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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Os efeitos das quarentenas na pademia de covid-19

Embora experimentos que coloquem em risco vidas humanas normalmente sejam barrados (com toda razão) em um comitê de ética, experimentos naturais ou quase naturais ocorrem em por diversos motivos, entre os quais a visão ideológica de governantes.

Governadores de sete estados americanos decidiram não emitir ordem de ficar em casa aos seus cidadãos (não por coincidência, todos republicanos). Isso permite a comparação do efeito de medidas restritivas a aglomerações e deslocamentos na evolução epidemiológica da covid-19. Mesmo nos estados em que a ordem de ficar em casa não foi dada, outras medidas foram tomadas como fechamento temporário de escolas e de comércio não essencial. A Fig. 1 inclui dois estados sem a ordem de ficar em casa (Arkansas e Oklahoma) e dois estados (Louisiana e Texas) com a ordem emitida em algum momento da região sudoeste central dos EUA; a Fig. 2 inclui quatro estados sem a ordem de ficar em casa (Iowa, Nebraska, Dakota do Norte e Dakota do Sul) e três em que a ordem foi emitida em algum momento (Kansas, Minnesota e Missouri).

Figura 1. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região sudoeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Figura 2. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região noroeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Nos sete estados sem a emissão de ordem de ficar em casa há algum achatamento da curva com a diminuição do ritmo de crescimento do número de casos e de mortos. Há efetividade das medidas restritivas adotadas. Mas, nos estados das mesmas regiões em que a ordem de ficar em casa foi emitida em algum momento, há uma tendência de haver um maior achatamento da curva.

Isso está de acordo com achados relatados em artigos científicos publicados mostrando o efeito do lockdown (confinamento) na região chinesa de Wuhan e também na Itália e na Espanha. Uma revisão de estudos de modelagem e de análise de dados observacionais feita pela Colaboração Cochrane por Nussbaumer-Streit e colaboradores (2020) concluiu que, embora com nível de certeza baixo, sim, medidas quarentenárias de restrição de movimentação e aglomeração (especialmente em combinação com outras medidas - como fechamento de escolas e de comércio) são efetivos na redução das taxas de transmissão.

Os efeitos econômicos são mais incertos, mas um estudo ainda não formalmente publicado de um grupo do MIT analisando os efeitos das medidas de combate à pandemia por restrição de movimentação e ajuntamento concluiu que as cidades americanas que adotaram as medidas com mais severidade tiveram menos pessoas afetadas pela pandemia da gripe espanhola de 1918 e se recuperaram economicamente mais cedo.

Upideite(29.mai.2020): Dados de casos e mortos nos EUA, daqui. Datas de início de medidas de restrição daqui. Data de reabertura daqui.

sexta-feira, 27 de março de 2020

A pandemia de COVID-19 *NÃO* é uma gripezinha

Embora alguns insistam no erro de chamar a doença provocada pelo novo coronavírus (com o complicado nome de SARS-CoV-2 - 'Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2', isto é, uma segunda linhagem de coronavírus que causa uma doença parecida com a SARS) de "gripezinha", outros, como o caso da neurocientista e divulgadora científica Suzana Herculano-Houzel revêem a posição.

Por que o mais provável é que a COVID-19 ('Coronavirus Disease 2019' - doença do coronavírus de 2019) seja mais letal e se espalhe mais do que, por exemplo, a famigerada gripe espanhola - uma das pandemias mais graves enfrentadas recentemente pela humanidade com uma linhagem especialmente letal de vírus da gripe.

Uma pessoa infectada com a cepa do vírus da gripe espanhola, em média, acabava infectando outras 1,7-2,0 pessoas (o nome técnico para isso é 'número básico de reprodução' e é simbolizado por R0). Já alguém infectado pelo SARS-CoV-2, na média, passa o vírus para outras 2,24 a 3,58 pessoas.

Além disso, a cada mil pessoas infectadas pelo vírus da gripe espanhola, algo entre 5 e 24 pessoas morriam, isto é, tinham uma CFR ('case fatality rate', taxa de casos fatais) entre 0,05 e 2,4%. Já para a COVID-19, a CFR é algo entre 0,15 e 5,25%.

Outras doenças atuais que enfrentamos tem um potencial maior de se espalhar e é mais letal. Caso da febre amarela: R0 entre 1,5 e 5 e CFR de até uns 7%. Mas há uma vacina eficaz contra a doença, coisa que ainda não temos contra a COVID-19. A febre do vírus zika não tem vacina e também tem um poder maior de disseminação:  R0 entre 1 e 7, mas a letalidade em adultos é virtualmente zero - e há formas de enfrentamento que não necessitam o isolamento de doentes e suspeitos: combatendo o vetor: no caso da COVID-19, ela pode passar de pessoa para pessoa através de gotículas de saliva no ar. A dengue, embora tenha vacinas contra os tipos circulantes no país, a aplicação desta ainda está em fase de testes (há a complicação porque a forma hemorrágica pode se desenvolver em pessoas que têm a dengue mais de uma vez), mas também pode ser combatida com a evitação do vetor, o mesmo mosquito que transmite a zika.

Sendo uma doença nova e, assim, contra a qual ainda não há vacinas nem medicamentos curativos (o tratamento é sintomático e paliativo), nem uma imunidade natural na maioria da população, com um nível de letalidade razoável e também de potencial de espalhamento, é um perigo subestimá-la - especialmente no caso de autoridades que precisam traçar e implementar estratégias eficientes em seu combate. Não se trata de negligenciar outras doenças também graves e potencialmente danosas, mas é preciso enfrentar também a COVID-19, pelo potencial grande de dano.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pode haver bem mais do que 5 mil ou 7 mil mortos se a economia não "parar" e nada for feito

Parece equivocado o argumento de uma importante figura empresarial brasileira contra as medidas de restrição de deslocamentos da população no enfrentamento da pandemia de COVID-19 (como adotadas em vários países). Na verdade, se não houver nenhuma restrição, o total de mortos pode chegar ou ultrapassar facilmente a cada do milhão de mortos.

A fração atual de mortos no Brasil é de cerca de 2% do total de casos confirmados (47 mortes em 2.201 em 23.mar) de infecção pelo SARS-CoV-2 (o novo coronavírus). Se apenas 50% dos brasileiros se infectarem com o vírus - o que daria cerca de 100 milhões de pessoas -, seriam 2 milhões de mortos. A China conseguiu conter os casos no nível de algumas dezenas de milhares justamente pelas medidas de restrição - com quarentenas, testes e monitoramentos. O nível de 5 mil a 7 mil mortos totais mencionados pelo empresário como sendo poucos diante do que a economia nacional pode sofrer com as medidas são os projetados exatamente se tais restrições foram adotadas: a comparação com eventuais perdas econômicas das quarentenas e toques de recolher seria com o cenário em que eles *não* fossem adotados. Além das mortes, há que se contabilizar também os casos graves - que necessitam de interação e tratamentos intensivos.

Adotando-se o padrão de casos graves e mortes por idade observado nos Estados Unidos (Fig. 1) e a distribuição etária da população brasileira em 2010, com nível de infecção de 50% da população, é de se esperar 7,8 milhões de internações na UTI em função da COVID-19 no país e 1,6 milhão de mortes.

Figura 1.  Variação dos quadros de gravidade de COVID-19 em pacientes de acordo com a idade. Fonte: CDC/EUA, Tian et al. 2020/China (Beijing)


É a partir desses números que se faz a análise de benefício/custo. 7 mil mortes somem diante de 1,6 milhão.

Na Fig. 2, podemos acompanhar a variação do número de casos em diversos países.

 
Figura 2. Variação do total de casos confirmados em diversos países. Eixo vertical em escala logarítmica.

A China implementou o lockdown, restrição severa de deslocamento e fechamento de vários estabelecimentos considerados não-essenciais (basicamente o que não estava envolvido com alimentação, saúde, limpeza e segurança), em 23 de janeiro (quando contava então com 18 mortos e 600 casos no país) na região de Hubei, um dos locais mais fortemente atingidos no pais. Desde, então, na província, o número de novos casos têm diminuído - há cerca de 30 dias, os casos confirmados estão em cerca de 80.000 pessoas. Na Itália, a quarentena só foi imposta (nacionalmente) a partir de 9 de março (quando contabilizavam 9.172 casos na Velha Bota): localmente, em algumas províncias e cidades, governos locais haviam imposto quarentena a partir de 23 de fevereiro (quando contava com 157 casos conformados em todo o país): a curva parece estar diminuindo o ritmo de crescimento desde então. A França, que anunciou o lockdown no dia 16 de março (com 5.360 casos confirmados), também parece começar a apresentar um ritmo menor de aumento do número de casos.

A restrição não é a única alternativa, porém as outras opções também demandam bastante esforço e trazem consequências a valores bastante caros a sociedades democráticas. Por exemplo, na Coreia do Sul, são testados todos os casos suspeitos e todas as pessoas que tiveram contatos são monitoradas (colocando em quarentena todos os casos confirmados e os suspeitos ainda não testados). O país tem realizado cerca de 20 mil testes por dia, numa escala linear seria o equivalente ao Brasil realizar 80 mil testes diários. E a testagem é uma estratégia que só deve funcionar se instalada desde o início, quando a pandemia já estiver localmente espalhada dificilmente será possível monitorar todos os casos. Outra estratégia (considerada bastante invasiva da privacidade), também adotada pela China, é uma ampla e intensa vigilância sanitária em todos os pontos públicos: com aparelhos para medições de temperatura corporal em tempo real (para detectar potenciais casos de febre) e câmeras de vigilância com reconhecimento facial.

Veja também:
Atila Iamarino. 20.mar. O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias.
Atila Iamarino. 22.mar. Por que é importante ficar em casa.
Dalson Britto Figueiredo Filho & Antônio Fernandes/Revista Questão de Ciência. 24.mar. Três cenários para o coronavírus no Brasil.

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