucro fácil e o pouco caso com a qualidade do que se veicula. Mas isso me parece cada vez mais tão real quanto o duende que a Xuxa viu. Ou outras amenidades que a mídia cobre.

(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP

Leia também
Rifampicina, usos e abusos – José Antonio Palhano
Espírito de porco – Roberto Takata

Referências

1) Rifampicina, usos e abusos
2) Vacinas fazem bem ou mal? [só para assinantes da revista ou do UOL]
3a) Fernando Travi – Vacina assassina, Superinteressante, pag. 114, Out/2000.
3b) Sociedade Biogênica Brasileira –
3c) Grave risco de contágio
4) Quantum Quackery
5a) Six Common Misconceptions about Vaccinations
5b) Misconceptions about Immunization
6) Poliomyelitis Prevention in the United States
7a) Questions and Answers about Thimerosal
7b) Center for Biologics Evaluation and Research Letter – Dear Vaccine Manufacturer
8) Committee on Government Reform
9a) Gulf War Syndrome
9b) Everson MP, Shi K, Aldrige P, Bartolucci AA, Blackburn WD 2000 – Is there immune dysregulation in symptomatic Gulf War veterans? ZEITSCHRIFT FUR RHEUMATOLOGIE 59: 124-26, Suppl. 2.
9c) Steele L 2000 – Prevalence and patterns of Gulf War illness in Kansas veterans: Association of symptoms with characteristics of person, place, and time of military service. AMERICAN JOURNAL OF EPIDEMIOLOGY 152: (10) 992-1002.
9d) Hotopf M, David A, Hull L, Ismail K, Unwin C, Wessely S 2000 – Role of vaccinations as risk factors for ill health in veterans of the Gulf war: cross sectional study. BRITISH MEDICAL JOURNAL 320: (7246) 1363-7.
9d) Turnbull PCB 2000 – Current status of immunization against anthrax: old vaccines may be here to stay for a while. CURRENT OPINION IN INFECTIOUS DISEASES 13: (2) 113-20.
9e) Fiedler N, Lange G, Tiersky L, DeLuca J, Policastro T, Kelly-McNeil K, McWilliams R, Korn L, Natelson B 2000 – Stressors, personality traits, and coping of Gulf War veterans with chronic fatigue. JOURNAL OF PSYCHOSOMATIC RESEARCH 48: (6) 525-35.
9f) Sartin JS 2000 – Gulf War illnesses: Causes and controversies. MAYO CLINIC PROCEEDINGS 75: (8) 811-9.
9g) Knoke JD, Smith TC, Gray GC, Kaiser KS, Hawksworth AW 2000 – Factor analysis of self-reported symptoms: Does it identify a Gulf War syndrome? AMERICAN JOURNAL OF EPIDEMIOLOGY 152: (4) 379-88.
9h) Jamal GA 1998 – Gulf War Syndrome – a model for the complexity of biological and environmental interaction with human health. ADVERSE DRUG REACTIONS AND TOXICOLOGICAL REVIEWS17: (1) 1-17.
9i) Ronald MG, Blanck R, Hiatt J, Hyams KC, Kang H, Mather S, Murphy F, Roswell R, Thacker SB 1995 – Unexplained illnesses among Desert-storm veterans – a search for causes, treatment, and cooperation. ARCHIVES OF INTERNAL MEDICINE 155: (3) 262-8.
10) Espirito de Porco
11a) Banir o monóxido de dihidrogênio
11b) The Invisible Killer

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As mesmas críticas gerais podem ser feitas ao texto publicado no blogue do Nassif.
 
Upideite(02.nov.2021): Vitória! Tardia e temporária, mas vitória mesmo assim (não minha, obviamente, mas de todos os que criticaram e trabalharam pela correção): o site da Super finalmente eliminou (ao menos enquanto durar a pandemia de covid-19) de seu acervo a edição com essa reportagem que atenta contra a saúde pública, informa Maurício Stycer em seu blog. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Inspire, conspire

Talvez haja uma grande organização - no estilo dos Illuminati - que procura incutir na cabeça das pessoas teorias conspiratórias mirabolantes. Assim, as pessoas, entretidas em esquemas inexistentes de dominação socioeconômica mundial, acabam deixando de prestar atenção nos planos reais de dominação socioeconômica mundial dessa grande organização. Chamarei aqui a esse grupo - sobre cuja existência não existem rastros justamente porque seus membros querem que acreditemos que não exista - de Grande Organização de Dominação, G.O.D.

Parece que só a existência de G.O.D. explicaria então a disseminação e a prevalência de tais teorias conspiratórias de várias naturezas e ordens.

Em 1994, um estudo de Ted Goertzel, com 348 moradores do sudoeste de Nova Jérsei, EUA, mostrou que 93,9% dos respondentes a uma entrevista por telefone acreditavam em algum grau em pelo menos uma de uma lista de 10 teorias conspiratórias. (Tabela 1.)

Tabela 1. Crença de americanos da Nova Jérsei, EUA,
em diferentes teorias conspiratórias. n = 348. Ano: 1994.
Entre os achados, havia uma ligação entre as crenças: quem cria em uma teoria da conspiração, tinha grande probabilidade de crer em outras - a média foi de 3,34 crenças por pessoa. Pertencer a uma minoria social estava correlacionado com uma maior propensão a crer em algumas das teorias da conspiração apresentadas; ter a sensação de falta de ordem (anomia) também; e uma correlação inversa entre crença interpessoal (ter confiança nas outras pessoas) e a crença nas teorias da conspiração. (Boa parte da relação entre fazer parte de uma minoria e acreditar nas teorias da conspiração apresentada poderia ser explicada pelo fato de indivíduos pertencentes a uma minoria tenderem a sentir anomia e a ter menor crença interpessoal.)

O quanto isso é generalizável?

Em 1999, Marina Abalakina-Paap e colaboradores fizeram um estudo com 156 estudantes da New Mexico State University, EUA. Apresentaram uma lista de 22 teorias conspiratórias. A média foi de 5,73 crenças por pessoa. Novamente, membros de minorias tendiam a acreditar mais em teorias conspiratórias. A anomia, mais uma vez, foi correlacionada com a crença em teorias conspiratórias. Outros fatores correlacionados: crença em um estado forte, baixa auto-estima, sensação de impotência, desconfiança, hostilidade e crença de que não se tem o controle sobre o destino da própria vida.

Então, ao menos o fator tempo, o fator etário e a localização não parecem afetar muito a questão da crença em teorias conspiratórias. Infelizmente esses estudos referem-se somente à situação americana. Seria a paranoia uma característica dos habitantes dos EUA? G.O.D. knows. G.O.D., bless America!

Referências
Abalakina-Paap, M. et al. 1999 - Beliefs in conspiracies. Political Psychology 20(3): 637-47.
Goertzel, T. 1994 - Belief in conspiracy theories. Political Psychology 15(4): 731-42.

Upideite(14/ago/2014):  Um estudo italiano sobre padrões de consumo de notícias relacionadas a teorias da conspiração. (HT Marcelo Cortimiglia FB.)
Upideite(23/dez/2014): Um estudo americano em cima de 4 levantamentos realizados nos EUA de 2006 a 2011 mostra que cerca de 50% dos americanos acreditam em pelo menos uma teoria da conspiração e que a crença nessas ideias está ligada ao desejo de acreditar em forças invisíveis de intenções ocultas e atração por narrativas maniqueístas. Não está ligada ao autoritarismo, conservadorismo político ou ignorância. (Via Maurício Tuffani.)
Upideite(06/fev/2016): Estudo de modelagem matemática sobre a probabilidade de conspirações putativas manterem-se ao longo do tempo de acordo com o número de conspiradores envolvidos. Esquemas com mais de 1.000 indivíduos tendem a falhar em menos de 4 anos.

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