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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Mala influenza - 10

A OMS desistiu de acompanhar todos os casos em cada país individualmente (praticamente todos os países membros tinham casos registrados). Publica agora apenas os números gerais por região.

No mundo, em 27 de julho, totalizavam-se 134.503 casos confirmados, com 816 mortes. Isso eleva o índice de mortalidade para 6,07 mortes por 10 mil casos (0,6%).

A imprensa parece ainda trabalhar com o índice de mortalidade de 0,45% - que valia até o começo do mês. Ainda divulgam que essa taxa é próxima à da gripe comum. Mas pela literatura, a taxa de mortalidade da gripe comum fica na casa do 0,1%.

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"The number of deaths is proportional to the number of people infected, usually about 0·1%, and influenza has been described as an invariable disease caused by a variable virus."
http://www3.interscience.wiley.com/cgi-bin/fulltext/120718156/HTMLSTART?CRETRY=1&SRETRY=0

"Estimated average seasonal influenza-associated excess mortality amounted to 16.0 (range: 2.9 to 40.6) excess deaths per 100,000 population. The conservative estimate was 7.8 (range: 0 to 26.1) deaths per 100,000 population (table 1)."
http://www.ete-online.com/content/2/1/6

"Seasonal influenza is a major cause of vaccine‐preventable disease mortality, causing an estimated 250,000–500,000 deaths annually worldwide and 30,000–50,000 deaths in the United States [1]. In a typical year in the United States, there are an estimated 25–50 million cases of influenza [...]"
http://www.journals.uchicago.edu/doi/full/10.1086/507544
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No Brasil, são, hoje, 45 mortes confirmadas, em 1.566 casos confirmados: 2,87% ou 287 mortes a cada 10 mil casos.

Seria leviano se eu dissesse que foi por isso que o MS adotou uma nova fórmula de cálculo. Distinguindo letalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de casos *graves*, da mortalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de *habitantes*. Tem, aparentemente, anuência da OMS, mas isso tem um potencial de gerar uma distorção mais séria.

No primeiro caso, é intuitivo que pacientes que apresentam um quadro mais grave tenham mais chances de acabar falecendo. Se uma doença A tem uma letalidade como acima definida de, digamos 20%, e uma doença B, apresenta uma mesma letalidade, serão as duas doenças de igual gravidade? Bem, e se, para a doença A, 70% dos pacientes desenvolvem um quadro grave, enquanto que para a doença B, apenas 10% dos pacientes têm um quadro grave?

No momento, segundo dados do MS, 14,2% dos pacientes diagnosticados com a gripe A(H1N1) desenvolveram um quadro considerado moderado a grave (com sintomas além da febre e da tosse), e 17% dos pacientes diagnosticados com a gripe sazonal evoluíram para o mesmo quadro. No entanto, esses números são dinâmicos - dependendo de uma série de fatores, incluindo o quanto a rede médico-hospitalar está preparada para receber os pacientes, qual será a dinâmica do espalhamento da doença, se o clima será mais severo ou menos rigoroso, se haverá grandes engarrafamentos ou não...

No caso, da mortalidade, de um lado, o número de habitantes no país pode acabar achatando demais os números. 0,015 óbitos por 100 mil habitantes pode não parecer muito. Uma doença com 1 morte por 100 mil habitantes pode parecer mais assustadora. Mas isso pode não se refletir na letalidade da doença - e que tem a restrição acima mencionada.

Verdade que nenhum número por si só dará o quadro completo, mesmo uma coleção de números pode ser enganosa. Mas quando o sistema de cálculo muda, quando as regras do jogo mudam no meio do caminho, isso pode causar confusão de um lado e desconfiança de outro.

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