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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Sensacionalismo no laboratório

Na Folha:
"DNA" artificial dá pistas sobre surgimento da vida

A Wired foi ainda menos contida:
Scientists Create a Form of Pre-Life

O que *realmente* foi feito? Yasuyuki Ura e colaboradores conseguiram sintetizar em laboratório uma sequência de uma molécula conhecida como tPNA (ácido de tioéster peptidonucléico): os ácidos nucléicos comuns possuem um esqueleto de açúcar (ribose no caso do RNA e desoxirribose no caso do DNA), os PNA possuem uma molécula derivada da glicina (um aminoácido). Tem uma cara parecida com a figura abaixo:



Mas tem um átomo de enxofre no meio da cadeia, ligado a dois átomos de carbono - que dá o nome de tioéster. A hipótese de que seja um precursor do ARN no processo que deu origem aos seres vivos não é nova como se dá a entender na leitura das reportagens - fica a parecer que a novidade é a descoberta desse tipo de molécula. A novidade mesmo foi que observaram que a polimerização espontânea criava uma molécula curta correspondente à cadeia molde - com a complementação equivalente do pareamento Watson-Crick (A com U, C com G). Já se sabia há muito - mais de 10 anos - que os PNAs hibridizavam seletivamente com ADN e ARN, então o resultado obtido não é exatamente uma surpresa.

Agora, disso vai um *longo* passo para "dar pistas sobre a origem da vida". Embora os PNAs tenham propriedades interessantes em relação ao ARN, ainda não se conhece nenhuma via de síntese prebiótica de seus precursores - enquanto que os precursores de ARN podem ser sintetizados em diversas condições prebióticas. O PNA são totalmente artificiais em mais de um sentido, além desse - de não se conhecer vias espontâneas de formação de seus precursores -, simplesmente não é encontrado em nenhum organismo vivo.

E chute de balde total é o título da Wired, a distância para "pré-vida" é astronômica.

Não que o estudo seja de se jogar fora - se fosse não seria publicado em uma revista como a Science -, mas há *muita* coisa a ser feita para dar mais alento aos tPNAs como candidatos a precursores dos ARNs: seria preciso mostrar a viabilidade da síntese de cadeias mais longas de tPNA, que tais cadeias poderiam ter atividade catalítica e, mais, autocatalítica. São propriedadades bem conhecidas dos ARNs.

De resto, reproduzo as palavras de Leslie Orgel, um dos autores (póstumo) do estudo, em artigo de mais de dez anos atrás:

"Peptide nucleic acid (PNA) is another nucleic acid analog that has been studied extensively. It was synthesized by Nielsen and colleagues during work on antisense RNA. PNA is an uncharged, achiral analog of RNA or DNA; the ribose-phosphate backbone of the nucleic acid is replaced by a backbone held together by amide bonds. PNA forms very stable double helices with complementary RNA or DNA. We have shown that information can be transferred from PNA to RNA, and vice versa, in template-directed reactions and that PNA–DNA chimeras form readily on either DNA or PNA templates. Thus, a transition from a PNA world to an RNA world is possible. Nonetheless, I think it unlikely that PNA was ever important on the early earth, because PNA monomers cyclize when they are activated; this would make oligomer formation very difficult under prebiotic conditions."
http://dx.doi.org/10.1016/S0968-0004(98)01300-0

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