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sábado, 14 de abril de 2012

Qual é o valor do aluno de pós-graduação stricto sensu?*

*Esta postagem faz parte da blogagem coletiva promovida pelo sítio web posgraduando pela valorização dos alunos de pós-graduação.

Antes de mais nada, uma pequena objeção minha, o pessoal do posgraduando restringiu a discussão à situação dos alunos de pós-graduação stricto sensu sob a justificativa: "Outra confusão comum é a diferenciação entre as pós-graduações stricto sensu e lato sensu. Com a recente transformação do ensino superior em mercadoria ocorreu uma explosão de ofertas de cursos de especialização lato sensu, infelizemente nem sempre oferecidos por instituições sérias ou comprometidas com a qualidade de ensino. Como consequência disto surgiu um sério preconceito contra esses cursos, e este preconceito muitas vezes é estendido à pós-graduação de maneira geral." Aparentemente incorporaram os preconceitos contra os pós-graduandos lato sensu.

Adotarei a restrição, no entanto, não pela aceitação de que o lato sensu é de baixa qualidade, mas sim, em reconhecimento de que as situações são distintas. A pós lato sensu é eminentemente voltada para o mercado e a valorização se dá diretamente na carreira dos que fazem tais cursos: como aumento de salário, melhores oportunidades de emprego, networking, etc. A stricto sensu envolve mais a cultura da pesquisa acadêmica, no Brasil e em vários lugares do mundo, restrito ou a instituições públicas ou cujo funcionamento dependa enormemente de verbas públicas para o financiamento.

No Brasil, certamente a dinâmica que envolve a valorização de títulos de mestrado e doutorado stricto sensu não envolve grande participação de mecanismos tipicamente do mercado de trabalho. As IES privadas estão longe de cumprirem a determinação legal de 70% do corpo docente formado por mestres e doutores - e, sempre que possível e necessário, lançam a mão de reduzir seus quadros de professores titulados para diminuir custos.


Assim, faz pouco sentido valorar a pós-graduação a partir de dados mercadológicos: o quanto mestres e doutores recebem mais e são mais procurados do que os que são apenas graduados. Ademais a empregabilidade de doutores no Brasil é bem menor do que a média do mercado de trabalho: quase 30% não trabalham na área em que se especializaram.

Uma saída é recorrer a dados econométricos sobre o quanto os pós-graduandos contribuem para o PIB com seus trabalhos. Isso incluiria até gastos com a impressão da tese, inscrição em congressos, viagens de coleta, etc. O grande porém é: não existem tais dados (pelo menos acho que não, se alguém souber de algum estudo, por favor, dê-me um toque ali nos comentários). Mal há dados sobre o quanto a pesquisa acadêmica se reverte em ganhos econômicos no Brasil: há dados isolados como no caso da Embrapa e programas da Fapesp de fomento à pesquisa nas indústrias - variando entre 6 e 9 vezes o valor investido inicialmente. Os investimentos em P&D no país ficam em torno de 1,2% do PIB (e deve cair este ano), o setor público responde por cerca de 0,64% (ou 53,3% dos investimentos totais). Assim, em uma estimativa bem grosseira, os ganhos resultantes do investimento em pesquisa acadêmica no país fica em torno de 3,84% a 5,76% do PIB (de mais ou menos R$ 4 trilhões) - ou algo como R$ 160 bilhões.

O número de alunos de doutorado deve estar na ordem de 70.000 e de mestrado, 100.000. Considerando a média das IFES de 1,5 aluno de pós-graduação por docente, são cerca de 110.000 docentes registrados em programas de pós-graduação. Se distribuíssemos 10% dos R$ 160 bi em bolsas e salários, seria uma média de R$ 4.700,00 para cada um. Mantendo-se a distribuição proporcional atual: salário docente médio de R$ 4.200,00, bolsa CNPq de doutorado de R$ 1.800,00 e de mestrado de R$ 1.200,00; teríamos: salário docente médio de R$ 7.700; bolsa doutorado de R$ 3.300 e bolsa mestrado de R$ 2.200 como um pagamento mais justo em relação ao que seus trabalhos revertem em desenvolvimento econômico do país.

Upideite(27/set/2012): Suzana Herculano-Houzel faz seu desabafo - a situação da desvalorização das ciências vai além das bolsas de pós-graduação: "Você quer mesmo ser cientista?"

4 comentários:

Sibele disse...

Mas que boa ideia essa de recorrer a dados econométricos sobre o quanto os pós-graduandos contribuem para o PIB, Roberto!

Verdade que há uma carência de dados consolidados, mas empiricamente supomos que as atividades da pós-graduação movimentam toda uma dinâmica econômica.

Apesar da falta de dados, para o mercado de Eventos, Congressos e Conferências, por exemplo, uma boa pista são os Anuários Estatísticos com séries temporais com dados econométricos do Ministério do Turismo: http://www.dadosefatos.turismo.gov.br/dadosefatos/anuario/

O de 2010 traz em seu relatório sobre Turismo Interno, item 11 - Equipamentos, prestadores de serviços turísticos e profissionais da área de turismo cadastrados no Ministério do Turismo, o subitem
11.8 - Organizadoras de eventos (congressos, convenções e congêneres) cadastradas no Ministério do Turismo, segundo Grandes Regiões e Unidades da Federação - 2009-2010.

De 2009 a 2010 é notável o crescimento quantitativo no cadastro de tais prestadores de serviço no MT. Claro que não há segmentação por tipo de evento, mas os científicos e acadêmicos têm grande peso no setor, com certeza.

O que tal crescimento poderia significar?

none disse...

Sibele,

É complicado analisar esses números por não haver discriminação das naturezas dos eventos. Mesmo considerando-se que eventos científicos sejam representativos, não temos uma ideia clara de que fração representam.

Eventos empresariais e comerciais (salão do automóvel, Fenasoft, bienais do livro, etc.) têm grande participação também - e com o aumento do interesse econômico em relação ao Brasil, é natural que tais eventos cresçam em número e tamanho.

[]s,

Roberto Takata

Gabriel Cunha disse...

Excelente post Takata, muito legal ver essas questões transformadas em estatística. Prá mim, ajuda muito ter dados assim para conversar e tentar melhorar esse tipo de situação, mesmo eu tendo tomado um caminho diferente para discutir o tema no Ciensinando (aliás, obrigado pelo acesso e comentário)!

Abraço

none disse...

Salve, Gabriel,

Eu que agradeço sua passada aqui.

Claro que é apenas, como se diz, um cálculo de engenheiro (espero que o Crea não me processe), mas acho que serve como um indicador de primeiro momento.

Obviamente os cálculos precisariam ser refinados para uma aproximação mais realista.

De todo modo, que tipo de ação seria mais eficaz? Política como a ANPG? Campanhas de internet como esta blogagem coletiva? Conversas com os parentes? Mas, se com educação, que é um consenso (uma unanimidade, bem dizer), é difícil vermos ações transformadores (embora haja algumas mudanças em bom sentido), a questão de C&TI, P&D, pós-graduação, etc. pode ser ainda mais complicada.

[]s,

Roberto Takata

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