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domingo, 1 de abril de 2012

É mentira, Terta? - Sexo, mentiras e videotape

ResearchBlogging.orgVárias espécies de plantas dependem dos insetos em sua reprodução através da polinização. É muito comum que haja atração dos polinizadores por meio de recompensa como o néctar. Mas, em diversas floríferas, os polinizadores são atraídos de um modo mais sensual e ardiloso - as flores têm um aspecto (na forma e no cheiro) similar a de fêmeas de vespas e abelhas, induzindo os machos a realizarem suas acrobacias sexuais que redundam na adesão de polens a seu corpo (liberados mais tarde quando o incauto don juan hexápodo for novamente enganado por outra planta). Esse processo recebe uma variedade de denominações como polinização por logro (deceit pollination ou pollination by deceit ou deceptive pollination - que envolve não apenas logro sexual - sexual deceit -, mas também alimentar - food deception - em que a planta exibe falsos sinais ligadasos à alimentação do polinizador) ou pseudocópula (embora o termo seja usado em outras situações - como os rituais de cópulas entre indivíduos de lagartos partenocárpicospartenogenéticos).

A quase totalidade dos casos conhecidos de logro sexual ocorre em espécies de orquídeas (espalhados por cerca de 400 espécies - Cozzolino & Widmer 2005- em 18 gêneros - Jersáková et al. 2006) com machos de abelhas e vespas, mas há pelo menos um caso em uma espécie de asterácea, a Gorteria diffusa, com uma mosca bombilídea, a Megapalpus capensis - curiosamente, uma mosca que imita uma abelha (Ellis & Johnson 2010).

Há pelo menos duas hipóteses (não mutuamente excludentes) sobre a vantagem evolutiva (naturalmente para a planta) do sistema de logro: a) liberação de recursos investidos na produção de recompensas para a produção floral e de sementes e b) maior índice de polinização cruzada em decorrência dos polinizadores visitarem um menor número de flores em uma planta que não recompensa, levando a uma prole resultante de fertilização cruzada com maior frequência e uma maior eficiência no transporte de polens (Jersáková et al. 2006). Os polinizadores, por outro lado, não parecem ter nenhuma vantagem e podem mesmo ter um custo alto - há casos em que o polinizador ejacula na flor, desperdiçando recurso e energia (Gaskett et al. 2008).

Em orquídeas, várias linhagens evoluíram independentemente a síndrome da polinização por logro sexual. provavelmente a partir de uma condição de logro alimentar (Cozzolino & Widmer 2005).

Scopece e cols (2010) compararam a eficiência de polinização (PE) entre espécies de orquídeas com diferentes estratégias: com recompensa em néctar ao polinizador, com logro alimentar e com logro sexual. A eficiência de polinização foi medida pela relação entre o número de flores com presença de polens (ou massa de polens) no estigma e o de flores de que as polínias foram removidas. A PE das logradoras sexuais foi menor, mas comparável à das recompensadoras; enquanto a PE das logradoras alimentares foi bem menor que ambas. (Os dados foram corrigidos para a comparação a fim de se eliminar o efeito da proximidade ou distância genética entre as espécies - parte dos valores de PE poderia se dever simplesmente a uma partilha de uma história evolutiva em comum relativamente recente em vez de a uma partilha de mecanismos similares de reprodução.) Os autores sugerem que essa diferença de PE entre as logradoras alimentares e as logradoras sexuais explique a recorrência de evolução de linhagens logradoras sexuais a partir de logradoras alimentares. Pode explicar também a evolução de linhagens recompensadoras a partir de logradoras alimentares. Mas como explicar a persistência de logradoras alimentares? As plantas recompensadoras encontram um limite nos gastos envolvidos na produção de recompensas como o néctar, além disso, os polinizadores tendem a visitar mais as flores de uma mesma planta e flores de plantas relativamente próximas, aumentando as chances de fertilização entre indivíduos geneticamente próximos; as logradoras sexuais não enfrentam esses problemas, mas apresentam uma taxa geral baixa de polinização (embora a eficiência de polinização seja alta, poucas flores têm seus polens removidos e poucas flores são polinizadas).

Abaixo um vídeo, narrado por Sir David Attenborough, com o logro sexual em ação.


Sabe aquela história de florezinhas e abelhas? Pois é, pelo jeito o tema rende.

Referências
Cozzolino S, & Widmer A (2005). Orchid diversity: an evolutionary consequence of deception? Trends in ecology & evolution, 20 (9), 487-94 PMID: 16701425

Ellis AG, & Johnson SD (2010). Floral mimicry enhances pollen export: the evolution of pollination by sexual deceit outside of the orchidaceae. The American naturalist, 176 (5) PMID: 20843263

Gaskett AC, Winnick CG, & Herberstein ME (2008). Orchid sexual deceit provokes ejaculation. The American naturalist, 171 (6) PMID: 18433329

Jersáková J, Johnson SD, & Kindlmann P (2006). Mechanisms and evolution of deceptive pollination in orchids. Biological reviews of the Cambridge Philosophical Society, 81 (2), 219-35 PMID: 16677433

Scopece, G., Cozzolino, S., Johnson, S., & Schiestl, F. (2010). Pollination Efficiency and the Evolution of Specialized Deceptive Pollination Systems The American Naturalist, 175 (1), 98-105 DOI: 10.1086/648555

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