Lives de Ciência

Veja calendário das lives de ciência.
Mostrando postagens com marcador física. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador física. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Como é que é? - Molho de soja (shoyu) é feito com milho no Brasil? (Sim, mas...)

Causou alvoroço a notícia sobre um estudo brasileiro da composição isotópica (variantes de um mesmo elemento químico) do carbono em molhos de soja produzidos no Brasil, indicando uma grande presença provavelmente de derivado de milho na mistura.

Ocorre que é absolutamente normal o uso de outros componentes para a produção do molho além da soja (e sal e água). Geralmente é adicionada uma fonte de amido para promover o crescimento do fungo e a produção de suas enzimas - no Japão e outros países orientais é comum a adição de trigo.

O ministério da agricultura do Japão padroniza cinco tipos entre os principais, mas há variantes por todo o país. O tipo mais comum de shoyu comercializado no Japão é koikuchishoyu (濃口醤油), com uma proporção de 1:1 entre soja e trigo. O shiroshoyu (白醤油), shoyu branco, pode ser feito totalmente de trigo, mas o mais comum tem uma proporção de cerca de 75% (1 parte de soja para 3 de trigo). O usukuchishoyu (薄口醤油) tem uma coloração intermediária entre o shiroshoyu e o koikuchishoyu, tendo cerca de 66% de trigo. Quanto maior a proporção de soja, geralmente, maior o teor de glutamato (e outros aminoácidos livres), que confere(m) o umami ao molho. Quanto maior a proporção de fontes de amido, maior o teor de açúcares, que conferem um toque adocicado. (Veja na tabela 1 algumas das principais características de cada tipo.)

Tabela 1. Características de composição e coloração dos cinco tipos padronizados de shoyu japonês. (Modificado de: O'Toole 2004.)
tipo sal (g/100 ml) nitrogênio total (g/100 ml) açúcares redutores (g/100 ml) álcool (ml/100 ml) cor razão soja:trigo
koikuchi 16,9 1,57 3 2,3 marrom escuro 1:1 mais vendido no Japão (>80% do mercado)
usukuchi 18,9 1,19 4,2 2,1 marrom claro mais trigo
tamari 19 2,25 5,3 0,1 quase preto 10:1 principal tipo consumido na China
saishikomi 18,6 2,39 7,5 - quase preto 1:1 uso de shoyu cru no lugar da salmoura para fermentação líquida
shiro 19 0,5 20,2 - amarelado muito mais trigo

A figura abaixo representa simplificadamente o processo industrial de produção do koikuchishoyu.

Figura 1. Esquema simplificado da fabricação industrial do shoyu tipo koikuchi. Koji (ou kouji, ), o bolor de Aspergillus spp. sobre grãos e sementes para a iniciação da fermentação;  moromi (諸味), o mosto de fermentação do shoyu (Modificado de Luh 1995.)

Então é preciso observar- que: 1) não há proibição na legislação brasileira de adição de milho nem estabelecimento de limites para seu uso no molho de soja (como é comentado de passagem nas reportagens como a do UOL); 2) elementos amiláceos que não a soja são acrescentados normalmente na produção de shoyu, inclusive no Japão; 3) a presença de milho (e outros ingredientes) *está* indicada normalmente nos rótulos de shoyu nacionais, como determina a lei.

A única restrição que se poderia fazer é se a *ordem* dos ingredientes nos rótulos está de acordo com a quantidade de milho: se há mais milho do que soja, o milho precisa estar listado antes da soja nos ingredientes.

Os autores do estudo observam que a maioria das amostras estudadas (40 de 70 amostras de marcas brasileiras) apresentou um teor estimado de soja menor do que 20%. É preciso observar que o que o estudo determinou mais diretamente é a proporção de isótopos de carbono-13 (C-13). O milho, ao contrário da maioria das plantas, inclusive soja (e também trigo), tem o chamado metabolismo C4, em que o carbono é inicialmente fixado (incorporado) em um composto de quatro átomos de carbono (a maioria tem um metabolismo chamado de C3, que, como se pode deduzir, fixa o carbono inicialmente em um composto com três átomos de carbono). Nas plantas com metabolismo C4, ocorre uma fixação de gás carbônico com isótopo C-13 em proporção ligeiramente superior às plantas C3. Um nível mais elevado de C-13 indicaria o uso em maior quantidade de uma fonte como o milho. A metodologia, então, é bem indireta para se estabelecer a quantidade exata de milho usado - tanto é que, para pelo menos um dos pontos, a extrapolação a partir da medição de C-13 indicaria uma quantidade superior a 100% de soja, o que não faz sentido a não ser considerando-se as incertezas da avaliação para o teor de milho.

Para os pesquisadores, a possível alta quantidade de milho poderia se dever ao fato dos preços desses grãos serem, na média, menores do que os da soja. É possível e faz muito sentido (mesmo que correspondendo a alguns centavos por frasco). Mas um fator a se considerar é a diferença de gosto entre brasileiros e japoneses. Será que, em tudo o mais sendo igual (preço, quantidade de sal, cor...), o brasileiro preferiria um molho com maior umami ou um com mais açúcares? É possível que haja estudos de mercado sobre a preferência do consumidor, no entanto, como não sou da área, não tenho conhecimento a respeito.

Seria o caso de promover uma padronização do shoyu brasileiro? Não sei. Em termos de saúde - tirante legislações mais genéricas como em relação ao uso de sal, aviso de alergênicos, data de validade, tabela nutricional... -, não parece haver necessidade em função de um eventual risco pelo uso de milho. Em termos econômicos: em 2013, as vendas totais de shoyu no Brasil eram o equivalente a cerca de R$ 180 milhões/ano, não chega a ser insignificante (para fins de comparação, o ketchup movimentou cerca de 500 milhões BRL/ano em 2016); mas há lesão ao consumidor - exceto se no rótulo não for indicado o uso do milho ou a listagem sugerir um uso menor -? Essa discussão deixo para a leitora ou o leitor do GR.

-----------------
Algumas manchetes, excertos e comentários:
Exame 25.abr.2018: Estudo mostra que shoyu brasileiro é feito à base de milho
"Foram feitas análises com 70 amostras do condimento vendidas no Brasil. A presença média de soja nos produtos avaliados era de menos de 20%. Apesar de normalmente ser à base de soja no Oriente, ele é feito com milho no mercado nacional. O trigo e a cevada podem ser misturados ao shoyu, mas não fazem parte da composição principal do produto."
UOL 25.abr.2018: Shoyu produzido no Brasil não é de soja, é feito à base de milho
"Em países como Japão, China e Coreia do Sul, o molho shoyu é feito de soja com proporções pequenas de outros cereais como trigo ou cevada."
.O shoyu mais comumente vendido no Japão, por exemplo, leva 50% de trigo, o que é longe de pequeno e pode ser qualificado como fazendo parte da composição principal. Há variações que têm até 100% de trigo na composição (excetuando-se água e sal).
Terra 26.abr.2018: Estudo revela real composição do Shoyu fabricado no Brasil.
"O molho fabricado pelas indústrias brasileiras é composto por milho, e não por soja. [...] Já o milho, nesse mesmo processo apresenta o sistema de fotossíntese de C4 por gerar moléculas de açúcar que contêm quatro átomos de carbono. Essas moléculas de açúcar continuam presentes nos alimentos mesmo após seu processamento, portanto torna-se mais fácil identificar cada um deles."
.Embora o milho fosse o principal componente, havia soja - mesmo que apenas 5% (o menor teor estimado para algumas amostras), não houve nenhuma em que o molho tivesse apenas milho. O método usado não tem a ver com a quantidade de átomos de carbono nas moléculas de açúcares - porque, embora inicialmente nas plantas de metabolismo C4 o carbono seja fixado em uma molécula de 4 átomos de carbono, essa molécula é processada depois e a via fotossintética é muito similar às plantas C3; a diferença é pela fração de isótopos de carbono-13 que são incorporados (devido a afinidades das enzimas que realizam a reação).

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um canto de Natal: o menor receptor de rádio do mundo?

O Havard Gazette chamou de "menor rádio do mundo". O que provavelmente é um exagero, já que envolve todos os aparatos para lasers. A NPR, que se trata do "menor receptor de rádio" do mundo. Pode ser que não seja bem assim, já que o receptor é formado por um cristal de diamante de tamanho não especificado. A Science fala que o receptor tem o tamanho de apenas dois átomos, o que não é correto. Embora cada centro ativo do receptor - área que efetivamente atua na recepção do sinal de rádio - seja composto por um átomo de nitrogênio e um espaço vazio (centro NV) na rede cristalina do diamante - o experimento envolveu a estimulação de vários centros ao mesmo tempo.

O raio de laser verde, que dá energia aos centros fazendo com que seus elétrons fiquem em um estado excitado (de energia mais alta), tem um diâmetro de 200 μm. Como a densidade de centros era de 1,2 ppm, em 1 cm3 do diamante, havia 1,8.10^17 centros - mais de 565.000 por cm linear, 56,5 centros por μm linear: mais de 3.500.000 centros estimulados por camada atingida pelo laser (não sei qual a espessura do diamante atravessada pelo laser).

Mas os princípios envolvidos são interessantes: o laser verde estimula os elétrons do centro que respondem ao sinal de rádio emitido e liberam a energia na forma de luz vermelha, que é captada por um diodo que converte o sinal luminoso em variação de corrente elétrica - e os fones ou alto-falantes convertem o sinal elétrico em variação de pressão do ar: o som. A engenharia envolvida é espantosa. E o potencial de aplicação é promissor: receptores comerciais têm uma temperatura máxima de operação por volta de 85°C; o receptor de diamante com centros NV consegue operar a temperaturas de 350°C (e imensa pressão). A possibilidade de se permitir a comunicação com sondas em ambientes inóspitos é aventada pelos autores em entrevistas.

Bem, abaixo pode-se ouvir o sinal captado pelo receptor.


Shao, L. et al. 2006. Diamond Radio Receiver: Nitrogen-Vacancy Centers as Fluorescent Transducers of Microwave Signals. Phys. Rev. Applied 6, 064008.

domingo, 20 de novembro de 2016

Superlua contra o baixo astral: quando algo passa a ser super?

O multiempreendedor da divulgação científica brasileira (Scienceblogs Brasil, Sciencevlogs Brasil, BláBláLogia, Chopp comCiência...), Rafael Soares, perguntou:

O interesse popular pela 'superlua' ('supermoon') é relativamente novo (no Google Trends, surge a partir de 2011 - fig 1; no Google Ngram Viewer, não há registro de 1800 a 2000) para algo antigo. Muito antigo. É apenas a denominação da Lua cheia (ou nova) durante o perigeu - algo que ocorre praticamente uma vez por quadrimestre - e, mais especificamente, em sua maior aproximação no ano (em 2011 foi em 19/mar; em 2012, 06/mai; 2013, 23/jun; 2014, 10/ago; 2015, 28/set e 2016, 14/nov). (Nem sempre a Lua cheia - ou nova - irá ocorrer quando o satélite estiver em sua máxima aproximação da Terra, mas como colocam uma tolerância de 10% para mais ou para menos a frequência aumenta bastante.) Não é um termo científico (a expressão astronômica para denominar a Lua cheia ou nova durante o perigeu seria... bem Lua cheia ou nova de perigeu), aparentemente foi tomado de empréstimo da astromancia pela imprensa popular. (O interessante é que apesar de ser um fenômeno corriqueiro, esse interesse tem permitido o engajamento do público em ações de divulgação e educação obre a astronomia, p.e. alunos da ocupação da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas tiveram uma aula durante a observação do fenômeno em novembro agora com o pessoal do Clube de Astronomia da Universidade Federal do Amazonas.)

Figura 1. Registros de busca por 'supermoon' no Google. Fonte: Google Trends.


Figura 2. Variação do tamanho aparente da Lua.
O prof. Dulcidio Braz, em seu Física na Veia, explicou o aumento do tamanho aparente (Fig. 2) e do brilho com a aproximação da Lua (com uma rápida recapitulação de por que a Lua se aproxima da Terra a cada volta).

Isso a torna 'super'? Claro que depende amplamente da subjetividade de cada um para considerar algo particularmente especial. Eu proponho que se denomine a um evento de fenômeno natural recorrente como particularmente destacado ('super') se a magnitude de algum parâmetro seu (no caso da Lua, proximidade, tamanho e brilho) for de ocorrência particularmente rara (acima ou abaixo de 3 desvios padrões em relação aos valores médios e com frequência esparsa - concedo aqui, que ocorra no máximo uma vez ao ano - embora minha inclinação seja para, no máximo, uma vez no tempo médio de vida de uma pessoa).

A 'superlua' atende ao critério de ocorrer no máximo uma vez por ano (ocorre aproximadamente uma vez a cada 14 meses). Mas o quanto difere das demais 12 ou 13 luas em perigeu no mesmo ano? Pegando os valores calculados para os perigeus de 2001 a 2100, a média das menores distâncias em um ano é de 356.848,23 km (com DP de 248,82 km); 1,58% menor do que a média das distâncias de perigeu no período é de 362.564,4(±4.517,45) km: um valor apenas 2 DP abaixo (Fig 3).

Figura 3. Distribuição das distâncias Terra-Lua em perigeu para o período de 2001 a 2100. (Em amarelo, a faixa da distância correspondente à 'superlua' de novembro de 2016.) Fonte: Astropixels

Como a distribuição é bimodal com concentração em torno dos valores extremos, na verdade é relativamente mais rara a ocorrência de perigeu com distâncias próximas à média. Se o critério fosse apenas raridade, uma 'superlua' seria uma 'superlua média' - apenas 0,06% dos perigeus entre 2001 e 2100 ocorrem entre 362.500 e 362.600 km de distância da Terra (uma vez a cada 12 a 13 anos em média). Em comparação 4,52% dos perigeus ocorrem abaixo da média das 'superluas' (uma vez a cada ano e meio). (O principal fator da variação das distâncias de apogeu e perigeu é a variação da excentricidade da órbita lunar. E o principal fator da excentricidade lunar é a maré solar: seu efeito é maior quando o sistema Terra-Lua está alinhado com Sol. Isso ocorre exatamente nas fases de Lua cheia - quando a Lua está no lado oposto ao Sol - ou nova - quando está do mesmo lado.)

E uma superlua de distância tão baixa como a deste ano? A imprensa destacou que desde 1948 a Lua não se aproximava tanto assim da Terra. No período de 2001 a 2100, 8 episódios de superlua tão extremos ou mais quanto o deste ano devem ocorrer (incluindo a de 2016), uma média de um a cada 12,5 anos (Fig. 4a,b). Mas também a menos de 2DP da média.

a)
b)
Figura 4. a) Variação do apogeu e perigeu lunar entre 2001 e 2100. b) Variação inferior do perigeu lunar. Linha horizontal pontilhada, distância do perigeu de nov/2016. Fonte: Astropixels

XKCD

Isso torna ou não a Lua super? Como argumentei lá em cima, fica a gosto do freguês.

Mas, em um sentido, a Lua é 'super' independente de se cheia, nova ou em perigeu. Afinal ela é mais possante do que uma locomotiva (nosso satélite tem uma energia cinética de 3,8.10^28 J; a maior velocidade obtida por um carro sobre trilhos - propulsionado por foguete - foi de 2.736,8 m/s, se tal velocidade pudesse ser desempenhada por uma composição como o BHP Billiton de cerca de 100.000 t, isso daria 3,7.10^14 J), capaz de saltar mais alto do que um arranha-céu (não apenas porque arranha-céus não pulam; a inclinação da órbita lunar em relação ao equador terrestre varia de 18,28° a 28,58°, com um raio médio da órbita de 384.400 km, isso corresponde a uma variação de altura de cerca de 70 mil km, mais de 84.000 vezes a altura do Burj Khalifa em Dubai, EAU) e de voar mais rápido do que uma bala (sua velocidade orbital média de 1.022 m/s é maior do que a de muitas balas - ainda que não de todas).

Veja também:
De Athenaa Trinity Cientistas Feministas (17/nov/2016): Super Lua, sim! Mas pera lá.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Passando a borracha... Munições de elastômero. Parte 1: Física

ResearchBlogging.orgA munição de elastômero, popularmente conhecida como bala de borracha, pertence à classe de munições de impacto controlado (junto com projéteis e balins de plástico e "bean bags") "não-letais, antipessoais e restrição física". Possui várias apresentações e formatos - podem ser balins dentro de cartuchos de plástico ou tarugo único; projéteis de borracha maciça ou com núcleo metálico... calibre 38, 9mm, 40 mm; o tamanho mais comumente utilizado (especialmente no Brasil) é o calibre 12.

Segundo manual da Polícia Federal, "[s]eu emprego visa à intimidação psicológica do agressor, preservando uma distância de segurança entre este e o vigilante"; uso similar é preconizado pela Polícia Militar do Espírito Santo "[u]tilizadas principalmente pelo atirador, carregadas com munições de elastômero, a fim de assegurar que manifestantes ou detentos rebelados não se aproximem da tropa". Não deve ser, portanto, empregada para simplesmente dispersar a multidão (ou para proteção patrimonial). Não rara vez, no entanto, é utilizada exatamente para debandada de pessoas agrupadas (ou para impedir invasão de prédios públicos).

----------
O elastômero é um polímero elástico. Sendo um dos mais comumente empregados em munições a borracha butílica: um copolímero de isobutileno e isopreno (IIR) (Fig. 1).


Figura 1. Fórmula molecular de borracha butílica IIR (copolímero de isobutileno e isopreno). Fonte: Wikimedia Commons.

Por meio da vulcanização, formam-se ligações covalentes esparsas entre as longas cadeias do polímero. Em seu estado normal, as cadeias da borracha se enovelam por meio de interações eletrostáticas, adquirindo uma configuração compacta (Fig. 2a). Quando submetida à tensão, essas interações eletrostáticas se rompem e as moléculas se alinham - permitindo o estiramento da borracha no sentido das forças (Fig. 2b). Assim que a tensão é liberada, as cadeias tornam a se enovelar. Quando forças de compressão são aplicadas à borracha, criam-se tensões nas ligações intramoleculares à medida em que a cadeia se dobra - essa tensão permite a recomposição do formato da borracha quando as forças compressivas desaparecem. Se houver microbolhas de ar na textura da borracha, elas também podem se deformar e acumular pressão, que também auxilia no retorno da forma do composto após a liberação da força compressiva.

Figura 2. a) Configuração compacta da borracha. b) Configuração estirada. Fonte: Wikimedia Commons.

Ao atingir uma superfície dura, como pavimento asfáltico, a força de impacto deforma a munição de elastômero, acumulando parte da energia cinética do projétil. Essa energia é liberada ao fim do processo de impacto, acelerando o projétil à medida em que a bala readquire sua forma normal. Parte da energia é dissipada no choque, na forma de calor e ondas mecânicas (som e tremulação do solo) e na quebra de ligações covalentes da borracha - fragmentos podem ficar retidos no local do impacto e alguma deformação permanente pode ocorrer.

A elasticidade do projétil de borracha produz um amortecimento do impacto - prolongando o período de transferência de momento e diminuindo a força média de interação. A deformação também permite um aumento da superfície de contato, reduzindo a pressão.

Dessa forma, uma bala de elastômero tem um menor potencial de dano em comparação a uma munição rígida metálica. Mas será mesmo não-letal?

----------
Considerando-se uma energia de dissociação da ligação C-C de 348 kJ/mol, uma massa molar de 150.000 g/mol do colágeno, uma espessura cutânea média de 1,2 mm, densidade cutânea de 1,09 g/cm3 e uma composição de 60% de água; a energia necessária para romper todas as moléculas de colágeno em uma área de 1 mm2 da pele seria de cerca de 0,001 J. Considerando-se uma dissipação esférica, um projétil a atingir a superfície com uma densidade energética de 0,1 J/mm2 seria o suficiente para penetrar 1 cm - a depender da região atingida, seria o suficiente para danificar órgãos internos.

Um projétil de 19 g atingindo um alvo a uma velocidade final 137 m/s quando disparado de 20 m de distância tem uma energia cinética de 178,3 J (caso do principal projétil de tarugo único utilizado pelas forças policiais no país). Com 18,5 mm de diâmetro (calibre 12), isso representa uma densidade energética de 0,083 J/mm2. Mais do que o suficiente para lacerar a pele e muito próximo de valores suficientes para atingir órgãos internos. Com não pouca frequência são disparadas a distâncias muito menores, a despeito de recomendações em contrário.

O tecido adiposo subcutâneo na região abdominal varia de 1,5 mm a 18 mm em espessura em pessoas normais (chegando a 70 mm em pessoas obesas) (Lancerotto et al 2011). A parede muscular abdominal tem uma espessura média total de 20 mm (Whittaker et al. 2013). A parede torácica tem uma espessura entre 30 e 60 mm (Britten & Palmer 1996) e uma média de 42,4 mm (Givens et al. 2004). Seria necessário algo como 2 J/mm2 ao se atingir a superfície do corpo para se penetrar 4 cm: 23 vezes o valor da densidade energética, nas condições de uso especificadas pelo fabricante, do projétil de elastômero de uso mais comum no Brasil. Mesmo assim há casos de ferimentos internos graves ocasionados pelo impacto de balas de borrachas nessas áreas. Pelo menos um caso resultou em perfuração torácica; os tipos mais comuns de lesões no tórax são fraturas das costelas, contusão pulmonar, pneumotórax; podendo ocorrer lesões no coração (Rezende-Neto et al. 2009).

A espessura do tecido mole externo na cabeça de um indivíduo adulto varia de acordo com a etnia e a região. Na região supraorbital pode ir de 3,6 mm a 8,25 mm; na região maxilar (acima do segundo molar), de 12,3 mm a 22 mm. (Phillips & Smuts 1996.) Considerando-se uma densidade de energia de fratura de 1.700 J/m2 para ossos (0,0017 J/mm2) e uma espessura craniana entre 16,1 e 20,2 mm (Ross et al. 1976), um projétil com densidade energética de 0,67 J/mm2 poderia atingir o cérebro. É um valor 8 vezes maior do que o de condições especificadas pelo fabricante. Porém em outras regiões, os ossos são mais finos e há registro de penetração de projétil - como uma bala de borracha alojada no sino etmoidal (Gross et al. 2005); além de danos ao globo ocular (Lavy & Asleh 2003).

Em um estudo de 90 casos de ferimentos a munição de elastômero no Reino Unido (principalmente da ação da polícia britânicado exército britânico* contra manifestantes norte-irlandeses), 41 necessitaram internação, 17 resultaram em deformidades e deficiências permanentes, e 1, em morte (Millar et al 2005). Outro, com 152 palestinos atingidos pelas forças israelenses; 39 apresentaram perfurações, houve 3 mortes - 2 por penetração da bala até o cérebro com a perfuração do olho e 1 durante cirurgia do ferimento no joelho; dos 201 ferimentos, 73 foram nos membros; 61, na cabeça e no pescoço; 39, no peito; 16, nas costas e 12 no abdômen (Mahajna et al. 2002).

As recomendações de uso nos manuais das forças brasileiras de segurança são de mirar na região das pernas, ainda assim várias pessoas são feridas na região do baixo ventre, tórax e cabeça - algumas por projéteis ricocheteados ou por falta de precisão da munição (particularmente os balins), outras por simplesmente o atirador, contrariamente às recomendações, mirar nas porções superiores do corpo.
----------

Referências
Britten S, & Palmer SH (1996). Chest wall thickness may limit adequate drainage of tension pneumothorax by needle thoracocentesis. Journal of accident & emergency medicine, 13 (6), 426-7 PMID: 8947807

Givens ML, Ayotte K, & Manifold C (2004). Needle thoracostomy: implications of computed tomography chest wall thickness. Academic emergency medicine : official journal of the Society for Academic Emergency Medicine, 11 (2), 211-3 PMID: 14759970

Gross M, Regev E, Hamdan K, & Eliashar R (2005). Penetrating rubber bullet into the ethmoid sinus: should the bullet be removed? Otolaryngology--head and neck surgery : official journal of American Academy of Otolaryngology-Head and Neck Surgery, 133 (5), 814-6 PMID: 16274819

Lancerotto L, Stecco C, Macchi V, Porzionato A, Stecco A, & De Caro R (2011). Layers of the abdominal wall: anatomical investigation of subcutaneous tissue and superficial fascia. Surgical and radiologic anatomy : SRA, 33 (10), 835-42 PMID: 21212951

Lavy T, & Asleh SA (2003). Ocular rubber bullet injuries. Eye (London, England), 17 (7), 821-4 PMID: 14528243

Mahajna A, Aboud N, Harbaji I, Agbaria A, Lankovsky Z, Michaelson M, Fisher D, & Krausz MM (2002). Blunt and penetrating injuries caused by rubber bullets during the Israeli-Arab conflict in October, 2000: a retrospective study. Lancet, 359 (9320), 1795-800 PMID: 12044373

Millar R, Rutherford WH, Johnson S, & Malhotra VJ (1975). Injuries caused by rubber bullets: a report on 90 patients. The British journal of surgery, 62 (6), 480-6 PMID: 1148650

Phillips, V.M., & Smuts, N.A. (1996). Facial reconstruction: utilization of computerized tomography to measure facial tissue thickness in a mixed racial population Forensic Science International, 83, 51-59 DOI: 10.1016/0379-0738(96)02010-5

Rezende-Neto J, Silva FD, Porto LB, Teixeira LC, Tien H, & Rizoli SB (2009). Penetrating injury to the chest by an attenuated energy projectile: a case report and literature review of thoracic injuries caused by "less-lethal" munitions. World journal of emergency surgery : WJES, 4 PMID: 19555511

Ross MD, Lee KA, & Castle WM (1976). Skull thickness of Black and White races. South African medical journal = Suid-Afrikaanse tydskrif vir geneeskunde, 50 (16), 635-8 PMID: 1224277

Whittaker JL, Warner MB, & Stokes M (2013). Comparison of the sonographic features of the abdominal wall muscles and connective tissues in individuals with and without lumbopelvic pain. The Journal of orthopaedic and sports physical therapy, 43 (1), 11-9 PMID: 23160368


*Upideite(09/jul/2013): corrigido a esta data.

terça-feira, 30 de março de 2010

Penny no LHC

Manchetes de hoje, 30/mar/2010, sobre o reinício - finalmente - das atividades no LHC.

Estadão Superacelerador de partículas colide prótons e recria o 'Big Bang'
Folha Online Colisão de partículas simulando Big Bang chega a recorde
R7 Maior máquina do mundo consegue "imitar" origem do Universo
G1 LHC promove as primeiras colisões de partículas 'de laboratório' da história
NYTimes Large Hadron Collider Finally Smashing Properly

Estadão, Folha, R7: não tem quase nada a ver com Big Bang. Embora a energia envolvida seja recorde: 7 TeV* - é muito menor do que a energia que deveria haver, por exemplo, na era da grande unificação (GUT), com partículas de 1011 TeV. Na era de Planck, a energia deveria ser de 1016 TeV. A energia utilizada neste reinício de atividade - depois de uma série de problemas, incluindo migalhas de pão - é o suficiente para estudar partículas da época da separação entre a energia eletromagnética e a energia fraca - a transição de fase eletrofraca - da ordem de 1 TeV. Mas operações anteriores do próprio LHC já haviam atingido essa faixa.

A energia máxima para a qual o LHC foi projetado é de 7,5 14 TeV*. Então jamais a máquina irá desvendar o Big Bang. O principal objetivo do projeto é verificar a existência de bósons de Higgs e sua energia (massa). A massa dos bósons de Higgs tem implicações para a extensão da validade do Modelo Padrão a altas energias - na época em que o Universo se encontrava em um estado de plasma de quark-glúon.

G1: não são as primeiras colisões da história. Podemos considerar, p.e., os choques de partículas alfa contra folhas de ouro promovidas por Rutherford e seus alunos em 1909!

Pode cravar: o título do NYTimes é o mais fiel ao real valor do feito de hoje. (Eventualmente com os dados produzidos hoje pode ser que se encontre algo interessante - talvez os próprios bósons de Higgs - mas vai demorar um tempo até analisarem os resultados.)

Para acompanhar o desenvolvimento dos trabalhos no LHC, o melhor é acessar a página especial do próprio Cern.

Upideite(30/mar/2010): @renanpicoreti corrige: "as colisões de hoje foram com 7 TeV no centro de massa. 3,5 TeV por partícula. A energia máxima é de 14 TeV no CM, 7 por partícula."
Upideite(31/mar/2010): O mesmo Picoreti lista os erros em uma matéria de 30 segundos do JN em seu N-Dimensional.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails